Uma questão de transportes, -2
11 de Novembro de 2009 por António FigueiraO A.R. enfiou uma vez o pé direito na roda raiada de uma Honda Amigo, o pé foi seccionado como um salame, ele teve de fazer uma data de operações e andou anos de muletas, não sei se alguma vez ficou bom; o D.C. apita por todos os aeroportos onde passa, de tanta platina que tem no corpo, um malho monumental na estrada do Autódromo, maior do que todos os outros, deixou-o um ano estendido numa cama, teve de repetir o Propedêutico e acabou o curso um ano depois de mim; o J.P. morreu, acho que de morte instantânea, colado à parte de trás de um camião como uma mosca a um vidro, depois de devidamente golpeada por um mata-moscas, neste caso um táxi, ao pé do Museu dos Coches; só eu me safei, integral, e do ponto de vista retrospectivo, que é por definição o melhor e o mais justo (filosofia trágica da história), estou tentado a pensar que foi para passar a mensagem de que o perigo (este perigo, que é apenas mais um perigo) vem em duas rodas, a dificuldade (não só aqui e agora, mas sempre e em toda a parte) está em explicar, a alguém que não viveu o que eu vivi (e ninguém pôde viver exactamente o que eu vivi), aquilo que eu penso, com a veemência que é devida para explicar cabalmente e convencer esse alguém do carácter fundamental da mensagem que eu sou suposto passar. Espero ter-me feito entender.

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