Fogo sobre a NORMALIDADE / NORMALIZAÇÃO / HOMOGENEIZAÇÃO


GÉRICAULT. Retrato de Louca. 1822.

Desde há algumas semamas tem-se discutido e conversado aqui sobre o comunismo e os comunismos ou o que Badiou e outros chamam a “hipótese do comunismo”. Cada um de nós – e remeto os leitores para os textos e comentários do Ricardo Noronha (que o ligo a uma linhagem anarco-comunista, ele que me perdoe se erro), do Zé Neves (autonomista e, como o próprio se definiu, “marxista não-leninista”), do Tiago Saraiva (militante do PCP), remeto para os meus próprios textos, ainda recordando o sempre presente Miguel Serras Pereira (mais o Xatoo, recomendando eu que lhe visitem o blogue), entre outros – cada um de nós, dizia, tem utilizado e irá utilizar, estou certo, os melhores dos seus argumentos, as melhores de entre as suas faculdades dialogais e conhecimentos teóricos, históricos, em suma, expor aquilo em que acredita e se dispõe a transmitir aos outros para, provavelmente, os tornar “aderentes”. Várias linhas se encontram nesta conversa in progress, como referi. Continuaremos a conversar, evidentemente, mais ou menos acaloradamente em torno destes tópicos. Creio que disso o leitor pode estar certo. Espero, por exemplo, com muito interesse, como sempre, pela próxima intervenção do Zé Neves, e adiante.

Portanto, o Ricardo, o Zé, o Tiago, o Miguel, ou o Xatoo (a que junto contribuições do Nuno e, agora, do Bruno, com um muito bom e sintético post sobre o Muro) são interlocutores mais do que válidos. E, neste contexto, dado o primarismo das formulações, enquistadas em clichés palermas, nulos e absolutizados na incapacidade e na ignorância, disse desde logo que não conversaria com moços de fretes do bloco central como Daniel Oliveira e tudo aquilo que ele representa (que é nada ou muito pouco, nem sei se uma eventual “extrema direita” do BE). Deparei ontem com um post deste intitulado “Felizmente, nem tudo o que é 5dias é Carlos Vidal”. É um bom título, pois confirma algo que eu tinha declarado – sobre isto, esta “hipótese do comunismo”, não considero os “arrastões” como interlocutores. Portanto, aplaudo o título do D. Oliveira. Já não posso deixar passar em claro a modificação desse citado título para: “E de repente volta a sentir-se um sopro de NORMALIDADE no 5 dias”. Repito o que sublinhei: NORMALIDADE. É pois aqui que reside o problema. Este indivíduo tem achado a nossa conversa aqui no 5dias “ANORMAL”. E eu acho que com isto ninguém deve pactuar (nem a rir). Por uma razão: para este Daniel qualquer coisa, a democracia define-se por NORMALIDADE. Ou seja, defender posições radicais sobre hipóteses de emancipação social, defender aspectos da chamada “vida soviética” é interdito e proibido, não por motivos racionais, mas porque não se enquadram na NORMALIDADE segundo D.O. Não linkei o texto do “arrastão” (que é apenas uma citação do Bruno Sena), porque não entro nesse jogo da trampa da NORMALIDADE. E é com muito gosto que digo: se o D.O. é NORMAL, eu só desejo conservar-me, por muito mais tempo, ANORMAL.

CV.TG.1
CARLOS VIDAL. Sem título (A partir de Géricault). Óleo s/ tela. 1986 (Col. particular).

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 respostas a Fogo sobre a NORMALIDADE / NORMALIZAÇÃO / HOMOGENEIZAÇÃO

  1. Diogo diz:

    Existe outra hipótese de comunismo:

    A ciência + tecnologia estão a evoluir em progressão exponencial.

    A ciência + tecnologia estão a reduzir os empregos em todos os campos.

    Sem empregos não há salários.

    Sem salários não há vendas.

    Sem vendas não há lucros.

    Sem lucros não há capitalismo.

    Defendo que caminhamos para uma sociedade do tipo faça-você-mesmo numa nova base tecnológica.

    Talvez valha a pena esquecer os ensinamentos de Marx.

  2. Ricardo Noronha diz:

    Carlos, essas arrumações valem o que valem e não me preocupam muito. Como diziam os boyzone, it’s only words.
    Dito isto, e se quisermos entrar no jogo da taxionomia, eu diria que o leninismo de que te reivindicas transporta em si uma ganga jacobina que deve seguir em passo rápido para o caixote de lixo da história.
    Já o meu «anarco-comunismo», que não confirmo nem desminto, parece uma criatura da mitologia grega, metade-homem metade-animal: minotauro, medusa, centauro, sereia, fauno. Ou um deus do panteão egípcio.
    Tem calma com o Daniel. Um dia destes ainda vos juntamos à mesa sem vos avisar.

  3. Von Berlin diz:

    Herr Vidal,

    Was ist normal??

    Agradeço a GÉRICAULTter-me pintado. Retrato de Louca, 1822, veja lá aos anos que ele me pintou e ainda estou viva, de boa saúde e louca, como em princípios do século XIX.

    Estava agora mesmo a ouvir Schumann:

    “Wenn ich ein Vöglein wär
    und auch zwei Flüglein hat,
    flog ich zu dir,
    weil aber nicht kann sein
    bleib ich allheir”.

    http://www.youtube.com/watch?v=nV2X2cdE7SE&feature=related

    Aufwiedersin

  4. carlos graça diz:

    pois a mim, o quadro parece-me um certo PM, cuja ficha clínica desconheço, nem desejo conhecer…

  5. xatoo diz:

    normalidade vs anormalidade – afinal é realtivamente simples balizar os critérios: o que é normal engasga-se na metafisica, o que aparece a qualquer incauto como “anormal” provém da dialética. Quem adquiriu formação para pensar sobre os factos que se contituem em história de forma dialéctica, tem de certa forma de se apresentar como sendo “matéria anormal”. Daí que esse tal teólogo D. Oliveira já me tivesse rotulado de “neo-nazi”, “fascista” e finalmente “maluco” (afinal acerta em cheio, como no Biberkopf internado em camisa de forças em Fassbinder ou em Saramago no hospicio da cegueira). Os padres da normalidade não têm redenção à vista, valha-nos o imortal (são)Tomás de Aquino que também dizia ser preciso alguém inteligente para dispôr o universo de forma ordenada. O legislador da Ordem, claro. “Ordenada” para a propositada visão limitada dos dominados, porque para os poderosos que se assumem como dominantes é do caos (aparente) que eles retiram maiores lucros

  6. Augusto diz:

    Diga lá sr. Carlos Vidal e de que linha do PCP faz parte?

    Da de Francisco Lopes-Domingos Abrantes, defensores desse inacreditavel artigo de opinião publicado hoje no Avante sobre o Muro?

    Escrever que o Daniel Oliveira faz parte de uma extrema-direita do BE, só pode vir de alguem que acha que a Coreia do Norte até é uma democracia, que Cuba tem um regime de plenas liberdades, que a Stasi na ex RDA não tinha nenhuma comparação com a nossa sinistra Pide….. e que Muro de Berlim foi erguido para defender o socialista….

  7. Carlos Vidal diz:

    Ricardo, imaginemos que eu deitava o Lenine “fora”, como propões.

    Mas isso nunca seria em nome da NORMALIDADE.

    Esse caminho nem eu nem tu o trilhamos.

  8. Renato Teixeira diz:

    Mistura-se um pouco de Lenine bem lascado a refogar com um pouco mais de Trotsky necessariamente mal passado para evitar que a coisa talhe. Uma vagem para dar um aroma a Bakunine com um toque mais forte de Durruti para não se perder a consistência e o romantismo do serão.
    Levar ao forno depois de escorrer a gordura de Estaline e apimentar a coisa servindo para acompanhar um vinho de Rosas. Deixar passar as lições da Comuna, da revolução russa, da espanhola, da húngara, da boliviana, da nicaraguense, da argentina… e da portuguesa claro… que foi a que levou mais tempo a maturar.
    Uma vez bem apurado servir o repasto ao povo esperando que este tenha fome e estômago para não optar pela dieta insossa do Oliveira.

  9. Zé Neves diz:

    caro renato, penseio que a ideia fosse ser o povo a cozinhar… e não a ser servido…
    abç

  10. Renato Teixeira diz:

    Pois… sem dúvida seria melhor.
    Mas o raio do sujeito histórico é tudo menos precoce e tarda em emancipar-se! Resultado, ao invés de cozinhar é cozinhado. Ao invés de comer é comido. Assim sendo, ao menos que seja com um repasto nutritivo, de auto-crítica consumada e sem dietas que lhe agravem a fome.

  11. estas loucas do foucault mathésicas e taxinómicas são uma e a mesma, eventualmente a consultadeira jugulosa a ultrapassar a “metafísica do sujeito” do nosso povo livre.

  12. e a negar a possibilidade do sujeito transcendental numa de neo-realeira. sou mui pelo anarco-comunismo por vias da image, inteligência e disfunções.

  13. Ouvir Schumann…Para deprimente ,basta o real.

Os comentários estão fechados.