Lições de Coimbra


Martinho da Vila – Pequeno Burguês

 

Passaram cinco anos desde que a aplicação integral da lei das propinas se concretizou. Foi o princípio do fim da Universidade Pública trinta anos depois do 25 de Abril. Que lições tirar da efeméride agora que os estudantes abandonam os gabinetes conciliatórios e o diálogo com o governo e voltaram de novo às ruas do protesto na marcha de hoje pelo ensino superior?

São cinco os anos já passados desde aquele dia 20 de Outubro de 2004, no Pólo II da Universidade de Coimbra. Desde a concretização da primeira tentativa, há apenas uma década, perto de trinta mil estudantes abandonaram a universidade como resultado directo das propinas.

Não faltou simbolismo àquele 20 de Outubro. Na última tentativa de impedir a aplicação da lei os estudantes da Universidade de Coimbra, já isolados a nível nacional, só foram vencidos pela Força de Intervenção Rápida da PSP, pelos Serviços de Informação e Segurança e pela Polícia Judiciária. Antes tinham vencido a fúria liberal de vários governos, o tradicionalismo bacoco das academias mais domesticadas, a falta de coragem das assimiladas burocracias sindicais e o oportunismo das juventudes partidárias. Acima de tudo tinham vencido o medo e ganho a batalha da racionalidade.

  

Invasão do Senado Universitário - Coimbra 2004

 

Viviam-se dias quentes no país. O débil governo de Santana Lopes era atacado em quase todas as frentes. Os sectores descontentes sentiam confiança para defender as suas reivindicações e, apesar da maioria absoluta sustentada por Paulo Portas, poucas eram as medidas políticas do governo a serem aplicadas sem contestação. Em muitos casos a luta conseguiu com que as leis nem sequer saíssem do papel e assim, das paredes da Assembleia da República. Pode parecer pouco mas está para se ver se uma Assembleia da República com 31 deputados do PCP e do BE consegue impedir a aplicação de uma lei que seja do próximo governo PS. À data foi esse o caso da Lei das propinas e foi essa a força do movimento estudantil.

Sem a força produtiva dos trabalhadores mas dotado de uma radicalidade e persistência sem igual no panorama português, os estudantes conseguiram ser, ao longo de década e meia, quem impediu o início da privatização da Universidade Pública. Depois de nunca ter conseguido aplicar a lei a partir de São Bento, por não ter vencido sucessivas greves, encerramentos e manifestações nacionais, o governo remeteu para os senados universitários a incumbência de definir o valor das propinas. Se por um lado a cobardia do governo fragmentou a unidade nacional dos estudantes (a sua maior debilidade) deu a oportunidade a quem quisesse de impedir a aplicação da lei nos seus próprios Senados. Mesmo as associações de estudantes mais recuadas faziam cercos e barricadas para impedir que os professores aplicassem as propinas em nome do governo.

No quem é quem da culpa, os governos de turno do PS e do PSD não morrem solteiros. A esmagadora maioria dos professores, muitos deles militantes da esquerda do sistema (PS, PCP e BE), demasiado interessados em salvar a sua cátedra da reciclagem que Bolonha estava a impor, aceitou ser o fiel do dono e a armadura dos gendarmes. Fechados numa lógica corporativa, não só não engrossaram as fileiras da luta pelo saber público, como estava a acontecer em Itália, França e Espanha, como se dispuseram a aplicar a lei em nome do governo, a furar greves e a boicotar manifestações. De lá para cá não se lhe ouviu uma palavra sobre os trinta mil que sobre as suas consciências abandonaram a universidade.

Hoje a Universidade e o movimento estudantil vivem entre o drama financeiro e a exclusão social, num clima amorfo e sem contraditório, com estudantes apenas preocupados em despachar as licenciaturas que o Processo de Bolonha macdonaldizou. As licenciaturas foram despromovidas a bacharelatos, os mestrados a licenciaturas e os doutoramentos a centros de investigadores precários que disfarçam o aumento do desemprego.

Não se discute, não se debate, não se reivindica. Paga-se demasiado caro um canudo de papel que é cada vez mais uma mão cheia de nada e de qualidade duvidosa. Se ser radical, ir à raiz dos problemas e das suas soluções, resultou, porque não voltar a sê-lo? Esta é a pergunta que se deve colocar, principalmente a quem hoje estuda e a quem vê esse direito ser-lhe vetado, para impedir que as cadeiras das universidades sejam cada vez mais as cadeiras ocupadas pelos filhos da classe já demasiado bem sentada no poder.

(texto a publicar no nº7 da Revista Rubra)

PS: Numa conversa recente com uma activista estudantil, que lamentava a falta de dinamismo e o excesso de eleitoralismo associativo, pudemos concluir que quando há luta as listas fazem-se para que a luta continue, quando não há luta as listas fazem-se para fingir que a luta existe. A ver vamos se a manifestação de hoje não passa de um fogacho insuflado pelos processos eleitorais a decorrer para a maioria das Associações Académicas do país, cumprindo única e exclusivamente a necessidade de mais uns quantos burocratas se promoverem a deputados nas eleições vindouras.

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.