O “meu” comunismo (conversando com Zé Neves – e nunca com Daniel Oliveira)

1.Emancipação
O comunismo de Daniel Oliveira e o meu comunismo é o tema de um interessantíssimo post de Zé Neves. E felizmente que o 5dias se vem tornando espaço de reflexão teórica política na direcção que gosto e me interessa: precisamente a dos temas em torno dos modos do que genericamente chamo (e o Zé Neves também chamará) emancipação (que só pode ser sinónimo de “superação do capitalismo”).

Aqui chegados, um ponto prévio: não li nem vou ler o texto do Daniel Oliveira – é longo e previsivelmente não me vai interessar nada. Sei de antemão o que lá está. Logo, uma primeira discordância com o Zé Neves: não trago e nunca traria para aqui, para esta discussão, o Daniel Oliveira. Seria como trazer ou procurar, actualmente, discutir com Zita Seabra. Quer um quer outro, cada um a seu modo, exteriorizaram-se há muito destes problemas e tópicos (ou conversa-acção).

2. O real
Feito este esclarecimento, vamos ao que interessa e expor aquilo que me separa definitivamente dos que pensam como o Zé Neves, e muito me admira que este não veja (na minha opinião) o seu erro fulcral. O “meu” comunismo, ou o comunismo, não é “comunismo” se não sofrer um embate com o real. Não vou aqui precisar de convocar Lacan, Bataille ou Badiou (e a sua tese da “paixão do real”), ou o antiplatonismo de Deleuze, para explicar o que é o REAL: o real é aquilo com que nós embatemos e em nós embate, resultando daí algo de imprevisível, injusto, imperfeito, trágico, trágico-cómico, indecidível. O real é aquilo com que embatemos, em nós embate (talvez simultaneamente) e tal em nós sentimos embater e posteriormente verificar que se transformou, transfigurou.

O comunismo do meu colega Zé Neves, ainda que muito bem sustentado (e só o podia estar, pois de tão afastado dos nossos problemas, só poderia sustentar-se numa perfeita ilusão teórica), não passa pelo real – crê-se não propriamente perfeito, mas acredita em algo de estranho (que ninguém sabe como é possível): o comunismo do Zé Neves (ou, vá lá, de Negri que invoca no Empire S. Francisco como herói, enquanto Badiou falará no mais “cortante” S. Paulo) acredita que quando for a sua vez de embater no real nada de problemático ou errado acontecerá. É como se, à partida, uma santificação, uma divinatória perfeição e “boa” humanidade estivesse garantida para este futuro embate. Não sei como se pode acreditar nisto. Mas sei que é a “revolução sem revolução” de que falava Robespierre, em suma, é o céu, é Adão e Eva no paraíso indiferentes ao fruto proibido.

3. Invariante, terror (o “bom terror”)
O meu comunismo é outro: é uma invariante desde Spartacus (século I a.C.), o protagonista da Guerra de Escravos no tempo do imperador Pompeu, alguém que tudo arriscou e chegou mesmo e derrotar vários exércitos; é o de Thomas Muntzer (personagem querida a Gabriela Llansol, e que com ela aprendi a elevar), o padre revoltoso do século XVI que conduziu a uma luta perdida milhares de camponeses (e Engels sobre ele haveria de escrever), é o de Robespierre e de Saint-Just, que sabia só poder haver liberdade com dor; é o das revoluções de 1848 e de 1871, de Louise Michel, de Marx, Lenine, Mao e o da Revolução Cultural Proletária, de Fidel, e, porque não?, de Chavez e do sub-comandante Marcos (que ignora o Estado e trabalha no seu exterior).

4. O intocável
O comunismo do Zé Neves, na minha opinião, é o da Utopia, das utopias onde, como diria Cioran, tudo é perfeito e nelas até cantamos loas ao trabalho, é o “idílio geométrico” da Cidade do Sol de Campanella, é o de Joachim di Fiori, de Erasmus, de More, de Abbé de Saint-Pierre, de Restif de la Bretone, de Saint-Simon e de Fourier, de Comte, Sorel ou Bloch e o seu “princípio esperança”. É aquilo que nunca teve a prova do real e, como tal, é melhor, muito melhor que a tragédia da URSS ou do Muro. Não teve, não tem nem terá “realidade”, logo está “certo” à partida.

Deste modo, os partidários deste mundo intocável (como diria Bataille) estão sempre de consciência leve e no lugar da Justiça, a nada são obrigados, nada têm de justificar nem explicar. Estão idilicamente instalados na sua perfeição previamente estabelecida. Num mundo sem erros.

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14 respostas a O “meu” comunismo (conversando com Zé Neves – e nunca com Daniel Oliveira)

  1. “Que as ideologias não são como as religiões. Não há uma pureza corrompida pelos pecados dos homens. ”
    Afinal disse o mesmo que eu para, claro, chegar a conclusões opostas. E claro, insultando primeiro. Como é seu costume. E claro, socorrendo-se do máximo de referências possíveis para não parecer que estava, como estava, a escrever uma coisa bastante elementar.

  2. Diogo diz:

    O sr. tem a vantagem de ser coerente. Entra na discussão sem vir com aquele exercício típico com que os comunistas fazem questão de nos tomar a todos por parvos quando dizem que “o comunismo nunca existiu”. De qualquer modo, embora lhe elogie a coerência, não deixo de anotar o facto de se rever no Terror (com letra grande porque foi assim definido na altura) de Robespierre e de Saint – Just nem de ser capaz de escrever impressionantes frases como “só há liberdade com dor”. Relativamente à maioria dos comunistas, pelo menos, o senhor tem a vantagem de o dizer de caras enquanto os outros o disfarçam. Consigo no poder, tenho a certeza que teria de fugir com a minha família para fora do país porque não tardava em ser considerado “inimigo do povo” e, lá está, a liberdade que o senhor quer faz-se à custa da dor mas é da minha e de outros como eu, não é verdade, Carlos?

  3. Aniceto Azevedo diz:

    Na mouche, caro Vidal.
    Mas eu iria mais longe. Por falta de análise das contradições do real, gente como o Zé Neves acha que o céu está garantido à partida se formos todos “democratas”, se formos todos “bons” (é um pouco a visão reaccionária dos zelotes, do apocalipse joanino). Mais que idealismo, é uma história para crianças, não pode ser levada a sério. É, efectivamente, e como muito bem indica, a atitude denunciada por Robespierre: «mas queríeis a revolução… sem revolução?»
    A outra conversa do Zé Neves, a do “comunismo”, é para rir, como se sabe – e aí reside o seu mérito – arte de difícil execução. Ele quer chamar “comunista” ao pequeno-burguês que defende o mercado e as relações mercantis. Que o faça: é trabalho para uma vida. Não terá é sucesso, isso é garantido. Na televisão, quem tem um olho é rei. Fora dela, há todo um mundo de gente que combate, estuda e pensa a sério.

  4. miguel serras pereira diz:

    Caro Carlos Vidal, só uma nota aparentemente marginal, mas que toca as questões da “perfeição”, da “contenplatividade” e do “realismo”. Os que entendem, como Rosa Luxemburgo, por exemplo (embora não por acaso), que não há socialismo sem democracia, que o socialismo é mais e não menos liberdade, que a democracia é condição necessária (e não suplemento de alma ou festão decorativo) do socialismo, sabem, como Rosa sabia e dizia, que o poder dos trabalhadores organizados e do conjunto dos cidadãos de uma república socialista pode cometer erros e não é concebível que os não cometa. Só que Rosa sabia e dizia também que mais valem esses erros e derrotas do poder democrático dos produtores associados do que as melhores verdades “científicas” do comité central do partido-guia. O que um regime socialista não pode fazer é afastar o poder democraticamente organizado dos cidadãos comuns e continuar a ser socialista. E, depois, só há uma maneira de instaurar a capacidade política dos produtores associados, e essa é o seu exercício. É governando que se aprende a cidadania governante. Ou há outra maneira? Como dizia o Cesariny: “nada está escrito afinal”. O socialismo não tem outra garantia, nem a pode ter, que não seja a participação democrática directa – na “produção” como no imenso “resto” do que numa sociedade requer governo.
    msp

  5. Justiniano diz:

    Caro Diogo, como saberá, a coerencia não é virtude.
    A liberdade é, sem dúvida, angústia, dor, imprevisibilidade, injustiça e insegurança(risco), sempre.
    Verdadeiramente, o insuperável (também insuportável) problema(a aporia inultrapassável) do Vidal é esta enormíssima contradição de querer a emancipação para acabar com a angústia, dor, imprevisibilidade…
    Caro Vidal, o Zé Neves pode, erroneamente, pensar este mundo com recursos inesgotáveis, como se o advento fosse da natureza das coisas, mas, por vezes, correctamente, vê verdades auto-evidentes, as únicas, relacionadas, intimamente, com o indivíduo, outras vezes perde-se entre os “comuns” e é esta tensão que o ocupa de que o Vidal se desocupa. O Zé Neves demonstra ter, algum, constrangimento pela consciencia da tirania, o Vidal (talvez) aceita a tirania como possibilidade ou inevitabilidade (antagonismo e desespero levam inevitavelmente à violencia e tirania).
    Um bem haja,

  6. viana diz:

    O problema, Carlos vidal, é que o embate com o real demonstra, historicamente, que a via revolucionária marxista-leninista falhou. Não existem, nem nunca existiram sociedades comunistas nos países que seguiram tal via.

    Se o Carlos Vidal aceita o que acima afirmo, então revela-se ainda mais utópico que o Zé Neves (porque sustentará, contra a evidência histórica, que é possível constituir sociedades comunistas pela via evolucionária marxista-leninista). Ou então rejeita o que escrevi, e assume que o comunismo na prática é (China, Coreia do Norte, Cuba, Vietname) e era (URSS, RDA) o “socialismo real”, estando limitado à partida, pela realidade, na sua ambição libertadora e emancipatória. Se assim fôr, efectivamente, o “comunismo” que defende pouco tem a ver “o” do Zé Neves.

  7. bem, vejo que se excluiu da lista a Coreia do Norte, o Vietname ou o Camboja…

    Estaremos perante outro Daniel Oliveira ou Zita seabra? até a linha dura já se começa a social-democratizar?

  8. “só há liberdade com dor”

    pois, liberdade para as stasis e KGBs, dor para o povo!

  9. rafael diz:

    Caro Carlos,

    genericamente concordo consigo e gostava de me focar no que chama o embate do real. Como é obvio em qualquer processo que se questione a detençao dos meios de produçao existirá um choque violento e uma batalha pelo seu controle.

    Nao será de bom grado que a infraestrutura economica, social e politica instalada deixe de bom grado o seu poderio se pedirmos por favor. A questao, que creio que pode adquirir alguma importância, é a de conseguir que esse choque com a realidade, essa destruiçao necessaria, essa batalha se consiga fazer nao apenas com o apoio explicito da grande maioria das populaçoes mas também respaldada pelo voto expresso em urnas. Será utopia? creio, que onde se criem condiçoes para tal, deve ser um caminho preferencial. Reconheço que em outros, a unica opçao é a resistencia armada claramente beligerante e militarizada, mas nao gosto…

    Apesar de todas as suas contradiçoes, creio que alguns dos países da América Latina estao a enveredar por este caminho que eu considero preferencial. Terao sobressaltos e situaçoes de ambiguidade sobre os limites da defesa de processos revolucionarios e o ataque a liberdade individuais -e isso preocupa-me- mas parece-me que a construçao das revoluçoes sociais, economicas e politicas fazem-se assim: no fio da navalha.

    Temos é que ter cuidado, nao nos cortemos nos (inevitaveis) oportunismos…

  10. Miguel Botelho diz:

    O seu terceiro ponto é bastante valioso. Foi pena não mencionar Gracchus Babeuf e a sua defesa perante o tribunal supremo de Vendome.

  11. xatoo diz:

    Carlos Vidal traz aqui, sem meias tintas, em concreto e incisivamente numa visita com guias de viagem de qualidade inegável, uma opção de vida ideológica que não oferece margem para muitas dúvidas. Numa perspectiva de luta de classes e sobre o uso da violência sobre a classe a dominar, Lenine dizia que “a guerra é o mais belo presente dado à Revolução”, e Alexandra a mulher do Czar atiçava-o: “querido, mostraste a tua bondade, agora faz sentir o teu punho!”; portanto é disto que se trata quando se fala de emancipação: do exercício da “violência boa”

    Ora guerras é coisa que por aí não vai faltando, começando pela de Colin Powell que do alto da sua cátedra pentagónica e na qualidade de supervisor de Obama disse recentemente que “os EUA serão lideres sem ser superpotência”. Quando a policia carrega sobre a populaça na ulitsa dos Milionários em qualquer Petrogrado, não se saberá jamais em concreto quem dá a ordem (que assume “autonomia”) – ora isto é uma canibalização das teorias pós modernas do autonomismo visitado pelo lado das classes dominantes; invertendo inclusive o controlo da multidões (em Negri), eles controlam sem que os controlados se apercebam que existe liderança… ajudados objectivamente pelo activismo dos Daniéis&Amigos da sociedade do espectáculo (abre parêntesis: quer sejam os do governo da Madeira que paga 500 milhões de euros em alojamentos em sítios paradisíacos a actores de telenovelas; quer sejam exercícios fúteis em prefácios maiores que os artigos de Marx sobre proteccionismos nacionais (1856) situados antes de Hilferding e Lenine (1916) terem depois teorizado o Imperialismo no contexto do internacionalismo das economias quando a exportação virtual de capitais invadiu a paisagem real das mercadorias.

    Nietzsche dizia que não existem factos, apenas interpretações, e a de Carlos Vidal aqui exposta é uma delas, que, a avaliar pela adesão do número e qualidade dos comentários, se mostra maioritária, isto é, traduzindo, bolchevique. È a que me parece reportar ao “socialismo real” cuja herança se exerce sobre as utopias do futuro.
    Mas também ouvi recentemente uma figura BE prototópica dizer perante o estupefacto entrevistador que “o Real não existe”; ora a moça devia calçar os sapatos de salto alto vuiton e saltar cá para fora do espaço etéreo tentar viver com o ordenado mínimo.
    Certos que as classes desfavorecidas, para não falar já da classe operária obrigada a emigrar, lesadas, não têm nada a aprender com estes tipo de divertimentos. Negri feito herói pela Operação Gládio, as rebuscadas teorias do “autonomismo” são uma falácia. Dependerá da igualdade na liberdade de acesso a educação de cada individuo. Educação que se constitui no contrário do entendido no socialismo real, pela exclusão do conhecimento de vastas camadas da população, quer seja por coacção económica, quer inclusive pela colaboração dos intelectuais assalariados pelo sistema instituido

  12. Carlos Vidal diz:

    Gosto de ver a nossa conversa em acção e a discussão a prosseguir, por isso agora faço apenas uma clarificação. Li atrás alguma perplexidade em torno da minha síntese de uma declaração de Saint-Just, e pareceu-me que alguns leitores acharam tal declaração como atentória das suas liberdades, da própria liberdade.
    Vejamos. A declaração de Saint-Just foi proferida na Convenção em Abril de 1794, e define a liberdade próxima da dor por motivos óbvios: porque ela custou muitas vidas a ser conquistada, porque se refere a uma conquista pós-revolucionária e porque nela se projecta a dor dos que sofreram fome e miséria nos mandos da aristocracia do Antigo Regime.
    A frase completa de Saint-Just é a seguinte:
    “Temos respondido à luta com a luta e a liberdade está fundada; ela saiu do seio das tempestades: esta sua origem é comum com a do mundo, saído do caos, e com a do homem, que chora ao nascer”.

    É uma das melhores definições de liberdade que eu conheço, e literariamente inultrapassável.
    Posso ou não ter esta opinião?

  13. Pingback: cinco dias » O embate com o real

  14. zé miguel diz:

    Carlos Vidal: nã posso dizer que gostei de ler a sua posição. É fácil
    concordar ou identificar-se com heróis de revoluções passadas. Respeito a sua
    iconografia pessoal, mas gostava que me explicasse como se posiciona em
    relação ao presente. Onde está a “dor”, e quem a vai provocar a quem, que
    nos vai levar à “liberdade”? Refere e muito bem o “real” como parte
    incontornável do seu comunismo, mas depois concentra-o em si, argumentando
    que o “real” se transforma quando bate em si. Encantado quanto às
    referências que apresenta, mas esta forma de representar o real parece-me
    muito centrada em si e na forma como racionaliza o real. O que a mim me
    parece é que o “real” já é “imprevisível”, “imperfeito” e “indecidível”
    antes de embater contra si. E quando o vê a partir do monóculo do comunismo
    já o está a problematizar de uma certa e determinada maneira. É o problema
    de olhar através de um monóculo histórico. A história pode ensinar-nos
    muito, mas ensina-nos principalmente o que queremos ler nela.

    A imperfeição das relações humanas, a estrutura variável das diferentes sociedades no tempo e no espaço não permite que se assuma uma matriz teórica que as permita arrumar e resolver. Aliás, esse foi o erro de muitos regimes comunistas do passado que, atendendo ao que diz, continuam a poder ocorrer.

    A democracia liberal é o /único/ regime onde as imperfeições de que fala podem ser tratadas humanamente, minimizando a dor. Felizmente que chegámos a este ponto, onde esse regime já vigora nos países onde vivemos. É no entanto um regime que exige permanente atenção e constantes iterações, mas isso deve-se precisamente ao carácter imprevisível e indecidível da realidade em si (não do choque do indivíduo contra ela).

    Pelo contrário, o seu comunismo vê a realidade a partir de uma matriz determinística, necessariamente causando “dor” para corrigir as diferenças entre aquilo que o senhor acha que a realidade devia ser, e aquilo que ela é.

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