Parece-me razoavelmente claro que as comunicações modernas acabaram de pregar o último prego no caixão do casamento tradicional (e logo agora, que este se vai abrir aos casais do mesmo sexo), não tanto por causa dessa desagradável porém omnipresente realidade que é a da intercepção, fortuita ou intencional, das comunicações do outro (a caixa de e-mail que ficou aberta, o sms por apagar…), mas por algo que é um pouco o seu contrário: o excesso de transparência que, sobretudo os telemóveis, introduziram na vida das pessoas, agora permanentemente disponíveis e localizáveis: não há álibis que lhes resistam (e Deus sabe como os bons álibis são indispensáveis à sobrevivência dos casais).
As técnicas de construção literária também ainda não foram, a meu ver, convenientemente adaptadas aos últimos avanços das telecomunicações, de tão vastas consequências na psicologia e no comportamento humanos: bem vistas as coisas, a maior parte das obras, da época clássica do romance, por exemplo, pode ser reduzida a uma sucessão mais ou menos feliz de quid pro quos, a que qualquer simples chamada de telemóvel poria hoje rapidamente termo, sem apelo nem agravo (a capacidade dos telemóveis subverterem as categorias tradicionais do espaço e do tempo na construção literária parece-me claramente menosprezada).
Outra área a merecer atenção é a do chat: estou longe de ser um especialista (aliás, usei um pela primeira vez há poucas horas, e tenho testemunhas disso), mas descrições coincidentes de pessoas diferentes levam-me a crer que apresenta também um problema mal estudado: refiro-me aos disfuncionamentos do mecanismo pergunta/resposta, passíveis de ocorrer aqui muito mais do que numa conversa oral: como a sequência destes dois termos é afectada (inevitavelmente, eu diria) pela sua redução a escrito, perde-se a alteridade tendencialmente perfeita da conversa a dois e aumenta o risco de equívocos e mal-entendidos; a situação dos nossos casais não pode senão ressentir-se de tal facto.



