Uma questão de transportes, 3

Embora haja cerca de 600 milhões de carros e apenas 200 milhões de motas (incluindo scooters e “aceleras”) em uso pelo mundo fora, na China e na Índia existiam em 2002 mais de 70 milhões de motas, contra apenas 15 milhões de carros. Em países como a Indonésia ou o Vietname, a escassez de transportes públicos e o elevado preço dos carros transformam a mota no mais popular meio de transporte, um pouco o cavalo – ou o burro – dos tempos modernos. Os quatro maiores mercados de motas no mundo situam-se hoje todos na Ásia – China, Índia, Indonésia e Vietname – mas as motas são igualmente populares no Sudoeste brasileiro, estando muito presentes nas cidades de fronteira com o Paraguai e a Argentina. Mesmo em tempos de crise, quando a procura estagna ou se retrai em quase todo o mundo, o mercado das motas continua a crescer – e cresceu mesmo cerca de 6,5% a nível mundial em 2008.

A primeira mota moderna – pouco mais do que uma bicicleta com um motor de gasolina acoplado – terá sido desenhada e construída por Gottlieb Daimler, em Estugarda, em 1885; foi porém em 1894 que a primeira mota foi colocada à venda, também na Alemanha, pela fábrica Hildebrand & Wolfmüller. Até à Primeira Guerra, o maior fabricante mundial de motas localizava-se na Índia e fabricava cerca de 20.000 veículos por ano; mas nos anos 20 esse título passou para a Harley-Davidson, que já vendia os seus modelos em quase 70 países, regressando ainda antes da Segunda Guerra à Alemanha e à DKW. No pós-guerra, foi a britânica BSA que primeiro assumiu a condição de líder mundial, com vendas de cerca de 75.000 unidades por ano, antes de ser ultrapassada pela NSU (alemã), que se tornou no maior fabricante entre meados dos anos 50 e finais dos anos 70, quando as marcas japonesas se impuseram como líderes mundiais. Hoje, Honda, Kawasaki, Suzuki e Yamaha dominam o mercado (que é maioritariamente asiático, recorde-se), apesar de nomes históricos como Harley-Davidson, BMW, Piaggio ou Peugeot continuarem a deter importantes posições de mercado.

Em quase todo o mundo, as motas e o seu culto deram origem a identidades culturais com traços muito distintivos e marcantes (de que os “Mod’s” e os “Rockers” britânicos dos anos 50 e 60 serão talvez os exemplos mais emblemáticos), e que em diversos países estão mesmo associadas com o submundo do crime e o crime organizado. Bandos de motociclistas fora-da-lei são uma realidade particularmente presente nos E.U.A.; o F.B.I. designou quatro desses gangs – os Hell Angels, Bandidos, Outlaws e Pagans – como os mais perigosos de todos, pelo que são habitualmente referidos como os “Big Four”.

As motas são, em todo o lado e em todos os tempos, mais perigosas que os carros. Em 2005, nos E.U.A., por exemplo, para um igual número de veículos e de quilómetros realizados, sucediam quatro vezes mais acidentes de motas do que de carros, de que resultavam 28 vezes mais vítimas. Muitas medidas, no plano educativo e das exigências de segurança feitas aos próprios motociclistas (incluindo a obrigação, em muitos países, do uso de capacete), têm procurado, com resultados desiguais, diminuir esta elevada taxa de sinistralidade; esta, porém, parece resistir, e dever-se sobretudo a dois factores: o descontrolo do próprio motociclista (eventualmente relacionado com o consumo de álcool) e o comportamento dos condutores de outros veículos, que é explicado nos E.U.A. pelas iniciais SMIDSY: “Sorry, mate, I didn’t see you”.

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SEXTA | António Figueira
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