À beira da irrelevância

Cheguei, através do João Rodrigues, à entrevista dada por António Barreto ao I.  Desconheço, evidentemente, o grau da filtragem levada a cabo por Maria João Avillez, cuja tendência jornalística é simplificar tudo aquilo que não entende à primeira. Em todo o caso, o que lá está atinge o mais das vezes um grau de pobreza verdadeiramente constrangedor. É frequente assistir a este tipo de discurso nas incursões televisivas ocasionais dos cientistas sociais do regime, mas eu sempre achei que o meio televisivo convidava a um registo superficial, que forçosamente privilegiaria os aspectos mais básicos de qualquer reflexão. Evidentemente, os trabalhos de investigação de António Barreto são mais interessantes e profundos do que a sua prestação mediática, embora seja relevante notar que giram sempre em torno do mesmo núcleo fundamental – as transformações da sociedade portuguesa na segunda metade do século XX.

Por entre os ambiciosos objectivos da Fundação que dirige – vão publicar “uma colecção de ensaios, no verdadeiro sentido da palavra” (?), Barreto quer “uma opinião fundamentada e uma discussão informada”, etca jornalista não resistiu em avançar a pergunta obrigatória. E António Barreto não teve qualquer prurido em explicar “como é a nossa sociedade”. Portugal é antigo,  os portugueses vivem virados para o passado, os portugueses saiem de Portugal, os portugueses pensam que estão no centro do mundo, os portugueses não sabem para onde ir. A sociologia de ponta do costume, acompanhada das banalidades de sempre.

Mas não são as reflexões de Barreto acerca do modo português de estar no mundo, ou do atraso do país, ou o liberalismo de conto de fadas que  as costuma acompanhar, que mais atenção me chamaram nesta entrevista. É quando Barreto lamenta a «crispação» da vida política portuguesa que verdadeiramente o meu sobrolho fica franzido.

Diz ele: “Ainda hoje noto que Portugal tem uma maneira de fazer política mais crispada que muitos países da Europa. O primeiro-ministro, o chefe da oposição, os partidos da oposição falam uns com os outros no Parlamento aos gritos, evocando problemas de honra, evocando a mentira, a coragem, a vigarice. Nos debates parlamentares de Madrid, de Paris, dos Estados Unidos, ou até de Itália vemos que as pessoas são capazes de falar racionalmente, com bons modos e educação, sem que lhes falte energia ou têmpera. Mas nunca com esta crispação portuguesa, que se vem mantendo ao longo dos últimos 20 ou 30 anos.”

E aqui chegados é difícil não pensar que há, neste lamento, algo de extremamente representativo de uma maneira de pensar a sociedade e os comportamentos, algo de muito alargado e extremamente enraízado, que vem ao de cima com uma frequência que não deixa de ser enigmática.

A ideia de que o combate político é particularmente àspero em Portugal, que os sindicatos portugueses são particularmente intransigentes, que a esquerda portuguesa é particularmente radical, que as greves e manifestações são aqui particularmente frequentes. Todos estes fenómenos, que correspondem fundamentalmente ao funcionamento normal de uma sociedade capitalista numa democracia liberal, parecem excessivos e indesejáveis para a generalidade dos liberais que ocupam o espaço público português, que costumam fazer deles a explicação mais plausível para o «atraso português».  Não se cansam de repetir que o problema dos portugueses é não se contentarem com o que lhes dão e quererem sempre mais. Dizem agora que «os portugueses vivem acima das suas possibilidades», excluindo-se sempre, como é conveniente, dessa constatação.

Mas qualquer pessoa bem informada e que tenha tido a oportunidade de dar umas voltas pela Europa (não falemos sequer da América Latina) constata facilmente a falsidade das afirmações de Barreto, como aliás de tudo o resto que enunciei e que se vê repetido com frequência nas colunas de opinião dos maiores jornais portugueses.  Coexistem de forma enigmática em Portugal as mais altas taxas de desigualdade social com as mais baixas taxas de conflito social. O debate político parlamentar é cheio de cortesias e etiqueta, quando comparado, precisamente, aos exemplos  citados. Relembremos que Rajoy acusou Zapatero de pactuar com a ETA, Berlusconi considera que os ex-comunistas deviam ser julgados por crimes contra a humanidade, um líder dos Democratas de Esquerda  (Piero Fassino) chamou-lhe em tempos palhaço, Sarkozy não teve pejo em apelidar de «escumalha» os jovens dos subúrbios parisienses.

Os exemplos podia seguir até ao infinito e nem por isso seriam os mais ilustrativos. Se descessemos à descrição do que costumam ser as greves gerais nos outros países do sul da Europa, já para não falar da frequência e virulência com que ali eclodem greves selvagens fora do enquadramento sindical, não poderíamos senão constatar o mais preocupante défice com o qual se confronta a sociedade portuguesa. O do orçamento, o da balança comercial, o da competitividade, tudo isso que preocupa a opinião publicada, nada são quando comparados com a escassez da revolta. Há em Portugal, neste início de milénio, um gritante défice de conflito social, que explica muitos dos apetites predatórios do patronato e grande parte da irrelevância do debate político.

É por isso que os apelos ao envolvimento da sociedade civil são recebidos com um sorriso irónico por quase todos. Esse envolvimento não poderia deixar  de acusar, precisamente, essa crispação que tanto incomoda Barreto. Bem sei que estes sisudos liberais que nos calharam na rifa apreciam e acreditam, com uma ingenuidade que não deixa de enternecer, na harmonia, na estabilidade, na felicidade universal garantida pelo mercado e pela paz social perpétua.  Mas tudo aquilo que vemos é outra coisa e não parece que a burguesia portuguesa caminhe nesse sentido. Os lamentos em torno da «asfixia democrática» não comoveram muita gente, porque a grande maioria da população está habituada a viver essa asfixia num dos locais onde precisamente a democracia faz mais falta. Nos locais de trabalho, como é dito e repetido pela CGTP, não há qualquer tipo de democracia que não aquela que os trabalhadores são capazes de impôr pela sua acção colectiva. Nada lhes é dado e tudo deve ser conquistado. E onde essa força falta ou se manifesta insuficiente, todos se habituam a ser espezinhados e maltratados.

Nada que assuste. Não foi na calma dos gabinetes que se projectaram as grandes transformações ao longo da história portuguesa. Foi na rua, com maus modos, cinismo, pragmatismo e inteligência, mas quase sempre à bruta, que se ultrapassaram os bloqueios estruturais da formação social portuguesa e dizê-lo não me deixa mais feliz nem mais infeliz. Quem receia fazê-lo arrisca-se a ficar exactamente onde estamos, a saber, à beira da irrelevância. Isto não vai lá com cortesia e regras de etiqueta. Isto não é um chá dançante.

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