Arquive-se! Destrua-se tudo!

1989, não foi só o ano da queda do muro.
No antigo e saudoso Estádio da Luz, Benfica e Olympique de Marseille, defrontavam-se por um lugar na final da Taça dos Campeões Europeus.
Na primeira mão, em Marselha (num ambiente assustador), o Benfica havia perdido por 2-1. Bernard Tapie, presidente do OM e tipo sério até se ter provado o contrário, declarou no fim do jogo que se o seu clube perdesse a eliminatória deveria passar a ser tratado por Bernardette.
Chegados à segunda mão, 120000 pessoas na Luz e milhões em casa, empurravam o Benfica para o necessário golo que teimava em não aparecer.
Na segunda parte Eriksson lança na partida o emblemático Vata Matanu Garcia, mais conhecido por Vata, que aos 83 minutos, após um canto de Valdo e desvio ao primeiro poste do gigante Mats Magnusson, coloca a bola dentro da baliza.

No estádio rebentou a festa, sem que se reparasse nos insanos gestos dos jogadores do OM, referindo uma alegada mão da estrela benfiquista. Como refere Vata, quase vinte trinta anos depois e do alto da sua sapiência: “Eu digo que não marquei com a mão, mas o lance foi tão rápido, estava tanto vento, que é melhor ficar o ponto de interrogação”.
Depois de ouvir tantos comentadores, jornalistas sérios, deputados e ministros socialistas a defender uma incompreensível necessidade nacional de arquivar e destruir as escutas gravadas entre o primeiro ministro e Armando Vara, só as sábias palavras de Vata, conseguiram elucidar-me sobre este imperativo do Estado de Direito.
É melhor ficar o ponto de interrogação.

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10 respostas a Arquive-se! Destrua-se tudo!

  1. Diogo diz:

    Não é não! Eu exijo ouvir o que Sócrates e Vara (um tipo que passou de caixa a figura de 1º plano da finança nacional) disseram um ao outro. Porque não tenho confiança nenhuma em políticos, em jornalistas, em juízes e em procuradores. Quero tudo em pratos limpos.

  2. a@a.pt diz:

    20 anos depois, não trinta.

  3. Eu fui um dos (consta) 130 mil no Estádio da Luz. Embora a lotação máxima oficial fosse 120 mil, só noutra ocasião – creio que em 1991, num jogo consagrando o campeonato ao SLB – vi o magnifico Estádio da Luz, com os majestosos 3 anéis, tão empacotado de gente. Tenho saudades desse velho estádio. O rabo fica frio e dorido, mas havia um calor humano que uma mera capacidade para 65,400 pessoas não alcança.
    Mas quanto à analogia entre o golo de Vata (ou a mão do deus Maradona) e as escutas entre Vara e Sócrates, tendo a concordar com o Diogo. No caso Vata, havia um árbitro, que neste caso creio se poder considerar imparcial. Pode ter-se enganado. Pode ter sucumbido ao Inferno da Luz. Mas a decisão cabia-lhe a ele. Não havia um árbitro imparcial a acompanhar as conversas entre Sócrates e Vara, nem estas foram “lances rápidos”. Foram várias conversas e certamente muito conscientes, não reflexos instantâneos.
    Mas não concordo com o Diogo na sua desconfiança transversal em tudo e todos. Aliás, se não se confiar em nenhum político, jornalista, juiz e procurador, poucos restam para “limpar os pratos”. Que as gravações sejam tornadas públicas não vejo mal. Que cada um as ouça e tire as ilações com a devida informação. Não creio que se possa alegar “segredo de Estado” ou “perigo para a segurança nacional” caso elas passem ao domínio público. Mas daí não decorre imediatamente nenhuma conclusão com efeitos jurídicos ou políticos. Quanto muito influenciará o voto eleitoral, ou a pressão sobre o Cavaco. Num Estado de Direito, por muitos defeitos que tenha, por muita corrupção e alinhamento com a classe social dominante que exista, um inquérito ou julgamento público é precisamente a sede indicada para tornar públicas as gravações. Independentemente da conclusão do inquérito ou julgamento, fica o registo público e a história absolverá ou condenará – como o fez com as defesas de Dimitrov num tribunal Nazi, de Cunhal num tribunal fascista, ou de Fidel no tribunal de Batista.
    Eu não sou obcecado pelo futebol (já fui em tempos de juventude), mas não concordará o mais fanático da bola que há uma grande diferença entre a validade de um golo para passar a uma final e um primeiro-ministro estar envolvido em tráfico de influências e mentir ao Parlamento e ao país?

  4. Diogo diz:

    André Levy: «Mas não concordo com o Diogo na sua desconfiança transversal em tudo e todos. Aliás, se não se confiar em nenhum político, jornalista, juiz e procurador, poucos restam para “limpar os pratos”.»

    Restam o resto dos portugueses (que são muitos). Meu caro André, é bom não esquecer que políticos, (boa parte dos) jornalistas, e (boa parte dos) juízes e procuradores, jogam todos na mesma equipa.

    Não é por acaso que não há nenhum figurão corrupto preso neste país. Não lhe parece?

  5. Diogo, quando escrevo para blogs, tenho claro algumas ideias, mas a própria escrita é para mim um processo de reflexão. É aliás essa a principal razão porque escrevo. A possibilidade de outros lerem e comentarem e se gerar um diálogo é um valor acrescentado. Confesso que ao escrever o comentário anterior me debati com a questão que levanta. Daí a minha alusão à influência da classe dominante no Estado o que equivale ao seu comentário de “todos jogarem pela mesma equipa”; e a concordância com o assunto ser tornado público. A questão que procurei reflectir foi “como” e “que consequências permitem diferentes modos de tornar as evidências públicas”. Não tenho ilusões sobre as teias da classe dominante nos vários sectores da comunidade (incluindo os governantes, a Justiça e a Comunicação Social) e portanto sobre a possibilidade da Justiça ser servida através destes meios. A falta de condenações pelos chamados “crimes brancos” é escandaloso não só em Portugal mas em todas as chamadas “democracias”. Enquanto nos EUA acompanhei dezenas de casos de políticos e CEOs nunca condenados, ou mesmo arguidos, por crimes que afectaram as vidas de dezenas de milhares de pessoas. Em Portugal a corrupção atinge níveis incríveis e está tão entrosada – aos níveis mais altos, mas também nos pequenos truques para fugir ao fisco dos mais pequenos – que se torna um verdadeiro entrave económico, social e político. Relembro a Proposta de Lei apresentada pelo João Cravinho, enquanto deputado do PS, que acabou por ser recusada pelo PS e levou à sua saída como deputado. O que me parece é que, apesar dos seus defeitos, um inquérito (que resulte num relatório público) ou um tribunal com registo público são eventualmente os melhores meios para tornar públicas as provas e argumentos. Daí a referência aos casos dos julgamentos de Dimitrov, Cunhal e Fidel, em tribunais bem mais parciais que os actuais.

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  7. Lima, o gajo de cabelo e andar esquisito que marcou o golo na primeira mão diz:

    Peço desculpa mas, em nome do bom nome do Sport Lisboa & Benfica, convém corrigir a data. Este épico jogo foi a 18 de Abril de 1990 e não de 1989.

  8. A.Laurens diz:

    É o fascismo encapotado. Fizeram a lei das escutas com benefício próprio. Resta saber o que deseja quem fez as escutas. Quanto à irresponsabilidade e impunidade de quem as fez, mostra a bandalheira e politização da própria Justiça. Quem tem moralidade aqui? Quem se salva?
    O melhor é cantar-mos
    Às armas, às armas…
    Contra os canhões, marchar, marchar…

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