A invenção do ónus da inversão

Confesso que gostava de ouvir as escutas realizadas entre Armando Vara e o primeiro ministro. Mais, gostaria de ouvir as conversas entre Sócrates e Lopes da Mota, entre Sócrates e o presidente da CGD, PT, EDP e demais grandes empresas com participação do Estado ou entre Sócrates e Jorge Coelho.
Serei um pervertido, um depravado e um voyer compulsivo?
À pergunta anterior só respondo na presença do meu advogado, mas desengane-se o leitor ao pensar que gostaria de estar a par da vida sentimental do primeiro ministro. Safa, como diria Cavaco!
A questão que me parece muito relevante é a desconfiança pública instalada em torno da figura do primeiro ministro. O que me parece um facto é que, embora a maioria dos eleitores que se expressaram nas últimas eleições lhe tenham confiado o país, a maioria dos cidadãos não lhe confiava nem o cãozinho para um passeio num jardim público. Ora esta desconfiança já coloca em causa, mais do que o cidadão José Sócrates, todo o governo, as empresas tuteladas, o Estado, no fundo, a democracia. E o motivo é simples: todos os processos de corrupção chegados ao conhecimento público têm uma ou outra ligação ao primeiro ministro (excepção feita, por enquanto, à Operação Paella).
A tese da “campanha negra” ou da “espionagem política”, em que grosso modo se defendia a existência de uma cabala política em torno do envolvimento do primeiro ministro em todos estes escândalos verifica-se cada vez mais absurda pois, se assim fosse, teria tido o seu auge à beira das eleições, o que não aconteceu.
Em termos públicos é difícil de explicar que, no caso freeport, com tantos indícios e suspeitas, Sócrates tenha sido o único dos suspeitos portugueses indicados pela SFO a não ser ouvido – todos os outros foram constituídos arguidos, ou que dois juízes considerem que as conversas que manteve com Vara tenham indícios criminais e isso não seja matéria de inquérito.
Mas esqueçamos as trapalhadas da justiça e concentremo-nos sobre o interesse público.
Sobre Sócrates paira uma nuvem negra. Está acossado por um sem número de escândalos, da licenciatura ao Jornal de Sexta da TVI, que não lhe permitem defender mais obras públicas sem que se pense que quer entregar as obras a uma empresa de um amigo. As decisões de Sócrates já não são publicamente tidas como sérias, mas como uma resposta a um ou outro interesse, e isso representa o fundo da democracia. O arquivamento dos Caso Freeport, Independente, Face Oculta ou de outros que tais, não devolverá, de nenhuma forma, a imagem pública de credibilidade mínima que um governo deve preservar, apenas adensa o sentimento colectivo que, se fosse qualquer outro cidadão, teria outro tratamento.
Urge um esclarecimento público e consequências céleres e visíveis dos vários processos de investigação. E mesmo assim, não sei se chegará a tempo.

(também publicado no Aparelho de Estado)

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6 respostas a A invenção do ónus da inversão

  1. causavossa diz:

    PESADELO, ROBALOS E ESCUTAS
    Ontem sonhei com as escutas do primeiro. Safa … e não foi bonito de ver! Estrebuchei toda a noite não só pelo objecto mas pelo horror de transgredir no silêncio do sonho. De manhã ao levantar-me, perguntaram-me pela razão de tão grandes olheiras. Ao olhar ao espelho arrepiei-me. Traçado no fundo das olheiras, os pargos, as corvinas ou lá que peixes horrendos nadavam-me nas pálpebras como peixes agonizantes em redes de pesca de cerco.
    Quando cheguei ao emprego, todo eu tremia. Quando me sentei à secretária tentei anular todas as entrevistas. Que não, sr.doutor, que estava ali um senhor com uma caixa de robalos a pedir de urgência para ser atendido!

  2. Jorge Paulo diz:

    Se Sócrates estivesse inocente nos casos que mencionou, seria o maior interessado que os mesmos fossem a tribunal, para todas as duvidas ficarem desfeitas. Mas como sabemos, os que não foram arquivados, andam a marinar nas gavetas das secretárias sabe Deus de quem, à espera sabe-se lá do quê. Quem não deve não teme, e se não queremos saber se o 1º minisdtro foi ao cinema, ou jantar fora com quem lhe apeteceu, já nos interessa e muito, se ele discutiu e quando, com o Vara assuntos como a TVI, ou quejandos. Por isso, as conversas escutadas devem ser divulgadas.

  3. Há Cabala! diz:

    Há Cabala, sim!
    Só que a Cabala é contra o povo Português.
    Os portugueses têm de prestar contas, pagar impostos pesados para estádios de futebol de luxo, que andam às moscas, quando nos hospitais esperam treze horas para serem socorridos…
    Auto-estradas com fartura e 500 mil desempregados.

    Sócrates está acima da lei. Não tem de prestar contas a ninguém das decisões opacas que toma.

    Pior do que “Sobre Sócrates paira uma nuvem negra” é o cheiro nauseabundo” que este senhor exala, de cada vez que há suspeitas e se recusa a prestar contas. A Justiça que prove… Ora, na Justiça temos Lopes da Mota… pressões e ameaças… O que é feito do ilustre motard de Portugal??
    Cheira muito mal!!!

    http://farm1.static.flickr.com/192/450397863_3cadf06b8f_o.jpg

  4. Tiago Mota Saraiva diz:

    Parece-me precipitado julgar, em termos criminais, José Sócrates. Quem comenta não tem, certamente, dados para o fazer nem é sobre isso que este texto trata.
    O que me parece claro é que todos estes processos levantaram uma enorme onda de suspeição pública sobre as instituições. Esta onda põe em causa a democracia em que vivemos. Como se resolverá, não sei.
    Contudo parece-me que não se chega lá com arquivamentos.

  5. Pisca diz:

    Não sei porquê mas de repente ocorreu-me, o “presuntivo” engenheiro cada vez mais se parece com um presidente de um clube de futebol, quando deixou o cargo é que foram elas.

  6. Há Cabala! diz:

    Está ao alcance de Sócrates prestar contas. Porque não o faz?
    Por que é que ao entrar ao serviço da nação não fez o que tinha de fazer? Entregar a relação de bens.
    Até à data já o fez?
    E não pagou multa por quê?
    Porque quem faz as leis para si próprios são mesmo os próprios que governam. Para eles nunca há multas (nem de 150 euros).

    Os idosos, analfabetos, ou quase, que não entregaram uma folhinha exigida por uma lei nova, da qual não tinham conhecimento, foram impiedosamente multados: 150 euros, em reformas de miséria. Alguém no Governo se condoeu??

    Eu sinto vergonha!

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