O caloiro e o monstro

Estátua do Rei D.Dinis na alta Universitária de Coimbra

Estátua do Rei D.Dinis na alta Universitária de Coimbra

Há três argumentos que quem defende a Praxe recorre. São eles: a tradição, a integração e a igualdade, e não se lhes conhece mais nenhum. A distância entre a letra e a prática destas três ideias é gritante, senão vejamos.

O paradigma tradicionalista, que se defende com a História começa por esquecer que é tão tradicional a defesa da praxe como o seu combate. A praxe é tradicionalista no pior dos sentidos. A cada tempo dos vários tempos dos últimos 150 anos, a praxe esteve sempre contra as mudanças estruturais dos sistemas políticos e sociais. Com a Monarquia contra a República, contra a Revolução e pelo Estado Novo. Nas duas principais revoluções do último século da nossa História a praxe foi suspensa, não só como forma de luta, mas acima de tudo por ela ser absolutamente contraditória com os ideais progressivos que floram nesses períodos. Outro lado pernicioso quanto ao carácter das tradições académicas é o facto de elas perpetuarem e ampliarem sempre as características mais conservadoras da sociedade. Se a sociedade é machista, homofóbica, classista, punitiva, e hierárquica, sob a batuta da estranha selecção do darwinismo social, a praxe ainda amplifica cada um destes defeitos. As mulheres não podem ser duxas nem cantar o fado, o conselho é de veteranos, os gays são figuras de gozo e de chacota (como de resto as derivas à “normalidade”), o caloiro é bicho e animal, “figura infra-humana para o gáudio dos doutores” com mais umas quantas matriculas e o código da praxe viola, sem sufrágio, direitos, liberdades e garantias consagradas na lei de todos.

O paradigma da integração justifica que se cite um livro curioso. Intitula-se “Coimbra Boémia”, livro este que como tantos outros livro de memorias da cidade velha, podemos constatar a violência dos relatos de antigamente, sem cosméticas nem falsas retóricas. Diz o livro: “o caloiro é para saciar os desejos dos doutores, é para entreter”. Integrar, é uma palavra que vem na praxe sempre com um duplo sentido, e são os relatos que o confirmam. No Coimbra boémia, dos anos 40, percebe-se bem o terror das repúblicas praxistas, as perseguições, as milícias, a arrogância ante os trabalhadores (futricas) bem como a simpatia do fascismo pelas trupes e vice-versa. O argumento da integração, usado muitas vezes pelos românticos da praxe, não é mais do que isso mesmo, uma visão romântica, sem nenhum facto da realidade que o suporte. Mandar, rapar, bater, humilhar, perseguir a diferença, nada tem de romântico e muito menos inclui. Permite isso sim, que a violência fique disponível nas mãos de tantos que para ai andam tão pouco sensatos, e que usam da praxe como uma auto-estrada rumo à cura das mais recônditas frustrações. Bateram-me…, pois baterei; raparam-me…, pois raparei, e assim sucessivamente, olho por olho dente por dente, até à derrota final, no ano da cartola e do juízo.

Por último o paradigma da igualdade. Com o traje todos somos iguais. Pobres e ricos serão iguais aos olhos da Academia. A última e a mais hipócrita das mentiras. Os trajes, sejam eles quais forem, foram feitos para diferenciar umas pessoas das outras, não para as unificar. Como se o poder económico não estivesse antes na carteira e nas suas potencialidades. Entre os estudantes, por mais que todos andassem trajados, distinguir-se-ia o carro, a casa, o trabalho que teriam que ter (ou não), os litros de álcool no sangue por semana (e o tipo de álcool que lá circula), os outros consumos e vícios que poderiam ter ou não, as férias em família, na Indochina ou o trabalho precário na costa balnear mais próxima. Quanto à principal diferenciação que o traje impõe, é entre a cidade e os estudantes. Entre quem estuda e faz o pão, os cafés, as refeições, a limpeza da casa, das ruas ou da própria escola, constrói os estádios, as universidades e os hospitais, em quem no fundo garante a vida, e os estudantes, que regra geral, sem reconhecimento e com vaidade exacerbada, em nada retribuem.

A praxe é feia e a praxe é tola e só agrada verdadeiramente, aqueles que querem treinar para senhores, que querem praticar a opressão e a falta de humanidade. São os senhores dos senhores do amanhã de amanhã. E devem por isso também ser combatidos desde tenra idade.

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25 respostas a O caloiro e o monstro

  1. Jorge Santos diz:

    Tenho enorme curiosidade em saber, ponto por ponto, qual o futuro e percurso de idoneidade e exemplo acima de qualquer suspeita que terá este esforçado autor, só porque não caiu no pecado fascista de aderir à “tenebrosa” praxe!

    Certamente que Portugal espera ansiosamente pela sua chegada e libertação dos opressores!

    Um pouco menos de arrogância e uma passagem real pela boa velha tradição da academia – não esses casos do “cão que morde no homem” que surgem na Com. Social – dar-lhe-ia uma visão diferente e sobretudo menos apaixonada do tema.

    Não cite qualquer obra. Apele à réstia de pragmatismo que ainda possa conservar no meio de tamanha poluição!

  2. Mesmo que a prática não fosse a galeria de horrores que se conhece, mesmo que a prática fosse igual à letra na sua interpretação mais ingénua e idealista, qualquer um dos três argumentos seria indefensável. A única coisa discutível que aí me parece haver é: qual dos 3 argumentos é o mais fraco?

  3. E o pior: vai sendo cada vez mais coisa normal. Entrar no ensino superior e ser praxado já é considerado, por muita gente, a mesma coisa. Por mais imagens violentas, por mais proibições que existam, a praxe só deixará de existir quando as mentes e os corpos se ocuparem com outras coisas.

    A universidade não é já cultural, pouco se discute e se conversa na universidade. Entra e sai de aulas, praxe, almoço, entra e sai de aulas, praxe, jantar, copos, dormir. Viva!

  4. Selofane diz:

    Concordo em absoluto. Nem eu diria melhor. É um texto exemplar.
    Sou de Coimbra, licenciado pela Universidade de Coimbra, mas de família futrica.

  5. margarida diz:

    concordo plenamente,nao entendo porque as entidades competentes se escusam a prestar atençao a comportamentos de pessoas completamente desiquilibradas,que se arrastam pelas universidades,penso que no interior do pais ,por ex. Vila Real,a situacao ronda o psicopatico.

  6. Pedro diz:

    Bom texto!
    É uma contra argumentação eficaz para os (poucos) argumentos que se lançam para defender a praxe.
    Como estudante universitário (“anti-praxe” para efeitos de rótulo ainda que não concorde com o termo) não poderia concordar mais com este texto e com a mensagem. Tem de se combater a praxe e os seus excessos, infelizmente… parece-me (pelo que vejo na universidade que frequento) que a vontade da instituição de moderar a praxe e, acima de tudo, de promover um meio de integração alternativo (porque tem de dizer-se, a Universidade enquanto entidade nada faz para receber e integrar os seus alunos…) é pouca ou nenhuma! É triste ver isto num país europeu do século XXI mas, é a realidade que temos.

  7. Este texto não tem nada que se aproxime do “óptimo”, revela outrossim uma total ignorância contra a praxe. Antes de mais parte de um princípio errado: quais a razões para a defender. As coisas só são proibidas se houver uma razão para as proibir. Ou seja, a liberdade de se fazer o que quer que seja existe antes da possibilidade de proibir. Passando a argumentos sérios, desde que se assegure que só está na praxe quem quer não existe qualquer mal em quem quer ser integrado (usando o termo no sentido pejorativo que usas, para mim é mesmo disso que se trata) pela praxe o faça. Em relação ao fachismo e a quem o apoiava não existe classe nenhuma em Portugal totalmente livre desses energumenos. O regime estava instalado e mesmo dentro das Republicas havia quem não o apoiasse, e talvez de forma mais violenta do que o resto da sociedade. Eu sou verdadeiramente de esquerda e não entendo o ódio primordial em relação à praxe e a intenção de a proibir. Dizes que não existe reflexão cultural nas Universidades e enganas-te. Quanto à rotina do estudante (casa, aulas, praxe, alcool) acredita que a praxe não está inserida nessa rotina porque só acontece em momentos muito específicos e que para esse despegamento em relação à vida académica em muito contribui o declínio da praxe. A praxe quase já não existe enquanto tal e os seus derivados (pessoas com ar de parvas e armadas em estupidas aos berros a tentar estabelecer relaçoes de superioridade através do medo) são altamente prejudiciais, mas não são “a praxe”. Esta tem regras específicas, baseia-se numa hierarquia igualitária (porque apenas depende do ano que se frequenta) e não tem como intenção a humilhação, mas sim a integração através do sentimento de grupo, de pertença a uma instituição e a um determinado curso. Se leste o Coimbra boémia, lê também o Real República Prá-Kis-Tão, bem melhor e bem mais engraçado.

  8. Entretanto li o teu primeiro texto e reparo que deves ter lido o livro que te mencionei. Se ainda assim mantens essa opinião é porque não há conversa possível.

  9. mas o pior da praxe ainda é a piroseira sem fim

  10. Renato Teixeira diz:

    Jorge Santos, ninguém é mais ou menos pecaminoso por aderir a uma dada prática, seja na sua forma teórica seja na sua forma organizativa, o que não quer dizer que não haja teorias e organizações reaccionárias. Conheci muitos estudantes ao longo da minha licenciatura, que aderiram à praxe e nem por sombras são fascistas. No mesmo sentido há quem seja do PCP sem ser estalinista ou do BE sem ser social-democrata, do centrão sem ser do centro ou do CDS sem gota nem de democrata nem de cristão. Apesar das intenções de quem adere a isto ou aquilo está em causa não o que motiva cada um em particular mas como caracterizamos os fenómenos no geral. Do meu futuro não sei ainda, do passado levei com 25 anos de Coimbra dos quais sete como estudante. Veja lá o burro que sou. Como representante dos estudantes na Faculdade de Letras e como activista na AAC, vi enormes aberrações praxistas mas também muitos praxistas que não eram aberrantes. Isso muda uma vírgula à minha arrogância ou ao carácter opressivo da praxe? Não creio.
    Carlos Pires, é como discutir a primazia do ovo ou da galinha, mas parece-me que o da integração é o mais dramático. Não pelo seu carácter teórico, onde os outros dois ganham, mas porque é de facto esse o argumento-facto que leva a que muitos milhares de estudantes adiram a uma prática que até não acham particular piada. O medo do isolamento é o maior amigo da praxe.
    Youri, de facto referes um ponto importante. A praxe não vai acabar por decreto mas por contaminação ideológica. Poucas vírgulas mudam num enunciado que tem os mesmos defeitos de sempre. No entanto, o problema da falta de dinâmica do movimento estudantil parece-me que está mais relacionado com a derrota da luta contra as propinas mais do que outro aspecto qualquer, que expulsou da universidade “pública” um terço dos estudantes com mais dificuldades económicas. A praxe ajuda a luta? De facto não. É determinante para justificar o amorfismo? Duvido.
    Selofane, que bom ouvir falar com peito das suas origens futricas. Nos tempos que correm é mais a vergonha que orgulho, o que é lamentável. Se é de Coimbra sabe seguramente a impunidade a que os estudantes gozam. Podem partir, sujar, bater, insultar, sem que um único agente policial o leve de cana. Tempos houve, de um célebre passador de haxixe de Coimbra, que sem ser estudante ia de capa e batina buscar o material a Badajoz. O material era depois vendido debaixo dessa mascara, ao lado de outros dealers de ocasião que fruto das rastas e dos tambores tinham bem mais dificuldade em garantir o seu negócio.
    Margarida, outro ponto importante. Fala-se muito da praxe das universidades mais conhecidas, mas as mais recentes têm uma praxe ainda mais violenta e de longe menos vigiada. Infelizmente é um fenómeno crescente e não é crível que a idiotice recue da noite para o dia.
    Pedro, anti-praxe tem de facto uma carga forte… há quem por isso se reivindique simplesmente não praxista. Posso sugerir outra, apráxico, mas não parece que melhore muito. Os não praxistas, ao contrário dos anti-praxistas, não consideram necessário o combate à praxe ainda que não adiram ao culto. É uma espécie de “obrigado, não fumo” muito cómodo mas pouco eficaz seja para atacar a praxe, seja para a reformar por dentro, como alguns também acreditam ser possível.

  11. carlos graça diz:

    Portugal, o Circo da Europa…

  12. Renato Teixeira diz:

    Bernardo Vidal, mesmo que acredite que não há mais nenhuma conversa devo adverti-lo que para além da ignorância tenho outro dom que o deve irritar, a teimosia.
    Conheço o livro que fala e a República à qual se refere. Vivi lá cinco anos e nunca vi o autor do livro, Marques Vidal, aparecer no centenário (aniversário) da República, ainda que o seu livro continue, apesar de empoeirado, numa das prateleiras da sua biblioteca. Reparei agora no apelido… Alguma coincidência?
    Para lá das histórias boémias que o livro fala, que sempre dão para rir neste ou naquele serão mais desanimado, tem um erro de capa pouco consentâneo com o seu escritor que foi nem mais nem menos fundador da Prá-kys-tão, que se escreve com y e não com i.
    “Pessoas com ar de parvas e armadas em estúpidas aos berros a tentar estabelecer relações de superioridade através do medo” não é a praxe às vezes, é a praxe todos os dias. O único argumento que invoca é o da suposta liberdade quanto à sua adesão. Sem cair no populismo de lhe lembrar que esse mesmo argumento é usado para quem defende a Burca no Afeganistão ou a mutilação genital feminina, pergunto-lhe se acha que um estudante ante um exército de praxistas mais velhos e não raras vezes coercivos está em condições de se declarar anti ou não praxista? Estará um tropa em condições de dispensar a recruta ou um deputado não ter dotes de cacique?
    Em nenhum momento defendi a proibição da praxe. Nem aqui teoricamente, nem na prática quando o pude fazer enquanto dirigente associativo. Não gosto de proibir, antes de convencer, e leio sempre os textos com atenção, principalmente se é minha intenção polemizar com eles.
    Mário Azevedo, piroso sem dúvida. E ainda há quem se ache sexy “de quatro” debaixo daquela roupagem de morcego!?!?!

  13. O nome não é coincidência e se tivesses lido o livro, não apenas excertos, terias percebido o porquê do meu avô não ir aos centenários. A ideia de que as repúblicas eram alinhadas com o regime levou a que os ocupantes da Pra-Kys-tao após a revolução a tenham vandalizado, daí o autor não ir aos centenários para não se cruzar com essas bestas.
    O argumento não se aplica por não se tratar de nenhuma violação de direitos dos caloiros, já que estes se podem retirar da praxe, como é normal e acontece todos os dias. Se aquilo que eu digo que não é “a praxe” é para o que consideras a praxe entao estamos de acordo. E se não queres proibir a praxe por decreto e estamos de acordo que aquilo que acontece não se deve passar, nada melhor que reforçar o que eu considero ser “a praxe”. Esta tem um conjunto de regras que não permitem a estupidez que por aí reina. Não se pode praxar sempre, nem de qualquer maneira.
    Não se deve estupidificar os estudantes que entram na Universidade e pensar que estes não sabem o que é a praxe. A maior parte dos casos de pessoas que eu conheço que não estavam na praxe pura e simplesmente ignoraram a situação.
    Quanto ao título do livro é obviamente um erro de impressão, já que durante o mesmo o “y” vem sempre no sítio certo.
    A inactividade do movimento estudantil, que é falsa, resulta de uma decisão consciente dos representantes de não ir para a rua e tentar resolver os problemas através do diálogo. Esta estratégia foi implementada após a derrota da luta contra as propinas de 2003/2004 e falhou redondamente. Neste momento assiste-se ao movimento oposto, em que os estudantes fartos da incapacidade do Sr. Ministro para o diálogo, voltam às ruas para mostrar que estão descontentes. No entanto, não existiu inactividade nos ultimos anos, apenas se optou por pensar o Ensino Superior e elaborar moções que sustentam as posições do movimento estudantil em relação a uma série de questões, entre elas o regulamento de atribuição de bolsas, o financiamento das universidades e a avaliação institucional. Com um ministro dialogante poder-se-ia ter feito historia atraves da cooperação entre estudantes e a tutela. Falhou, mas existe essa convicção.

    PS- Vai decorrer uma marcha pelo ensino superior dia 17 de novembro entre a cidade universitaria e o ministerio, estas convidado a aparecer.

  14. Renato Teixeira diz:

    Nunca li o livro de empreitada, confesso, mas foram tantas as vezes que o ouvi declamar por gozo de turno de um contemporâneo, que o posso considerar mais lido do que algumas das obras que “tive” que ler na faculdade.
    Sei porque é que o teu avô não vai aos centenários e agora também sei porque é que tu achas que o teu avô não vai aos centenários, mas já tenho mais dúvidas que a violência d’“essas bestas” foi pior do que outras cometidas pela geração do teu avô.
    “A ideia de que as repúblicas eram alinhadas com o regime levou a que os ocupantes da Prá-Kys-tão (desculpa nova correcção impertinente) após a revolução a tenham vandalizado”, é aqui que eu retribuo o elogio de ignorante. A República foi tão vandalizada como a Ponte Oliveira Salazar ao mudar para ponte 25 de Abril, e os motivos não tinham que ver com as preocupações quanto à sua imagem exterior, mas antes com a sua paz de espírito interior. Gostes tu e o teu avô ou não a praxe saiu de todas as Repúblicas, naqueles anos quentes, e quem lá vivia e acabou com ela não queria naturalmente viver dentro de um museu vivo de praxe militante. A maior parte do espólio está no Museu da Universidade, doado pelos vândalos para memória futura. Sem nenhum sectarismo devias ir ver a exposição embora te advirta que há melhores serões culturais que esse.
    Sobre a praxe acho que se disse tudo: Eu entendo que não há liberdade sob coacção e que as regras da coacção da praxe são como a Constituição da República Portuguesa: uns acham linda outros uma merda mas poucos a lêem e ninguém a cumpre, tal qual o Código que regula o que defendes.
    Quanto ao movimento estudantil, devo confessar que me enterneceu recordar esse tom de dirigente associativo… que delicia.
    Os governos não têm défice de diálogo nesta geração. Tiveram em todas. O que derrotou as propinas durante década e meia foram precisamente acções de massas e não diálogos de camarilha de candidatos a ministros e ministros.
    Mas esse é, como bem lembraste, diálogo para a próxima terça-feira.
    PS- Retribuo o convite a aparecer por lá, convidando-te a passares por aqui…

  15. João Santos diz:

    Excelente texto Renato. Já tinha saudades dessa garra 🙂 Abraço!

  16. Renato Teixeira diz:

    Quanto ao facto de o teu avô não ir aos Centenários, não é por falta de convite. Outros da geração dele vão e são sempre bem recebidos. As “bestas” também lá vão, mas nunca se pegaram à porrada e todos percebem que para lá do que os divide há valores mais fortes que os unem: a sobrevivência e a vivencia da República e o partilhar de um ideal de vida comunitário. Nas duas gerações há antigos que não vão ao Centenário pela mesma ordem de razões que o teu avô, pelo que a única consequência para os que ainda pra-lá-estão é a aniquilação da sua memória.
    O testemunho do teu tio se contado à mesa do certame, confrontado ou não por outros com o seu contraditório, teria sido mais eficaz que qualquer livro ou lamento e do que qualquer capa ou batina arrancados a ferros das paredes da casa.
    Daqui, como antigo, lhe renovo o convite por teu intermédio, com a condição de deixar a fusca em casa.

  17. Confundes as coisas, mas é normal, não espero já grande coisa deste tipo de discussões: acaba sempre com subtilezas argumentativas, deixando de lado a ideia prncipal. Já li a CRP, assim como o código da praxe, só respeito a CRP. A praxe nunca foi para mm nem uma experiência de vida, nem cavalo de batalho. Sempre me fez foi confusão a forma obscura como a encaram. Não sou, ao contrário do que possa parecer, defensor da praxe (ou das touradas, outro assunto em que discordo de grande parte da esquerda), parece-me é que se cria demasiado celeuma em torno dela. Se reparares a maioria dos movimentos de índole académica liderados quer pelo BE quer pelo PCP têm como dogma gerador a anti-praxe. Isso é que me chateia.

    Quanto à comparência do meu avô nos centenários isso só a ele diz respeito, mas eu faria o mesmo se destruíssem lembranças do meu passado de estudante por ignorância (a fusca já não anda no bolso, está descansado). Não compreendo porque é que viviam pessoas nas republicas se não concordavam com os seus elementos fundadores, para responder à tua justificação.

    Em relação ao tom de dirigente associativo: estava só a dar uma nota histórica da coisa. Não defendo as acções passadas, nem acho que os movimentos de massas sejam a solução. O que derrotou as propinas durante tanto tempo foi a vergonha na cara dos políticos que não tinham o descaramento de passar por cima da CRP que proclama a “progressiva gratuitidade” do ensino. Esse é um problema dos dirigentes de agora que são um bando de trafulhas, sem respeito sequer pela mais fundamental das leis.

    Sempre por aqui passei, já aqui comentei (se bem me lembro… pode não ser verdade) e voltarei a passar. Não acredito é que passes por lá…

  18. Não é verdade. A praxe é tradição e a tradição é que pode ser mal interpretada. Não convém confundir a praxe com alguns dos executantes.
    Devo esclarecer também que o Conselho de Repúblicas de Coimbra era um baluarte da defesa dos estudantes e da luta contra o fascismo. As listas para a AAC do Conselho de Repúblicas eram as listas da oposição democrática e antifascista. As Repúblicas de Coimbra formaram o carácter democrático de muitos dos que destacaram na luta contra o fascismo, pela democracia.

  19. Renato Teixeira diz:

    Bernardo Vidal, agradeço o elogio mas se o RAP o visse diria algo do género: “Assim não vale… Não se pode tentar ganhar uma polémica com subtilezas argumentativas! Ainda se fossem subtilezas substantivas ainda vá que não vá, ou mesmo argumentos à bruta, agora argumentar ainda por cima com subtileza, toda a gente vê que é batota! Assim não brinco.”
    Curiosamente estamos de acordo com o resto deste teu último comentário.
    Na manifestação provavelmente não irei. Primeiro porque já não sou estudante e não consta que se trate de um protesto geral. Segundo porque mesmo em estudante eram conhecidas as minhas qualidades de fura greves e raramente troquei um passeio no Colombo por uma ida às escadarias de São Bento. Defeitos… o que é que se há-de fazer…
    ManuelmGaio, não se pode confundir o capitalismo com alguns dos seus executantes? A caça com alguns dos caçadores ou a igreja com parte dos seus beatos? Fará sentido o enunciado “Não convém confundir a praxe com alguns dos executantes”?
    As Repúblicas na sequência da crise académica de 69 acabaram todas com a praxe. Mesmo antes da crise já o processo de afastamento havia começado em algumas delas. Nunca disse que as repúblicas não ajudaram na luta anti-fascista, bem pelo contrário. O que disse, e repito, é que a praxe sempre foi muito mais amiga das teses em falência do que das antíteses emergentes. Isso quer dizer que não havia praxistas contra o fascismo? Com certeza que os havia. Isso faz com que a praxe perca o lastro fascizante? Não creio.

  20. algumas-prakystanesas diz:

    Bernardo!

    Agora sim, percebemos o porquê da visita inesperada!

  21. RML diz:

    Pensei em várias formas de começar este comentário. Depois achei que não valia a pena dizer nada. Por fim, pareceu-me que era justo dizer qualquer coisa, ora pois. E o que digo é isto: gosto da praxe e enquanto a maior parte dos estudantes fizerem parte dela é mesmo desse lado que eu vou estar. E podeis ter a certeza: ter feito parte da praxe foi dos melhores exercícios para o combate dos seus abusos, para a exclusão dos frustrados e para fazer daquilo uma coisa não só divertida como memorável. E mais: sem álcool, sem gritos, sem «olhos no chão», «cale a boca caloiro» e outras baboseiras do género. E ainda: a participação de gente com dois dedos de testa na praxe, e com autoridade reconhecida (que não se impõe pelo número de matrículas), contribui para fazer da praxe algo avançado. Falo por experiência própria, evidentemente…

    Dizer que a praxe é o que se fizer dela não faz parte do reino das grandes frases. É mesmo verdade.

  22. Renato Teixeira diz:

    RML, a vida é o que a gente queira que ela seja… o problema é “la paliciano”, ou seja, há os outros que querem coisas contra nós. O relativismo tem desses problemas, as coisas não são o que queremos que elas sejam, são o que são e ponto final. Depois há as abstracções e nesse campo, evidentemente, cada um tem o direito às suas. Esteja os pés longe ou perto da terra e a com a cabeça perto ou longe da lua. É como se quiser desde que mais ninguém não queira.
    Prá-kys-tanesas, foi um prazer saber que a blogosfera reproduziu efeitos na realidade, ou simplesmente uma agradável coincidência. Como sou um blogocéptico não deixa de ser uma agradável surpresa. Espero que tenham convencido o Marques Vidal a ir ao próximo centenário e já agora que vá acompanhado… Eu, reivindicando o património das “bestas” ia adorar.

  23. Caro Renato, folgo ver-te nestas lutas por aqui. Conhecemo-nos (de raspão) por Coimbra, embora já lá sigam uns aninhos e muitos hectolitros de água por baixo de muitas pontes.

    Quanto à questão, referes um ponto importante: falaste das Repúblicas enquanto praxistas, coisas que, de uma forma geral, já não são. Isso é importante, porque demonstra como um determinado grupo de pessoas/estudantes pode evoluir perante um determinado tema. A praxe em si não é o problema, do meu ponto de vista, as pessoas que vivem nela, com ela e para ela é que o podem ser.

    O ManuelmGaio disse que não se podem confundir a praxe e os praxistas e tu colocaste a comparação entre capitalismo e capitalistas. Deixa-me então colocar a comparação entre comunismo e comunistas. Não é um dos argumentos frequentes que perseguições indevidas, gulags ou outros casos avulsos terão sido erros cometidos por pessoas que abusaram do poder que tinham? Porque razão não é este argumento válido no caso da praxe?

    Para mim a praxe não é mais que um amplificador das características individuais de cada pessoa. Uma pessoa afável, generosa e que goste de estar com amigos apenas e só para se divertir sem abusar de ninguém terá um campo perfeito para o fazer sob a praxe. O mesmo se aplica a qualquer ditadorzinho de quarto com tendências abusadoras. A praxe, dessa forma, é exactamente o mesmo que qualquer organização ou ideologia e é aos seus membros que compete combater os desvios ao código interno.

    Claro que isto não isenta não-membros (não praxistas – como eu fui – ou anti-praxistas – como tu, Renato) de apontar erros ou de evitar que os mesmos se expressem por ilegalidades ou simples imoralidades. É nesse sentido que gosto que ainda continues na tua luta. Como sempre.

    Abraço

  24. Renato,

    Após uma longa demora cá te respondo. Acho que é excessivo depositar a justificação do amorfismo da “luta estudantil” no fim da luta contra as propinas. Embora seja um facto incontornável, que foi a última coisa que de facto se viu de lutas de estudantes, não me parece ser algo transversal a todo o mundo académico/estudantil. A praxe é algo (cada vez mais) transversal. Poderá não justificar o mofo pós-luta contra as propinas, mas foi aí que mais cresceu e ocupou todo o espaço universitário. Parece-me inegável que a praxe prende e cala os estudantes.

    Quanto ao resto da discussão: dizer-se que os estudantes praxados podem se retirar simplesmente da praxe é uma falácia. A coacção e o medo são constantes na praxe académica, a saída não parece fácil, principalmente quando estamos numa cidade desconhecida e nova. Também me parece completamente irrelevante qualquer argumento que diga que a praxe é uma coisa boa, todos os comportamentos “maus” já não são praxe. Ora, claro que são. Basta uma leitura em qualquer código de praxe, ver qualquer praxe de qualquer faculdade do país (e eu já vi de muito sitio), escrever “praxe” no YouTube e ver a lista de torturas psicológicas e físicas para tirar qualquer dúvida.

    E para terminar. Por mais praxistas simpáticos que existam, a ideia de Esquerda ou Socialismo com a prática da praxe é pura falácia. Estudantes unidos tratam-se de igual para igual, não de gatas a simular sexo oral.

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