Os betos

gente "des"igual

gente "des"igual

O melhor nome de beto de entre todas as línguas é definitivamente o brasileiro: mauricinho. Conhecidos por preppies no mundo anglo-saxónico e por betos ou queques consoante estejamos a norte ou a sul do país, todos conhecem esta moda de gente mas raras vezes se lhes dedica uma palavra que seja.

Beto dos anos 70

Beto dos anos 70

Não há livros sobre eles, nunca ninguém os pintou, não se lhes comece uma única ode ou manifesto e as poucas referências na música ou no cinema são de pura maledicência, cólera ou simples gozo.

Beto dos anos 80

Beto dos anos 80

Apesar de se associar esta moda de gente aos filhos da gente rica, e essa associação não ser por regra despropositada, a verdade é que se encontram espécimes entre todas as raças, credos e, inevitavelmente, classes.

Beto dos anos 90

Beto dos anos 90

Tem alguns, homens ou mulheres, que quanto menos fé, capital ou cor, maior o ego que colocam na lapela, no olhar e na franja. E não há nada mais ridículo que um filho da prole aderir à moda do filho do burgo. É quase pior e igualmente tolo do que um preto racista, um judeu defensor do holocausto ou que um integrista islâmico monogâmico.

Beto dos anos 00

Beto do futuro

Os que trazem a moda do berço, não julguem que lhes fica bem a albarda só porque se lhes parece devida. Neles o que lhes falta em ridículo, por quase parecem naturais debaixo de tanto lustro, sobra-lhes em tudo o resto, a começar pela mania e o permanente escárnio dos outros.

De tudo o que se diz sobre os betos há uma acusação que é injusta. Apesar dos berloques, dos tiques, dos gostos, dos cheiros, apesar dos cabelos, dos casacos, dos desportos, estamos a falar de gente simples. Não se lhes devia deixar de reconhecer mérito tão raro num tempo em que não é fácil encontrar gente tão simples.

Dispensam opiniões demasiado fortes quando não dispensam de todo qualquer opinião. Raramente falam alto e não poucas vezes ficam calados quando a conversa acidifica. Nunca, mas nunca, falam mal uns dos outros, especialmente quando o visado do mal está presente. Estão quase sempre de acordo com alguma coisa que dizes não obstante terem sempre algo a acrescentar não sabendo muitas vezes precisar o quê. Quando por excepção te contrariam, fazem-no sempre, sempre, com muito jeitinho, educação e reverência, desde que não estejam dentro do seu bólide e com temperamento de trânsito. Nestes casos ganham em verbo mas perdem em charme e elegância para a maior parte dos burgessos.

Só se lhes conhece alguma coragem quando do outro lado do espelho têm a domestica, o pedinte ou o servente. Não que a coragem lhes venha da tarimba mas, paradoxalmente, do medo.

Se quem acha que este tipo de moda só se vê nos dandies de encerado e vela (acho que estou ultrapassado no enxovalho de referência), há provas que se encontram em qualquer guarda-roupa, rural ou urbano. Há betos hippies, betos dreads, betos rastafari, betos rockabillies, betos para todos os gostos. São tão universais que os encontramos do BE ao CDS, ao passo que todas as outras modas são muito rígidas nos partidos que escolhem. Um liberal do Porto ou de Lisboa nunca sai do espectro político do centrão, se informal do PS se mais conservador do PSD. Um marialva de gestão das estribarias da Golegã ou é democrata cristão ou não se incomoda com esta coisa dos partidos. Um freak só pode ser do BE e um neo-realista de boina e barba por fazer do inevitável PCP. Já betos há-os por todos os lados por dentro de cada um dos jeitos.

Pese embora todos sejam muito fashion e cuidem por isso mais do look que da alma, tudo lhes é perdoado uma vez que o estatuto advém mais do herdam do que do que doam.

As mulheres betas, são como o Almada dizia… a razão de muitas impotências e os homens são tão cinzentos, tão cinzentos que normalmente só se lhes distingue a cor da camisa e diz por ai, que mesmo nús, têm os sinais e os pêlos dispostos cuidadosamente no mesmo lugar uns dos outros.

Nunca são nada em demasia a não ser na estupidez. Acham que o álcool não é vício e os faz homens e sedutoras e a cannabis uma dura dependência. Quando um destes, por força exclusiva das más companhias, consome cocaína, cuidado, muito cuidado, que o bicho fica achar que tem mais poderes que toda a banda desenhada junta.

Nunca se viu um espécime desta moda de gente reclamar com o patrão. Se por um lado isso se deve ao facto de muitos deles serem eles próprios patrões (e nesses casos serem lestos em blasfemar os trabalhadores), quando na pele do assalariado são mais macios do que as amantes dos patrões e entre colegas já se sabe, são o patrão dos patrões.

Querem parecer o que não são e o pouco que são querem parecer sempre outra coisa.

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17 respostas a Os betos

  1. António F. diz:

    Péssimo texto. Sem ponta de verve e a resvalar para o ressabiado.

  2. clara diz:

    que espectacular e profundo conhecimento do espécime. apetecia-me fazer retrato igual do “comuna” mas não, receio perder-me em lugares comuns.

  3. Pingback: “O que acontece é que os filhos são parecidos com os pais, mas não são iguais O que muda, com o passar das gerações…” « Novo Mundo

  4. Renato Teixeira diz:

    António F., concordo com a primeira dimensão da sua crítica. Sobre os betos é impossível fazer-se um texto bom. Quanto ao resto, evidentemente, não posso concordar. Há verdade e não há pinga de ressabiamento.
    Clara, também eu um dia gostaria de fazer um retrato do comuna… embora já haja uns quantos por ai e fique difícil fazer melhor. De todo o modo, não se consegue fazer um lugar particular sem se recorrer a um lugar-comum.

  5. xatoo diz:

    de facto,
    se o texto tivesse “verve” seria coisa de Beto…

  6. Luis Melo diz:

    Complexos de inferioridade…

  7. Parece-me que o António F. acusou o toque. Que excelente texto!

  8. Tales diz:

    Meteste-te com el@s, saíste da boa graça da crítica… 😉

  9. pedrobala diz:

    Um beto é um beto. No Estado espanhol é um “pijo” e na Venezuela é um “zifrino”. Mas em qualquer país assumem as mesmas características. Não são hippies, não são punks, não são góticos, não são skinheads. São betos. Normalmente, a betaria tem a marca de classe da burguesia, embora nem todos sejam burgueses. São superficiais em tudo: no pensamento, na roupa que vestem, na música que ouvem, nos desportos que praticam, no que lêem.

    Todas as modas têm defeitos. E, em si, a moda já é um dogma quando a ela se adere de forma extrema. Mas com todos os defeitos, um punk é mil vezes melhor que um beto. Porque um verdadeiro punk combate o sistema. Um hippie, com todos os defeitos, é mil vezes que um beto. Porque apesar de ser um pacifista tem espirito critico. Um gótico também tem muitos defeitos mas abomina o mainstream e contesta o domínio clerical. Os skinheads pela sua origem operária e pela sua combatividade contra o racismo e o capitalismo também superam os seus defeitos. Mas um beto não. Um beto é um merdas com o cabelo lambido por uma vaca, que ouve Britney Spears, que – se for da burguesia – gosta de tenis e golfe (desportos tão colectivos…), que lêem a maxmen.

    Como em tudo, há excepções.

  10. Renato Teixeira diz:

    Tales, não me meti com eles… eles é que passam a vida a meter-se com toda a gente. Quanto às boas graças nunca quem critica cai nelas. Não é assim?
    Pedro Bala, quando disse que há “betos” entre todos os outros clans urbanos não pretendia resumir os outros clãs ao carácter submisso dos betos. Antes procurei dizer que submissos há-os em todos os géneros. Mas tens razão na elaboração. Um beto é um beto.

  11. Helena Teixeira diz:

    Pois, aqui, na Bolivia, tambem os ha, imagina! Sao os ‘jailones’ e ha muita coisa escrita, estudos academicos e enquadramento sociologico das suas personalidades. Tem ate uma linguagem propria.
    Ha um ensaio de Alex Lopez, e outro do antropologo Boliviano Alejandro Barrientos sobre o tema. Sao os ‘hijitos del papa, da zona sul de La Paz. A sociologa Isabel Crespo, do Instituto de Investigacao para o Desenvolvimento, na Bolivia, ciz que sao ‘hibridos e pasa-pasa’. Curioso.

  12. António F. diz:

    Renato,

    não é pelo tema que o texto é fraco, é mesmo pela abordagem. Havia tanto para dizer, e com tanta potencial graça. Mas nada disto acontece. Primeiro, não define o que é um beto de forma convincente em nenhuma parte do texto. Segundo, tenho dúvidas se alguma vez conheceu ou falou com um beto. Dizer que um beto não tem opiniões não faz sentido. Um beto tem imensas opiniões, que são quase sempre as opiniões dos pais, e adora partilhá-las. São opiniões maravilhosamente dogmáticas, retrógadas e sem fundamento, mas são opiniões.

    E, no fundo, o Renato confunde tribos e comportamentos com características que se encontram em todas as sub-culturas sociais (subserviência à autoridade, vazio de opiniões, etc.), sob um objectivo qualquer que só pode ser a vingança sobre os betos que curtiam sempre com as miúdas de que o Renato gostava.

    O texto é fraco, não tem graça, a não ser o facto do João Branco também acusar o toque de ter ficado à porta das discotecas a ver os betos a entrar.

  13. Renato Teixeira diz:

    António F, não tenho nenhum sentimento de vingança relativamente aos betos, e posso adiantar-lhe que até conto alguns amigos nessa tribo urbana. Nunca me roubaram namoradas e apenas por uma gritante falta de bom gosto, também eu nunca cortejei as deles.
    O texto é uma parodia sobre os betos não uma caracterização acabada. Há os que gostam e há os que não gostam. Lamento que se encontre entre os segundos, embora comece a perceber-se que o ressabiado é você. Alguma freak o deixou pendurado? Não o deixaram entrar na festa do Avante ou no Acampamento do Bloco de Esquerda? Será que este é um bom caminho para polemizar?
    Acha que há mais para dizer sobre os betos e que não explorei o tema na profundidade devida… não se faça rogado, mande daí a excelência das suas diatribes.

  14. Augusto Manuel Rievenstahl diz:

    se o texto tivesse “verve” seria coisa de Beto…
    LOL…

  15. pois, isto e’ quase racismo…
    bom, se e’ para generalizar, diria ao autor que beto e’ o oposto de fashion. a forma de vestir do beto e tudo o mais (todos iguais no tempo e no espaco) quase nao muda desde que os beachboys descobriram um segundo acorde. idem para as betas.
    o que traz vantagens: quando um beto se deita com uma beta e’ facil convencer-se que o fez com todas. e vice-versa.

  16. António F. diz:

    Ficaram todos abespinhados… mas continuam sem grande graça.

  17. Nilton diz:

    Achei esse texto mt gay amigos!

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