Uma questão de transportes, 3.1

As razões foram múltiplas: os impostos que se abateram sobre os velhos automóveis com motor de explosão, a sua crescente impopularidade por razões ambientais, as medidas restritivas do trânsito de carros em geral nos centros urbanos, a própria desaceleração que se verificou no crescimento do rendimento per capita, por efeito do empobrecimento relativo da Europa que sucedeu à deslocalização produtiva: todas juntas, contribuíram para uma adesão sempre em crescimento ao transporte sobre duas rodas, que em Portugal e em Lisboa, em particular, se limitou a seguir a tendência que, desde o início do século, se tornou dominante em toda a União Europeia. A imagem, hoje corrente, de massas de pessoas, de todas as idades e condições, circulando nas nossas cidades em veículos de duas rodas, poderia parecer ainda há poucos anos uma visão futurista, e uma adaptação algo forçada do que antes se passava sobretudo nas grandes urbes asiáticas; mas as motas vieram para ficar, e quando lemos agora, a escassas décadas de distância, as estranhas manifestações de temor daqueles que receavam pela integridade e a vida de quantos se deslocavam (sabemo-lo hoje) nos veículos do futuro, vêm-nos inevitavelmente ao espírito a lembrança dos luditas de outrora e da sua raiva contra a máquina, mais do que extemporânea, absurda.

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SEXTA | António Figueira
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1 Response to Uma questão de transportes, 3.1

  1. Reequilíbrio permanente no mundo: como vagas, da máquina vestida à máquina nua.

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