Haverá democracia possível quando se generaliza a ideia que vivemos numa cleptocracia?
15 de Novembro de 2009 por Tiago Mota SaraivaO elogio que ontem resolvi fazer à famosa (e alegada) mão de Vata, destacando sua a brilhante frase recente “Eu digo que não marquei com a mão, mas o lance foi tão rápido, estava tanto vento, que é melhor ficar o ponto de interrogação”, provocou celeuma.
O André Levy, nos comentários ao post, escreve (e bem) que pelo menos havia um árbitro provavelmente imparcial que sucumbiu à pressão das massas que, esclarece e rectifico, rondavam as 130000 almas.
Mas o meu exemplo da alegada (sempre alegada!) mão de Vata pretendia ir por outro caminho até porque, no plano jurídico estamos conversados. A partir do momento em que o árbitro indica o centro do terreno é golo e o caso é arquivado.
Contudo o caso não foi esquecido e, ainda hoje, Vata o procura justificar com o vento ou com a rapidez da jogada. Eu, benfiquista, acredito piamente em Vata e indigno-me contra todos os que afirmam que o esguio ponta de lança não tinha ombro para lá chegar.
Ora isto serve para explicar muita coisa.
Um ex-administrador do BPN ou da SLN indigna-se pela forma como gente que deu tanto ao país está a ser tratada, os colegas de Sócrates defendem a cientificidade e rigor da UI, os responsáveis pelos despachos sónicos no caso Freeport dizem que o referido processo é político e que decorre de uma campanha negra contra o ministro do ambiente de então, ministros e dirigentes do PS fazem tudo para que as escutas ao primeiro ministro sejam destruídas, independentemente, de saberem os seus conteúdos.
Só assim se pode explicar que seja entendido como um perigoso atentado à liberdade individual, que José Sócrates, no decorrer de escutas a um suspeito de corrupção, tenha sido alegadamente apanhado, entre outras coisas, a interceder junto da banca privada para que um grupo de comunicação social que lhe é amigo obtivesse vantagens económicas ou referido um processo de compra de um canal de televisão que afirmou no Parlamento desconhecer.
Que, quem tem responsabilidades no sistema vigente, fale em “espionagem política” ou, nos momentos mais inflamados, refira que está em causa o estado de direito, é perfeitamente natural, tendo em conta que falta a força poética e sapiência de um Vata que culpe o vento. Que, no Estado a que chegámos, a Justiça se atropele diariamente em torno de um abraço de urso do poder, também me parece natural.

Eu preferia é que isto fosse futebol.

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