Uma questão de transportes, 2.2.1

O D.C. é a grande figura de sobrevivente da nossa geração: da garrafa de White Horse que partilhámos na Páscoa de 76 partiu para muito mais altas cavalarias, onde eu já não cabia: ácidos, pós e finalmente um grande estoiro de mota benfazejo, dois anos e meio depois, que o agarrou a uma cama de hospital, lhe roubou um ano de vida, mas provavelmente o salvou de um fim ainda mais inglório: saiu limpo da experiência, com meio quilo de platina no corpo, mas a esta hora advoga, é casado e pai de filhos (numerosos), e vi-o um destes dias a sair da missa na Basílica. É em boa parte por causa do D.C. (a quem eu quero bem, entenda-se), que eu desconfio tanto da figura do revoltado: a declamar Rimbaud aos berros no liceu, a fazer o Cristo na mota pela Infante Santo abaixo, a meter merdas no corpo que nem ele sabia o que eram, o homem era um “excessivo”, como ele próprio dizia, um “exaltado”, como eu lhe chamava; agora não é nada, porque ele também nunca foi nada por razão nenhuma.

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SEXTA | António Figueira
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