No Hopenhaga 1.2
11 de Dezembro de 2009 por Renato Teixeira
O debate em torno da Cimeira do Clima em Copenhaga parece reduzido à teima entre temerosos, abnegados e crentes, quando ao carácter especulativo do aquecimento global.
Com o intuito de levar o dossier do ambiente para bem longe do debate político, tudo serve para centrar a Cimeira nos temas que mais interessam aos líderes mundiais: transformar em negócios particulares o planeta de todos.
Um programa mais honesto da conferência seria dividido em apenas três palestras: como continuar a lucrar sem ter quem nos chateie com esta história da sustentabilidade do planeta, como lucrar ainda mais com esta história da sustentabilidade do planeta e como chegar a acordo geral que ninguém vai cumprir (como não se cumpriu Quioto) só para parecer que se está a fazer alguma coisa.
Apesar disso, apenas dois temas parecem estar a motivar o debate público. A polémica sobre se o aquecimento global é uma paranóia de cientistas loucos e activistas mal intencionados apenas movidos pelo ódio ao sistema produtivo, e o debate em torno dos factores de adormecimento do movimento social ao longo de 10 anos de protestos contra as organizações internacionais mais poderosas.
No seu artigo de opinião, no Público e no seu blog, Rui Tavares dá mostras que os bons ares do Parlamento Europeu o estão a imbuir de um optimismo radiante, sentimento que não hesita em partilhar com os seus leitores. Depois de uma ou duas vénias ao relativismo científico, obrigatório entre pós-modernos e cada vez mais dominante no partido que o elegeu para o PE, Rui Tavares passa ao ataque aos cépticos perfumando a sua escrita com um entusiasmo que roça o balofo. Como me incluo entre os chatos que o autor identifica, não podia ficar calado, sem um queixume para devolver.
Vejam a clareza de espírito que Bruxelas transmite aos seus caloiros: “O que os cientistas, ambientalistas e políticos minimamente sérios têm para nos oferecer é muito: uma hipótese de salvar o planeta e, de caminho, construirmos uma industria menos poluente, uma economia ambientalmente relançada e uma nova relação entre ciência e escolhas públicas. E que tem para nos oferecer os cépticos? Propriamente nada. Dizem apenas: confiem em nós. Não se passa nada. Continuem a poluir como até agora (…) O espírito de Copenhaga, para quem não tem conhecimento perfeito, só pode ser este: mesmo que se alimente a secreta esperança de os cientistas estarem errados, dar tudo por tudo para salvar o planeta como se eles estiverem – e provavelmente estão – certos.”
Esqueceu de escrever na sua crónica que os cépticos também estão lá a dizer que não querem o planeta tratado como negócio e que de espíritos estão as pessoas fartas. Fazia melhor poupar os cépticos ao arco-íris do seu neo-fascínio bazofio pelas instituições.
Boaventura Sousa Santos vem esclarecer numa reportagem do Público, o seu ponto de vista sobre o curso do movimento antiglobalização desde Seattle. Defende que o Fórum Social Mundial não está a perder força, pelo que justifica o seu desaparecimento da cena política com o seu crescimento: “No início, o FSM [Fórum Social Mundial] foi uma novidade total e por isso atraiu a atenção dos grandes media. Depois, o interesse mediático desvaneceu-se e em boa parte por isso foi-se criando a ideia de que o FSM estava a perder ritmo e capacidade de atracção. Em verdade, o FSM diversificou-se muito ao longo da década com a organização de fóruns regionais, temáticos e locais”. Aplicado ao futebol o raciocínio de Boaventura fica bem mais claro. Seria algo do género: não estamos a perder o jogo estamos é a crescer como equipa. O Paulo Bento aguentou quatro anos com esse paleio, Boaventura quer que o FSM dure dez.
Miguel Portas alinha pelo mesmo diapasão mas com igual falta de clareza: “A crise de crescimento começou (…) no exacto momento em que o movimento adquire mais força – é capaz de pôr 20 ou 30 milhões de pessoas na rua no mesmo dia [por causa do Iraque] – e em que se percebe, ao mesmo tempo, que, tendo-se tornado num sujeito social incontornável, não tinha ainda a força ou condições para que as opiniões públicas conseguissem impedir uma invasão”. Simplificando o raciocínio do Miguel Portas daria algo do género: estou mais pequeno porque estou maior, ou ainda, estou mais fraco porque estou mais forte. Arrebatador e no mínimo uma tese convincente quando justificamos as dores de joelhos como dores de crescimento a uma criança de cinco anos, não ao movimento social.
Ângelo Alves parece-me mais próximo da realidade dos factos: “Houve uma vontade de contestação. E, ao desenvolver-se essa contestação, a discussão política surge, não só sobre a caracterização e diagnóstico da situação, mas sobre os caminhos a seguir. Quando esse debate ideológico se começou a aprofundar, começaram a surgir caminhos diferentes”, faltando assumir o tom sectário que o PCP imprimiu nas sessões do Fórum Social Português, bem como o total desprezo pelas mobilizações internacionais onde nunca deslocou mais do que representações simbólicas para delegar solidariedade, demarcar-se do esquerdismo e assegurar os cinco minutos de antena nas notícias que cobriram Seattle, Génova, Barcelona e Sevilha. Bem… nesta última data a engenharia mediática deu mais uns pontos ao BE com um arrufo programado na fronteira espanhola.
Nenhuma das tentativas destes senhores esconde uma dura realidade: foi a esquerda institucional que a partir da criação do Fórum Social Mundial, pretendeu dirigir e consequentemente domesticar, um movimento que nasceu em Seattle e cresceu em Génova, fora da sua albarda. Passou a ser o polícia de proximidade que levou o movimento das ruas e da desobediência para as assembleias de poder com o mesmo alinhamento e responsabilidade de sempre.
“Outro mundo foi possível” para a direcção do FSM mas tudo continuou na mesma fora das portas das diferentes instituições internacionais.
Pedro Rolo Duarte, na sua Janela Indiscreta, faz um roteiro às opiniões sobre o tema que parece ter assaltado a blogosfera, e define os grupos no quem é quem de Copenhaga. No que me diz respeito, agradeço o tom elogioso, mas devo esclarecer que a frase “não há capitalismo verde e não sobrará verde ao capitalismo” mais do que introduzir poética num tema com tanto obscurantismo, é do foro dramático, e procura chamar atenção para o facto de que não restará muito mais tempo para debates se persistirem os dogmas e os paradigmas dominantes.

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