Uma questão de transportes, 2.2

As motas não matam de propósito; o seu propósito é transportar pessoas, permitir que algumas se vistam de cabedal negro, que outras esvoacem cabelos compridos, quando sentadas atrás do condutor, etc. Aquilo, porém, que é sem dúvida um efeito secundário e indesejável (i.e., a perigosidade deste modo de transporte e o carácter tendencialmente letal dos acidentes que origina), é elevado por alguns dos cultores das motas a raison d’être do seu culto: um pouco como aqueles toureiros bastardos que glorificam o sangue na arena mais do que a arte de tourear, estes outros desviados coleccionam cicatrizes na vida e mostram-se também dispostos a tudo. O esteticismo é claramente uma perversão do espírito: esta sua variante particular – cantar a vertigem da velocidade extrema, o risco desmedido e insensato, a nobreza da pega de caras consumada em cima de um maquinismo motorizado de duas rodas a não-sei-quantos quilómetros por hora – seria apenas risível se não fosse mais do que isso patética (porque o patético nunca está ausente dos velórios e enterros).

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SEXTA | António Figueira
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