To do or not to do

Eu sei que sou uma procrastinadora, mas não sabia que há vários sub-tipos na taxonomia dessa espécie de Hamlet para sempre dividido entre o “to do” e o “not to do”, como li num anúncio de livros de auto-ajuda para o problema. Depois de morosa reflexão (várias vezes interrompida por outras reflexões – de onde venho, para onde vou, porque me é tão difícil arrumar os papéis), concluí que pratico a procrastinação aplicada, adiando tarefas chatas com outras tarefas chatas – o que, para o melhor e o pior, me distingue dos procrastinadores que se sentam a ver televisão como se não houvesse amanhã, coisa que eu possivelmente faria se tivesse televisão e não tivesse outras coisas chatas que fazer. Por exemplo, neste momento, em vez de estar a arrumar papéis, estou a escrever este post, mas nada me diz que daqui a pouco não estarei a esfregar a sanita metodicamente, o que, porque o tempo não é infinitamente elástico, adiará para as calendas gregas a arrumação da papelada. A minha vida é uma espécie de jardim de caminhos que se bifurcam indefinidamente, e nenhum deles parece conduzir à arrumação dos meus papéis. Sensível ao problema, uma ex-colega do curso de Alemão que em boa hora abandonei sugeriu-me contratar um “anti-clutter guru” (literalmente, um guru anti-barafunda): há, neste admirável mundo que é o nosso, gente que é paga para vir a casa de gente como eu dizer a gente como eu o que tem de fazer para arrumar a casa. A diferença entre estes “personal coaches” e uma empregada doméstica? A empregada faz tudo sozinha e sai substancialmente mais barata, o que não impede estes novos profissionais de encontrarem quem os procure, incluindo a minha ex-colega. Há tempos apareceu-me transfigurada, vestida em caquis de bom corte a milhas do estilo colorido e juvenil que todos lhe conhecemos e amamos.  “Novo look?”, perguntei, hipocritamente. “Sim, contratei um ‘personal shopper’. Não imaginas a poupança de tempo! Em vez de andares de loja em loja, seleccionam-te a roupa e sugerem-te como a combinar – e eu, por causa de Monsieur X, tenho de andar bem vestida e não tenho tempo para perder em lojas”. A G. é a graça em figura de francesa, petite e sardenta, o tipo que, se a minha opinião valesse dinheiro, devia fugir do deslavado look BCBG como eu dos meus papéis, mas a mudança segue-se a outras que ela tem vindo a fazer desde que começou a sair com um divorciado mais velho, um iraniano de boas famílias substancialmente mais rico: por causa do namorado, aprendeu a jogar golfe, que odeia, e a fazer ski, que a assusta (e com razão, porque lhe provocou uma luxação no pulso que misericordiosamente lhe vedou por uns tempos a prática do golfe); por causa do filho do namorado (um adolescente problemático que lhe faz, com o concurso da mãe e a passividade do pai, a vida negra), consultou um terapeuta familiar, tudo com a reflexão filosófica de que para tudo há solução e que “il faut faire des compromis”. Ora eu acho que a G. (que entretanto ganhou meia dúzia de quilos e deixou de caber nas roupas seleccionadas pelo “personal shopper”) é, tal como eu, uma procrastinadora aplicada em postergar o momento em que terá de pôr o namorado com dono e voltar a ser livre e desimpedida (momento que enfrentará, no doubt, contratando um “dating coach”). Eu própria lhe explicaria estas coisas sem lhe levar nada, mas com toneladas de papéis por arrumar, não me sinto com moral para dizer às pessoas como devem resolver as suas próprias trapalhadas, e o que é mais, tenho realmente uma sanita para limpar.

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2 respostas a To do or not to do

  1. Um “coach” para acabar com os “coaches”! Obrigada, Xatoo, mas parece-me que os meus papéis são mesmo um caso perdido.

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