O céu está vizinho

Dos fabricantes de teoria se pode dizer o mesmo que, em tempos, dizia Napoleão acerca dos fabricantes de canhões: quantos mais, melhor.  É notório, nos debates que atravessam este blog, que as preferências de cada um a esse respeito (da teoria, não dos canhões) tendem a dar entrada nos seus posts, um pouco como os amigos que se levam para festas e convívios em casa de outros amigos e que, mesmo sem terem sido convidados, acabam por contribuir para que o serão se torne agradável.

Pessoalmente, dos vários  que me agradam, uns há que me tomam mais tempo do que os outros, provavelmente por se terem ocupado de assuntos que me tomam, também eles, mais tempo do que outros. É conhecido o apreço do Zé por um certo filósofo italiano, que motiva aliás mais do que um jogo de palavras com o seu nome. Os seu textos conheceram uma apreciável circulação nos últimos anos e o seu trabalho tende a ser julgado sobretudo por eles. Alguém teve a lamentável ideia de caracterizar um deles (escrito a quatro mãos com um amigo seu) como «o manifesto comunista do século XXI», designação pomposa que em nada contribui para a dignificação do debate (este acabou de ser o meu momento Clara Ferreira Alves).

Um outro gajo, com um nome inexplicavelmente igual ao que acabei de referir (o do filósofo italiano, não o do Zé), escreveu nos anos 70 um conjunto de opúsculos, pelos quais acabou por ser condenado e preso como «cérebro» e dirigente estratégico de um grupo armado (fundamentalmente, em parvo) ou, como eles gostavam de dizer na época, um «partido combatente», coisa que, aliás, sempre negou.

Textos de má fama, queimados (literalmente) por decisão da sua editora original (Feltrinelli) e que vieram a ser reeditados no final do século passado pela Derive Approdi, com o título de «I libri del rogo» (em italiano, «rogo» significa pira funerária). São, segundo o seu autor, textos que procuram exprimir uma experiência política colectiva – a da autonomia operária, em Itália, nos anos 70.  Deixo aqui um excerto de um deles, o «Partido operário contra o trabalho», escrito em 1973, ano da ocupação armada da FIAT/Mirafiori em Turim e da crise da economia mundial.

“A unidade, a altíssima qualidade, o máximo grau de articulação e generalização social desta classe operária não são apenas condições objectivas. Se assim fosse estas seriam inteiramente possuídas pelo capital. Ao passo que não é assim: nos próprios comportamentos espontâneos desta classe operária unificada e associada podemos ler a recusa do trabalho como condição da relação com o desenvolvimento capitalista.  […]

Falamos de um excedente de recusa em valorizar directamente o capital, que pode hoje identificar-se de maneira geral no interior dos comportamentos de classe. Falamos do facto de que os operários, conduzidos a este nível de produtividade, e àquele “refinamento dos seus talentos” em que consiste precisamente a produtividade, “querem desfrutar”, imaginam o trabalho não já enquanto disciplina mas enquanto prazer, a sua vida não já enquanto trabalho mas enquanto ausência de trabalho, a sua actividade como exercício livre e criativo.

Falamos da fuga maciça do trabalho produtivo, do trabalho da fábrica, em direcção aos sectores do terciário. Falamos da recusa espontânea de aceitar as regras de treino para o trabalho abstracto e de aprendizagem para o trabalho imediato. Tudo isto se apresenta no plano da espontaneidade, enquanto característica implicitamente subjectiva, enquanto tendência geral à recusa operária do trabalho, à desmistificação da sua supressão formal e enquanto incipiente vontade e consciência da necessidade da sua supressão real. E o capital interpreta tão bem esta situação que é constrangido, a partir dos países metropolitanos, a procurar trabalho que ainda o queira valorizar, cada vez mais longe, –  induzindo assim possibilidades de recomposição revolucionária, ao mesmo tempo que expande a sua “missão civilizadora”. [… ]

Atingido este ponto podemos começar a inverter o percurso da análise.  Partimos da teoria da crise para descer à investigação da composição da classe operária. Sabemos agora que a composição política desta classe operária, reunificada enquanto classe social, espontaneamente agrupada sobre níveis de recusa do trabalho, politicamente dirigida à prática da apropriação, é a realidade que domina e determina o mecanismo capitalista da crise e todas as formas que a crise vem produzindo.

A formação social global no interior da qual nos movemos, a composição política de classe à qual nos referimos, apresentam características completamente novas em relação ao passado próximo da luta de classes. A teoria das alianças, a ideologia do trabalho, a distinção dos estádios de luta (económica e política, democrática e socialista) são para esta classe operária nada mais do que ferros velhos. Também nós nos inclinamos perante a épica destas lutas de classe, o heroísmo dos proletários que “tomavam o céu de assalto”. Mas hoje o céu está vizinho, o trabalho, o absurdo esforço oferecido diariamente ao patrão, construiu uma massa imponente de trabalho morto da qual nos propomos apropriar. Não tememos crises nem violência: não é do desespero, mas do desejo, do gozo e da riqueza que retiramos as razões do nosso ódio aos patrões e da inflexibilidade da nossa luta! A unidade da classe, a destruição do trabalho assalariado, a luta política de apropriação, isto é o comunismo enquanto programa mínimo, são estas as necessidades políticas – e a tendência em acto – que resultam da composição de classe no interior da qual nos colocamos.”

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