O nosso destino e o dos alemães (calhou assim)
24 de Novembro de 2009 por Carlos VidalNum dos seus rasgos geniais (e foram todos, contabilizando bem, estando nós perante – acho – o maior monumento do romance das últimas décadas), Agustina Bessa-Luis terá dito que Manuel Alegre era, de entre os poetas assim-assim, o maior (não citando eu literalmente). Lembrei-me disto, agora lido um texto no “Público” sobre declarações do poeta-ex-deputado em torno do mal estar na justiça portuguesa. Li e ouvi (num telejornal, não me lembro qual) banalidades e generalidades sem significado: que o mal estar entre justiça e política era indesejável e perigoso, que era perniciosa a tensão entre ambas; que era preciso repor a “decência” na “nossa vida política”. Seria mais original o poeta-ex-deputado dizer que era positiva a manutenção desta indecência actual, mas não, a “decência” é preferível. Gostos.
Terminava dizendo que não se pode combater um crime com soluções exteriores ao “Estado de Direito” (um conceito imponente, mas é o que há em “democracia”). Não se entende e o poeta dizia também que agora não clarificava. Não, agora não. Defende ou escuda J Sócrates? Oh não, defende apenas o “Estado de Direito”.
Ao lembrar-me de Agustina, lembrei-me da sorte dos alemães: nós temos Alegre, eles tiveram Richard Strauss. Qual é a relação? Simples. Strauss, um dos maiores do século XX, dizia ser um “compositor de segunda de primeira”. Frase imortal.
Cada um tem a sorte que tem ou que merece. Vá lá saber-se.
E aqui fica a primeira – Frühling/Primavera – das Vier letze Lieder/Quatro Últimas Canções do mestre alemão, na voz inevitável de Renée Fleming (haverá melhor?). É um poema de Hermann Hesse que nos fala do estremecimento perante a beleza primaveril. As outras canções falam-nos da aceitação calma da morte.
Passem bem, por agora.

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