Uma questão de transportes, 2.1

Durante anos, as Zundapps rurais, devidamente lubrificadas pelo vinho que dava de comer a um milhão de portugueses, pesaram indevidamente nas nossas estatísticas de sinistralidade rodoviária, obscurecendo o facto de as populações urbanas, deslocando-se já na sua maioria sobre quatro rodas, se comportarem de um modo que, tendencialmente, era também ele mais urbano – tanto quanto isso é possível no faroeste europeu. Eram muitas as vítimas, e nós – o país legal – olhávamos para elas com um estatístico desdém; o que as vítimas sofriam ou não, se viam a morte de caras ou outros incidentes poéticos, de pouco nos incomodava – até o desastre se acercar de nós, e um dia se revelar, e um dia a casa implodir. Desta vez eram os nossos miúdos que ficavam estropiados ou morriam; e parecia que uma espécie de guerra colonial surda, feita agora por crianças-soldados, continuava a flagelar a pequena-burguesia das cidades portuguesas.

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Uma questão de transportes, 2.1

  1. Famel diz:

    Felizmente o PCP propôs uma lei (que passou) que permite que qualquer pessoa com carta de ligeiros conduza motorizadas até 125 cc. É que uma motorizada 50 dá 100, uma 125 chega a dar 140, sempre dá mais brita.

  2. JMG diz:

    Pena-me que se tenha ficado pela Zundapp. Então a mítica Kreidler Florett, um modelo de conforto? E a rara Flandria? E, verdadeiramente rurais, a Casal e a Pachancho? Tem, é claro, toda a razão na sua sociologia das motas. Mas nos interstícios do seu texto, sabe, nota-se muita nostalgia … ou sou eu que tresleio.

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