O “meu” comunismo (conversando com Zé Neves – e nunca com Daniel Oliveira)
10 de Novembro de 2009 por Carlos Vidal1.Emancipação
O comunismo de Daniel Oliveira e o meu comunismo é o tema de um interessantíssimo post de Zé Neves. E felizmente que o 5dias se vem tornando espaço de reflexão teórica política na direcção que gosto e me interessa: precisamente a dos temas em torno dos modos do que genericamente chamo (e o Zé Neves também chamará) emancipação (que só pode ser sinónimo de “superação do capitalismo”).
Aqui chegados, um ponto prévio: não li nem vou ler o texto do Daniel Oliveira – é longo e previsivelmente não me vai interessar nada. Sei de antemão o que lá está. Logo, uma primeira discordância com o Zé Neves: não trago e nunca traria para aqui, para esta discussão, o Daniel Oliveira. Seria como trazer ou procurar, actualmente, discutir com Zita Seabra. Quer um quer outro, cada um a seu modo, exteriorizaram-se há muito destes problemas e tópicos (ou conversa-acção).
2. O real
Feito este esclarecimento, vamos ao que interessa e expor aquilo que me separa definitivamente dos que pensam como o Zé Neves, e muito me admira que este não veja (na minha opinião) o seu erro fulcral. O “meu” comunismo, ou o comunismo, não é “comunismo” se não sofrer um embate com o real. Não vou aqui precisar de convocar Lacan, Bataille ou Badiou (e a sua tese da “paixão do real”), ou o antiplatonismo de Deleuze, para explicar o que é o REAL: o real é aquilo com que nós embatemos e em nós embate, resultando daí algo de imprevisível, injusto, imperfeito, trágico, trágico-cómico, indecidível. O real é aquilo com que embatemos, em nós embate (talvez simultaneamente) e tal em nós sentimos embater e posteriormente verificar que se transformou, transfigurou.
O comunismo do meu colega Zé Neves, ainda que muito bem sustentado (e só o podia estar, pois de tão afastado dos nossos problemas, só poderia sustentar-se numa perfeita ilusão teórica), não passa pelo real – crê-se não propriamente perfeito, mas acredita em algo de estranho (que ninguém sabe como é possível): o comunismo do Zé Neves (ou, vá lá, de Negri que invoca no Empire S. Francisco como herói, enquanto Badiou falará no mais “cortante” S. Paulo) acredita que quando for a sua vez de embater no real nada de problemático ou errado acontecerá. É como se, à partida, uma santificação, uma divinatória perfeição e “boa” humanidade estivesse garantida para este futuro embate. Não sei como se pode acreditar nisto. Mas sei que é a “revolução sem revolução” de que falava Robespierre, em suma, é o céu, é Adão e Eva no paraíso indiferentes ao fruto proibido.
3. Invariante, terror (o “bom terror”)
O meu comunismo é outro: é uma invariante desde Spartacus (século I a.C.), o protagonista da Guerra de Escravos no tempo do imperador Pompeu, alguém que tudo arriscou e chegou mesmo e derrotar vários exércitos; é o de Thomas Muntzer (personagem querida a Gabriela Llansol, e que com ela aprendi a elevar), o padre revoltoso do século XVI que conduziu a uma luta perdida milhares de camponeses (e Engels sobre ele haveria de escrever), é o de Robespierre e de Saint-Just, que sabia só poder haver liberdade com dor; é o das revoluções de 1848 e de 1871, de Louise Michel, de Marx, Lenine, Mao e o da Revolução Cultural Proletária, de Fidel, e, porque não?, de Chavez e do sub-comandante Marcos (que ignora o Estado e trabalha no seu exterior).
4. O intocável
O comunismo do Zé Neves, na minha opinião, é o da Utopia, das utopias onde, como diria Cioran, tudo é perfeito e nelas até cantamos loas ao trabalho, é o “idílio geométrico” da Cidade do Sol de Campanella, é o de Joachim di Fiori, de Erasmus, de More, de Abbé de Saint-Pierre, de Restif de la Bretone, de Saint-Simon e de Fourier, de Comte, Sorel ou Bloch e o seu “princípio esperança”. É aquilo que nunca teve a prova do real e, como tal, é melhor, muito melhor que a tragédia da URSS ou do Muro. Não teve, não tem nem terá “realidade”, logo está “certo” à partida.
Deste modo, os partidários deste mundo intocável (como diria Bataille) estão sempre de consciência leve e no lugar da Justiça, a nada são obrigados, nada têm de justificar nem explicar. Estão idilicamente instalados na sua perfeição previamente estabelecida. Num mundo sem erros.

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