Uma questão de transportes, -2

O A.R. enfiou uma vez o pé direito na roda raiada de uma Honda Amigo, o pé foi seccionado como um salame, ele teve de fazer uma data de operações e andou anos de muletas, não sei se alguma vez ficou bom; o D.C. apita por todos os aeroportos onde passa, de tanta platina que tem no corpo, um malho monumental na estrada do Autódromo, maior do que todos os outros, deixou-o um ano estendido numa cama, teve de repetir o Propedêutico e acabou o curso um ano depois de mim; o J.P. morreu, acho que de morte instantânea, colado à parte de trás de um camião como uma mosca a um vidro, depois de devidamente golpeada por um mata-moscas, neste caso um táxi, ao pé do Museu dos Coches; só eu me safei, integral, e do ponto de vista retrospectivo, que é por definição o melhor e o mais justo (filosofia trágica da história), estou tentado a pensar que foi para passar a mensagem de que o perigo (este perigo, que é apenas mais um perigo) vem em duas rodas, a dificuldade (não só aqui e agora, mas sempre e em toda a parte) está em explicar, a alguém que não viveu o que eu vivi (e ninguém pôde viver exactamente o que eu vivi), aquilo que eu penso, com a veemência que é devida para explicar cabalmente e convencer esse alguém do carácter fundamental da mensagem que eu sou suposto passar. Espero ter-me feito entender.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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9 respostas a Uma questão de transportes, -2

  1. fcl diz:

    Não, não fez. Ou sou eu que estou bronco às segundas. Péra lá, hoje não é 2ª…
    Declaração de interesses: ando de moto há 40 anos e as minhas 3 filhas tiveram e/ou andaram de moto quase diariamente
    PS: Sei de alguém que perdeu 2 familiares em 2 acidentes de avião, mas (plo menos até ver) não sentiu a necessidade de passar a mensagem(?) – tipo, “não deixem a família andar de avião, pois é mto perigoso”.
    Cumps

  2. Pois é, mas em relação às motas parece que em Portugal vigora a mesma desculpabilização social que em relação ao álcool. Isso e aquele mito estúpido do viver depressa e ter um cadáver bonito – o que muitas vezes não é caso, pois os acidentes de mota costumam deixar os acidentados muito maltratados.

  3. JC diz:

    Er… Eu ando de mota quase diáriamente… nos últimos seis meses fiz uma adenda de mais sete mil quilómetrozinhos ao odómetro, entre a A2/Ponte 25 de Abril, Lisboa cidade e mais umas voltinhas, entre AE’s, IP’s, IC’s e nacionais e… lá está. Às vezes é mesmo só controlar o punho e a adrenalina… E na verdade, o álcool e as duas rodinhas não se dão nada bem. Convém escolher antes.

  4. Pisca diz:

    Como me dizia um vendedor de motas e muito experiente motard:

    -O grave muitas vezes não são os meninos, são os paizinhos que vão na conversa e lhes compram bombas para eles se passearem, a um disse eu, “dê-lhe uma caçadeira, com um tiro é mais rápido, e é ele sozinho”

    Há quem se ponha nessas coisas e nem para andar de “acelera” tenha habilidade

    ps: isto também se aplica aos carros

  5. Luis Rainha diz:

    “que eu sou suposto”… ai esses anglicismos!

  6. António Figueira diz:

    Ó Luís, tu pareces o corrector do Word! (que eu ignoro olimpicamente, mas como não te ignoro a ti, peço-te duas ou três alternativas a esta construção frásica; sabes, os barbarismos são as importações desnecessárias para a língua, como listagem em vez de lista, detalhe no lugar de pormenor, implementar no lugar de pôr em prática, etc.; agora as importações que suprem faltas da língua devem ser bem-vindas – se não estávamos todos a escrever como nos dias de antanho; abraço e vê se escreves, sinto a tua falta).
    AF

  7. Luis Rainha diz:

    Sei lá… por exemplo:”que eu supostamente devia passar” ou “que eu deveria passar” 🙂
    Quanto a isso das saudades, mais fácil será marcarmos encontro aqui no bacalhau do costume…

  8. Luis Rainha diz:

    E olha que nem 5 minutos foram precisos para dar comigo a usar essa frase abominável.

  9. António Figueira diz:

    ‘Tás a ver…

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