Justiça para os traidores
26 de Novembro de 2009 por Nuno Ramos de AlmeidaA figura do traidor está injustamente valorada na história universal. O Carlos Vidal, citando um palhaço do meu agrado, já nos tinha revelado isso, a propósito do seu voto (no PSD?). Sem Judas não haveria Cristo. O traidor fez o maior dos sacrifícios para que o Messias pudesse triunfar. Sem a crucificação do Senhor, Ele não poderia redimir os nossos pecados, matando-se. O pobre do Judas nem sequer teve a sorte de ressuscitar. Para o bem da humanidade, recebeu um péssimo pagamento e acabou a abanar-se numa oliveira para opróbrio do gentio. O beijo que deu foi um fraco prémio de consolação, mesmo para os padrões do Jugular. Muitos citam filósofos, como argumento de autoridade a esse respeito, eu limito-me a roubar o Hugo Pratt. Está tudo explicado nos cangaceiros e nas Célticas. Nessa obra maior da literatura universal expropria-se, brilhantemente, um conto das Ficções de Borges e descobre-se que o verdadeiro herói é, de facto, um traidor. Nesta história, um pobre irlandês aceita matar o maior lutador da independência para que ele se torne mártir e, com o seu assassinato, a revolução triunfe. A beleza está nos pormenores: o herói estava feito com os ingleses. O verdadeiro herói era o traidor que matou o falso herói, para que ele ficasse impoluto na história. Quando os cidadãos da Irlanda homenageavam o mártir e execravam o traidor, estavam, na verdade, a insultar o herói. Sem o traidor não teria existido herói, embora o herói, fosse na realidade um grande traidor. Ainda dizem que a vida não é divertida.

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