Sou um criacionista, um ateu místico…

… por isso, se eu tivesse de escolher o disco do ano para tal vos apresentar e recomendar eu optaria por isto:

Die Schöpfung / A Criação de Haydn; por René Jacobs (o dirigente óbvio e, pela minha parte, “crónico”), o RIAS Kammerchor e a Freiburger Barockorchester, coisa muito recente. Esta eleição deve-se a:

— As linhas melódicas e rítmicas de Haydn plasmam-se e ampliam-se na sua vivacidade (alegre, optimista), e numa clareza rara (por exemplo, o vibrato desaparece nas cordas).

— Jacobs entende e dirige como poucos a enorme potencialidade narrativa e descritiva desta música, desde o início da oratória, intenso na representação do princípio do mundo, a que se segue uma imperturbável quietude (como numa paisagem de Poussin), continuando a escrita de Haydn a descrição dos oceanos, animais e primeiros seres, Adão, Eva…

— Esta oratória é, em si, uma versão peculiar do Antigo Testamento, do Génesis, pois aqui desaparece o Deus tenebroso (de quem José Saramago diz não ser amigo); inclusivamente, creio (e julgo não estar errado) que a Igreja nunca apreciou muito esta obra; que termina não com a expulsão do Paraíso e o Pecado Original, mas antes com Adão e Eva falando da felicidade que sentem um junto do outro numa terra onde tudo é perfeito. Nasce o mundo, nasce e continua sem castigo nem pecado. Típico de Haydn, grande grande Haydn (basta recordar, também por Jacobs, Die Jahreszeiten / As Estações, sempre na Harmonia Mundi).

— Por fim, não sei porque é que esta leitura de René Jacobs não entusiasmou a crítica. A BBC, por exemplo na sua página de crítica musical online, diz mesmo serem preferíveis as leituras de Colin Davis e Karajan.

Karajan, aqui?

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16 respostas a Sou um criacionista, um ateu místico…

  1. antónio diz:

    Pah, Vidal posso discordar só um bocadinho, licensinha ?

    O “meu” é este:

    New College Choir, Oxford
    The Academy of Ancient Music Orchestra & Chorus
    Christopher Hogwood

    Decca, 1990

    Emma Kirkby, Anthony Rolfe, Michael George, etc.

    Gostos e côres…

  2. Carlos Vidal diz:

    Hogwood, concordo.
    Karajan, não posso concordar.
    Aqui, não.

  3. antónio diz:

    O Karajan era um fascista horroroso, mas um músico absolutamente genial…

    Por exemplo, e só este exemplo: Não há Wagner inferior aos dele , incluindo o gajú que lá estava antes, e que também tem um grande nome.

    Olha que há uma data de gajús de esquerda (eu incluído…) que achamos isto, mas não é de todo grave, não nos vamos bater por causa disto, ou nada, era mais o que faltava…

    🙂

  4. Carlos Vidal diz:

    antónio, julgo que quer dizer “não há Wagner superior aos dele”.
    Estou de acordo.
    O outro gajo antes dele, a quem se refere é o Furtwangler. É isso?

    É que aquela casa (a dele) só teve 5 donos desde que existe, se não erro.
    (Eu que sou chavista, gostava que o próximo dono, depois de sair de lá o escocês, fosso o Dudamel. Conjecturas.)

  5. antónio diz:

    Vidal, era o Furtwangler, claro, eu é que estava a armar-me em obtuso.

    🙂

    E tens toda a razão quanto ao inferior e superior, saiu-me trocado…

    🙁

    On another note:

    Vale-nos também uma coisa : para além do Dudamel (que é um fascínio !), temos o Abbado e o Barenboim, (ah e o Boulez, ia-me esquecendo…) estamos servidos por mais uns anitos…

    :-))

  6. Carlos Vidal diz:

    Acho que temos de ficar pelo Dudamel.
    Abbado, génio. Mas não sei qual o seu estado de saúde agora.
    Esteve em Berlim, era adorado por todos, músicos e berlinenses. Saiu por doença. Parece-me um homem muito frágil (gostava de estar enganadíssimo). Barenboim foi preterido (vá lá saber-se porquê) por Rattle (má escolha, acho eu).
    Boulez, sempre. Mas a idade é uma coisa complicada (uma chatice).

  7. antónio diz:

    Isto está a ficar… parece uma correspondência.

    Em calhando, estaremos os dois a falar em “código”, será que os ‘leitores’ do blog… enfim.

    O Ratlle..valha-me gesuuz khristo, karl mars, e paul lafargue…

    Quanto a mim ainda havia/há pior: ogajú que não nomearei, e que convidou uma sehora já falecida que era minha vizinha (e também não vou nomear…) para um iate no mar Mediterrâneo, a ela respondeu ” A terceiros casamentos não vou”.

    Eu vivi em Londres um tempito, e tenho dificuldade de me recordar de um fulano pior do que esse cujo nome estou propositadamente a elidir…

    :-))

  8. qual espanto! desde há muito que os pequenos mações são os melhores inventores, construtores de catedrais, gárgulas e do métier de vivre do grande pavese:” la culture doit commencer par le contemporain et le documentaire, par le réel”, en un mot: le nihilisme.

  9. o criador de ilustrações deste blog colectivo é bem melhor, mais criativo, estruturado, coerente, contextualizado e talentoso do que aquele que ilustra no empurrão,
    não achas?
    e que raio é um ateu místico? não me venhas com o Said, o Badiou, os triplos v e o jacob
    entes presentes no princípio do mundo.
    É a attitude Dadaísta em Gnose?

  10. Carlos Vidal diz:

    Grande Jecta, um ateu místico é aquele que sente ou cede um estremecimento perante a hipótese das essências. É, em suma, o que reconhece o trabalho constitutivo do mito. Que sente, ao ouvir a obra organística de Bach, que o senhor queria falar com alguém que não pertence a este mundo. O ateu não tem a crença de Bach (o ateu crê na ciência e não é criacionista), mas é místico, porque entende o mestre de Leipzig, e entendo porque é que ele queria falar com quem queria, e desde sempre que o queria. Ora, é isto mesmo.
    (Quando Heidegger fala no homem como “pastor do ser”, ou Badiou escreve um livro sobre S. Paulo, são ateus e místicos.)
    O “dadaismo em gnose” é uma excelente expressão, mas não corresponde exactamente ao meu conceito de “ateu místico”.

  11. antónio diz:

    almajecta02 , prometo que num futuro próximo, se ainda aqui estiver e não houver more pressing matters vou tirar uma terceira ou mesmo uma quarta licenciatura em seja o que fôr, só para entender do que tu possas estar a falar…

    Vidal peço mais uma vez licença para discordar…
    Deixa-me fazer isto pão-pão-queijo-queijo, começando:

    1. Ateu e místico não funkam na mesma frase, a menos que sejas especialista em oxímoros…

    🙂

    2. Quando há algo que nos transcende, nos faz estremecer, etc. o que há a fazer é reconhecer o talento, a arte, a grandeza, whatever. Nunca me pareceu que fosse razão para dar em padre…

    3. Ao dadaísmo ainda consigo achar graça, mas não gosto de tudo.

    Em relação a Heidegger e Badiou o melhor é calar-me o que eu eventualmente poderia dizer não seria… (deixa cá ver se descubro um eufemismo obrável…) cordato

  12. Carlos Vidal diz:

    Ateu e místico funcionam sim na mesma frase e não creio que resulte daí um oxímoro. Não creio, mas tudo é possível.

    Falei em Heidegger e Badiou. Enfim, poderia falar em Bataille ou Buñuel e explicar-me melhor. O ateu místico abre-se, ao mesmo tempo, ao sentido da essência e à hipótese da blasfémia (também poderia falar em Sade, para quem a finitude da corporalidade é um estorvo e uma ilusão, pura e simplesmente porque não há finitude na blasfémia, no sexo, da depravação – aí o que há é comunhão, comunhão sublime).
    Parece-me relativamente simples: reconhecendo o sentido e existência da essência o ateu místico quer atingi-la, adorá-la ou sobre ela dirigir blasfémias. Só o ateu místico pode, ao mesmo tempo, compreender Bach, Sade, Bataille e Buñuel. Veja, deste último, “Simão do Deserto”. Quando Bataille escreve no princípio d’O Erotismo que o erotismo é a permanência da vida mesmo no seio da morte, o que é que ele está a ser senão um “ateu místico”??

    De outro lado, está o “ateu seco”, burro, seco, desprovido de adoração pela obra de arte, que nada sente quando ouve Bach ou vê Caravaggio (Miguel Ângelo ou Messiaen). Exemplos “secos”? Os ídolos de Palmira Silva do Jugular (e a própria), o Richard Dawkins, ou o idiota que pensa que prova a “inexistência de Deus” num laboratório de química, aquele que nada aprende quando lê a palavra “subjectividade”. O que nada cria, nem mística nem blasfémia.

    Morte ao “ateísmo seco”, viva a blasfémia!

    Ou você quer comparar Dawkins a Buñuel?
    Um é nada de nada, o outro é tudo (a hipótese do “tudo”, como crença, liberdade e blasfémia).

  13. portantos, necessidades do modernismo que nega a dimensão dos grandes discursos messianicos quer sejam a redenção cristã, das luzes ou do comunismo. estou a ver o mettre en oeuvre de o mostrar para não negar a dimensão poética. Sei, o engagement que cada um pode inventar, a parte do boring e do possível das essencias no coração do real assim a modos do mediador social a meio caminho entre o homem de negócios, o homem da comunicação e o chefe do projecto. e já vou pr’á i na 3ª comunhão babando o menos possível mas inteira e unitariamente.

  14. antonio:
    estou só a falar, não ligues.

  15. antónio diz:

    almajecta02 não te preocupes, se isto (a inet) não servisse para falar, servia para quê ?
    Para profs. de Ciências trocarem equações entre eles ??

    Fala à tua vontade.

    🙂

  16. Pingback: cinco dias » Não ao “ateísmo seco”! E um Sim simultâneo ao sagrado e à blasfémia

  17. não se esperam conversões aqui na bloga, pois não? Apesar da disponibilidade de todos os momentos e sítios e bondade dos comentários, os grandes rastafaris por mais quanto tempo vão continuar?

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