Robert Enke, 1977-2009
13 de Novembro de 2009 por Zé NevesNão que o destino de todos os guarda-redes tenha que ser o suicídio, mas quem o foi – e não estou a falar de experiências pontuais, melhor designadas por “jogar à baliza” – não deixará de concordar que o lugar convida a uma certa melancolia. Passei muito tempo da minha vida a cumprir a função de guarda-redes. A tal ponto que, ainda hoje, posso dizer com alguma naturalidade que sou guarda-redes – a discussão em torno de ser comunista deixo para o fim-de-semana, depois de ler tudo o que por aqui e por aí se tem escrito sobre esse assunto… A melancolia da posição de guarda-redes é tal que, não raras vezes, julguei habitar um tempo diferente, isolado do tempo de jogo experimentado pelos restantes colegas, tempo do qual estavam mais inteiradas as pequeníssimas multidões que, não se encontrando no interior das quatro linhas, assistiam aos jogos de pé, e não sentadas, tomando-se assim parte mais activa do filme do que eu próprio conseguia, longínquo guarda-redes que só efemeramente se torna protagonista de primeiro plano. Este sentimento de exclusão – não necessariamente negativo, abonemos - variou sempre, é claro, de acordo com o maior ou menor volume de encomendas que chegavam à área. Mas, no geral, um guarda-redes era um tipo que estava ali, na margem do campo, à espera do que desse e viesse, em pura e simples contemplação, subitamente interrompida mas prontamente retomada. Se isto não é minimamente romântico, não sei. Durante alguns anos, jogou-se muito mau futebol no Estádio da Luz e nem por isso deixei de estar presente, no caso deste recinto enquanto espectador, nunca jogador, embora às vezes tenha igualmente desempenhado a tarefa de apanha-bolas. Nestas ocasiões, colocava-me atrás da baliza do topo sul durante o aquecimento do Benfica, a observar de perto Michel Preud’Homme, a dois, três, quatro metros do seu raio de acção. Ouvia o som do esférico quando era suavemente cortado pelas suas luvas – e só um inculto é que não percebe o que isto significa. Quando Michel Preud’Homme deixou o Estádio da Luz, a minha idade também já não me aconselhava à tarefa de apanha-bolas. E voltei a ver o jogo da bancada, sempre da bancada. Foi aí que conheci Robert Enke. Era um excelente guarda-redes, muito seguro entre os postes, não tão perfeito a nível das bolas altas, ainda assim melhor do que qualquer outro guarda-redes que tenha passado por este país na última década. O seu traço mais singular, no entanto, residiria na sua forma de enfrentar o um-para-um: nessas ocasiões, várias vezes poderíamos ver Enke a defender recorrendo aos seus membros inferiores e, ainda assim, nunca citando a figura do guarda-redes de andebol – na verdade, um hipopótamo com a agilidade de uma ginasta acrobática – ou a pose do guarda-redes de hóquei em patins – esse cavaleiro medieval que se move acagaçado como uma pata-choca. Para a história dos saberes da posição de guarda-redes, aquele talvez tenha sido o maior legado de Robert Enke. Para a história do Benfica, fica a certeza de um grande guarda-redes, que morre no ano em que, se por cá estivesse, mais motivos teria para se deixar levar na melancolia da sua posição. Nos tempos que corre, ali atrás, não passa nada, nada se passa. Quanto ao resto, estou com o maradona – só espero que os jornais não continuem a chafurdar a sua vida e a sua morte, à procura das “razões”. Viva Robert Enke! Viva!

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