Todos aplaudimos a queda do Muro, claro… – e depois?

(Kiefer)

No Guardian:

Unfortunately, the collapse of the GDR and “state socialism” came shortly before the collapse of the “free market” system in the west.

Sim, eu sei, ninguém gosta de ler textos destes. Aliás a sua caixa de comentários está cheia de insultos. Lembro-me (já aqui me censurei o bastante) de ter votado Soares em 1986 (a abstenção seria a única atitude decente) e daquela canção de Rui Veloso (vocalista que nunca apreciei, monocórdico até ao tutano) que servia de mote de campanha, que dizia mais ou menos isto – “para nós só há a liberdade…” Por isso é que eu acho que Soares e esta canção, e os clichés anti-soviéticos largados aqui e ali e de qualquer maneira, são uma forma de “não-pensamento”.

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32 respostas a Todos aplaudimos a queda do Muro, claro… – e depois?

  1. Luis diz:

    É uma formidável denúncia, esta da Bruni de la Motte. Se entender eu posso traduzi-la, Carlos.

  2. Julia Weiss diz:

    O sistema free market está a recuperar na boa.

  3. Luis diz:

    Os Alemãs de Leste perderam muito em 1989
    Para muitos, na RDA, a queda do Muro de Berlim e a unificação significaram a perda de empregos, casas, segurança e igualdade.
    Bruni de la Motte

    Em 9 de Novembro de 1989 quando o Muro de Berlim veio abaixo, percebi que em breve se seguiria a unificação germânica, o que ocorreu um ano depois. Isso significou o fim da República Democrática Alemã (RDA), o país onde nasci, cresci, nasceram os meus dois filhos, obtive o meu doutoramento e desenvolvi um trabalho realizador como leitora de literatura Inglesa na Universidade de Potsdam. Obviamente, a unificação trouxe com ela a liberdade de viajar pelo mundo e, para alguns, mais riqueza material, mas trouxe também colapso social, desemprego expandido, saneamentos, um materialismo estúpido e uma “sociedade de cotoveladas” bem como a demonização do país onde vivia e que ajudei a moldar. Apesar das vantagens, para muitos foi mais um desastre do que um evento para celebrar.

    Apenas dois exemplos. A minha melhor amiga, uma professora de línguas estrangeiras, perdeu o seu emprego e foi saneada porque, na altura em que o muro caiu, acontecia que estava a ensinar numa universidade de direito do governo. Não era membro do partido, nem sequer era política. Depois de muitos esforços conseguiu encontrar um emprego a ajudar jovens excluídos das escolas, com um contracto temporário e um salário muito menor. O meu irmão, doutorado em ciências filosóficas, perdeu o seu emprego de investigação na academia e desde então só tem conseguido encontrar empregos temporários sem ligação com a sua especialidade e mal pagos.

    Pouco se sabe aqui sobre o que aconteceu à economia da RDA quando o muro caiu. Uma vez a fronteira aberta o governo decidiu montar um fundo para garantir que as “empresa de propriedade pública” (a maioria dos negócios) seriam transferidas para os cidadãos que tinham criado a riqueza. Contudo, poucos meses antes da unificação, o então governo conservador acabado de tomar posse entregou o fundo a nomeados da Alemanha do Oeste, muitos representando interesses dos grandes negócios. A ideia de bens “de propriedade pública” serem transferidos para cidadãos foi deixada cair sem se falar mais disso. Em vez disso todos os bens foram privatizadas numa velocidade recorde. Mais de 85% foram comprados por alemães ocidentais e muitos foram fechados pouco depois. No campo 1.7 milhões de hectares de terras agrícolas e florestais foram vendidas e 80% dos trabalhadores agrícolas perderam os seus empregos.

    Em Julho de 1990, quando ainda existia a RDA, foi introduzida uma apressada “união monetária” com o resultado de ter mergulhado a economia da RDA na bancarrota. Antes da unificação o marco da Alemanha do Oeste valia 4.50 marcos da RDA, a união monetária fixou a paridade com uma taxa de câmbio de 1:1. O resultado foi a subida de preços dos produtos de exportação da RDA em 450% da noite para o dia e deixaram de ser competitivos; o mercado da exportação (39% da economia) implodiu inevitavelmente.

    Grandes números de trabalhadores comuns perderam os seus empregos, mas também os perderam milhares de trabalhadores de investigação e de académicos. Como resultado das purgas nos estabelecimentos académicos de investigação e científicos, num processo de saneamento político, mais de um milhão de pessoas com graus académicos perderam os seus empregos. Isso englobava cerca de 50% desse grupo, criando na Alemanha do Leste a mais alta percentagem de desemprego profissional no mundo; todos os reitores das universidades e todos os directores de empresas estatais, bem como 75,000 professores perderam os seus empregos e muitos foram inscritos em listas negras. Este processo ocorreu em contraste radical com o que ocorreu na Alemanha Ocidental depois da guerra, quando poucos ex-Nazis foram tratados deste modo.

    Na RDA todas as pessoas tinham o direito legalmente garantido à posse e propriedade das casas onde viviam. Depois da unificação, foram feiras 2.2 milhões de reclamações por cidadãos não-RDA sobre as suas casas. Muitos perderam as casas onde viviam há décadas; um grande número preferiu suicidar-se a darem-nas. Ironicamente, reclamação para restituição do outro lado, por alemães do Leste sobre propriedades do Oeste, foram rejeitadas como “fora do tempo”.

    Depois da morte da RDA, muitos acabaram por reconhecer e lamentar que as “conquistas sociais” genuínas de que gozaram tenham sido desmanteladas: igualdade social e de género, emprego total, inexistência de medos existenciais, bem como as rendas, transportes públicos, cultura e facilidades desportivas subsidiados. Infelizmente, o colapso da RDA e do “socialismo de Estado” ocorreu pouco antes do colapso do sistema de “mercado livre” no Ocidente.

  4. Carlos Vidal diz:

    Fez bem em traduzi-lo, Luis. Torna-se mais prático.

  5. finalmente apareceu a velha raposa manhosa e Beirã por aí e logo com a afilhada, bravo. cá p’la horta ( lugar extraordinário) tenho andado a pensar no cherry guevara, no cherry samba e nos altos quadros, organizo e debito em conferências, oriento e modero seminários, conversas em torno, continuo a parir papers, enfim necessidades provindas do árduo trabalho.

  6. J. Urbano diz:

    Começando pelo fim da tradução do dito artigo, não vejo onde está o dito colapso do “mercado livre” no Ocidente. E fazendo um comentário sucinto ao artigo, mesmo tendo em conta os custos da mudança, e há-os sempre, acho todo o artigo do piorio. Afinal o que os comunistas desejam é emprego seguro, habitação paga, mesmo que em mau estado, facilidades desportivas subcidiadas,e outras balelas. O mais que se foda. Desculpem mas o sistema democapitalista, mesmo quando tresanda (que tresanda sempre e é insopurtavelmente vulgar), é mil vezes mais brilhante, mais plástico, mais plural,mais poderoso, que qualquer regime comunista, que nunca pode deixar de ser totalitário. Marx nunca nos esclareceu como se organizava o Estado ou o poder do proletariado. Lenine fê-lo e vimos o que dai decorreu. Diante do democapitalismo imperante todas as alternativas têm-se relevado pífias, inanes. As melhores cabeças, as mais poderosas cabeças subversivas, no fundo, vêm-se completamente impotentes em gerar qualquer alternativa e a revolução está para a actualidade como a vinda do messias para o que vos apetecer imaginar.

  7. Luis diz:

    Relatório do PNUD (1) confirma: Restauração capitalista é um desastre humano e social

    Luís Carapinha, «O Militante» – N.º 249 – Novembro/Dezembro 2000

    “A transição na maioria dos países do antigo bloco soviético na Europa Central e Oriental e ex-URSS é um eufemismo para designar o que na realidade tem sido uma Grande Depressão”. As consequências para a segurança humana são calamitosas. Segundo as estimativas mais moderadas mais de 100 milhões de pessoas foram atiradas para a pobreza e um número consideravelmente maior remetido a uma existência precária mesmo em cima da linha de subsistência”. Quem o afirma é o PNUD (1) no seu relatório de 1999 dedicado ao período de “transição” na região (p. 13).

    Para este organismo da ONU, o processo de “transição” – que, como sabemos, mais não é que a restauração capitalista – acarretou enormes custos humanos dos quais o mais pesado é a “perda de vidas representada pelo declínio da esperança de vida verificada em alguns dos principais países da região e em especial na (FR) Federação Russa” (p. 5). “Vários milhões de pessoas não sobreviveram à década de noventa o que teria acontecido se o nível de esperança de vida existente em 1990 tivesse sido mantido”, constata o PNUD (p.5).

    O aumento e persistente alto nível de incidência de doenças comuns, o reaparecimento de doenças anteriormente reduzidas à condição marginal como a tuberculose, a expansão das doenças sexualmente transmissíveis até ao limiar epidémico, o extraordinário aumento dos índices da pobreza de rendimentos e pobreza humana – que o PNUD define como a perda das capacidades básicas humanas -, o aumento das desigualdades (nos rendimentos, distribuição da riqueza e entre sexos), a considerável deterioração da educação e o aumento do desemprego, sub-emprego e trabalho precário, são outros dos principais custos da transição destacados pelo relatório do PNUD (p. 5-7).

    Consequências económicas
    No início da última década após a implosão da URSS o ataque às economias socialistas desenvolveu-se em larga escala. O sistema de controlo e regulação de preços foi desmantelado, o que originou uma “explosão de preços sem precedentes pela sua duração e número de países afectados” (p. 13) e o disparo brutal da inflação (nos países menos afectados, como a República Checa, Eslováquia e Hungria, a taxa de inflação rondou os 62%, noutros 22 países a taxa foi de 100% no mínimo durante um ano, enquanto nos restantes 15 países esta taxa foi no mínimo de 1000% ao ano! (na Geórgia chegou a atingir os 18.000% em 1994!). Na Rússia a subida de preços em 1992 (1 ano depois do fim da URSS) foi de 1353% (p. 14).

    A terapia de choque – assim ficou conhecida a liberalização selvagem e o processo de privatização e usurpação da riqueza e erário público – teve consequências devastadoras para o aparelho produtivo e economia dos países em questão. “Nem sequer durante a Grande Depressão dos anos 30 se assistiu a uma queda tão acentuada no rendimento”, observa o relatório (p.15). Na Federação Russa (FR) a produção industrial decaiu 38% e o PIB 41% entre 1990-97, enquanto na Ucrânia a quebra do PIB em igual período foi de 58% continuando a descida depois de 97.

    Na totalidade da CEI (Comunidade de Estados Independentes) o PIB decresceu 45% de 1990 a 97! (p.16). Números avassaladores.

    O investimento sofreu uma quebra acentuada. Na FR o investimento financeiro diminui 75% entre 1990-97 (quadro de balanço da FR). Nalguns casos a quebra foi tão acentuada que o investimento líquido foi negativo (p. 17).

    Desigualdade, injustiça social e emergência da pobreza
    A quebra do PIB e o colapso económico foram acompanhados pelo crescimento do desemprego e precarização do emprego, regressão salarial, aparecimento de salários em atraso e o assinalável aumento das desigualdades e injustiça social. Na FR, no final de 1996, a dívida salarial ascendeu a 47,2 triliões de rublos, cerca de 8000 milhões de dólares (p. 18), o que equivale a perto de 30% da população activa; um ano mais tarde já mais de metade da população activa tinha um mês ou mais de salários em atraso (quadro de balanço da FR).

    “É claro que a transição é acompanhada pelo aumento da desigualdade”, observa o PNUD (p. 20) que aponta o dedo ao processo de privatizações “resultante na constituição de uma reduzida e opulenta classe capitalista e de uma sociedade altamente polarizada” (p. 20). O exemplo da FR, onde o “nível de desigualdade é hoje comparável ao de certos países da América Latina” (p. 20), é elucidativo.

    A hecatombe económica e social afectou países grandes e pequenos. A realidade da Moldova – uma pequena antiga república da ex-URSS – ilustra bem a amplitude da regressão e das dramáticas perspectivas de futuro para um país pobre em recursos no actual contexto neoliberal: aqui, refere o relatório do PNUD (p. 18), o “poder de compra do salário médio em 1997 é idêntico ao de 30 anos antes, em 1967”. Mas nessa altura, recorda o PNUD, “a protecção social cobria, entre outras despesas, a educação, cuidados de saúde e tratamento em sanatórios a preços baixos, licenças de férias e uma substancial proporção das despesas com a habitação” (p. 18-19).

    A combinação da quebra no rendimento médio com o ascenso da desigualdade social resulta no aparecimento da pobreza (pobreza de rendimentos e humana) como realidade social. “A pobreza na Europa de Leste e CEI aumentou de 4% da população em 1988 para 32% em 1994, ou seja de 13,6 milhões de pessoas para 119,2 milhões” (p. 21). Conforme nota o PNUD, “antes da transição para a economia de mercado a pobreza em massa era desconhecida: todas as pessoas em idade activa tinham um emprego que lhes assegurava a subsistência e um elaborado sistema de segurança social que garantia a protecção dos idosos, doentes e incapacitados”. A pobreza aflige agora cerca de 20% da população na Europa Central e Oriental. Nos países da CEI o nível máximo é registado no Azerbaijão (2) com 62% da população pobre (p. 21). Na FR a pobreza afecta cerca de 31% da população (p. 21); e em 1997 cerca de 30,7 milhões de pessoas – perto de 21% da população – vivia abaixo do limite mínimo de subsistência (quadro de balanço da FR).

    O relatório, refere a subnutrição como um dos factores que reflecte a pobreza de modo directo (p. 22) e salienta que, na generalidade, a quantidade e qualidade da ração alimentar das famílias decaiu face à liberalização dos preços e à quebra de rendimentos (p. 23). Assim, na Polónia, 60% das crianças sofrem de alguma forma de subnutrição e 10% das crianças estão permanentemente subnutridas (p. 22).

    Este é um problema que afecta igualmente de modo muito sério a FR. Neste país, entre 1989-1994, praticamente triplicou o número de mulheres anémicas na fase final da gravidez (p. 23).

    Explosão do crime
    O dramático crescimento da criminalidade e corrupção (p. 23) é outro dos fenómenos assinalados, consequência do “colapso económico”. Os dados do PNUD, essencialmente extraídos dos relatórios nacionais de desenvolvimento humano (3) dos diferentes países, mostram um aumento substancial da criminalidade na maioria dos países a partir de 1989. O relatório nacional da FR de 1997, citado pelo PNUD, refere uma “subida catastrófica da taxa de criminalidade”, acrescentando que os dados estatísticos representam apenas entre um quarto e um terço do total real.

    “Em muitos países – desde a FR aos países bálticos – a taxa de homicídios aumenta drasticamente” consequência do crescente mercado de serviços criminosos como os assassinatos a soldo e a extorsão (p. 24).

    A explosão da criminalidade é acompanhada pela alteração da sua natureza: o mundo do crime organiza-se, a mafia estende-se numa vasta rede que penetra a economia e o poder, formando um autêntico estado dentro do estado que influencia e determina o curso da economia e das reformas sociais (p. 24-25).

    Crise demográfica e populacional
    “Uma crise populacional sem precedentes afecta quase todos os países em transição”, afirma o relatório (p. 39). O decréscimo da taxa de natalidade e o aumento da taxa de mortalidade provocaram um decréscimo na taxa de crescimento populacional que em muitos dos países da região se tornou negativa. Em consequência do colapso económico muitos países confrontam-se com uma dramática contracção demográfica.

    “As tendências na esperança de vida são particularmente alarmantes” refere o relatório. Na FR a esperança de vida nos homens é de 58 anos (diminuição de 4 anos entre 1980-1995), dez anos menos do que na China, realça o PNUD (p. 41).
    “O declínio populacional é um sinal claro do aumento da insegurança humana na região” (p. 39). O “decréscimo dos rendimentos médios, o aumento da desigualdade de rendimentos, o incremento da insegurança, incerteza e desemprego e a deterioração dos serviços sociais incluindo os serviços de saúde, conduziram à diminuição acentuada da taxa de natalidade na quase totalidade das economias de transição e ao aumento da taxa de mortalidade em muitos países”, salienta o PNUD (p. 40), para depois reforçar:

    “há uma clara associação entre a amplitude do decréscimo dos rendimentos médios e a profundidade da queda da natalidade”. O relatório nota que a baixa da natalidade nos países da região não é um sintoma da melhoria das condições económicas, como acontece noutras partes do mundo, mas sim da aguda depressão económica (p. 41).

    Para o PNUD, esta interpretação é suportada pela evidência da evolução das taxas de mortalidade que acusam uma subida especialmente elevada na Ucrânia e Rússia. Na FR a taxa de natalidade desce de 16 para 9 (por 1000), enquanto a taxa de mortalidade sobe 4 pontos passando de 11 para 15 entre 1980-95. O relatório constata que em 1995 a taxa de mortalidade na China, Vietname e Mongólia era menor que na esmagadora maioria dos países da ex URSS e Europa Central e Oriental.

    Ruína social
    A situação gravíssima de depressão populacional e demográfica é testemunhada pelo relatório do PNUD que afirma ser “difícil imaginar que algo similar pudesse alguma vez ter acontecido em tempo de paz e numa região tão vasta” (p. 42).

    “A transição impôs às pessoas um custo pesado não apenas em termos do aumento da doença, da mortalidade e de uma esperança de vida menor, mas também em termos da ruína social que se reflecte no incremento do consumo de álcool, na subida drástica do consumo de drogas e no aumento da taxa de suicídios” (p. 43).

    O aumento da taxa de doenças é outro dos aspectos focados no relatório que constata que muitas das doenças que estão a ressurgir poderiam ser contidas com programas de vacinação (p. 45). Na Rússia e Ucrânia a difteria reapareceu para atingir proporções epidémicas, enquanto a tuberculose duplicou na Rússia entre 1993-94. Idêntico cenário para as doenças sexualmente transmissíveis: na Rússia a sífilis cresceu de 4 para 172 (por 100.000) entre 1989-95 (p. 46). O PNUD recorda de novo que muitos dos problemas neste capítulo poderiam ser resolvidos ou limitados por um sistema de saúde público e funcional (idem).

    A vulnerabilidade das crianças tem aumentado durante a transição devido ao dramático aumento da mortalidade dos adultos, da taxa de divórcios, de suicídios e às novas epidemias como a SIDA. O resultado é o crescimento do número de crianças de rua e em orfanatos (p. 6). Aliás, é sintomático que actualmente na FR existam mais crianças abandonadas do que no período posterior à 2ª guerra mundial.

    Como afirma o relatório do PNUD a “transição para a economia de mercado foi literalmente letal para uma vasta camada da população” com “consequências devastadoras para o desenvolvimento humano” (p. 43).

    O relatório do PNUD não aponta culpados e, não obstante o seu diagnóstico e conclusões, alude (para salvar a face?) à democracia e liberdade na região como uma realidade positiva. Mas convém perguntar que democracia e liberdade (e para quem)?

    No entanto, muito mais do que a marca da censura e propaganda do pensamento único, o relatório vale, realmente, neste nosso mundo de hoje em que também a ONU é obrigada a resistir à investida do imperialismo americano (nem sempre com êxito), pelo inesgotável e vasto manancial de dados objectivos que traçam um quadro inequívoco do desastre humano e social que têm sido estes cerca de 10 anos de transição no leste europeu e na ex-URSS. Sem prejuízo da necessidade de aprofundar a análise das causas do desmantelamento do socialismo, é imperioso conhecer a história e realidade de 10 anos de restauração capitalista na região e tirar as respectivas ilações.

    Notas:

    1. Transição, Relatório do Desenvolvimento Humano para a Europa Central e de Leste e Comunidade de Estados Independentes, PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) 1999 (em inglês);

    2. O Azerbaijão é, por sinal, um dos países da ex-URSS onde é maior o investimento ocidental designadamente no sector da exploração petrolífera;

    3. NHDR (National Human Development Report).

  8. Augusto diz:

    Nem todos ….nem todos…… a começar pelo Avante, jornal do Partido Comunista Português que até fala de contra-revolução contra o socialismo …..

  9. A.Laurens diz:

    Eu diria que a queda de um dos males deu mão aberta ao mais terrível .

  10. pedro pousada diz:

    Aconselho-vos a leitura dos artigos disponíveis no site Para a história do socialismo; a análise do material bibliográfico disponível (Kurt Gossweiler, Ludo Martens, Annie Lacroix-Riz, Serguei Kara-Murza, Viktor Kochemiako; sobre a GDR aconselho-vos um artigo de Stephens Gowans) fez-me alterar por completo a imagem que construi sobre Stalin desde a infame catastroika; o homem tinha defeitos, cometeu erros mas não foi a encarnação caucasiana do Belzebu nem um Napoleão bolchevique obcecado pelo poder; Stalin, goste-se ou não dele, foi quem consolidou, de facto, a base material onde se desenvolveu em pleno o pensamento político e económico do leninismo; foi quem colocou um território dominado por uma economia agrária e por relações feudais de produção na vanguarda do século XX; comparem,apesar das injustiças, que ele próprio reconheceu, que se cometeram nos períodos complicados de 37-38, comparem os níveis de desenvolvimento humano entre a URSS de princípios de 1940 e a que existia em 1920; o pais tinha um deadline, antes da próxima ofensiva político-militar do Imperialismo (que se concretizaria em 1941). Ou se industrializava, ou atingia os níveis de produção agríccola que lhe garantissem soberania alimentar; ou se tornava autónomo em termos de investigação e desenvolvimento tecnológico ou morria; se as coisas continuassem de acordo com a linha bukharinista (manter o NEP; e contemporizar com a classe dos Kulaks, tentando ganhá-los para o lado de uma Revolução que eles nunca apoiaram…e assim agravando as clivagens entre campo e cidade) ou a linha trotskista (que desenvolveu uma metafísica da revolução, imaginando-a mais invulnerável e mais poderosa do que realmente era nos finais de 1920; a guerra revolucionária sem revolução industrial e sem revolução cultural na sua rectaguarda!) hoje não estaríamos sequer a falar sobre o socialismo num só país pois a URSS não tería sobrevivido à invasão nazi-fascista. Pensar que o muro de Berlim era um atentado à liberdade é esquecer Fevereiro e Junho de 1943 (Estalinegrado, Kursk), Julho de 1944 (operação Bagratiom) e quem de facto garantiu que as nações da Europa sobrevivessem ao nazi-fascismo: The soviet war machine: poder dos sovietes mais economia planificada mais heroísmo de massas. O muro foi um detalhe, infeliz mas necessário, na História. E tanto muros ainda se levantam; alguns são suaves e bem sedutoras cortinas opiáceas…Já repararam que o responsável pela cosmonautica soviética se chamava Korolev e o da versão norte-americana se chamava von Braun? Não nos diz nada sobre o que alcançou o poder dos sovietes? Recordam-se que para as suas ambições no Pacífico, o desastre da guerra russo-nipónica, o czar fez construir a sua força naval nos estaleiros britânicos e que 45 anos depois o primeiro estado proletário fabricava os seus couraçados aéreos sem ajuda externa, sem encomendar o know-how e a tecnologia a uma potencia estrangeira? Outra questão: com frequência fala-se de artistas que tiveram um papel revolucionário e inovador no campo da criação plástica, musical, cinematográfica, etc, apesar das suas posições e ideais políticos se revelarem decepcionantes senão reaccionários; a regra não é reversível? não é possível aceitar que dirigentes políticos progressistas tenham ideias sobre a arte que se revelem decepcionantes; isso torna-os menos importantes enquanto contribuintes para o progresso material, social, cultural da humanidade? O mundotorna-se, só por isso, mais insuportável? Sou também da opinião que o realismo socialista merecia outra análise (o contexto: que pais era a Rússia no início de 1930? O que era a arte para a maioria do povo soviético, ainda profundamente ligado à cultura e aos costumes do campo, e onde a cultura visual urbana era minoritária e estava em luta para se afirmar; e,para onde navegou a jangada da vanguarda soviética? já viram a animação de 1930? o desenho humorístico? as actividades circenses? os cenários teatrais? talvez encontremos uma resposta nessa área); uma análise menos embebida na guerra ideológica e no ódio visceral à figura de Stalin, (mesmo Paul Wood e Hal Foster não se conseguem livrar dos clichés para falarem das diferenças que se operam entre 1920 e 1930 no campo da investigação artística soviética).Eles, os modernistas, foram felizes na revolução até ao dia em que a canoa da autonomia artística chocou com o quotidiano, o beyt, de vicissitudes, de desgraças, de erros que implica construir pela primeira vez um Estado socialista num território com problemas gigantescos; mas já em Junho de 1848 Baudelaire tivera a lucidez de perceber que o ideal será sempre um corpo mutilado, imperfeito, e no seu rosto já não se verá uma palidez virginal, inocente mas manchas com a cor do alcool, da pobreza que luta para sair da ignorância, da vontade de existir que quer deixar de ser apenas sobrevivência, apenas isolamento. A revolução tem uma imagem vulgar, bela mas vulgar. Só os ingénuos, os que não querem nada com ela é que podem pensar que ela nasce pura e imaculada. será que não somos capazes de perceber isso? e tomar consciência que a próxima revolução também será imperfeita, também dará trambolhões pois o caminho ainda será mais difícil? E ao fim do dia para que lado se viram as nossas lealdades? e a quem pertence o mundo? Eis duas questões centrais que a experiência histórica do socialismo nos pode ajudar a responder.

  11. Luis diz:

    Eu francamente não entendo o que é que o muro de Berlim tem a ver com o Estaline, Pedro. Parece-me que é um disparate trazer o Estaline para este filme. Haja sensatez, pois quando começaram a erguer o muro já ele estava morto e enterrado há uns 8 anos!

  12. rui david diz:

    De facto sou mesmo reaccionário, ainda me tento convencer a mim próprio que a sacanagem que tenta assacar ao lenine a responsabilidade pelos “genes totalitários” do regime estalinista é desprezível.
    Afinal parece que “Stalin, goste-se ou não dele, foi quem consolidou, de facto, a base material onde se desenvolveu em pleno o pensamento político e económico do leninismo”.
    Qual é a banda sonora adequada para um filminho destes sobre as dores de parto de um regime/sistema construído para bem do povo e de onde o povo mal agradecido só queria fugir, um pouco à imagem de um outro povinho no extremo ocidente da Europa?
    À altura, só talvez o António Calvário nas suas saudosas interpretações em Sarilho de Fraldas.
    O tom vagamente anacrónico justifica-se porque o povo português, tal como o russo, também estava muito ligado à agricultura e ainda não entendia muito aquela coisa disparatada das vanguardas e preferia o estilo Estado Novo dos António Francos/Leopoldos de Almeida e as encenações histórico-patrióticas dos Leitões da Bairrada, oops de Barros, a pimbalhada faduncheira, e a filmografia patética do genial António Lopes Ribeiro (idolatrado pelo saudoso Mário Castrim) e seu cortejo de vascos santanas e milus asseticamente despolitizados e ainda hoje no panteão estético das chamadas classes médias do século vinte e um, a idade do i-pod e do youtube.
    Num pequeno exercício iconoclástico, podemos defender que também em Portugal existe nostalgia por muitas conquistas do (nosso) regime e até que, algumas dessas vantagens se perderam: ordem, paz (que todos reconhecemos, alguns sabe-se lá porquê, como podre) interna e, sobretudo externa, pelo menos até à agressão vinda do exterior (na perspectiva do regime) comandada à vez pelos imperialismos soviético (aqui o nosso regime ajuizava mal…) ou americano (aqui era digno de simpatia… julgo eu, ou será que o nosso regime conseguia a proeza de ser uma coisa pior no mundo do que o imperialismo americano?) e que nos “obrigou” a enterrar uma geração nas colónias. Uma outra coisa que toca, no nosso regime, e espero que este aspecto até possa ser reconhecido por alguma esquerda “radical”, é a questão da honestidade. A honestidade tezinha do nosso ditador ainda toca muito coração, amargurado com a “corrupção” actual, da vida a ir “sempre para pior”…
    É bom que se diga que o nosso exército que combatia uma guerra injusta em África não dispunha das boas realizações do socialismo em matéria de armamento nuclear e convencional. Nisso o regime falhou. Talvez porque o esforço de transformação do Estado Novo tenha, afinal, sido tíbio. Com referências como o António Calvário e o Artur Garcia (mais tarde degenerados no turbilhão pós PREC em figuras decadentes de cabeleira hirsuta do tipo de um Dino Meira, notório simpatizante socialista), onde poderia o regime encontrar forças para levar a cabo a tarefa máscula de revolucionarizar a economia e a sociedade? A siderurgia era, do ponto de vista da sua dimensão, uma brincadeira de crianças, e do ponto de vista da atroz exploração de uma mão de obra desprotegida por sindicatos afectos ao regime (os soviéticos era igual mas era em nopme de outros princípios), uma tragédia, os campos alentejanos uma miséria, sim, mas faltou-nos talvez uma fomezinha como a da Ucrânia ou a que se seguiu ao “Grande Salto em Frente”.
    Se até para fazerem um mini Gulaguinho no remoto arquipélago Gulago Verde onde se concentraram em 30 anos trezentos e tal gajos(dá para acreditar nesta palhaçada, quando comparada com as realizações soviéticas?) foi um alarido de ai jesuses que cruel é este regime macabro, como é que os meninos queriam que hoje, com qualquer regime ( e vemos que este também não serve, de todo, precisamos de “outra política”) se tivesse uma Nação Potente?
    E quando eu digo remoto Cabo Verde já estou a tirar dignidade à palavra remoto. Quando estava escrever este comentário lembrei-me de ir ao Google Earth e medir o afastamento que sofria um bacano de Lisboa enviado para o Tarrafal. Deu-me cerca de 2.800 kilómetros. É obra. E depois medi a distância a que um labrego de Kazan (um “kulak” que com a sua horta e duas vacas se tornava uma perigosa ameaça à economia soviética, igualitária e fraternal) ficava do seu buraco (que deixava de o ser, porque geralmente com ele era desterrada a família e a horta e a casa e a vaca expropriadas) caso fosse enviado, sei lá, para um campo de férias em Magadan. Deu-me cerca de 5.700kms, praticamente o dobro. Claro que o gajo do Tarrafal não era um pacóvio dedicado à sua horta, era um opositor mais ou menos activo ao regime, daí a superior injustiça da desgraça do revolucionário (que se fosse russo também tinha boas hipóteses de ir marrar com os cornos em Magadan ou outro local do género, mas isso não conta porque neste caso era, como dizia aquele rei, “por bem”) que era impedido de desenvolver as suas “tarefas”, enquanto que o labrego era um filho da mãe que só pensava nele e na famelga. E na vaca.
    Enfim, o impossível acontece por vezes, e graças aos cabrões dos comunas e ao google earth, dou por mim a relativizar as atrocidades do anterior regime que, objectivamente, independentemente do seu carácter anti-histórico, etc., empalidecem do ponto de vista do impacto que tiveram na história pessoal da generalidade dos portugueses contemporâneos do estalinismo, quando confrontados com a vidinha que, para exclusivo bem das “gerações futuras” levava o cidadão soviético da cidade ou do campo (dou de barato a questão da guerra, se bem que se o nosso ditador à nous poderia ter tomado uma outra opção, o que lhe é, de resto, censurado por alguns atrasados mentais que julgam que desperdiçámos a nossa janela de oportunidade de ascensão ao “desenvolvimento” ao não termos sido trucidados pelos americanos na segunda guerra. Curiosamente alguns destes imbecis pretendem negar essa vantagem aos iraquianos e criticam a intervenção do Butcher) na mesma época.
    Os crentes, aturam sem desfalecer o que julgam ser os caprichos de uma criatura omnipotente a que chamam Deus. Fui atropelado e fiquei paralítico e zarolho? São os desígnios de Deus. Saiu-me o euro milhões, Graças a Deus…
    Os comunas não necessitam de criaturas imaginárias. São gente bem objectiva. Há um fdp de carne e osso por quem literalmente se apaixonam e decide de vida e morte sobre eles, aos milhões (poucos milhões, mesmo assim, diz o amigo Vilarigues ). Inspira-lhes devoção e terror místico, perguntem aos miseráveis que pariam aqueles textos de louvor ao grande líder numa linguagem que repugna, acreditam sempre: Que Viva Estaline, Longa Vida a Mao TseTung! Matou uns milhões? Era necessário… e de resto nem foram tantos milhões como isso. E passámos a ser autónomos no fabrico de canhões!
    “Estaline, goste-se ou não dele…e porque não deveriamos gostar dele, mano, ele não é assim tão bom, NA SUA INFINITA SABEDORIA?
    Abjecto.
    Agora percebo a exemplar coerência do discurso dos Torquemadas e Savonarolas do Vidal

  13. Luis diz:

    A insensatez de trazer o Estaline para este debate do Muro de Berlim deu o pretexto ao Rui David para novamente exercer o infame exercício de igualizar comunismo ao nazi-fascismo. O costume. O mesmo fado estafado do anti-comunismo. O Rui sabe que já não convence ninguém, mas continua a insistir nas mesmas patacoadas miseráveis.

  14. Carlos Vidal diz:

    caro rui david, longa história, longa história, a sua e a história da emancipação humana. Pena ser muito adjectivante, quer dizer, parece-me que o seu comentário, riquíssimo (sem ironias) já estava escrito antes de ler os dos outros, e aqui tende a surgir em interacção com o do Pedro Pousada, mas parece-me demasiadamente premeditado e nalgumas partes confuso. E rígido (embora irónico e bem humorado). Rígido, comparado com o do Pedro, que nos fala de uma mudança ou revisão de opiniões sobre alguém em concreto depois de trabalhar, consultar documentos, bibliografia, em suma, pensar. E é de pensar (mesmo que em sentido contrário ao desejado) que necessitamos.

    Claro que tenho de mandar daqui um abraço para o Pedro Pousada, pois é com muito gosto que vejo passar por aqui um colega artista e colega professor (apesar dele trabalhar em Coimbra e eu em Lx). Mas o comentário do Pedro é pungente. Aprecio imenso quando se sabe mudar de opinião e se alicerça essa mudança em investigação sólida, havendo disponibilidade para cada vez aprofundar mais investigações e pesquisas encetadas.

    de resto, serve também isto para lhe dizer, caro Luis, que o Pedro Pousada fala de Estaline indo assim ao encontro do meu post onde digo que a formulação de clichés anti-soviéticos, ou o isolado elogio da “liberdade” (como se fosse um produto de compra e venda, mas que o capitalismo se desengane, pois não é), são modos de não-pensar.

  15. tenho estado a rever o funcionamento da horta, adquiri uma 3ª vaca ( uma questão de transporte, um produto Phantom ), contudo não deixo de reflectir na autonomia dos jeans meslier e tonis de matos, apesar de ao correr da pena a coisa ressentir-se da arte.

  16. Luis diz:

    “o Pedro Pousada fala de Estaline indo assim ao encontro do meu post onde digo que a formulação de clichés anti-soviéticos, ou o isolado elogio da “liberdade” (…), são modos de não-pensar.”

    Eu ao ler a denúncia da Bruni de la Motte sobre os 75.000 investigadores, cientistas, académicos alemãs orientais saneados, veio-me à lembrança os 500 mil comunistas indonésios mortos no golpe de Suharto em 1965 e os restantes 2,5 milhões mortos, muitas vezes nas mesmas casa… e os comunistas presos, torturados e mortos no Chile de Pinochet que lutaram na clandestinidade ombro com ombro com socialistas (igualmente presos, torturados e mortos) e com militantes do MIR (igualmente presos, torturados e mortos)… A jovem comunista brasileira que conheci no final da década de 70, violada vezes sem conta pelos polícias da secreta brasileira e irremediavelmente marcada para o resto pelas torturas físicas que lhe deixaram uma perna maior que a outra… Os talvez 200.000 ou 250.000 de cidadãos timorenses desaparecidos – um quarto da população! – proporcionalmente o maior genocídio do século passado.

    Eu imagino as humilhações que nestes últimos 20 anos a população da RDA foi sujeita. E não consigo deixar de pensar quando é que ouviremos outras Bruni de la Motte. Tivéssemos mais depoimentos secos, objectivos quanto o da Bruni de la Motte certamente haveria menos clichés anti-soviéticos e menos ousariam o isolado elogio da “liberdade”. Talvez que depois do luto, começaremos a ouvir os cidadãos da RDA.

  17. Carlos Vidal diz:

    A arte, sempre a arte, Grande Jecta. (Então e o Prós & Prós, visto desde aí da horta?? — Não, não estou a ver televisão: estou e desenhar programas de Unidades Curriculares e ECTSSSsss. Ora bem.)

  18. pedro pousada diz:

    Já vi que é proibido falar de Stalin; causa urticária e doenças nervosas aos que acreditam que as revoluções se fazem sem sangue – mas as revoluções nunca foram festas da fraternidade, é nelas que, para citar um antiestalinista convicto, Marshall Berman, os homens descobrem que a multidão está dividida entre os que são nossos camaradas e os que não são e nessa altura é preciso escolher de que lado se fica e ao atravessarmos a fronteira também corremos riscos, cometemos erros, falhamos e quantas vezes não somos obtusos…
    E sim, Stalin estava morto (não tenham medo ele não ressuscita) e despromovido em 1961 quando ergueram o inevitável muro (já agora, Gordon Matta-Clark ironizava no texto da sua intervenção Made In America (1976) que a rapidez com que tinham erguido o muro em torno de uma cidade como Berlim ser inversamente proporcional à rapidez com que o governo de Nova Iorque tapava os buracos nas ruas; a german design machine em acção…) mas isso não significa que a linha leninista defendida e desenvolvida por ele não estivesse viva entre os camaradas alemães e que não houvesse um feroz luta de bastidor para impor a linha revisionista de Krutchov a todos os partidos comunistas; e para quem pensa que os kulaks (4% do campo soviético) era uma boa gentinha indefesa (estilo aqueles pândegos que andaram a incendiar em 1975 as sedes do PCP no Minho e que mais não fizeram (e bem queriam…) porque tanta balbúrdia podia estragar a imagem de democratas dos seus donos ) ou que a União Soviética de 1930 tinha fronteiras impermeáveis ou que os seus inimigos externos (a Polónia de Pilsudski que ocupava metade da Ucrânia e da Bielorussia, o Vaticano (leiam o Malaparte), os Junkers alemães, a alta finança europeia que criou o Terceiro Reich) não andavam a cozinhar a contra-revolução com os inimigos internos do bolchevismo (olhem para o que se passa nas fronteiras entre a Colombia ou a Venezuela, para a infiltração paramilitarista, dominando os transportes rodoviários, comprando terrenos, associando-se ao capital local, subornando autarcas e militares de direita, esperem e verão…) leiam o que escreveram sobre a sabotagem os engenheiros norte-americanos que trabalharam na revolução industrial soviética, ou as palavras de ordem dos lideres mencheviques no exílio que sabiam a importância e o peso do factor subjectivo na recém nascida ordem socialista (infiltrar o PCR (B), miná-lo por dentro, desacreditá-lo junto das massas, explorar as divisões, alimentar o fraccionismo tendo como horizonte o golpe de estado, procurar oportunidades para desarmar a revolução despolitizando o exército vermelho (como aconteceu nos finais dos anos vinte com a eliminação da figura do comissário político e a penetração de elementos czaristas supostamente reabilitados nas hierarquias militares-estudem a traição de Tukhatchevsky); na Transcaucásia como em outras regiões onde o poder soviético era residual (o desenvolvimento também é desigual para campo socialista) os Kulaks organizaram no período da colectivização da terra sublevações armadas com bonitas palavras de ordem tipo “todo o poder aos sovietes, é preciso regressar a lénine” e ao mesmo tempo que incendiavam edifícios estatais, colheitas e gado das cooperativas e, sim, assassinavam miltantes comunistas, pois eles continuaram a ser vítimas da contra-revolução mesmo muito depois de acabada a guerra civil (já viram a longa-metragem Siberíada de Mikhail Konchalovsky?). A luta de classes de cariz anti-soviético permanecia intacta e activa na Rússia da década de 1930.
    Quanto a comparar a iliteracia e a pobreza no campo português à revolução cultural que se vivia no campo soviético, só por pura ignorância se pode fazer tal comparação(leiam de Serguei Tetriakov- O escritor e a aldeia socialista, Tetriakov que foi, infelizmente, vítima das purgas de 1937; leiam o foreword que Devin Fore escreve na October 118 (Fall 2006) sobre o tema da factografia). Os russos ainda hoje comemoram o início da maior campanha de alfabetização da história da humanidade em 1919: os telejornais do canal Vesti falavam há bem pouco tempo das reformas pedagógicas iniciadas pelos comunistas, mostravam cartas de camponeses idosos que, explicava a historiadora convidada, a primeira pessoa a quem escreveram do seu próprio punho foi a Lénine; relembrou-me o que se passa agora na Venezuela, na Bolívia e no Equador em que finalmente aqueles que nunca tiveram o direito a ser crianças e agora são idosos conseguiram conquistar o reino das palavras! È quase obsceno comparar o culto do analfabetismo e da superstição à revolução intelectual, linguística, aos avanços científicos e tecnológicos promovidos pelo poder soviético porque o que esse mundorural inventado pelo fascismo português nos deixou em 1974 foi a maior taxa de mortalidade infantil da Europa, a maternidade precoce, a gravidez sem assistência,as famílias pobres e numerosas, as doenças endémicas, a subnutrição, o raquitismo, o aborto clandestino, os filhos naturais, o trabalho infantil nas fábricas e nas casas burguesas, a prostituição da maternidade proletária, a submissão ao poder clerical, os pés descalços, a emigração.
    Parafraseando o filósofo comunista russo Richard Ivanovitch Kossolapov”não sou um stalinista mas um partidário e um defensor do socialismo real” e se houve alguém que de concreto lutou pela “destruição do poder absoluto do Capital e da ameaça imperialista”, esse alguém foi Stalin.

  19. Luis diz:

    E o Pedro continua a falar do Estaline e a nem sequer mencionar o muro e os alemães da RDA. É pena.

  20. rui david diz:

    O Carlos Vidal engana-se parcialmente quando acha que o meu comentário é “independente” dos comentários acima. O meu comentário, se bem que baseado em reflexões próprias (pronto, chamemos-lhe assim para facilitar), como seria inevitável, é antes uma reacção de espanto ao comentário do Pedro Pousadas.
    Na realidade, até tinha decidido não comentar este post por achar que de acordo com uma certa ética blogoesférica não escrita poderia cair má onda um excesso de comentários meus nest blog. De forma que me limitei a admirar o labor do bom luis, a sua admiração pela Bruni, a sua generosa preocupação pelos “75.000 investigadores”, etc…., até surgir o tal fatídico comentário do Pedro Pousadas.
    Daí, também, o ar confuso do meu comentário. Mais do que tentar clarificá-lo, aprofundá-lo, insistir, etc., parece-me mais interessante assinalar que com esta discussão estamos aqui a colocar uma dificuldade desnecessária ao bom controleiro luis. E não é por causa do paleio do rui david que, como ele acertadamente reclama, “não convence ninguém com as suas patacoadas miseráveis”, esquecendo de caminho (como nada acontece por acaso eu seria tentado a acrescentar “omitindo”), que os bloggers do 5dias são os principais culpados disto ( a haver processos estão todos f$%&$os, isto vos garanto eu) uma vez que até ao momento não me vedaram o acesso às caixas de comentários o que resolveria facilmente a questão para tranquilidade do luis e sem a minima beliscadura da ética bloguística.
    O bom, simpático e abnegado luis, militante leal e consciente estava assim posto em sossego, entre amigos, entregue às suas traduções da de la Motte Bruni (que proletário em aço bem temperado poderá evitar fantasiar um pouco sobre a matéria que dá corpo a tão sugestiva designação?), aos seus relatórios… e eis que chega, de onde menos se esperava, o desassossego.
    Este Pedro Pousadas é que é o cerne da questão.
    Da “questão central”, como diria o tio Jerónimo.
    Pedro, como bom admirador do estalinismo, não deixou de ler as entrelinhas das advertências fraternais do bom luis, verdadeiro controleiro proletário, leal, disciplinado, atento e diligente:” Eu francamente não entendo o que é que o muro de Berlim tem a ver com o Estaline” e depois, já um pouco mais exasperado… “A insensatez de trazer o Estaline para este debate do Muro de Berlim deu o pretexto ao Rui David para novamente exercer o infame exercício de igualizar comunismo ao nazi-fascismo”… e extraiu a devida conclusão, “Já vi que é proibido falar de Stalin”… e toca de avançar com mais uma carga de cavalaria digna de um Tukhatchevsky (antes de…, está subentendido, porque eu respeito a dignidade dos verdadeiros revolucionários e não confundo as diferenças objectivas entre antes de… (heróicas) e depois de… (infames)).
    Pois… é que com esta defesa estruturada do Estaline, o Pedro vem colocar de novo no mapa a velha história do grande cisma do movimento comunista internacional, isto é, Estaline ou não Estaline, eis a questão. Questão quente na medida em que o PC português alinhou à época com as “teses” do Krutchev, a primeira pedrinha no caminho que culminaria na “catastroika”, contra a “extrema-esquerda” Estalinista, e agora se vê confrontado, via distância histórica (desculpem mas não resisto ao paralelismo histórico inevitável entre este florescer revisionista do período estalinista e a tentativa entre alguns analistas “liberais” de apresentarem, entre nós, o marcelismo como uma espécie de “golden era” da história portuguesa recente) com a evidente vindicação, a partir do interior do conjunto fechado dos simpatizantes do PC, das teses dos arqui-inimigos “esquerdistas” (o Grande Francisco Martins Rodrigues…) que nos anos 60 romperam com o Partido por causa ou pelo menos a pretexto visível, desta questão.
    Esta revisitação/reabilitação do Estaline é coisa grande, épica mesmo.
    Capaz de inflamar uns quantos, portadora de “anormalidade” para citar o Carlos Vidal de uns posts abaixo. Até nos detalhes que sendo “honestos” dão colorido ao quadro pintado pelo Pedro: “Tetriakov que foi, infelizmente, vítima das purgas de 1937…” porquê? seria Kulak? Por tendências direitistas destrinçáveis no título da sua obra prima “O escritor e a aldeia socialista”, um título que vendo bem é objectivamente suspeito de idealismo e outras coisas mais o que plenamente justifica a sua purga…? Trotskismo? Conspiração com agentes alemães? Esquerdismo? Qualquerismo? O que é certo é que o “infelizmente” está aqui, nitidamente a mais e estes arroubos de sentimentalismo deveriam, no futuro, e para bem da construção do homem novo, cerceados.
    Enquanto Pedro Pousadas traça um “fresco” prenhe de directrizes para um futuro auspicioso, ( e mais uma vez, a obra prima do Kiefer que acompanha o post é uma escolha excelente para ilustrar o debate, e talvez seja bom auspício a projectada instalação do Kiefer em Portugal (entre outras coisas por ser, paradoxalmente, um país pacato e “normal” que lhe crie condições de sossego e isolamento propícias à criação)) ultrapassando quanto a mim em talento revisionista o consagrado professor Grover Furr uma vez que este erige como matéria a salvar, a “figura” de Estaline, democrata insigne, lutador pela preservação dos processos democráticos, enquanto a démarche do Pedro visa mais longe, a reabilitação do processo no seu todo (tirando o pequeno desvio motivado pelo “azar” do Tetriakov, que depois do “escritor e a aldeia…” merecia, talvez, pelo menos, a oportunidade de purgar em vez de o ser), o pobre luis, diligentemente atreito à doutrina oficial apenas pretende o refúgio e o conforto do Muro. O luis é um “WALL-huger”. Luis só aspira à “normalidade” do “pleno enprego” e da sombra tranquilizadora do Muro e os seus “necessários” check points, o seu arame farpado, o labor penitenciário e talento em tiro ao alvo dos seus guardas, empenhados em poupar os seus concidadãos e concidadãs a um destino atroz, na anormalidade da liberdade.

  21. e o piorzinho que há para a arte são os grandes retirantes e ressentidos arquitontos, todos desejosos de pintar a manta com djanovianas flechas, no reino noménico da verdade definitiva, à medida que deixam de ser rústicos, tornam-se burgueses ou solidários da burguesia. Acultura-me-os, para os sufocar é mais eficiente abrir uma escola, faculdade, centro de investigação do que instalar um posto da guarda e que tais.

  22. Carlos Vidal diz:

    rui david, repare: nem um só argumento…
    Ainda vou esperar um, um só, de si…
    (e “em si”, como diria o AlmaJecta)

  23. Luis diz:

    “rui david, repare: nem um só argumento…”

    Mas, por oposição teve um gozo indisfarçável a ridicularizar a “formiguinha” que percepcionou em mim. E um cuidado particular em desvalorizar o corajoso testemunho da Bruni de la Motte. Parece que é isto que mais receiam, que mais Bruni de la Motte desatem a testemunhar.

  24. Luis diz:

    “Luis só aspira à “normalidade” do “pleno enprego” e da sombra tranquilizadora do Muro”.

    Mas não é isso que hoje mais se ambiciona em todo o mundo, por homens e mulheres de todas as gerações, o emprego com direitos? Não é essa ambição que leva milhares a morrerem afogados nos mares deste mundo, ou abatidos a atravessar tantos muros de tantas fronteiras, ou a abandonar filhos e pais a milhares de quilómetros de distância? E a busca da segurança, não é essa a principal preocupação de tantos milhões de refugiados por esse mundo fora e de tantos milhões de deslocados no Iraque, Afeganistão, Sudão, Somália, por exemplo?

    Pleno emprego e segurança são hoje sinónimo de fim da exploração. E este continua a ser o espectro que atormenta os ruis davids deste mundo, os defensores das inevitabilidades.

  25. J. Urbano diz:

    Pena que esses muitos milhões queiram emigrar para países onde impera o nefando capitalismo liberal, de emprego precário e outras barbaridades. Não me lembro de vagas de emigrantes nos anos 50, 60, 70 ou 80 a quererem deslocar-se para os paises da cortina de ferro.

  26. Mexilhão diz:

    Pàzinho, Luís. Se “pleno emprego e segurança são hoje sinónimo de fim da exploração”, explica prá gente se esses são os grandes objectivos da “revolução socialista proletária”.
    Esses, de facto, foram os que a “Grande Revolução Socialista de Outubro” proporcionou aos proletários russos. Com fracos resultados, como se viu. Aquilo eram filas e filas de gente à porta das lojas para comprar alguma coisinha.
    E não te abespinhes tanto com os teus camaradas que aqui louvam o “Pai dos Povos” Estaline. É que ele foi mesmo o grande impulsionador da revolução socialista. Aquela merda tinha chegado a um impasse, e sem colectivização forçada não haveria socialismo pra ninguém.
    Só que os “erros” apontados pelo teu querido partido para a queda do comunismo foram precisamente os que o tornaram possível. Se vires bem, sem um querido líder, não haveria socialismo ou comunismo pra ninguém. E com dinastias de queridos líderes, quais monarquias hereditárias, então, é uma lindeza.
    Pensa, pensa, como te recomenda o camarada Vidal, porque de facto a liberdade não enche barriga a ninguém. Era também o que pensava aqui o Salazar.
    Pensem, pois, cabecinhas pensadoras…

  27. Luis diz:

    Pois eu acho que ter um emprego com direitos, uma carreira profissional onde se possa ter sucesso e pôr em prática os saberes e conhecimentos, um salário e um horário de trabalho mais justos é a base a partir da qual uma pessoa está em condições de ser independente, de usufruir dos seus tempos livres, de participar na vida política, social e cultural e projectar com segurança e confiança a sua vida e o seu futuro.

    É a partir desta base que está em condições de ser um protagonista activo nas suas próprias causas, de, pensando com a sua própria cabeça, evoluir na consciência e descobrir que à força própria que reside em qualquer pessoa tem mais força quando se junta e luta com outros e se transforma numa força de ruptura e de mudança!

    Numa sociedade dividida em classes, em que o poder económico cada vez mais se sobrepõe ao poder político, ninguém pode esperar que os direitos, aspirações e sonhos serão concretizados pela dádiva ou rebate de consciência dos que por razões da sua própria natureza vivem da exploração e para amassar lucro ao lucro.

    E como eu podem ter a certeza que pensa a grande maioria. Obviamente a maioria dos pés rapados e que não têm papás ou padrinhos ricos, nem heranças, apenas a força dos braços (e da cabeça) para viver e para alimentar a sua família. Ou constitui-la.

  28. Mexilhão diz:

    Pàzinho, Luís.
    A liberdade não enche barriga, como lembra o teu camarada Vidal. Mas liberdade e barriga cheia faz esquecer a revolução. É precisamente o contrário do que tu mal pensas. E, mesmo sem liberdade (que é diferente de alguns direitos individuais provenientes da libertação da sociedade patriarcal, que o comunismo promoveu), coisa desnecessária para quem nunca a tivera, trabalho e barriguinha cheia (mesmo com falhas no abastecimento de muitos bens correntes), foi o que fez com que milhões de trabalhadores passassem a idolatrar queridos líderes de regimes totalitários. Na URSS, na Alemanha hitleriana ou mesmo aqui, em que o líder Salazar não apreciava manifestações das massas nem proporcionava grande fartura.
    Tu não conheces, mas podes ir à net e veres o que foram os trinta gloriosos anos do após guerra, conhecidos por fordismo: pleno emprego (que é como quem diz, desemprego marginal), crescimento dos salários indexado à produtividade, baixa inflação e crescimento do salário real, enfim, prosperidade para os pés rapados dos trabalhadores, como tu os chamas. Juntamente com as parcas liberdades da democracia burguesa, não só fez esquecer a fome e a miséria provocadas pela guerra como remeteu a ideia da revolução para o caixote do lixo. Vê tu bem que até obrigou a mudanças no próprio comunismo, com as tentativas kruschovianas de aligeirar o totalitarismo e de melhorar a produtividade, para que o fosso entre níveis de vida não se fosse alargando. Tentativas goradas, todas elas, porque o comunismo não é reformável.
    Aquilo que vocês, sem pudor, propalam acerca das realizações do comunismo e da sua pretensa contribuição para a grande melhoria do nível de vida dos trabalhadores nos países capitalistas só pode resultar duma autêntica lavagem ao cérebro, ou da vossa incapacidade para pensarem e para verem além da propaganda mais ridícula. E os males que atribuem ao neo-liberalismo (saberás o que é?) são a extensão dos benefícios do capitalismo a milhões de pobres que vegetavam nas economias arcaicas, estagnadas, dos regimes comunistas. O caso da China, esse farol do socialismo e do comunismo, por tão elucidativo, não te faz pensar um pouco? Nem um pouco? E quando o Barraca Abana vencer a oposição ultra conservadora americana e normalizar as relações com Cuba, adeus ò ditadura dos Castro, porque os pés rapados cubanos mandarão o próspero socialismo cubano às malvas.
    Comecem a pensar, cabecinhas pensadoras…

  29. Luis diz:

    “os trinta gloriosos anos do após guerra,” que se foram, que não tornam a vir, o desemprego na casa dos 10% (na pratica é o dobro) aí está, em força no Ocidente, em todo o lado: Japão, USA, UE! E para continuar. Emprego com direitos e segurança existe em Cuba (juntamente com a tal educação, saúde, etc…) Emprego com direitos e segurança existe na China, Vietname. Com muita liberdade e principalmente com acesso a toda a informação. Os povos sabem o que se passa no Ocidente. Nós é que não sabemos que, por exemplo, nos USA 55% total do orçamento federal estão indexados ao pagamento das despesas da guerra. E como nós, não sabem os da UE. Mas os outros sabem e discutem e vêem que o ocidente está doomed! Isso mesmo está condenado. O futuro é o socialismo.

  30. Mexilhão diz:

    Pàzinho, Luís: tu estás cego. “Emprego com direitos e segurança existe em Cuba (juntamente com a tal educação, saúde, etc…) Emprego com direitos e segurança existe na China, Vietname. Com muita liberdade e principalmente com acesso a toda a informação”?
    Vai a Cuba fazer uma operação às cataratas. Depois, fica por lá uns tempos, para gozares do paraíso socialista. Se não voltares, é porque te agradou.
    As melhoras. Sinceramente (sem sarcasmo).

  31. Justiniano diz:

    Caríssimo Pedro Pousada – Sem dúvida, o que diz de Stalin é, sem dúvida, recognitivo. Mas no entanto o mesmo poderia poder dever ser dito de Gaule, Meiji, Deng…A questão mais relevante, muitíssimo mais, seria a de saber se tal tecno-nacionalismo poderia emergir sem os tais personagens providenciais….
    Quanto ao seu segundo comentário, que dizer dos apicultores de Sikkim, dos pescadores de Djamena, dos Pastores de Mindanau!!??

  32. pedro pousada diz:

    Antes de mais um abraço ao Carlos Vidal, peço desculpa por não ter retribuído atempadamente o cumprimento.
    Respondendo, muito atrasado… aos que dizem que não falo do muro: a construção do muro de Berlim não foi um crime contra a humanidade e não será o muro do mea culpa comunista por muito que insistam os revisores da história. Para quem se reclame partidário do marxismo-leninismo devem cair em saco roto as indignações dos que desfocam o resto da esfera terrestre e a sua história política para ampliarem como um fenómeno sobrenatural um perímetro de barreiras e de arame farpado que foi sobretudo um mal necessário. Todos os regimes têm os seus muros, as suas fronteiras, as suas câmaras de vigilância. Ou não existe nos dias que correm maior muralha assassina do que a que se ergue no mare nostrum europeu, no Mediterrâneo setentrional? Os trânsfugas da DDR não desembarcavam já defuntos nas praias do Báltico. E a pretensa mobilidade e livre arbítrio do homem ocidental dependem do lugar da hierarquia social em que este se encontra e da sua posição geográfica: um homem ocidental do Burkina Faso ou da Guatemala ou dos bairros pobres de Baltimore tem menos hipóteses de se transformar num turista e mais hipóteses de ter que conhecer o mundo lá fora por questões de sobrevivência económica, no caso da miséria estacionária norte-americana viajando à volta do mundo como membro do Marine Corps e chorando os corpos despedaçados dos seus camaradas mortos nas montanhas afegãs.
    O muro cumpriu a sua missão, uma missão, que pelas suas características, seria sempre incompleta e imperfeita; mas, eu vejo-o sobretudo como uma barricada que lutava em condições desiguais contra o buraco negro que representava a economia alemã ocidental sobre os recursos humanos qualificados que eram produzidos pela economia social da DDR.
    É anti-económico quando a despesa de um Estado com a educação e com a formação de mão-de-obra qualificada vai contribuir sem qualquer retorno para a riqueza de outros Estados; é o mesmo que o nosso vizinho fornecer-se do que encontra no nosso frigorífico, reclamar quando ele está vazio e, como não lhe chega o recheio do frigorífico, conspirar para se apoderar dos nossos bens; chega uma altura em que temos que por um cadeado e inspirar-lhe algum respeito. As bofetadas que a Alemanha Oriental foi aguentando estoicamente durante os doze anos que separam a fundação da república socialista à construção do muro são agora convenientemente ocultados assim como se calam os soldados fronteiriços da DDR mortos a tiro, se declaram proscritos esses crimes e se persegue até à exaustão os supostos autores materiais e morais das vítimas do muro.
    É necessário relembrar que os territórios que constituíam a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental não se equivaliam em termos de desenvolvimento económico e industrial; nem no período da república de Weimar (1919-1932) e muito menos no período do Terceiro Reich (1933-1945); não se pode por isso estabelecer comparações entre o que era a vida num e noutro território no segundo pós-guerra sem se avaliar os pretéritos dessas duas economias e as respectivas heranças de destruição e miséria provocadas pela guerra; mais ainda sabendo-se que foi a DDR quem pagou a grande fatia das indemnizações pelos danos causados à União Soviética, pois a Alemanha Federal recusou-se a fazê-lo, apoiada pelos E.U.A, o grande vencedor económico da segunda guerra mundial.E.U.A. a quem interessava sobretudo preservar um novo mercado para os seus produtos e para os seus investimentos e tornar a nova Alemanha num aliado na guerra que movia à União Soviética (leiam O que escreveram Truman, Churchill e Allan Dulles). A Bacia do Ruhr, as grandes praças industriais e metalúrgicas situavam-se a ocidente e estavam praticamente intactas terminada a guerra, (curioso ou não?).
    Inúmeros factores subjectivos reverteram a paliçada que se ergueu em torno da Berlim montra risonha do capitalismo num símbolo da Alemanha dividida, um símbolo que o agit-prop anticomunista brandiu até à exaustão expondo-a como a contradição mais flagrante do socialismo real; mas não me incluo entre os que comemoram o seu fim isso significaria juntar-me a uma burguesia mundial homicida e liberticida, uma burguesia cada vez mais omnipotente (acabado que está o contra-peso económico e político da União Soviética) e cujo instintos predatórios e revanchistas nos encaminham para a auto-destruição. Ao pé do que eles agitam, (é ler e ouvir as suas receitas filantrópicas e muito cristãs-modernas para a crise económica) o muro de Berlim é insignificante para o cálculo geral da história humana. Os homens e mulheres das reuniões secretas do clube Bildeberg, da comissão Trilateral, do fórum de Davos, do Clube de Roma, as mentes brilhantes, os especialistas oficiais em assuntos económicos, os jornalistas do regime não tem nada mais para nos oferecer do que mais exploração, mais empobrecimento e mais idiotismo mediático.
    O que nos aguarda é bem pior que a aparente não-liberdade do socialismo real: em nome da competitividade e da produtividade as massas assalariadas serão lançadas às bênçãos do extermínio do contrato colectivo, dos baixos salários pagos à hora sem subvenções, sem abonos; o endividamento perene está aí assim como a deslocalização geográfica arbitrária e as dezasseis horas de trabalho diário. Vejam como, (copiando os seus antepassados do thermidor e do bonapartismo que odiavam o descanso operário), os sabujos e os agonistas do neoliberalismo extasiam-se com o culto do trabalho pelo trabalho como se o ser humano existisse apenas para a triangulação sisifiana do boulot-metro-dodo. Eles vociferam, sem vergonha da crise em que lançaram o mundo, que ou aceitamos a especulação do capital fictício ou é o fim do mundo.E não pode haver maior muro do que esse em que se concebe a sociedade como um território privado entregue à acumulação por despossessão (sic David Harvey).

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