No Hopenhaga 1.2

global

O debate em torno da Cimeira do Clima em Copenhaga parece reduzido à teima entre temerosos, abnegados e crentes, quando ao carácter especulativo do aquecimento global.

Com o intuito de levar o dossier do ambiente para bem longe do debate político, tudo serve para centrar a Cimeira nos temas que mais interessam aos líderes mundiais: transformar em negócios particulares o planeta de todos.

Um programa mais honesto da conferência seria dividido em apenas três palestras: como continuar a lucrar sem ter quem nos chateie com esta história da sustentabilidade do planeta, como lucrar ainda mais com esta história da sustentabilidade do planeta e como chegar a acordo geral que ninguém vai cumprir (como não se cumpriu Quioto) só para parecer que se está a fazer alguma coisa.

Apesar disso, apenas dois temas parecem estar a motivar o debate público. A polémica sobre se o aquecimento global é uma paranóia de cientistas loucos e activistas mal intencionados apenas movidos pelo ódio ao sistema produtivo, e o debate em torno dos factores de adormecimento do movimento social ao longo de 10 anos de protestos contra as organizações internacionais mais poderosas.

No seu artigo de opinião, no Público e no seu blog, Rui Tavares dá mostras que os bons ares do Parlamento Europeu o estão a imbuir de um optimismo radiante, sentimento que não hesita em partilhar com os seus leitores. Depois de uma ou duas vénias ao relativismo científico, obrigatório entre pós-modernos e cada vez mais dominante no partido que o elegeu para o PE, Rui Tavares passa ao ataque aos cépticos perfumando a sua escrita com um entusiasmo que roça o balofo. Como me incluo entre os chatos que o autor identifica, não podia ficar calado, sem um queixume para devolver.

Vejam a clareza de espírito que Bruxelas transmite aos seus caloiros: “O que os cientistas, ambientalistas e políticos minimamente sérios têm para nos oferecer é muito: uma hipótese de salvar o planeta e, de caminho, construirmos uma industria menos poluente, uma economia ambientalmente relançada e uma nova relação entre ciência e escolhas públicas. E que tem para nos oferecer os cépticos? Propriamente nada. Dizem apenas: confiem em nós. Não se passa nada. Continuem a poluir como até agora (…) O espírito de Copenhaga, para quem não tem conhecimento perfeito, só pode ser este: mesmo que se alimente a secreta esperança de os cientistas estarem errados, dar tudo por tudo para salvar o planeta como se eles estiverem – e provavelmente estão – certos.”

Esqueceu de escrever na sua crónica que os cépticos também estão lá a dizer que não querem o planeta tratado como negócio e que de espíritos estão as pessoas fartas. Fazia melhor poupar os cépticos ao arco-íris do seu neo-fascínio bazofio pelas instituições.

Boaventura Sousa Santos vem esclarecer numa reportagem do Público, o seu ponto de vista sobre o curso do movimento antiglobalização desde Seattle. Defende que o Fórum Social Mundial não está a perder força, pelo que justifica o seu desaparecimento da cena política com o seu crescimento: “No início, o FSM [Fórum Social Mundial] foi uma novidade total e por isso atraiu a atenção dos grandes media. Depois, o interesse mediático desvaneceu-se e em boa parte por isso foi-se criando a ideia de que o FSM estava a perder ritmo e capacidade de atracção. Em verdade, o FSM diversificou-se muito ao longo da década com a organização de fóruns regionais, temáticos e locais”. Aplicado ao futebol o raciocínio de Boaventura fica bem mais claro. Seria algo do género: não estamos a perder o jogo estamos é a crescer como equipa. O Paulo Bento aguentou quatro anos com esse paleio, Boaventura quer que o FSM dure dez.

Miguel Portas alinha pelo mesmo diapasão mas com igual falta de clareza: “A crise de crescimento começou (…) no exacto momento em que o movimento adquire mais força – é capaz de pôr 20 ou 30 milhões de pessoas na rua no mesmo dia [por causa do Iraque] – e em que se percebe, ao mesmo tempo, que, tendo-se tornado num sujeito social incontornável, não tinha ainda a força ou condições para que as opiniões públicas conseguissem impedir uma invasão”. Simplificando o raciocínio do Miguel Portas daria algo do género: estou mais pequeno porque estou maior, ou ainda, estou mais fraco porque estou mais forte. Arrebatador e no mínimo uma tese convincente quando justificamos as dores de joelhos como dores de crescimento a uma criança de cinco anos, não ao movimento social.

Ângelo Alves parece-me mais próximo da realidade dos factos: “Houve uma vontade de contestação. E, ao desenvolver-se essa contestação, a discussão política surge, não só sobre a caracterização e diagnóstico da situação, mas sobre os caminhos a seguir. Quando esse debate ideológico se começou a aprofundar, começaram a surgir caminhos diferentes”, faltando assumir o tom sectário que o PCP imprimiu nas sessões do Fórum Social Português, bem como o total desprezo pelas mobilizações internacionais onde nunca deslocou mais do que representações simbólicas para delegar solidariedade, demarcar-se do esquerdismo e assegurar os cinco minutos de antena nas notícias que cobriram Seattle, Génova, Barcelona e Sevilha. Bem… nesta última data a engenharia mediática deu mais uns pontos ao BE com um arrufo programado na fronteira espanhola.

Nenhuma das tentativas destes senhores esconde uma dura realidade: foi a esquerda institucional que a partir da criação do Fórum Social Mundial, pretendeu dirigir e consequentemente domesticar, um movimento que nasceu em Seattle e cresceu em Génova, fora da sua albarda. Passou a ser o polícia de proximidade que levou o movimento das ruas e da desobediência para as assembleias de poder com o mesmo alinhamento e responsabilidade de sempre.

“Outro mundo foi possível” para a direcção do FSM mas tudo continuou na mesma fora das portas das diferentes instituições internacionais.

Pedro Rolo Duarte, na sua Janela Indiscreta, faz um roteiro às opiniões sobre o tema que parece ter assaltado a blogosfera, e define os grupos no quem é quem de Copenhaga. No que me diz respeito, agradeço o tom elogioso, mas devo esclarecer que a frase “não há capitalismo verde e não sobrará verde ao capitalismo” mais do que introduzir poética num tema com tanto obscurantismo, é do foro dramático, e procura chamar atenção para o facto de que não restará muito mais tempo para debates se persistirem os dogmas e os paradigmas dominantes.

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13 Responses to No Hopenhaga 1.2

  1. João André says:

    Caro Renato, qual o objectivo deste post que mistura dois assuntos diferentes? Pode ser dificuldade minha em compreender, mas podes ser mais claro?

  2. Renato Teixeira says:

    João André, como pode ler no início do post: “Apesar disso, apenas dois temas parecem estar a motivar o debate público”, justifico o porquê de, como outros na praça das opiniões, ter saltado de Copenhaga para as razões da inércia do Fórum Social Mundial. Ainda que com dificuldades, considero possível falar de duas coisas ao mesmo tempo, em particular porque para lá da discussão técnica sobre o clima, Copenhaga está novamente a criar alguma efervescência no movimento social. O artigo do público misturou os dois assuntos e eu tomei a liberdade de fazer o mesmo. Deverá reconhecer que no actual contexto não é o mesmo que falar de alhos e bugalhos.

  3. E alguém alguma vez teve esperanças nesta cimeira? Esta sim, uma verdadeira “palhaçada” que nem sei para que foi feita se o resultado seria sempre um banho-maria.

  4. Alberto Pereira says:

    Renato, a discussão sobre o “carácter especulativo do aquecimento global” é, neste momento, muito mais importante que a tecla da mercadorização de Tudo – não há volta a dar, tudo é passível de se transformar numa bolha e esse problema vai-se resolvendo pelo seu rebentamento sucessivo que está, invariavelmente, a cair na rua. Naquele caso, é precisamente a possibilidade extraordinária que se coloca de ser possível abalar os alicerces da tecnocracia e da pseudo-validação científica da política que deve ser explorada. De uma penada pode ficar a descoberto que os problemas da Humanidade podem ser resolvidos politicamente (daí, por todos) e sem o subterfúgio dos resultados das legiões de especialistas engajadas para o efeito. Se com esta discussão for possível lascar o pedestal do consenso de uma certa comunidade científica tanto melhor, pois os alicerces da ciência foram construídos sobre divergências, dúvidas e discussão e é absolutamente necessário constar dos discursos públicos que os exercícios preditivos não são inabaláveis nem podem ser reduzidos a fé.

  5. Djugashvili says:

    Antes era o ‘Aquecimento Global’,agora são as ‘Alterações Climatéricas’…. e,digo eu,o arranjinho das Estatisticas a bem da bolha especulativa e balão de ‘oxigénio’ aos vigaristas do costume(Banksters) com a ajuda dos ‘altermundistas’.Por exemplo,do SO4 e consequências deste nas chuvas ácidas nem pio…idem para a miserável taxa Tobin.As ‘elites’ ,cognome dos monstros que nos roubam e escravizam,nem um tusto.Ora,não há meio termo muito menos 1%,o que foi um aperitivo para as massas ignaras-uma vez que houve dinheiro a rodos para os Bancos.A ATTAC, já deu o peido mestre e quem viu a entrevista de Ignacio Ramonet ao antigo dealer de armas do racista do Jonas Savimbi,gajo mui respeitado nos circulos do Kissinger prémio Nobel duma tanga qualquer,e nunca mas,nunca investigado pelos jornaleiros de referência e opositores de peito aberto ao paradigma de José Saramago ao sanear bufos do fascismo do DN ,que não opsitores ao saneamento de gente de esquerda dos media.

  6. João André says:

    Renato, primeiro trata-me por tu. Já me conheces, mesmo que não estejas a ver quem sou (vai lá ver abaixo o comentário ao teu post sobre a praxe). Quanto ao post, nada contra misturar os dois assuntos, apenas não tinha compreendido a ideia. Ainda assim parece-me que se mistura alhos com bugalhos, pela simples razão de a questão das alterações climáticas (ou aquecimento global, são uma e a mesma coisa, em termos práticos) ser um negócio apenas de forma muitíssimo recente e continuar a ser atacado pelos maiores interesses instalados (petróleo, evidentemente).

    Bom, apontem o dedo à vontade a quem quer ganhar dinheiro com a poluição ou o combate à mesma, mas não venham cá dizer que as conclusões científicas têm sido criadas por encomenda das empresas. Os cientistas começaram há já muito a apontar para o problema das emissões de gases com efeito de estufa, muito antes de Al Gore ter sequer sabido que existia uma coisa chamada CO2.

    Por outro lado, quem não compreende a diferença entre “Aquecimento Global” e “Alterações Climáticas” e a forma como estão intimamente ligadas não deveria estar a mandar bitaites sobre especulações ou vigaristas.

  7. Pável Rodrigues says:

    Crónica com dor
    Na sua crónica sem dor, Rui Tavares apresenta a primeira análise cândida da política do aquecimento global que me foi dado ler, em Portugal.
    Ler mais aqui: http://portugalcontemporaneo.blogspot.com/2009/12/cronica-com-dor.html

  8. Renato Teixeira says:

    Blondewithaphd, o problema é precisamente esse. Muita gente teve esperança nesta cimeira e em várias outras anteriores que a antecederam. Em dez anos foi-se paulatinamente saindo das ruas fruto da esperança que se foi difundido nas instituições e cimeiras afins.
    Alberto Pereira, quando diz que “Naquele caso, é precisamente a possibilidade extraordinária que se coloca de ser possível abalar os alicerces da tecnocracia e da pseudo-validação científica da política que deve ser explorada” está a referir-se à cimeira de Copenhaga?. Se assim for acha verdadeiramente que “com esta discussão” é “possível lascar o pedestal do consenso de uma certa comunidade científica”?
    Djugashvili, não podia estar mais de acordo com o que diz. A propósito do dinheiro que foi injectado na Banca acrescento uma sugestão: Capitalism: A Love Story, um filme documental do Michael Moore onde se demonstra que os bancos não estão obrigados a dizer para onde foi o capital. Perturbador.
    João André, pode tratar-me como quiser mas eu optei por tratar toda a gente, no blog, na terceira pessoa. Não vou confirmar a em cada comentário se conheço este ou aquele, e por isso tomei este critério. Além do mais podemos estar sempre a falar com alguém que diz ser quem não é. Ainda assim não tenha qualquer problema em tratar-me na primeira. Gostava que me dissesse porque concluiu que eu não compreendo “a diferença entre “Aquecimento Global” e “Alterações Climáticas” e a forma como estão intimamente ligadas”. Devo avisa-lo que ainda que me demonstre que eu não sei a diferença entre ambos vou continuar a mandar os bitaites que entender. De resto, o mesmo vale para si. Sou um fervoroso adepto da liberalização do bitaite. Lamento.
    Pável Rodrigues… Não encontraria melhor adjectivo para os mais recentes textos do Rui Tavares… Anda verdadeiramente cândido.

  9. Alberto Pereira says:

    Renato, não, não me refiro à cimeira. Copenhaga resume-se a mais uma tentativa de limpar a face e sair do buraco em que se enfiaram depois do caos económico desregulado, sob a suposta blindagem do ambiente – que é um excelente, e novo, campo de negócios. Por isso, não interessa para nada. Refiro-me à discussão recente e à crescente visibilidade dos discursos científicos que levantam dúvidas sobre o consenso do aquecimento global (de notar que estou-me nas tintas para se está, ou não, a aquecer). Discussão que nasceu do pequeno escândalo “climategate” (provavelmente potenciado pela cimeira e daí a sua importância) e tem permitido, esta sim, levantar dúvidas sobre a invencibilidade do consenso científico como justificação para políticas. De resto, discursos panfletários e falaciosos (é menos cândido do que parece) como o do Rui Tavares são recorrentes em muitas pessoas auto-denominadas “responsáveis” e só servem a agenda dos que representam e as suas pequenas vitórias.

  10. João André says:

    Caro Renato, não confirmes se não te apetecer, apenas te quis dizer que já nos conhecemos no passado. Se não quiseres confirmar nada, pelo menos aceita que prefiro o tratamento por tu.

    Quanto à diferença entre “Aquecimento Global” e “Alterações Climáticas”, o comentário não era para ti, mas para o Djugashvili. Seja como for, apesar do que possas pensar (tens um pouco o hábito de pensar que te querem calar, se bem me lembro) não estou a mandar ninguém calar-se. Estou apenas a dizer que quem queira falar sobre o assunto deveria pelo menos entender o lado técnico da questão, caso contrário posso eu dizer que os comunistas e os nazis são a mesma coisa, não é verdade?

  11. Renato Teixeira says:

    Alberto, é sempre bom haver consensos postos em causa. Não tenho grandes convicções na história do aquecimento global, mas tenho muito poucas dúvidas quanto ao apodrecimento global. Da água, à terra ao ar… do que comemos, do que bebemos do que respiramos… anda tudo demasiado contaminado, demasiado cancerígeno, e não é muito sensato pensar que tudo pode continuar na mesma. O pior de tudo é que as consequências da sobre exploração da terra é que ela se faz acima de tudo pela sobre exploração dos Homens. Quem menos polui mais sofre as consequências da poluição e quem mais polui mais condições tem para passar incólume.
    João… também eu sou do clube do tu… mas a quatro olhos. Não leve isso a peito. Não costumo esquecer-me de uma cara… já os nomes…
    Poderá sempre dizer o que quiser, e aqui, embora moderado, apenas terá censura se optar pelo insulto fácil. Dizer que comunistas e nazis são a mesma coisa é ignorante, não insulta. Para quem defendia que só se deve falar com conhecimento técnico não me parece um bitaite muito fundamentado… mas tudo bem. Ai está, online. Detesto que o argumento técnico sirva para mandar calar quem quer que seja.
    Sobre o “hábito de pensar que” me “querem calar” não é estranho nem muito especial. Acontece a todos os que gostam de falar.

  12. João André says:

    Caro Renato, esses “quatro olhos” não ajudam a ler pois não? O meu comentário quis dizer que equiparar comunistas e nazis é o mesmo que dissertar sobre “Aquecimento Global” e “Alterações Climáticas” da forma como o Djugashvili fez (e muitos outros o fazem). Eu não fiz essa equiparação, apenas quis dizer que fazê-la seria ignorante e parvo (embora a estupidez seja – ou devesse ser – livre), tal como o é muita gente que escreve/fala sobre aquecimento global e alterações climáticas, seja do lado dos que defendem essa tese, seja do lado dos que se lhe opõem.

    Quanto ao tu, não te levo minimamente a mal que prefiras mantê-lo reservado para outras ocasiões. Eu, no entanto, vou continuar a usá-lo contigo, pode ser?

    PS – em relação à censura do insulto, é a única que defendo.

  13. Renato Teixeira says:

    Esclarecidos então e de acordo quanto ao resto.

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