
“O 25 de Abril fez 20 anos. E o 25 de Novembro também… Não é blague. O golpe preventivo estava já delineado meses antes de Abril de 74, logo que pareceu inevitável o ruir do regime. De maneira que se põe a questão de saber quem venceu. Comecemos por ouvir os fulanos, beltranos e cicracos que lá estavam, lá e acolá, aqui e ali. Não há dúvidas de que os ministros de Salazar e Caetano venceram, visto que passam grande parte do seu tempo mediático a dizer que sempre foram democratas e que só estavam no governo para puxar a brasa direitista à sua sardinha moderada. Os europeístas venceram e os africanistas não se dão por vencidos. Os pides venceram e têm de facto cara disso. O partido comunista venceu, é claro; foram eles que deitaram mais foguetes, que apanharam mais canas e que, com elas, fizeram mais pifarinhos com cuja música ainda hoje nos regalamos. Os socialistas venceram porque depois de anos e anos a contar os trocos passaram a receber dinheiro em barda da CIA através dos sempre tão prestáveis sindicatos alemães. Até os maoístas venceram: lá estão eles nos mais variados poleiros do Estado e da «sociedade civil». E a propósito, quem mais venceu foram os capitalistas. Não há quem os cale quando começam a contar quão difícil foi a vitória e como o inimigo era terrível.
Alexandre Dumas, no romance famoso cujo título reproduzi acima, faz juntarem-se de novo os três mosqueteiros, que aliás eram quatro. Precatemo-nos nós contra tais subtilezas numéricas. A menos que… a menos que as comemorações dos 20 anos de Abril não sejam também um equívoco. É que, se é a queda do fascismo que queríamos comemorar, não o devíamos ter feito a 25 de Abril mas a 1 de Maio.”
António Ferreira, “20 ans aprés ou as novas tropelias do comemorativismo desta vez com pensão às viúvas” in A queda do fascismo, Editorial Chão, Lisboa, 1999, pp.133-134




Ricardo, como calcularás, estou em absoluto desacordo com a semelhança entre dois momentos históricos de sentido diametralmente opostos.
Mas Tiago, não é uma questão de semelhança.
Escreveu António Ferreira que o 25 de Novembro, ou seja, a transição ordeira da ditadura para uma democracia liberal, estava já mais ou menos inscrita no 25 de Abril, ou seja, no programa do MFA e no horizonte da sua Comissão Coordenadora. Foi a explosão das lutas sociais que radicalizou o processo e transformou a transição numa revolução. Parece-me que se trata de retirar a datas facilmente assinaláveis no calendário a propriedade de esgotarem completamente a história. É o que se passou entre uma e outra que realmente nos deve ocupar. A revolução é um processo turbulento que não pode ser calendarizado num gabinete. Ela é, precisamente, o que faz saltar no ar todos os calendários.
Percebo a tua vigilância, mas discordo em absoluto de um qualquer respeitinho obediente para com uma imagem mitificada da revolução, a narrativa épica que faz dos capitães os seus actores privilegiados e uma espécie de heróis providenciais. Estou fundamentalmente de acordo com António Ferreira – Abril começou em Maio e os dias de hoje começaram em Novembro.
Errado, Ricardo. Abril começou verdadeiramente no PREC (com que nos identificamos, suponho), ou seja, a 11 de Março de 1975. tal como 1789 começou em 1793, com a Convenção Montanhesa. O PS é o termidoriano-líder desta história.
Por mim, que se continue a celebrar o 25A. Pelo acto de desobediência civil que foi. Pelas pessoas que não ficaram a ouvir a coisa pela rádio e decidiram ir para as ruas. Deste ponto de vista, podemos afirmar que o 1 de Maio começou mais cedo.
Pois Carlos, aí é que o Badiou torce o rabo. É que, sem tudo o que o precedeu, o 11 de Março é apenas o espectro que assusta a burguesia.
Ricardo, eu não a faço a menor ideia do que Badiou pensa do processo revolucionário ou emancipatório português (neste particular, até conheço melhor as ideias do Debord).
Sei, sim, que para ele (como para outros, Sylvain Lazarus, por exemplo), 1789 começa em 1793. E sei ainda que, desde Hamlet à emancipação, tudo começa no famoso espectro.
Acho que o badiou apoiou o incêndio de sedes do PCP, por considerar que era uma justa luta anti-social-fascista. Consta que há um livro mais ou menos ligado ao MRPP com um texto seu que vai nesse sentido.
O espectro pode ser onde tudo começa, mas eu ainda prefiro a imagem de gente de carne e osso a pôr em sentido a reacção e a alimentar a sanha de esganar a burguesia. E tudo isso acontecia já muito antes de ser formado o Conselho da revolução.
Ricardo,
Mas, entretanto melhorou, não apoiou, por exemplo, a Constituição Europeia.
Sim, o Negri apoiou a Constituição Europeia por considerar que se devia acabar com as pátrias (coisa que eu também acho, mas não apoiaria a Constituição), e andou pelo parlamento italiano, não sei a fazer o quê. Eu, que julgo conhecer a obra de Badiou, nunca lhe vi nenhum texto que o aproximasse de Estaline, apesar de, desde sempre, Badiou se contextualizar devedor do maoismo (até hoje).
E estranho muito que se contentasse com os incêndios das sedes do PCP, pois sempre manteve relações cordiais com os PCs, embora rejeite a ideia de partido; além disso, por via da sua relação (também de dívida) para com Althusser, estranho esssa posição de Badiou.
Entretanto, há dias, também a publicação dirigida por João Teixeira Lopes, indecentemente, publicou Badiou – porque ao lado publicava Bensaid, que defendia a existência de um partido anticapitalista. Penso, não estou certo, que João Teixeira Lopes queria mostrar uma posição de emancipação anti-partidos (Badiou) para a atacar (com o seu – de Badiou – amigo Bensaid).
Enfim, Ricardo, coisas da vida (já agora certifica-te dessa defesa de Badiou dos incêndios das sedes do PCP).
Badiou versus António Ferreira? António Ferreira “situ” emérito que fala(va) grego e latim no quotidiano, primo do José Pinho, membro da Lux Factory/ Ler Devagar, encontra-se hoje eremita num vale da Serra da Gralheira, ao apelo soberano e anti-narcisico do retiro de Debord algures numa aldeia de Arles nos finais dos anos 80. Vi Badiou no programa cultural da France-2, da autoria de Franz-Olivier Gisbert, recentemente: pareceu-me em grande forma e acaba de publicar um panfleto sobre o Amor, de grande intensidade deleuziana. O ” maoismo ” de Badiou foi sempre muito controlado pela imanência siderante das categorias hegelianas da Ciência da Lógica e, a par-e-passo, pelo revisionismo estruturalista de Althusser, que se reflectirá na época áurea e triunfante do M-L- Universitario gaulês com a publicação dos Cahiers pour L´Analyse, na EN Superior da Rue d´Ulm, em conjunto com François Regnault e Jacques-Alain Miller, se bem se recordam…Portanto, a tese de António Ferreira recusa,liminarmente, o M-L de pacotilha e anacrónico vigente em Portugal em 1974/75. Niet