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Não há cu para os vampiros

22 de Novembro de 2009 por Nuno Ramos de Almeida

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Se escrevesse um livro teria este título. Ainda não pensei no enredo, mas a denominação parece-me promissora.
Há seis meses, insisti que estávamos a ser invadidos por uma moda de vampiros. Nas livrarias, nos cinemas, nas telenovelas assístimos à multiplicação dos morcegos. Qualquer dia, vamos ter uma série de Morangos com Açúcar com caninos proeminentes, uma espécie de “Por favor não me mordas no morango”. Descartando as teorias psicanalíticas que misturam vampirismo e antropofagia, a praga é transparente: arrastamo-nos pela existência sem vitalidade, estamos num mundo incerto, em que somos, cada vez mais, excedentários e precários. Nada como os vampiros para nos garantirem o sangue, essa seiva da vida, e a eternidade. O sobrenatural dá-nos, como sempre, um sentido para uma existência sem fim. O imaginário da industria cultural colmata o espaço entre a nossa sobrevivência real e o que seria uma vida interessante.
Sinal dos tempos, já tropecei em alegres criaturinhas que consultam a bruxa para mudar de namorado ou mesmo para decidirem qual é o canalizador que contratam. Quando o mundo perdeu a verdade, não há como o professor Fofana para nos dar o rumo certo. Fábula por fábula, continuo a preferir Corto Maltese, filho de uma cigana de Malta, que olhando para a sua mão, não gostou da pequenez da sua linha da sorte e traçou-a com uma navalha.

Comentários

Comentário de Aníbal Carocinho
Data: 22 de Novembro de 2009, 15:52

Muito bom! Podes começar pela denominação e promessa do enredo. Sucesso de descontaminação é sangue fresco. O melhor caminho para matar os mafarricos de dentes aguçados. Parabéns.

Comentário de Ricardo Noronha
Data: 22 de Novembro de 2009, 18:13

Nuno, acho que o corto maltese pura e simplesmente não tinha linha da sorte antes de a traçar com a navalha.

Comentário de Aníbal Carocinho
Data: 23 de Novembro de 2009, 1:27

Mas teve a sorte de ter a navalha.

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