Da gripe A

Aceitando o repto de João Gonçalves diria que o estalinismo foi a gripe A do comunismo. Uma doença largamente mediatizada, de que muito se fala (na maior parte das vezes) sem grande conhecimento, e que parece não estar a ter os resultados previamente anunciados.

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52 Responses to Da gripe A

  1. Zé Neves says:

    o que se disputa é a necessidade de disputar ou não o busto do lenine

  2. Tiago Mota Saraiva says:

    ou a “horrível” necessidade de se regressar ao séc. XXI

  3. Augusto says:

    Gostaria de ver o Sr Mota Saraiva, a viver na China, em Cuba, ou nos dos paraisos, talvez tambem a Coreia do Norte, que o seu partido o PCP , diz serem exemplos da construção do socialismo….

  4. toni says:

    É preciso ter lata. Já agora o estalinismo nunca existiu! É uma invenção da CIA e dos espiões trotskistas!!! Haja paciência…

  5. Sérgio says:

    Realmente quando o espectro oposto é assim torna-se dificil lutar contra o capitalismo…

  6. xatoo says:

    “a disputa do busto de Lenine” parece-me estar fora de questão, dado que Lenine teorizou e trouxe-nos a primeira aplicação na prática de uma experiência, ainda inexistente, que era almejada por milhões de proletários. Com passos atrás, à frente, ou mesmo erros, há conquistas na história civilizacional da humanidade que foram e são irreversiveis; Terá alguma casca para deitar pró lixo as o essencial do miolo alimenta-nos; p/e a emancipação da mulher na URSS com direito a decisão sobre o aborto foi uma lei produzida logo em 1920 – quando as chamadas “democracias” ocidentais só a legislaram, questionando-a, 70 anos depois.
    Quanto à leitura actual do “estalinismo” produzido pelo mesmo tipo de pensamento lento europeu (nos EUA fox-news o problema nem se coloca) é uma estória muito mal contada; se os suspeitos do costume a chafurdarem demasiado a fundo vão ter, surpresa!, de desconstruir toda a mitologia na arte de enganar o próximo. A começar pelo soberbo retrato que Picasso pintou em homenagem ao lider russo aquando da sua morte em 1952. Estão tramados; então vão ter de diabolizar o simbolo artistico máximo da iconografia do século XX “como sendo um perigoso comunista?”
    Sem Picasso, quem sobra para a arte neocon?

  7. zé do boné says:

    -Augusto, És um mentiroso de merda! -Ou parvo de todo!
    -Onde ouvi-o ou leu que o PCP “diz serem exemplos da construção do socialismo” “paraísos” e outras tretas do género.
    - Deixe de repetir o que ouve como se de um papagaio se tratasse e, porte-se como um homem.

  8. xatoo says:

    com esta oposição que nos é dado enfrentar “torna-se dificil lutar contra o capitalismo”, senão quase impossivel fazê-lo, como diz a expressão popular, “às boas” e, com a era Obama os neoNazis têm adquirido maior visibilidade
    percebe-se porquê, são mais uns quantos blindados irracionais de baixo custo que arremetem contra o que resta das utopias de esquerda

  9. Augusto says:

    O seu secretário geral o excelentissimo “operário” Jerónimo de Sousa, quando visitou a China , e não foi assim há tanto tempo, elogiou as grandes conquistas socialistas , do povo chinês.

    Quanto a Cuba , o exemplo do seu pseudo regime socialista, está na boca de todos os dirigentes do PCP.

    Em relação á Coreia do Norte , depois da rábula do Bernardino Soares, já vieram dizer , que apesar de tudo , a Coreia do Norte tem conseguido conquistas extraordinarias, numa situação , de continua agressão imperialista.

    Pois é, a cassete é uma coisa tramada, só que ao defenderem ditaduras, policias politicas, censura, proibição de sindicatos livres, tudo grandes exemplos desses paises ditos socialistas, estão a fazer o jogo dos reaccionários, e a destruir a esperança no VERDADEIRO SOCIALISMO que só será conseguido com o apoio dos povos e nunca contra eles, e nunca contra a LIBERDADE.

    Bonés há muitos, só que alguns parece que impedem de pensar , em vez de bonés deveriam usar BARRETES, para os poderem enfiar até ás orelhas.

  10. Luis says:

    “p/e a emancipação da mulher na URSS com direito a decisão sobre o aborto foi uma lei produzida logo em 1920″ Tem razão e re-lembro outras.

    A URSS foi o primeiro país do mundo a pôr em prática um vasto conjunto de direitos humanos, como o direito ao trabalho, o horário de trabalho das oito horas, as férias pagas, a igualdade de homens e mulheres, o direito à saúde, à segurança social, ao ensino, à cultura, o direito à infância, o direito à velhice, enfim os direitos a que todo o ser humano, pelo simples facto de existir, tem direito – direitos esses que se estenderam progressivamente a milhões de trabalhadores de outros países que os conquistaram através da luta; direitos esses que hoje, estão na mira do capitalismo internacional e, em Portugal, são os grandes visados pelo Código do Trabalho que o PS/Sócrates e os restantes partidos de direita aprovaram.

  11. manuelmgaio says:

    Até dou de barato que alguns dos defensores e construtores do socialismo possam não ser flor que se cheire …mas o que dizer dos construtores e defensores do capitalismo?
    E quanto a resultados, na educação, na saúde, na assistência social na qualidade de vida…
    Se os países socialistas não fossem uma verdadeira ameaça ao capitalismo não havia esta fúria, este ódio permanente, mesmo depois da aparente vitória definitiva do capitalismo.
    Para quê a NATO, o guarda-chuva de mísseis, a expansão das bases militares americanas, o bloqueio a Cuba e a CRISE DO CAPITALISMO.
    Quer queiram quer não, a civilização regrediu, desde o desaparecimento da União Soviética.

  12. Mexilhão says:

    É pá, Luís, pára um pouco para pensares. Com esse ritmo só dizes asneirolas grosseiras.
    Vê tu bem que até o Salazar fixou as 8 horas de trabalho diário (48/semana) em 36, antes do Estaline, que aliás cá e lá só nos anos 50, já depois da guerra, passaram a ser cumpridas na agricultura. Para teres uma ideia, o regime fascista, até ao 25 de Abril, tinha ratificado mais convenções da OIT (e mais importantes) do que o comunismo soviético. De resto, os regimes comunistas de que tanto gostas e este de cá eram ditaduras iguais em muita coisa, só que a de cá matou e encarcerou muito menos gente, mas mesmo muito menos gente, até tendo em vista as proporções populacionais. E, vê lá tu, que cá até se faziam greves (ilegais, é verdade), mas na tua querida URSS (e nos outros comunismos) os coitados nem a isso se atreviam (lembra-te só da RDA, em 1953).
    Tu e os teus companheiros da Brigada Brejnev da Blogosfera têm de passar a ter um pouco, só um pouco, mais de respeito por quem vem a este blog. Há coisas boas que o comunismo fez, não vale a pena inventar outras que não fez. No campo do trabalho, com as necessidades de acumulação rápida em países atrasados e, depois da guerra, devastados, foi onde o comunismo mais se afastou da utopia, submetendo os trabalhadores a uma exploração incomparavelmente maior do que a que eram sujeitos na generalidade dos países capitalistas. E deixa-te das patranhas de que os avanços do comunismo é que obrigaram os países capitalistas a concederem melhor nível de vida aos trabalhadores desses países. Até parece que os capitalistas deram alguma coisa por pressão do comunismo e não pelas lutas que os trabalhadores desenvolveram. É um insulto que lhes lanças.
    Para a Brigada Brejnev da Blogosfera: vocês já se aperceberam da liberdade de que gozam aqui, nesta merda de democracia burguesa? E já pensaram que os regimes comunistas nunca, até hoje, deram aos trabalhadores nem um milésimo desta liberdade? Cresçam, tenham juízo, pàzinhos.

  13. José Raul caires says:

    Os comunistas sepre tiveram o vício de passar a vida a reescrever a história. Leiam George Orwell…

  14. B Aranda says:

    A metáfora é excelente, no sentido em que revela com clareza como é que alguns camaradas veêm o estalinismo hoje em dia. Obviamente que discordo…

  15. MS says:

    Mexilhão: “Vê tu bem que até o Salazar fixou as 8 horas de trabalho diário (48/semana) em 36, antes do Estaline (…)”

    As 8 horas de trabalho diário foram decretadas na Rússia em 11 de Novembro de 1917, 4 dias após a Revolução (Texto do Decreto em russo).

  16. Mexilhão says:

    MS: e pouco depois foi outro decreto com a distribuição da terra a quem a trabalhava. Entre o papel e a realidade medeia o mundo da necessidade. Foi por isso que durante o comunismo de guerra a lei não passou de letra morta, se voltasse às 10 e às 12 horas de trabalho e fossem implantadas as confiscações de gado, de colheitas e de alfaias. Assim como com a colectivização forçada as terras dantes distribuídas tenham sido confiscadas ou integradas à força em cooperativas ou em herdades estatais.
    No papel, o comunismo é uma utopia engraçada e apelativa. Na realidade, a coisa fiou mais fino. E a realidade é o único critério da verdade.
    Mas vocês julgam que o pessoal é parvo ao ponto de trocar regimes melhores por outros piores, e que se o comunismo fosse o paraíso que apregoam os partidos comunistas não seriam por todo o lado os partidos mais votados?
    Oh, porra, pensem um pouco. Voltem a pensar outra vez, se uma não for suficiente. Mas não andem a desempenhar papéis tão ridículos negando a crueza da realidade.

  17. MS says:

    Mexilhão: “MS: e pouco depois foi outro decreto com a distribuição da terra a quem a trabalhava.”

    Não foi ‘depois’, foi antes. O Decreto sobre a Terra foi no publicado no dia 8 de Novembro de 1917.

    Repare que não estou a discutir as suas opiniões.

  18. Luis says:

    “até o Salazar fixou as 8 horas de trabalho diário (48/semana) em 36, antes do Estaline” ????

    Está muito enganado. Os trabalhadores da indústria e do comércio conquistaram o horário de trabalho de 8 horas em Maio de 1919, na I República, e os trabalhadores do campo só em 1962, depois de grandes lutas do proletariado alentejano e ribatejano duramente reprimidas.

    Foi só no mês de Maio de 1962 que mais de cem mil trabalhadores rurais do Alentejo e do Ribatejo, depois de terem recorrido à greve, puseram fim ao horário de trabalho medieval de «sol a sol» que vigorava nos campos.

    E nessas lutas, em Aljustrel foram mortos os operários António Adangio e Francisco Madeira e feridos outros. E no dia 1.º de Maio de 1962, em Lisboa, na maior manifestação (essencialmente operária) que se fez na capital portuguesa durante o fascismo, as forças policiais assassinaram o operário tipógrafo Agostinho Fineza.

  19. Luis says:

    “E já pensaram que os regimes comunistas nunca, até hoje, deram aos trabalhadores nem um milésimo desta liberdade? “ ????

    Está esquecido que quando das manifestações no Outono de 1989 em Alexanderplatz, Berlim Leste, ou em Leipzing, os manifestantes sob a palavra de ordem “Nós somos o Povo”, exigiam o respeito pelos direitos dos cidadãos garantidos na sua Constituição? E que essas manifestações (antes da abertura da fronteira) foram convocadas invocando os artigos 27 e 28 da Constituição da RDA que proclamavam a liberdade de opinião, de imprensa e de reunião?

  20. Mexilhão says:

    Pá, MS, concedo-te o engano de que o decreto sobre a distribuição de terras não foi uns dias depois, mas uns dias antes. É pormenor relevantíssimo, como salta à vista. Mas por essa simbólica prioridade podes imaginar quanto ficaram devendo os bolcheviques, e a implantação do comunismo, à guerra e à soldadesca camponesa que morria como tordos e queria era regressar à santa terrinha.

    Pàzinho, Luís, obrigas-me a repetir o que já te disse noutro comentário que acabou de sair da montra.

    A 1.ª República deu tanta coisa aos trabalhadores como nada e coisa nenhuma, e as 8 horas de trabalho foi coisa que se ficou, fora de Lisboa, pelo papel. Tanto mais que o Salazar teve de vir impor o cumprimento, assim como fixar as regras do descanso semanal. Quanto às 8 horas no campo, as lutas de 1962 visaram o seu cumprimento e foram contra os abusos que continuavam a ser cometidos, não foram pela conquista de coisa nenhuma. Depois, vê tu bem aonde te leva o teu fanatismo: nessa altura, com tanta malta na guerra, 100 000 assalariados rurais não havia em todo o país, quanto mais para participarem nas lutas no Alentejo e no Ribatejo. Tens de deixar de desinformar-te pelo Avante! e passares a pensar um pouco pela tua cabeça.

    Sim, o fascismo salazarista matou algumas dezenas de trabalhadores e encarcerou uns poucos milhares. Ninguém te diz o contrário. Isto aqui não era nenhuma democracia. Mas, vê tu bem, não sendo um regime democrático era muito menos repressivo e totalitário do que qualquer dos regimes comunistas. O que te disse é que os regimes comunistas, de que tanto gostas, qualquer deles, mataram e encarceraram muitos mais, mas mesmo muitos mais. É que nem é possível fazer comparações acerca da repressão entre o fascismo salazarista, a tal ditadura terrorista dos monopólios, e os regimes comunistas, as tais ditaduras terroristas do monopólio estatal.

    Não me chames mentiroso, porque não ando aqui em missão de propaganda, ao contrário de ti e da Brigada Brejnev da Blogosfera. A URSS não foi o primeiro país a pôr em prática as 8 horas de trabalho diário, mas sim a gratuitidade de todo o ensino, a cultura a preços baixos, a assistência médica gratuita e a igualdade de direitos entre homens e mulheres perante a lei (e lembra-te que o direito ao aborto, esse, sim, pioneiro, foi reconhecido e, mais tarde, temendo a não recuperação da taxa de natalidade para repor as baixas da guerra, foi retirado; tudo era à medida das conveniências). As férias pagas foram uma conquista dos trabalhadores europeus ocidentais; e o direito ao trabalho de que tanto falas, começou por ser o trabalho compulsivo, perante as necessidades do comunismo de guerra e, depois, da grande guerra patriótica. A generalidade dos países comunistas, até aos meados dos anos 70, pertencia ao grupo que ratificara menos convenções da OIT. E liberdade sindical, negociação colectiva e direito à greve, népia.

    Convence-te de que tudo o que enumeras, e o próprio comunismo, foi um produto da guerra. Quando a guerra acabou, a coexistência pacífica só poderia conduzir à derrocada generalizada do comunismo. É que sem liberdade, sem concorrência, com produtividade tão baixa e com tão avultados recursos aplicados em despesas militares (e, nos países do “campo socialista”, desviados para reparações de guerra à URSS) não havia modo de economias atrasadas e fechadas competirem com o capitalismo concorrencial em desenvolvimento. A fixação administrativa dos preços não tinha como resistir, porque o lençol do capital disponível, que só provinha da exploração dos trabalhadores locais, não crescia, e quando era puxado para a cabeça, destapava os pés. Por muitas notas e cédulas de banco que imprimissem, por muitos certificados de aforro que emitissem, de nada valia.

    A própria reconstrução soviética, feita à custa de muita “emulação socialista” (ultrapassando os períodos de trabalho legais e impondo ritmos de trabalho muitas vezes desumanos), mas principalmente de reparações de guerra (mesmo nos países que passaram a constituir o “campo socialista”, vê tu bem) constituídas em grande parte por equipamentos industriais velhos e obsoletos, também não poderia competir com a reconstrução dos próprios países europeus ocidentais, apoiada pelos vultuosos créditos disponibilizados pelo Plano Marshall para a compra de meios de produção americanos modernos. E sabes, com certeza, o que gerou a imposição soviética aos países do “campo socialista” para não aderirem ao Plano Marshall.

    Quando me refiro à liberdade, refiro-me à que vocês, os da Brigada Brejnev da Blogosfera e todos os fanáticos do comunismo, gozam aqui, em Portugal, nesta merda de democracia burguesa. Vocês que tanto enchem a boca com a liberdade, e que tanto enaltecem a luta pela liberdade que os vossos camaradas mais velhos andaram a travar aqui nos tempos do fascismo, deveriam reflectir um pouco sobre a ausência de liberdade que caracterizou todos os regimes comunistas. Mas vocês não dão valor à liberdade. O que vos interessa é a vossa liberdade, não a liberdade dos outros. O que é preocupante é alguns dos que para aqui andam serem gente nova com ideias tão velhas e perigosas. Arrepia pensar o que seria vocês terem chegado a conquistar o poder.

    Quereriam vocês que nos países de regime comunista ao descalabro do comunismo se seguisse a imediata prosperidade capitalista? Então o malvado capitalismo teria a obrigação de acudir a tamanhas desgraças? Os capitalistas, afinal, são uma confraria de caridade ou quê? E o calibre dos capitalistas nascidos da burocracia comunista? Aquilo é que eram os homens novos, hem! Tão novos, e tão bons, que passaram a praticar um capitalismo ainda mais selvagem do que era o comunismo. Isso também os devia fazer pensar. Com tanto saudosismo do comunismo, como vocês não se fartam de propalar, admira que os povos dos antigos países de regime comunista não tenham ainda posto no poder os partidos comunistas, para restaurarem o comunismo. Será que se fartaram da miséria do comunismo e preferem a miséria do capitalismo? Admira-te!

    O comunismo é o futuro, dizem vocês. Só se for o comunismo primitivo, depois do Armagedão que também não se cansam de propalar que aí vem. Quando é que percebem que o comunismo marxista não é mais do que capitalismo de Estado monopolista, e que este só teve hipóteses de ser implantado em sociedades atrasadas, onde o capitalismo estava bloqueado e as burguesias nacionais se mostraram incapazes de o desenvolverem? Ou, no caso de muitos países da Europa de Leste, onde o exército vermelho aparecera como libertador e, depois, ocupante, e, no caso de Cuba, onde a corrupta burguesia nacional vendera o país à exploração colonial? Acham que transformar as pessoas em funcionários públicos lhes confere a liberdade, e que o monopólio estatal permite aumentar a produtividade e atingir a prosperidade?

    Um último apontamento sobre o Muro de Berlim, que tanto tem sido falado aqui neste blog. É confrangedor, ilustrativo do vosso fanatismo cego, como passados tantos anos ainda têm a desfaçatez de justificar a construção do muro e de equipará-lo a uma fronteira. Mas então as fronteiras muradas são erguidas para impedir que os nacionais saiam ou para impedir que os estrangeiros entrem? E que raio de comunismo era aquele que nem tinha capacidade para mostrar a meia cidade a sua superioridade em relação ao decadente capitalismo? Nisto, como no resto, vem ao de cima o vosso cinismo, as comparações desajustadas e o vosso conhecido relativismo ético e moral.

    Gostava que os comunistas deste blog nos explicassem, a nós, tolos anti-comunistas, onde raio está indiciado que o comunismo é o futuro da humanidade e o regime capaz de lhe proporcionar a prosperidade e não um estádio passado ilustrativo da penúria que caracterizava as sociedades recolectoras. Parece-me que tal não passa de ideia residente em cabeças tolas de fanáticos, que pouco se distinguem dos fanáticos de qualquer religião sagrada ungidos pela fé no harém de virgens que os esperará no paraíso, e que não sabem raciocinar se não por dicotomias simples, como se anti-comunista fosse sinónimo de pró capitalista, e assim por diante. Quando verão que a tabela periódica dos regimes sociais não contempla a necessidade do comunismo? Acham mesmo que o pós capitalismo se pode adivinhar? Então, digam à gente qual o Nostradamus que adivinhou o capitalismo.

  21. MS says:

    Mexilhão: “Pá, MS, concedo-te o engano de que o decreto sobre a distribuição de terras não foi uns dias depois, mas uns dias antes. É pormenor relevantíssimo, como salta à vista.”

    Não estou a discutir a relevância do pormenor ou do ‘pormaior’. É apenas uma questão de rigor.

    Como Vc. disse acima “(…) a realidade é o único critério da verdade.” Se quer ser levado a sério seja rigoroso com os factos históricos, mesmo aqueles que considere menos relevantes. Caso contrário está a manipular os factos para sustentar os seus pré-conceitos.

  22. Mexilhão says:

    Pá, MS: eu tento ser rigoroso com os factos históricos; posso não ser tão rigoroso quanto à data dos factos históricos. Sei que esta semana comi bacalhau, é um facto; julguei que tivesse sido na terça-feira, mas afinal foi ontem. Mas comi bacalhau, porra!
    É interessante vocês agarrarem-se aos pormenores para ilustrarem os erros alheios, quando passam a vida a deturparem os pormaiores, os factos, aquilo que constituiu a realidade. Deviam preocupar-se em olhar para a realidade e não perderem tanto tempo a tentarem negá-la.
    Em relação ao que classificas como meus pré-conceitos, estou disponível para discuti-los. Basta que os apontes. Essa de aplicarem o rótulo de preconceito anti-comunista à desmistificação do logro que foi o comunismo já não cola. E para desmistificar o comunismo é desnecessário manipular factos. A realidade chega perfeitamente.
    Como já disse, ser anti-comunista não me transforma em apologista do capitalismo. Apesar de maus, o capitalismo concorrencial e a democracia burguesa não têm as perversidades do capitalismo de Estado monopolista nem do totalitarismo conhecidos como comunismo.

  23. MS says:

    Mexilhão, não estou a discutir consigo, só chamei a sua atenção quando se ‘desviou da realidade’, que diz ser o critério da verdade.

    Deixo-lhe uma passagem do ensaísta brasileiro Olavo de Carvalho (reconhecido anti-comunista) retirada de um texto de 2006 dirigido à direita brasileira, e em especial aos empresários brasileiros:

    “Discutir com o ignorante é uma das tarefas mais difíceis deste mundo. As razões do debatedor inteligente, culto, são transparentes: exibem-se no conteúdo do seu discurso, porque ele mesmo as pensou e as colocou ali. As do ignorante, sendo desconhecidas dele próprio, vêm de uma atmosfera social difusa, entre obscuras associações de idéias, automatismos de linguagem e mil e um pressupostos mal conscientizados. Desencavá-las é como analisar um sonho. Você tem de mergulhar fundo no inconsciente coletivo para descobrir de onde o cidadão tirou os motivos de crer naquilo que afirma.

    Sugiro-lhe, se não conhece, a leitura completa em “Da ignorância à mentira”.

  24. Luis says:

    Mexilhão: A URSS foi não só o primeiro país a pôr em prática as 8 horas de trabalho diário, como foi também o primeiro país a pôr em prática a gratuitidade de todo o ensino, a cultura a preços baixos, a assistência médica gratuita e a igualdade de direitos entre homens e mulheres perante a lei, o direito ao aborto e as férias pagas. Tudo isto porque foi o primeiro país onde uma revolução socialista saiu triunfante, tomou o poder e deu-lhe um novo conteúdo de classe, defendeu-o dos ataques das forças contra-revolucionárias internas e externas, manteve-o nas suas mãos e deu inicio à construção de uma sociedade nova, sem exploradores nem explorados; a sociedade socialista.

    Onde “raio está indiciado que o comunismo é o futuro da humanidade”? Basta vermos que 20 anos depois o mundo é, hoje, menos livre, menos democrático, menos justo, menos fraterno, menos solidário, menos pacífico! Basta ver que o objectivo imperialista de domínio do mundo tem conduzido a trágicos recuos civilizacionais; ao empobrecimento crescente da democracia; a perigosas limitações das liberdades fundamentais; à acentuação da exploração dos trabalhadores; a ataques brutais à soberania e à independência dos povos conduzindo a novas formas de colonialismo; a guerras de ocupação à custa de milhões de vidas humanas! E que tudo isso tem sido camuflado por uma intensa ofensiva ideológica de diabolização do comunismo e de santificação do capitalismo; tudo isto acompanhado por uma gigantesca lavagem de cérebros à escala planetária, procurando inculcar nas pessoas a aceitação do mau como bom; a aceitação dos interesses do grande capital como inevitabilidades; a aceitação do regresso a formas de opressão e de exploração de tipo esclavagista como sendo modernidade.

    São estas consequências extremamente negativas das derrotas do socialismo e do desaparecimento da URSS a demonstração da importância do socialismo e a confirmação de que o futuro da humanidade não está no capitalismo, mas sim no socialismo, no socialismo que a Revolução de Outubro nos mostrou ser possível.

  25. rafael says:

    Caro Tiago, peço desculpa por usar a caixa de comentários desta forma mas para expressar a minha opiniao preferi transcrever o meu ultimo post que reflecte sobre esta questao:

    “Na ultima semana, a propósito dos 20 anos da queda do Muro de Berlim, tenho lido aqui, aqui, aqui , aqui e aqui, além de outros que nao me apetece linkar, as mais diversas acusaçoes, assuncoes e confissoes sobre o Comunismo de hoje, de ontem e de amanha. Até cheguei a ler pessoas que respeito defenderem o abandono do Comunismo, enquanto palavra, enquanto conceito que estaria deslocalizado, devido à carga negativa que teria adquirido com os crimes dos regimes de Leste.

    E parece-me também que se gerou um debate entre “puros” e “realistas”, com os primeiros condenando de forma total e totalizadora os regimes da esfera soviética e os segundos relativizando os seus erros, deturpaçoes e, repito para que nao haja equivocos, crimes (o que um gajo tem de reforçar de forma constante para nao ser acusado de stalinismo…)

    Eu, comunista, me confesso. E porque as confissoes hoje parecem que de nada valem sem a justa explanaçao e consequente síntese descritiva, a modo de quadro comparativo de propriedadees, exponho as minhas razoes, assumindo, desde logo, a possibilidade de equivoco e de leituras diversas.

    O comunismo, na minha assunçao pessoal, nao se prende com o regime A ou regime B, embora nao possa ser desvinculado do mesmo. Ou seja, a ideia matriz fundadora do pensamento comunista ou do comunismo tem por base, no seu âmago, a libertaçao do homem explorado, considerando-se para o devido efeito a exploraçao como a apropriaçao por parte de Um do trabalho de Outro, embora se quiséssemos aprofundar poderiamos incluir na definiçao de exploraçao toda a forma de opressao social que nao permite a libertaçao do homem, enquanto ser superior, amoral e descomplexado, mas isso já me parecem outras cantigas…

    Fiquemos entao pelo conceito inicial de exploraçao. Esta exploraçao – sem aspas, porque imbuida do seu sentido puro – é uma constante fundada no conceito de propriedade, em concreto na propriedade dos meios de produçao, na acumulaçao de capital pelo mero facto de Um ser detentor dos aparelhos, das máquinas, da coisa fisica que permite produzir ou da ideia, do elemento despoletador do processo criativo do processo produtivo. A exploraçao, do meu ponto de vista, nao é apenas a exploraçao do trabalho pelo patrao déspota (caricaturizando), mas a estrutura subjacente à economia e modelo de funcionamento social (a convençao, o convencionado e socialmente adequado) que permite que a democracia seja impedida de ser levada a bom porto, onde a opiniao do Outro, a sua força seja oprimida e desconsiderada, seja pelo afastamento dos centros de decisao produtiva, que o afectam directamente, ou pela maquinaçao dos seus anseios num discurso de governância claramente superficial.

    E, neste ponto, gostava de fazer referência aos regimes de Leste, nao pela sua perfeiçao, mas sim pela sua dupla condiçao de concretizaçao do pensamento puro, do conceito e da afirmaçao da coisa nova, diferente e diferenciável; do seu papel de diferenciaçao da dupla negativa das ditas forças “anti-capitalistas” que revestidas no manto da Negatividade como elemento fundador apenas exercem o papel da afirmaçao do seu Contrário. Ou seja, uma ideia fundada na negaçao e nao na diferença, apenas pode, conceptualmente, constituir-se como o outro lado do Negado, como a reafirmaçao da Ideia original – neste caso, o capitalismo – oferecendo-lhe argumentos nao para a sua destruiçao, mas para a sua re-afirmaçao e re-fundaçao constante.

    E é nesse sentido, que os regimes de Leste, a implantaçao no terreno da Ideia matriz original do Socialismo e do Comunismo adquire importância, porque deixa de ser Ideia pura e des-territorializada para se (re)fundar no existente, no real, no concreto. E nessa sua concretizaçao, a Ideia pura adquire a importância de estrutura fundacional, nao exactamente coincidente com a prática concreta, mas subjacente à estruturaçao social. E esse, no meu entender, é que é o grande contributo dos ex-paises socialistas e de alguns dos actuais (nos quais nao incluo a China, pelo seu desvio estruturante da Ideia fundacional de comunismo): a capacidade de concretizar a Ideia nova e fundadora, traduzida em conquistas humanitárias e libertadoras como sejam o pleno emprego, a educaçao e saúde gratuita, a participaçao popular nos processos de decisao – da produçao à governância.

    Dir-me-ao que estes principios fundadores sao desavindos com a práctica em si, com a burocratizaçao e consequente opressao das liberdades pelo aparelhismo e pela corrupçao, eventualmente. Certo. Claro como a agua, mas o que nao se pode negar é que houve uma altura na Historia em que o paradigma da organizaçao social mudou, nao por negaçao, mas pela afirmaçao de uma estrutura fundada no conceito de libertaçao.

    Os crimes (lá estou a ter que provar que nao sou stalinista…) do Comunismo sao crimes e ponto. Assim como os crimes do Capitalismo também sao crimes e ponto. Pouco me interessa que tenham morrido 800 000 ao largo de 20 anos na URSS ou 250 000 em poucas horas no Japao. Pouco me interessa que as populaçoes indigenas do EUA tenham sido exterminadas, constuindo um verdadeiro genocidio, ou os milhares que foram mortos nos regimes perversos de Pol Pot. Nao existem crimes melhores, nem piores segundo a natureza do regime que os pratica.

    A questao essencial, e que me interessa debater, é se o Comunismo é viável como acto fundador e novo, como ideia que persiste apesar dos seus erros e desvios. E a existência dos regimes socialistas provou que sim, agora resta-nos refundar o Comunismo como Ideia incorporando os seus erros e desvios no léxico da sua afirmaçao.”

  26. Mexilhão says:

    Pá, MS: confesso a minha ignorância, não conheço esse tal Olavo de Carvalho. Verifico que vos serve de apoio ensaístico; pois aproveitem-no. A vocês aplica-se melhor a máxima “da mentira à manipulação”. E como deverão verificar, se lerem bem o trecho que citaram, ele aplica-se que nem uma luva a vocês próprios, que acreditam piamente que a realidade é o que vocês pensam que foi e não que de facto foi, que repetem o mesmo disco riscado como simples automatismo de linguagem. E sofrem do mesmo tipo de mal ao pensarem que a realidade será o que desejam que seja e não o que as contingências da vida possibilitarem que seja.
    Se parassem para pensar um pouco já teriam visto que a merda do comunismo não foi implantado se não em países atrasados onde o desenvolvimento do capitalismo estava bloqueado, ao contrário do que dizia a profecia marxista.

    Pàzinho, Luís: o teu disco está todo riscado, apenas debita repetitivamente as mesmas ladainhas.

    Meninos, agora acabou a sessão. Vou à janta. Arranjem argumentos. Com isso, ainda poderá valer a pena discutir. Com propaganda, não.

  27. Luis says:

    Rafael: já há 19 anos, na Resolução Política do XIII Congresso (Extraordinário) do PCP em Loures em 18, 19 e 20 de Maio de 1990, se concluiu:

    “(…) Os erros, atrasos e graves desvios do ideal comunista e crises surgidas em determinado momento do desenvolvimento dos países socialistas não põem em causa estas verdades históricas.

    O processo revolucionário ao longo do século está marcado por vitórias e derrotas, por avanços e recuos. Muitos dos acontecimentos verificados e que se estão a verificar em alguns países da Europa do Leste representam graves derrotas para o socialismo. Mostram que o processo de edificação da nova sociedade é mais difícil, complexo e demorado que o previsto e que a sua realização se tem desenvolvido e continuará a desenvolver-se por tempo indeterminado no quadro de uma aguda competição (económica, política, ideológica, militar) com o capitalismo, o que afecta inevitavelmente a própria dinâmica do desenvolvimento do socialismo, tanto mais que o capitalismo manteve a supremacia económica a nível mundial. Mostram que se registou excessiva confiança na irreversibilidade dos processos de construção do socialismo, no processo revolucionário mundial. Mostram que a rigidez e cópia mecânica de objectivos e métodos com subestimação e mesmo afrontamento da vertente democrática do socialismo afectaram e comprometeram a construção da nova sociedade. Mostram que se subestimou a necessidade e dificuldade de formação de uma consciência socialista. Mostram que não se avaliaram devidamente a capacidade e a possibilidade do capitalismo para subsistir por um mais largo período e conseguir nos países mais desenvolvidos (com a revolução científico-técnica e as novas tecnologias associadas a novas formas de exploração) um desenvolvimento das forças produtivas que se julgava mais entravado pelas relações de produção capitalistas. Mas o ideal comunista da construção a nova sociedade mantém a sua validade e o imperialismo, na sua forma contemporânea, adquire novos traços (nomeadamente pela sua crescente internacionalização) mas não mudou a sua natureza exploradora e agressiva nem superou as suas mais profundas contradições. (…)”

  28. Luis says:

    Resolução Política do XIII Congresso (Extraordinário) do PCP, Loures, 18, 19 e 20 de Maio de 1990

    I
    Os acontecimentos nos países socialistas e suas repercussões
    (…)

    A crise noutros países socialistas da Europa

    As mudanças radicais da situação política verificada noutros países socialistas da Europa resultaram de situações de profunda crise gerada por orientações e práticas que se afastaram dos objectivos, métodos e valores do ideal comunista.

    Contradições entre os órgãos do poder político centralizado e o povo; entre a organização e a gestão da economia, o desenvolvimento económico e o melhoramento das condições de vida; entre a direcção do partido e o partido e entre o partido e o povo; contradições aprofundadas com o abuso do poder e situações de privilégio e de corrupção – agravaram-se ao longo dos anos e conduziram a inevitáveis rupturas, a extraordinária instabilidade e a processos descontrolados de evolução social e política cuja conclusão é ainda difícil de prever.

    Os partidos comunistas no governo em diversos países da Europa do Leste – ainda mais que o PCUS – prolongaram a situação, atrasaram-se no reconhecimento da realidade e nas reformas e viragens indispensáveis na orientação do Estado e do partido, isolaram-se progressivamente, provocaram amplo descontentamento e perderam o crédito e o apoio que justamente antes haviam alcançado como resultado da sua luta.

    As mudanças radicais da situação e dos processos em curso oferecem traços comuns mas oferecem também traços distintos. Em alguns casos, os partidos comunistas, substituindo os dirigentes e empreendendo drásticas reformas no partido, no governo, no Estado e na política do país, procuraram novos caminhos para a saída da crise, sem deixarem de desempenhar importante papel na reestruturação. Noutros casos, os partidos comunistas perderam completamente a iniciativa e o controlo da situação e foram ultrapassados por forças que rapidamente se desenvolveram com largo apoio nas populações e que passaram a ter representação determinante nas instituições e na política dos países respectivos.

    Com o acesso ao poder (em alguns casos em posição dominante) de forças anti-socialistas, as atitudes oportunistas capitulacionistas em alguns partidos e a alteração radical da correlação de forças, as situações desenvolveram-se em alguns países não no sentido de uma nova política para a construção do socialismo mas no sentido do abandono (por vezes proclamado) do projecto socialista e da adopção, na organização económica, na organização política do Estado, no novo quadro partidário, assim como nas relações externas, de organizações contrárias aos interesses dos trabalhadores e do povo e tendentes à restauração do capitalismo.

    Tornava-se imperativa uma profunda reestruturação e modernização da economia. Mas a realização de privatizações que poderão atingir larga escala em sectores determinantes, a orientação súbita e não ponderada para uma “economia de mercado”, à qual não pode dar resposta uma organização demasiado centralizada e ainda burocratizada do aparelho produtivo, a admissão do capital estrangeiro em importantes alavancas da economia, a aceitação de imposições do FMI, uma política de preços e salários com vista à diminuição dos salários reais, a admissão do desemprego maciço como solução de problemas económicos de empresas, as limitações dos direitos dos trabalhadores, designadamente em empresas dominadas pelo capital estrangeiro – acusam orientações e medidas que não apontam para novos caminhos de construção do socialismo.

    Tornava-se imperativa uma profunda reestruturação e democratização do Estado e da vida social. Mas a falta de iniciativa política, a fragilidade ideológica, as divisões internas nos partidos comunistas no poder, a influência de elementos oportunistas e carreiristas no aparelho de Estado e do Partido, a reduzida ou nula participação directa dos trabalhadores e das massas populares nas decisões, a irrupção de forças nacionalistas e anti-socialistas, a cópia mecânica de experiências de países capitalistas e o alastramento de ilusões acerca das “sociedades de consumo” facilitaram o desenvolvimento agressivo de forças contra-revolucionárias e o seu acesso ao poder, pondo em causa a democratização do Estado e da sociedade numa perspectiva socialista.

    Tornava-se imperativa uma profunda rectificação e mudança da vida partidária. Mas em partidos comunistas no poder, sob o impacto da derrota, que em alguns casos atingiu o grau de desagregação e do descalabro, desenvolveram-se tendências contraditórias nas quais se podem discernir duas predominantes: a daqueles camaradas que, na complexa situação criada, procuram soluções com vistas a salvarem e prosseguirem a perspectiva do socialismo; e a daqueles que consideram que o socialismo faliu e, a par de soluções de tipo capitalista no plano do Estado, se pronunciam por soluções do tipo social-democrata no plano político e do partido.

    Graves crises atingiram os partidos no poder, com o aparecimento de divisões internas, mudanças sucessivas de orientação que desarmaram os militantes, saídas em massa de membros do partido. Dirigentes acusados de erros graves, corrupção, abuso do poder, são substituídos, afastados, em alguns casos incriminados, até fuzilados. Partidos mudam de nome, abdicam de actuação nas empresas e locais de trabalho, rejeitando alguns não apenas os erros e deformações verificadas mas o seu património histórico e positivo, as suas efectivas realizações revolucionárias e mesmo a sua ideologia. Alguns proclamam-se como partidos de orientação social-democrata.

    Explorando a situação de profundas crises nos países socialistas, designadamente o descontentamento e a agitação popular, a instabilidade dos governos e estruturas estatais, as derrotas dos partidos comunistas, as dificuldades económicas (em especial a desorganização e penúria do abastecimento e o endividamento externo), os conflitos étnicos, o imperialismo ingere-se abertamente nos assuntos internos desses países e põe em acção todos os seus instrumentos (designadamente FMI, Banco Mundial, política da CEE, NATO, partidos burgueses, comunicação social, serviços secretos) para influenciar em seu favor o curso dos acontecimentos. Organizações religiosas e nacionalistas dão suporte a actuações partidárias. São particularmente chocantes as ingerências de forças políticas e económicas estrangeiras nas eleições daqueles países.

    O imperialismo desenvolve não apenas uma frenética campanha política e ideológica a nível mundial, mas uma acção concertada com iniciativas de carácter económico, diplomático e político de grande alcance, visando desenvolver nesses países as forças anti-socialistas, reforçar as suas posições no poder, difundir os seus valores, implantar posições das multinacionais em sectores-chave da economia e na comunicação social e aprofundar os laços de dependência desses países em relação ao imperialismo. Vendo nos países socialistas europeus importantes mercados potenciais e terreno para colocação de capitais, o imperialismo actua com rapidez. Tenta assim impedir a saída da crise numa perspectiva socialista e encaminhar esses países, segundo a propaganda do capitalismo, para “a transição pacífica do socialismo para o capitalismo”. Causa preocupação a tolerância para com a ingerência imperialista.

    A situação criada adquire extrema gravidade, instabilidade e incerteza quanto à evolução desses países. Esta dependerá não apenas de fectores políticos mas da evolução que vier a verificar-se nas estruturas sócio-económicas. Nesses países já há muito são dominantes as relações de produção socialistas na economia nacional. A possibilidade de ultrapassar a crise na perspectiva de uma sociedade socialista renovada pela democracia política está em alguns casos comprometida e depende em última instância da capacidade de impedir a tomada do poder económico pelo capital privado, seja pelo seu renascimento através da rápida acumulação alcançada com a especulação seja a partir de posições crescentes e dominantes da banca mundial e das multinacionais e dos laços da dependência política, diplomática e económica em relação aos países capitalistas mais desenvolvidos. Depende também da capacidade dos comunistas, em aliança com outras forças progressistas, de recuperarem a confiança e o apoio de massas para a defesa das conquistas do socialismo e para o ideal comunista.

    O desmantelamento das realidades objectivas do sistema socialista e a sua substituição por eleições capitalistas, com as injustiças e chagas sociais que lhe são inerentes., não será um processo fácil. A vida demonstrou que não é fácil a passagem do capitalismo ao socialismo. A vida demonstrará que a inversa também é verdadeira, e mais ainda porque se trataria não de um progresso mas de um retrocesso histórico. Na evolução o futura desses países, e nomeadamente na consciência social desses povos, não deixarão de pesar as conquistas do socialismo. As massas populares, em primeiro lugar os trabalhadores, as mulheres, os jovens, não deixarão de se unir, organizar e lutar em defesa de importantes direitos e benefícios sociais e com eles os comunistas, mantendo sempre a perspectiva do socialismo.
    (…)

  29. José Raul caires says:

    Já agora, à laia de provocação, só gostava de saber era se no socialismo real poderia existir qualquer coisa como a MOB… :-) )

  30. rafael says:

    Caro Luis, já conhecia as resoluçoes do XIII Congresso, tenho pena de nao as ter…se te fosse possivel disponibilizares online ou para o meu e-mail ser-te-ia bastante grato: moc.nsmnull@setrof_leafar. A minha vida profissional tem-me afastado dos Centros de Trabalho e por isso pedia-te esse favor, caso te fosse possivel.

    O ponto central do meu comentário prende-se com o facto de, enquanto Partido, termos, de forma constante e consistente, quando lembramos os 20 anos do Muro e as campanhas de limpeza do capitalismo, sermos obrigados (no meu ponto de vista) a reforçar também a posiçao que tu muito justamente lembras sob pena de sermos alvo dos comentários que tenho lido e creio que tu também.

    Senao, muito facilmente as nossas posiçoes sao colocadas em causa colando-nos apenas ao que de errado houve nos regimes socialistas e isso nao podemos permitir…

  31. rafael says:

    depois de googlar com algum afinco, lá consegui encontrar as resoluçoes do XIII Congresso do PCP. Deixo aqui para quem quiser consultar:
    http://www.pcp.pt/index.php?option=com_content&task=view&id=34633&Itemid=817

  32. José Raul caires says:

    Por acaso não colo os comunistas apenas ao que houve de errado nesses regimes, acho até que na sociedade em que vivemos no presente são uma força necessária. Falam por muitos que cada vez menos têm voz. Graças à democracia.

  33. Luis says:

    “Graças à democracia” para a qual no nosso país foram os únicos a lutar durante os longos 48 anos do fascismo e os que mais afincadamente se bateram para introduzir na Constituição de Abril os direitos liberdades e garantias de todos os cidadãos e as componentes política, económica, social e cultural da democracia.

    E que continuam vigilantes na denúncia e luta contra todos os atentados que a podem enfraquecer.

  34. José Raul caires says:

    Não é verdade. Não foram os únicos a lutar. O Humberto delgado não era comunista. A JUC, não era comunista. E muitos outros… – os Socialistas, do ps, que ao fim a ao cabo eram sociais democratas, a ala liberal, que acabou por se demitir por não conseguir levar a carta a garcia, etc…

    Lá que o Salazar nutria um ódio e um temor especial pelos comunistas, issso não nego…

  35. rafael says:

    A grande diferença entre considerar os comunistas como importantes no papel de “grilo falante” e de os considerar como força capaz e dinamizadora de uma transformaçao social que permita uma mudança do paradigma da organizaçao do trabalho e da propriedade é abissal.

    Quando as forças comunistas e revolucionárias começam a ser mais que as mascotas do sistema, veja-se a América Latina e a reacçao dos grandes proprietários ou por exemplo as declaraçoes de Van Zeller quando se ventilava a hipotese de PCP e BE terem um papel determinante na governaçao, a “democracia plural e repeitadora” rapidamente começa a desvancer-se e isso apenas é um sinal da raíz intrinseca e profunda da natureza profundamente anti-democratica do capitalismo. Democracia nas fabricas e nas empresas? Nem pensar…

  36. José Raul caires says:

    Grilo falante – é esse exactamente esse o papel que lhes confiro. Cheguei a ser eleitor do Bloco de Esquerda enquanto os vi como defensores de causas que para mim eram importantes, fundamentais. Quando, nas últimas eleições, vi o programa deles, “mandei-me ao ar”.

    Não sou grande apologista do neoliberalismo, sou um social democrata moderado, acho que tem que haver espaço para as chamadas liberdades e garantias, mas, também para a iniciativa privada (por acaso não sou grande apologista, por exemplo, que as pessoas que herdam casas as arrendem e vivam dos rendimentos – não corresponde ao meu conceito de iniciativa privada).

    O capitalismo comete injustiças? pois comete.

    A sociedade em que vivemos é injusta? pois é. Todas desde sempre foram.

    A verdade, custe-lhes ou não, é que, em democracia, somos todos “grilos falantes”.

    Ninguém é possuidor da verdade absoluta. Isso, só a vontade do povo e o decurso da história pode decidir.

    Cumprimentos

  37. Luis says:

    “durante os longos 48 anos do fascismo” só mesmo os comunistas é que lutaram, repito durante o primeiro até ao último dia. Obviamente não foram os únicos, mas foram os únicos a aguentar a luta durante os longos 48 anos do fascismo. O PS, por exemplo, auto-dissolveu-se. A JUC surgiu depois do fim da II guerra mundial. Por muito que procure não encontra mais nenhuma organização que tenha estado nesta luta durante 48 anos. Isso é um facto da história.

  38. José Raul caires says:

    Ok, venceram o prémio de antiguidade…

  39. Mexilhão says:

    Oi, pessoal. Voltei. O dia está chuvoso e sopra uma ventania agreste que não convida a sair de casa. Constatando a incompetência da “Brigada Brejnev da Blogosfera” destacada para o sítio, resolvi-me a dar uma mãozinha na propaganda. O pessoal do clube aqui no blog não se deverá importar, porque isto não gasta papel e quem não lhe interessar poderá passar à frente Aqui vai, então, o sumo da Resolução Política do XIII Congresso (Extraordinário) do PCP, Loures, 18, 19 e 20 de Maio de 1990. Realcei apenas os títulos, para melhor identificação dos assuntos. Mais importante do que as constatações da altura, com que a BBB nos quis empanturrar, é a análise das causas da “crise do socialismo”. Depois, desmontarei as falácias das conclusões, ilustrativas de como os comunistas são incapazes de compreenderem a realidade e de tirarem dela as devidas ilações. Sim, porque não se esqueçam que apesar da puta da realidade ter levado ao descalabro do comunismo por todo o lado, “o ideal comunista da construção a nova sociedade mantém a sua validade”. Nem mais!
    Ora, cá vai milho.

    Causas fundamentais
    Torna-se indispensável e urgente uma primeira investigação das causas internas das crises registadas, da gravidade dos erros e das situações, das vertiginosas mudanças, das derrotas verificadas no processo de construção da sociedade socialista.
    Na sequência de análises anteriormente realizadas e sujeitas a desenvolvimento e aprofundamento ulterior, considera-se que, primeiro na URSS e depois numa série de países socialistas se vieram a infringir cinco características fundamentais de uma sociedade socialista em construção e que se instituíram cinco traços negativos que estando inter-relacionados, se encontram na origem das gravíssimas crises verificadas.
    1ª O poder dos trabalhadores, o poder popular, foi sempre considerado e afirmado como fundamental na revolução socialista e na construção da sociedade socialista. «Todo o poder aos sovietes de operários, camponeses e soldados» foi uma consigna fundamental da revolução de Outubro e da democracia socialista e realidade nos primeiros tempos da revolução.
    Verificou-se entretanto que com a consolidação do Estado socialista, seja por condições externas extremamente desfavoráveis que conduziram a uma forte centralização da direcção da vida económica, social e política, seja por graves tendências e erros na direcção do partido e do Estado, seja ainda porque o poder não controlado, sobretudo em casos de partido único, abriu fácil caminho ao abuso e ao arbítrio, verificou-se uma crescente degradação do carácter popular do poder. O poder popular efectivo foi sendo substituído por um poder político fortemente centralizado, paternalista, cada vez mais afastado das aspirações, opinião e vontade do povo, subtraindo-se cada vez mais ao controlo popular, tomando decisões de carácter predominantemente administrativo, frequentemente arbitrário e repressivo, e afastando efectivamente os trabalhadores e o povo do poder, da intervenção nas decisões e consequentemente do empenhamento na realização da política do país.
    2ª A democracia na sociedade socialista foi sempre considerada e afirmada como superior à democracia existente nos Estados capitalistas. É indubitável que, na construção do socialismo, se deram transformações democráticas de alcance e significado histórico nas esferas económica, social, cultural e científica e, em alguns aspectos e períodos, também no domínio político.
    Verificou-se entretanto que a democracia política veio a sofrer graves limitações não apenas no que respeita ao exercício do poder, mas no que respeita a liberdades e direitos dos cidadãos, à democraticidade das eleições, ao direito de associação, ao direito de informação, ao respeito pelo valor e intervenção do indivíduo, à afirmação da opinião diversificada. Acentuou-se progressivamente em alguns países o carácter repressivo do Estado, a infracção da legalidade, a ausência ou inoperância de mecanismos de controlo do uso do poder, o definhamento da participação de massas e o estiolamento da sua criatividade.
    3ª Foi sempre considerado e afirmado como fundamental na construção da sociedade socialista a propriedade social dos principais meios de produção, colocados ao serviço dos interesses do povo e do país, libertados da propriedade privada, dos interesses dos capitalistas e dos entraves ao desenvolvimento provocados pelas relações de produção capitalistas, complementada por outras formações económicas em áreas diversas da produção; da distribuição e dos serviços, assegurando a aplicação das conquistas da ciência e da técnica e implicando em qualquer caso a participação empenhada e criativa dos trabalhadores e a criação de condições de vida do povo radicalmente melhores.
    Verificou-se entretanto que, em numerosos casos, a edificação de uma economia socialista foi concebida e realizada com uma centralização excessiva da propriedade estatal, da planificação, das unidades económicas e da gestão, por vezes com a eliminação de outras formas de propriedade e de gestão mais adequadas, com decisões tomadas a grande distância e transmitidas e impostas por um vastíssimo, pesado e rotineiro aparelho burocrático, sem ter em conta a necessária participação dos trabalhadores na gestão das empresas, nem considerando o papel do mercado na economia e na política económica. Com a violação do princípio do socialismo «de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo o seu trabalho», geraram-se tendências igualitaristas que desincentivaram o empenhamento e a produtividade dos trabalhadores, surgiram elementos de distanciamento e desinteresse dos trabalhadores em relação à propriedade social. De tudo isto vieram a resultar fenómenos de estagnação das forças produtivas, atrasos nos progressos tecnológicos, economia paralela, desequilíbrios económicos e sociais, produção decidida sem ter em conta as exigências quantitativas e qualitativas do mercado e não correspondendo em numerosos aspectos às crescentes necessidades e exigências do consumidor.
    4ª O papel dirigente do Partido Comunista, como vanguarda dos trabalhadores e força política dirigente da revolução socialista foi também considerado como fundamental na construção da sociedade socialista.
    Verificou-se entretanto que numa série de países a direcção do partido (em alguns casos apenas um circulo restrito de dirigentes e mesmo um dirigente individualmente), veio a abafar a vida democrática interna do partido, instalando um sistema de centralismo burocrático, adoptando um sistema de imposição administrativa das suas decisões. Enfraqueceu-se o trabalho colectivo e desenvolveu-se o culto da personalidade. Confundiram-se e fundiram-se as funções e estruturas do Partido e as do Estado, com uma intervenção dirigista omnipresente do Partido em todas as instâncias do Estado, em prejuízo não só do exercício das funções próprias dos órgãos estatais como também em detrimento da acção militante política e ideológica do Partido na sociedade. Alargou-se tal «estilo» dirigista às relações com organizações de massas, nomeadamente reduzindo em grande parte o papel dos sindicatos a meros apoiantes da gestão económica e da direcção centralizada. Assim se desvirtuou o papel de vanguarda do Partido, conduzindo-o, e ainda mais os seus dirigentes, a um crescente afastamento dos trabalhadores e das massas populares, à perda do seu apoio, a uma crise de confiança no Partido e nos ideais do socialismo que minou os fundamentos do seu papel dirigente.
    5ª Foi considerado na construção da sociedade socialista o importante papel desempenhado pela teoria, tanto para possibilitar o rigor das análises e orientações do Partido e do Estado, como para a intervenção dinâmica e criativa das massas quando ganhas pela teoria.
    Verificou-se entretanto que o marxismo-leninismo veio a impôr-se, não tanto pelos grandes desenvolvimentos teóricos efectivamente ocorridos nos mais variados ramos do conhecimento, mas mais como doutrina do Estado. O marxismo-leninismo foi frequentemente dogmatizado e instrumentalizado para justificar práticas ultrapassadas, aberrantes ou especulações desligadas da análise concreta das situações concretas, conduzindo à sua vulgarização apologética e consequente incapacidade de conhecer com rigor científico e espírito dialético vários domínios da realidade, incluindo aspectos importantes tanto do socialismo como do capitalismo. A repetição escolástica dos clássicos e de conceitos absolutizados não permitiu encontrar respostas criativas para as novas situações e problemas. A confusão entre informação e propaganda e o divórcio de ambas em relação à realidade, desarmaram os militantes, as massas e a juventude perante a ofensiva ideológica dos adversários. As deficiências no campo da teoria assumiram assim uma quota de responsabilidade em atrasos, erros e deformações verificadas.
    Rejeitando qualquer pretensão para justificar ou minimizar as graves deformações produzidas em nome do socialismo, considera-se que a explicação do aparecimento e desenvolvimento destes traços negativos exige a consideração do contexto histórico em que se processou a edificação do socialismo, designadamente quanto ao nível do desenvolvimento existente e à real influência dos partidos comunistas na altura da revolução, os processos concretos que levaram os comunistas ao poder e o grau diverso da intervenção das massas nesses processos, as tradições culturais e democráticas, as experiências concretas disponíveis da edificação da nova sociedade, a resistência aposta pela reacção interna e a hostilidade do imperialismo. A não correcção atempada daqueles traços negativos veio a despoletar (com o esgotamento da dinâmica das anteriores formas de desenvolvimento económico, agudizado nos anos 70 pela incapacidade de aplicar à produção as conquistas da revolução técnico-científica, e no quadro da competição com o capitalismo) situações de crise generalizada. Estes processos históricos exigirão uma investigação dos factos, uma análise objectiva e conclusões teóricas que a evolução vertiginosa dos acontecimentos e os interesses e paixões conjunturais não permitem actualmente realizar com inteiro rigor.
    Entretanto, pode desde já afirmar-se que apesar das diferenças existentes na situação, nos processos e nas soluções concretas, os cinco traços negativos apontados eram comuns na URSS e noutros países socialistas agora convulsionados pela crise. Assim, pode considerar-se que (sem entretanto esquecer realizações positivas e aspectos positivos da vida política, económica, social e cultural) esses cinco traços negativos generalizados por transposições mecânicas de soluções (copiadas ou impostas) e herdando alguns conceitos e práticas do estalinismo, caracterizavam como que um «modelo» que os acontecimentos mostram não só não assegurar como comprometer e poder conduzir à derrota a construção da sociedade socialista. Alguns destes traços negativos manifestam-se também, com maior ou menor gravidade, noutros países socialistas, onde, atendendo antes do mais às suas situações nacionais específicas, é também necessário ter em conta as lições desta experiência histórica.
    Sendo parte integrante do movimento comunista internacional, o PCP, num ou noutro momento e num ou noutro aspecto da sua actividade, partilhou apreciações nele predominantes sobre a realidade dos países socialistas e reflectiu concepções nele generalizadas, designadamente no que respeita a alguns traços negativos. É porém certo que tanto no seu Programa e projecto próprio, como na sua prática política e funcionamento interno, o PCP excluiu tais traços negativos que configuram um «modelo» que significa, não apenas um afastamento, mas o afrontamento do ideal comunista.

  40. Tiago Mota Saraiva says:

    José Raul caires, se bem percebi a provocação questiona-se se, no “socialismo real”, o atelier onde trabalho (e do qual sou co-fundador e sócio) poderia existir.
    Nos termos e moldes que existe actualmente estou certo que não.
    Não tanto pelo regime, mas pelo simples facto que, quem o constituiu, nunca ter sonhado ter o “seu” estaminé para fazer os “seus” projectos. O atelier ou a empresa, é a resultante da necessidade de construir uma vida à margem do recibo verde, da precariedade ou da falta de ética profissional.
    Caro José, acho que deu o exemplo errado. ;)

  41. José Raul caires says:

    Caro Tiago – olhe que não, olhe que não…

    Nós sabemos o que era o pesadelo dos artistas nos antigos regimes comunistas, como cá, durante a nossa ditadura, em que existia uma espécie de arte oficial – e o mesmo é válido para a arquitectura – havia uma arquitectura de regime – os esforços que eram necessários para contornar esse sistema, etc.

    Por exemplo, Teotónio Pereira há-de ser uma pessoa que venerarei sempre.

    Não acredito que alguém funde uma empresa de Arquitectura apenas para fugir aos recibos verdes, etc…

    Por acaso até tenho seguido o vosso trabalho, e, em geral aprecio.

    Cumprimentos.

  42. toni says:

    Mais em cima num post do Andre Levy sobre o SPGL, existe um comentário do “ausgusto” que é exemplar na definição do que é o estalinismo hoje em dia, na prática, no movimento sindical e no país. As resoluções do congresso de Loures, até podem estar lá no site, mas a prática política diz-nos muito mais sobre o que é isso do”estalinismo”!
    E eu não defendo a direcção do SPGL! Aliás não defendo ninguém que tenha as mãos sujas com aquele”memorando”!

  43. Tiago Mota Saraiva says:

    Caro José Raul caires, vejo então que partilha da crítica de Álvaro Cunhal à imposição de uma estética e um linha artística de estado. Eu também.
    Veneremos todos os que, na dificuldade de exercer a sua profissão num regime fascista, contra ele combateram com a sua arte e com a sua força. Nos arquitectos, Teotónio é um nome incontornável tal como Manuel Tainha, Keil do Amaral, Celestino de Castro… um dia destes gostaria de escrever sobre todos os outros. A arquitectura, em tempos muito difíceis, conseguiu encontrar importantes focos de resistência, de que hoje tanto necessitamos.
    O atelier, ou a empresa, foram a resultante da necessidade de construir uma vida. Lamento desapontá-lo, mas nunca pensei que tivesse de passar por aí a minha realização profissional.

  44. José Raul caires says:

    Tiago: Não estou a questionar aquilo em que pensou, não me desaponta nada, mas lá que teve que se render à realidade, teve.

    Já agora, uma nota de humildade – nunca recebi o prémio de melhor aluno da FAUTL, nem passei pelo Maximiliano Fuskas, etc…;

    Eu, por acaso, gosto do projecto em regime independente. Com todas as limitações que isso implica.

    Não me interessa a questão dos recibos verdes, etc, porque fui trbalhador estudante, por exemplo, e não acho que isso seja um problema exclusivo da arquitectura.

    É um problema laboaral que é geral a muitas profissões e, que, pela base, não deveria existir.

    Ao contrário do Tiago, eu, sempre quiz ter o meu atelier.

    E não se trata de uma questão de ganhar muito dinheiro, etc – porque todos nós sabemos como custa gerir um atelier, mas ter independência enquanto autor.

    Talvez seja uma questão de mero narcisismo, concedo.

    Sei que num organismo público poderia ter acesso a coisas de outra dimensão, se calhar pensar melhor no espaço público, no ordenamento do território, etc..

    Mas este foi o caminho que eu escolhi. E acho que posso começar por coisas pequenas e grandes simultâneamente, tudo resto vem por acréscimo.

    Agora, esta discussão, situava-se num plano meramente político: – de acordxo com as suas convicções, o Tiago deveria estar a prestar serviço público – fosse numa câmara, fosse onde fosse.

    Cumprimentos,

    Raul

  45. José Raul caires says:

    Já agora, os desenhos do Alvaro Cunhal são muito “neo realistas”, não são arte moderna que, isso sim, seria anatema…

  46. José Raul caires says:

    dei alguns erros de ortografia e gralhas. estou cansado.

  47. MS says:

    José Raul caires: “de acordxo com as suas convicções, o Tiago deveria estar a prestar serviço público – fosse numa câmara, fosse onde fosse.”

    O que o leva a pensar que aqueles que trabalham em serviços públicos partilham as mesmas convicções? Ou que os que trabalham no sector privado o fazem por idêntica convicção política?

  48. Mexilhão says:

    Então, pessoal da BBB, hoje meteram folga e foram ao sonoro? Cuidado com essa falta de assiduidade ao trabalho de vigilância e propaganda na blogosfera. Lá por ser domingo, podem trabalhar por turnos. E eu que pensava prestar-vos uma ajudinha pondo aqui mais um pouco de propaganda. Bem, se calhar não vos interessa discutir as causas da derrocada do comunismo, nem a inversão entre causa e efeito nem as nossas ideias como critério de verdade. Deve ser isso.
    Mas, pàzinhos, como desde há 19 anos o partido nunca mais aprofundou o assunto, ao contrário do que prometera, poderia ser uma boa oportunidade para verificarmos se as causas que são apontadas para a derrocada do comunismo não são, afinal, as causas da sua implantação. Sim, porque se aquela merda de regimes se manteve durante tantos anos, setenta anos na Rússia e quarenta e cinco no resto, com tantos “erros, atrasos e estagnações”, que constituiriam “cinco traços negativos” que teriam infringido as “cinco características fundamentais de uma sociedade socialista em construção”, como é que sabem que esta merda toda foi a causa da queda e não a causa da implantação do comunismo? Lembrem-se que o que existiu, e que vocês tanto louvam, existiu precisamente com tantos “erros, atrasos e estagnações”. Já se perguntaram se o comunismo teria sequer existido sem os tais erros, etc.? Já sei: vocês não se querem dar a esse trabalho de pensarem; isso é muito complicado. E, depois, se a perestroika tinha por objectivos corrigir aquela trapalhada toda, promovendo a reestruturação do que apodrecera, já viram como são ingratos descarregando tudo em cima do Gorby (em quem vocês depositaram tanta esperança)?
    Bem, vocês não querem pensar sobre se os erros, etc. foram a causa da queda ou a causa da implantação do comunismo. Pronto, está bem, fica para outra oportunidade. Mas, ao menos, poderíamos ver se apesar daquela merda ter ruído toda, isto é, se apesar da realidade ter dado no que deu, é a realidade que está errada (porque, malvada!, deu cabo dum sonho tão lindo), ou se é a puta da ideologia que não tem ponta por onde se lhe pegue. Vamos lá fazer um exercício simples. O comunismo foi implantado, e essa realidade insofismável validou o marxismo-leninismo. Deste modo, o m-l passou de ideologia a “ideologia científica” (tão linda, esta designação). A teoria passou pelo crivo da prática, a prática, a realidade, como supremo critério da verdade, validou a teoria. É assim, aliás, que se trabalha em ciência.
    Corre o tempo, com a prática a validar cada vez mais a teoria, porque aquilo era só progresso vertiginoso, e às tantas a puta da prática, a realidade, começa a esboroar-se e prega uma partida à teoria. Que é que a prática, depois de tanto praticada, disse da teoria? Meus amigos, tenham mas é juízo, vejam lá que teoria é essa, e vamos lá corrigir esta merda, porque isto não funciona. É claro, as coisas tinham chegado a um ponto, a prática estava a tal modo a rebentar pelas costuras que nem deu tempo a nada, e não houve perestroika que valesse. Aquela merda rebentou mesmo! E rebentou em cadeia; primeiro pelos elos mais fracos, até que chegou ao Sol na Terra. E pum!, foi um vê se te avias.
    Que é que o querido partido, e com ele alguns outros, mas poucos, concluiu? Pessoal, tenham calma que isto não é o fim do mundo. Como em tudo na vida, nada está definitivamente garantido. O paraíso foi-se, mas o nosso ideal mantém-se, e nós cá estamos para construir tudo de novo. A teoria é que manda, e a teoria está nas nossas cabecinhas, intocável; aqui é que o imperialismo não chega.
    Primeiro, a prática tinha validado a teoria. Depois, a puta da prática deu no que deu? Então, espera aí, a nossa querida teoria, que fora validada pela puta daquela prática, não valida aquela prática traidora! Não é tão lindo? Haverá, mesmo, coisa mais linda do que um lindo ideal? Cabecinhas pensadoras!

  49. “de acordo com as suas convicções, o Tiago deveria estar a prestar serviço público – fosse numa câmara, fosse onde fosse”

    … é o que vou tentando, seja onde for.

  50. rafael says:

    José Raul Caires

    acha q somos todos grilos falantes e que a sociedade é injusta e sempre será, nao é? Esta é exactamente a diferença entre pensamento social democrata e pensamento comunista de matriz revolucionária. O primeiro conforma-se com a realidade, o segundo tenta superá-la. Peço desculpa por algum inconformismo…

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