Diz-me como vives…

Tive uma fase de militância estética em que frequentava blogues de decoração do género do Apartment Therapy (que cunhou o moto revolucionário “saving the world one room at a time”), à procura de ideias para converter o meu apartamento popular numa penthouse com estilo a baixo custo. Isto foi antes de os extractos do banco me convencerem da futilidade dos meus esforços (momento a que eu chamo, com Badiou e Carlos Vidal, o meu embate ideológico com o real), e de desenvolver uma súbita urticária à simples menção da palavra “vintage”. Dos muitos sites que descobri nessa época, só continuei a espreitar The Selby, que está para os blogues de decoração como The Sartorialist para os de moda. Ambos fotografam “pessoas reais” (o que quer que isso seja) com roupas ou casas “reais” – por oposição, suponho, à “haute couture” dos famosos e às casas que aparecem, sem um livro fora do sítio, nas revistas de decoração. Claro que a dicotomia gente real / gente famosa é só aparente, que as melhores fotos do Sartorialist são as que depois se descobrem ser de modelos parisienses que já nasceram com pernas até aos seus minúsculos dérrières e que por isso podiam sair de casa em pijama que estariam na mesma “gorgeous” e “effortlessly stylish”, e que o Selby considera a Inês de la Fressange uma pessoa real. Não importa, o objectivo é, se não nobre, pelo menos democrático: convencer-nos que nós, gente de carne e osso sem posses nem pedigree, podemos atingir o Olimpo do bom gosto nas nossas vidas & casas, e mesmo, quem sabe, ser um dia catapultados para os nossos 15 segundos de fama pelo Alfaiate Lisboeta, mostrando ao mundo que as nossas idiossincracias estéticas (chamemos-lhe assim) e os limites do cartão de crédito são afinal a marca de uma cultivada individualidade. Eu pelo menos sinto-me bastante melhor quando vejo que a organização dos meus papéis não anda longe das tendências da “gente real”.

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