A mí, Madrid me encanta

Apenas o meu proverbial sentido de sacrifício me permitiu aceitar uma estadia de quatro dias em Madrid à conta de terceiros. Quem me conhece, sabe bem que a vil materialidade não me tenta; o meu desprezo pelos bens terrenos admite só uma excepção, o dinheiro propriamente dito, mas apenas pelo seu valor icónico.

Trago boas notícias: a movida de Madrid ainda não acabou, a movida de Madrid nunca acabará. Aos peões de Lisboa, eu levá-los-ia a estagiar em Madrid: os que regressassem vivos portar-se-iam muito melhor, e deixariam a malta que guia carros (como eu) muito mais à vontade.

No sétimo ano do Liceu, apontaram-me como exemplo paradigmático do uso do adjectivo em Eça de Queirós o “pensativo cigarro” que o Zé Fernandes fuma a páginas 99 de “A Cidade e as Serras” (na edição que eu tenho em casa); na “Historia universal de la infamia”, Jorge Luis Borges descreve Lazarus Morell “fumando pensativos cigarros” na página 27 da edição espanhola que eu comprei na quarta-feira (e que é a mais barata). As possíveis explicações deste facto são várias e parece-me ocioso enumerá-las.

Comi e bebi muito bem em Madrid, e aprendi o que verdadeiramente distingue Portugal e Espanha: aquilo que nós conhecemos pelo nome amigo de “peixinhos da horta”, designam eles, com mal disfarçada sanguinolência, como “judías revueltas en huevo”: é pois toda uma filosofia.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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