Uma questão de transportes, 2.2.2

Quando descia a Infante Santo de pé na sua mota, de braços abertos como um Cristo, o D.C. ostentava o seu poder e arriscava a glória – a glória de, caindo, morrer (a paixão de D.C.), a glória de, safando-se, viver (mas em todo o caso a glória de fazer o que o vulgo não fazia, não podia fazer). O D.C. detinha os meios necessários para o exercício do seu poder (a sua já referida mota) e provocava o inconsciente religioso das massas que assistiam à sua passagem, sempre à espera que um ser superior, milagreiro e salvador, as surpreendesse, exercendo o seu mando espiritual de um modo espantoso e em permanente crescendo, até à sua queda da graça (irreparável) e ao seu fim, que tanto podia ser o seu fim como o seu princípio. O D.C. não foi apenas um esteta – foi um teólogo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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