O Comunismo do Daniel Oliveira e do Carlos Vidal

Vinte anos depois da queda do Muro de Berlim, a utilização da palavra comunista por alguém que assim se identifique é problema que está para ficar. O primeiro problema é, desde logo, o da necessidade (ou não) da auto-identificação político-ideológica enquanto gesto necessário ao debate político-ideológico. Sobre isto, porém, e para já, chuto para canto – até porque esta é uma questão genérica, isto é, que se coloca a todas as tradições e correntes políticas. Centro-me, então, no problema concreto: alguém dizer-se comunista hoje. Ora, aqui chegados, curiosamente, encontramos uma espécie coincidência de opostos: por um lado, temos aqueles que, por se assumirem como comunistas, entendem ter um dever de fidelidade com o “Socialismo Real” – um gesto de fidelidade que, parece-me, mas ele saberá explicar-se melhor do que eu, é protagonizado, de quando em vez, pelo Carlos Vidal. Por outro lado, temos os que entendem que, porque o “Socialismo Real” deve ser rejeitado, a própria ideia comunista deverá ser rejeitada – nas palavras do Daniel Oliveira, o estalinismo está no “DNA” do comunismo. Ambas as posições esquecem algo que baralha os termos do debate: é que houve comunistas que morreram e foram assassinados por comunistas, sendo que, a esta luz, manter qualquer ideia de pura e simples fidelidade ou rejeição do passado soviético implicaria esquecer os “vencidos” da História. Quanto a mim, assumo-me como comunista, embora entenda que o problema genérico, que chutei para canto ali em cima, assole permanentemente a própria ideia de alguém assumir-se comunista. E isto é um problema mas é também uma solução. Comunista sem obsessão identitária, comunista mais da parte do comum do que do ista?

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21 respostas a O Comunismo do Daniel Oliveira e do Carlos Vidal

  1. Zé, como acho que fica evidente do meu texto, dizer que o aconteceu no Leste (eu não disse apenas o Estalinismo ou sobretudo ele) está no DNA do comunismo não é o mesmo que dizer que está no DNA dos comunistas. E esta pequena diferença faz toda a diferença.

  2. E, já agora, assumi no texto que há outras heranças do comunismo. Que também são minhas.

  3. quem se afirme comunista não poderá de maneira nenhuma pactuar, desculpar ou omitir os graves crimes contra a humanidade praticados quer na URSS quer no resto do mundo em nome de uma ideologia em tudo contrária ao praticado

    Liberdade, Fraternidade, Solidariedade, Igualdade e Justiça Social – qual destes objectivos foi conseguido para que o Carlos Vidal e outros tentem suavizar os crimes soviéticos?

    pessoalmente penso que os verdadeiros coveiros do marxismo e dos valores de esquerda são exactamente estas pessoas que não perdoam uma vírgula mal colocada ao imperialismo americano e amenizam o discurso sobre o imperialismo fascista Russo!

    e o comunicado do pcp acerca do muro é sintomático!

    Libertem-se dos grilhões de um passado que nem sequer é vosso, não carreguem o fardo criminoso e ensanguentado de Estaline que até Kruchev renegou.

    em nome de uma esquerda com futuro, libertem-se de vez desse passado que nos envergonha a todos!

  4. Totalmente de acordo com o Daniel e deixando aqui uma pergunta: porquê esta obsessão em manter a terminologia? Não se viu outra coisa nos últimos dias senão gente a dizer-se «comunista» e a chutar para canto sem explicar o que isso quer dizer.

  5. tecla diz:

    O Estalinismo está morto e,enterrado.Porém faz-me comichão no meu cérebro que para a discussão do Comunismo,algo mui parecido com o Cristianismo mas,mais terreno venha sempre à baila o Judeu Iosip V. Djugashvili-mais conhecido por José Estaline!Neste pantano desapareceram todos menos os comunistas , que na URSS perdeu 21 a 27 milhões de pessoas dum regime comunista nada é dito,nem que Vitória deles foi Nossa.Meu pai me dizia:’se os nazis vencessem seria morto duas vezes-uma por ser Comunista a outra por ser de ascendencia judaica,apesar de ser ateu!!’

    Aki chegados,o be de Viseu está mui preocupado com Stalin e nada preocupado com o Imperialismo da clique dirigente dos EUA,William Blum conta que para se ter acesso ao prémio nobel da Paz é necessário não ultrapassar as 4 guerras:Iraque,Afeganistão,Pakistão e Irão…….
    a

  6. xatoo diz:

    penso que misturar a palha produzida pelo Daniel Oliveira com as questões teóricas colocadas pelo Carlos Vidal é uma ofensa para este último. O primeiro vem ancorado no pensamento social-democrata e assim regride ao que pior o Giddens e o Blair trouxeram ao palco, doutrina anti-PC iliterata incluida ; o segundo procura explicar as contradições entre as correntes comunistas a fim que se tirem as respectivas ilacções por forma a prosseguir na luta contra o inimigo principal: o imperialismo.
    Entre uma coisa e outra vai um imenso mar de honestidade intelectual…
    Conclui-se do artigo que D.O. publicou no LeMondeDiplomatique na pesca antes das eleições (quasi,quasi, uma razão para deixar de comprar o jornal) que ele se oferecia no BE para exercer o poder em conjunto com o partido neoliberal dominante; e não me parece que o Carlos Vidal tenha como meta naquilo que escreve a pretensão de ir a ministro. Pelo contrário, profissionalmente até correrá riscos… enquanto o outro cumpre uma agenda politica por conta do que lhe destinam os empregadores.
    Estas são os pontos na prática, porque sobre teoria daniel-oliveirinha estamos conversados: “o dna do comunismo vs o dna dos comunistas”, ou como diria o professor Hermana Saraiva: “a Alma e as Gentes”

  7. José Manuel diz:

    Parece que alguns defendem que é possível realizar avanços sociais revolucionários apenas com a retórica parlamentarista e com uma revolução desarmada e desprevinida. Santa ingenuidade! Está provado historicamente que a cllasse dominate (a mesma que apregoa o parlamentarismo e a democracia quando está por cima) reage violentamente quando os seus privilégios de base são tocados. Isto é assimdesde o fascismo, do franquismo, no Chile, e mais recentemente na Venezuela (no golpe de 2002) e nas Honduras. E o capitalismo não tem escrúpulos para usar todos os métodos terroristas e ilegais para impedir que se toca nos alicerces do seu domínio.
    Era bonito que bastassem as eleições para transformar isto, mas não chegam. Quem acredita nisto é ingénuo. Se o povo avançar para a transformação das estruturas socias terá que estar preparado para se defender e responder à violenta contra-ofensiva da classe dominante.
    É por isso que alguns “julgamentos” apressados e maniqueístas sobre o “Socialismo Real” são também ingénuos. Afinal nunca foi possível construír o Socialsmos sem ameaças, boicotes, sabotagens e uma guerra económica permanete movida elo Capitalismo.

  8. Zé Neves diz:

    caro daniel, sinceramente, não compreendo a diferença entre o modelo estalinista estar no “dna” do comunismo, dos comunistas ou do movimento comunista. existem, e tu sabes bem, dois comunismos bastante diferentes: um que concebe uma revolução centrada na tomada de poder de Estado e outro assente numa tradição conselhista.

    cara joana lopes, eu não vi assim tanta gente a dizer-se comunista nos últimos dias… e o que eu chutei para canto não foi o dizer-me comunista, mas o problema – que disser tocar tudo e todos, comunistas, socialistas, social-democratas, anarquistas, etc. – de assumir uma identidade (palavra que é um problema que não é só de terminologia…). E se me disse comunista nos últimos dias, foi por isto: recuso a criminalização da ideologia comunista.

    Caro xatoo,
    eu não discuto política com base no que julgo serem as intenções das pessoas com quem discuto. e discuto com o daniel porque, desde há muito, tenho prazer em discutir com ele. e tenho esperança em convencê-lo de alguns pontos de vista. e aprendi e aprendo várias coisas com ele também.

  9. miguel serras pereira diz:

    Caro Zé Neves, o problema terminológico permite pôr de facto uma série de outros. Se quando te dizes “comunista” queres dizer que te bates por um regime do “comum” e dos “comuns” que é condição de possibilidade da autonomia dos indivíduos, da formação dos cidadãos de uma república que, libertando-se da dominação hierárquica e da exploração económica (politicamente instituída e garantida pelos aparelhos de Estado ou de tipo estatal), não aceitem ser governados por decisões em que não possam participar democraticamente, tudo bem, estamos de acordo. Mas, nesse caso, os que defendem os defuntos regimes de Leste, senão como modelos sem defeitos, pelo menos como passos em frente, e vêem no seu derrubamento um retrocesso, não defendem, mas combatem, o “comunismo”, e teremos de passar o tempo a explicar que aquilo que queremos não é a mesma coisa que eles choram. É verdade que o problema se põe de maneira semelhante para palavras como “socialismo”, “democracia”, “cidadania”, etc. E é por isso que eu acho que quanto menos altissonantes forem os termos em que falamos politicamente, melhor. Acho preferível falar em “democracia” ou “autonomia”, tentando deixar claro que a sua instituição requer o desmantelamento da organização hierárquica do poder (incluindo na esfera económica e implicando uma sociedade sem classes). É que aconteceu ao termo “comunismo” o mesmo que ao termo “social-democracia”: quando os que se pretendiam revolucionários deixaram de falar em “social-democracia”, não foi porque a “coisa mesma”, a verdadeira social-democracia, devesse ser deitada às urtigas. Queriam simplesmente dizer que as objectivos da social-democracia – ou democracia socialista – não eram já defendidos (mas contrariados) pelos partidos que se proclamavam “social-democratas”, etc. Mas, em rigor, tu poderias, tal como queres continuar a dizer-te comunista, continuar a dizer-te social-democrata não-reformista, empenhado no aprofundamento, extensão e actualização das “tarefas da social-democracia”. Também eu, quando tenho de explicar a um interlocutor que, embora tente usar sempre que possível outros termos, sou “socialista”, acabo por ser muitas vezes de acrescentar que falo de um socialismo “democrático” – embora um socialismo não-democrático seja, a meu ver, uma espécie de círculo quadrado. Em contrapartida, dizer que a democracia é condição e consequência daquilo que entendemos por “socialismo”, “comunismo” e “autonomia”, embora não esclareça tudo (longe disso), parece-me mais justificado, porque é mais simples e verdadeiro apresentar o “conteúdo do socialismo” como democracia directa, como exercício democrático do poder pelos cidadãos enquanto tais, do que explicar que, “apesar” de nos dizermos socialistas ou comunistas, o que queremos é mais, e não menos, democracia – mais e não menos direitos e responsabilidades. A ideia de “cidadania governante”- a abertura à participação igualitária de todos nas decisões que lhes dizem respeito e pelas quais se governam – parece-me, além disso, poder proporcionar uma linha divisória mais clara, e a base de uma plataforma menos equívoca que “esquerda socialista”, “socialismo revolucionário” ou “comunismo”. Mas, enfim, é só uma achega… um pouco no sentido do que disse também a Joana Lopes (embora, Joana, eu tenha a impressão de que o Daniel Oliveira não se compromete suficientemente com uma ideia de democracia que implique a supressão radical da distinção permanente entre governantes e governados, a superação do quadro representativo e da separação entre a esfera económica e política… mas talvez ele venha a esclarecer melhor a questão, se quiser responder à interpelação do Nuno Ramos de Almeida).

    Abç

    msp

  10. Zé Neves diz:

    caro miguel serras pereira, de acordo em quase tudo. embora prefira a ideia de comunismo à ideia de socialismo – não só por sublinhar a questão do comum, como também porque, como eu leio as coisas, socialismo remete para uma esfera estatocêntrica, mais do que o faz a ideia de comunismo. no outro dia, meio a brincar, mas pergunto se seria demasiado ridículo se fosse a sério, dizia: comunismo com dois m: isto é, comumnismo.
    abç

  11. Sim, Miguel, explicitaste muito do que penso, sobretudo na 1ª parte do teu comentário. Ando bastante obcecada com questões d terminologia por discussões várias tidas nos últimos dias. Por isso aprecio especialmente o que li numa resposta do Daniel a um comentário no Arrastão: «Fui comunista, hoje sou outra coisa» (cito de cor). Eu sei que é difícil prescindir de «comunismo», ou de «socialismo» como tu preferes, mas está-se sempre a explicar pela negativa o que não se é.

  12. miguel serras pereira diz:

    Caro Zé Neves, claro que estamos de acordo sobre questões fundamentais, mas a insistência no uso de “comunismo” sem mais dá azo a confusões. E acrescentar um “m” à palavra – a menos que se acompanhe de uma acentuação diferente, à francesa… – não resolve a questão. Não é que que a ideia comunista implique, quando a explicitamos, que se reduza tudo, como diz o DO, ao lugar ocupado nas relações de produção por cada um. O problema é que a história efectiva ou o movimento real da história (que podemos lamentar e cujo sentido podemos e devemos tentar transformar, mas que temos de reconhecer) faz que, quando falamos em comunismo ou mesmo socialismo, o senso comum (que também devemos subverter, mas começando por saber escutá-lo e levá-lo a discutir e discutir-se) tende a entender que o que pretendemos é substituir as grandes empresas e patrões por um Estado super-patrão e super-polícia, e que por socialização não visamos mais do que a estatização da economia. Se falarmos (sem nos proibirmos, evidentemente, de falar de “socialismo” e de “comunismo” quando isso vem a propósito do que se está a discutir) de “democracia”, “autonomia”, “cidadania governante”, os equívocos continuam a ser possíveis, mas não tão pesados, e, sobretudo, poucos serão os que começarão por replicar que queremos construir um Estado policial e concentracionário.
    É certo, como escrevia Castoriadis em 1979, que “a utilização [dos termos “socialismo” e “comunismo”] pelas burocracias lenino-estalinistas e reformistas foi um dos instrumentos da maior das mistificações históricas […] Mas […] devemos reconhecer que os termos eram, à partida, ‘maus’ – na medida em que podemos considerar assim uma palavra. […] O que é que quer dizer ser ‘socialista’ ou mesmo ‘comunista’? Ser partidário da sociedade, da socialidade (ou da comunidade) – e contra quê? […] Toda a sociedade foi sempre, e será sempre, ‘socialista’ porque se organiza sempre em vista da sua persistência como sociedade instituída […] A sociedade mais ferozmente ‘individualista’ continua a ser ‘socialista’ no sentido em que afirma e impõe essa significação, essa fabricação, esse ‘valor’ social […] que é o indivíduo […] Ou então o termo socialismo […] parece opor um primado material, substantivo, ‘de valor’, da sociedade sobre o indivíduo […] uma tal oposição […] é um contra-senso. É também falaciosa e mistificadora no plano prático. Permanece prisioneira da filosofia e da ideologia burguesas, da falsa problemática criada por elas. Acaba por tornar-se uma cobertura ideológica do totalitarismo, do mesmo modo que alimenta, no pólo oposto, um pseudo-‘individualismo’ ou ‘liberalismo’ […] E que significa o facto de a sociedade russa actual [em 1979] ser uma sociedade de exploração e de opressão? Será que cada indivíduo é, no seu interior, oprimido e explorado em benefício da colectividade, quer dizer em benefício de todos os outros (e, portanto, também de si próprio)? Claro que não: cada um dos indivíduos que compõem o povo russo não é oprimido e explorado pelo povo russo, mas pela burocracia ‘comunista’ – quer dizer por um grupo sociológico particular […]” (C. Castoriadis, Le contenu du socialisme, Paris, UGE, 10/18, 1979).
    Por outro lado, é insistindo não na pureza dos conceitos originais, mas no tipo de regime político que deve governar, responsabilizando-nos a nós por fazê-lo, os nossos trabalhos e dias que podemos construir uma plataforma e traçar linhas divisórias não enganadoras. Toda a restante conversa sobre o entendimento das forças de “esquerda” não me parece que leve seja onde for de muito interessante. A ideia de “cidadania governante”, que pode receber outro nome mais inspirado se o soubermos inventar, pode reunir todos aqueles que, doravante e desde já, vindos da tradição “comunista”, reivindicando-se da “social-democracia” bem entendida, invocando o legado do anarco-sindicalismo ou do conselhismo, ou outras fontes e devoções, estejam apostados na transformação democrática da ordem institucional dominante e na construção de um poder político exercido pelos cidadãos de uma república, entendida como colectividade que atribui aos seus membros a responsabilidade e a liberdade de se darem, sabendo-o, as suas próprias leis. Se queremos acabar com o poder político, não assumido como tal, exercido pela “empresa capitalista”, não é para substituirmos os gestores privados desta pelos burocratas ou especialistas de gestão de um ministério ou conjunto de sub-aparelhos estatais. Se queremos superar a “representação” de tipo parlamentar, não é para substituir aos parlamentos eleitos uma “direcção revolucionária” esclarecida, mas para instaurarmos a participação igualitária e regular dos “governados” no seu governo e no exercício das deliberações e decisões que os afectam. Se decidimos adoptar formas de luta que passam pela presença na cena política dominante, não é para tomarmos os postos de comando no seu quadro, mas para introduzir alterações e rupturas no seu funcionamento (por exemplo – em termos modestos, para começar- tornando os lugares dos nossos eleitos rotativos, acabando na prática com o líder parlamentar permanente, democratizando as organizações políticas que construirmos segundo o paradigma do cidadão que só aceita ser governado na medida em que possa participar democraticamente no exercício do poder).
    Abç
    msp
    Post-scriptum: Joana, estou de acordo com o que dizes e creio que o mostro. O que não sei é se estou de acordo com o DO sobre outras questões, que ele não explicita suficientemente. Dizer que o problema genético do comunismo é que este, estalinista ou não, só considera o lugar de cada um nas relações de produção é manifestamente insuficiente. Formular melhor a ideia seria dizer, mas não sei se é isso que o DO tem em vista, que no marxismo e no anarco-sindicalismo históricos se mantém sob muitos aspectos o “primado da economia”, quando a verdadeira “infra-estrutura” está nas relações de poder que organizam, entre outras coisas, a actividade económica. Mas veremos isso depois. Abç miguel

  13. miguel serras pereira diz:

    Ainda sobre a questão terminológica: só para aclarar as dúvidas. Podemos e devemos dizer que “comunismo” ou “socialismo” significaram essencialmente no passado um projecto político de auto-emancipação, de livre associação dos produtores, de democratização radical do poder e bens sociais. Mas não podemos esquecer – como insiste Castoriadis no texto que há pouco citei – que a significação das palavras é transformada pelo seu uso. E que esse uso, em todo o caso na linguagem corrente, alterou os dados imediatos da significação de “comunismo” e “socialismo”. Não passa pela cabeça de ninguém que saiba que a palavra igreja significou ecclésia, ou seja assembleia dos cidadãos, dizer que a Igreja Católica é democrática, ou em todo o caso uma força propícia à democratização da sociedade, porque o seu nome significa, mais ou menos, a universalização da assembleia dos cidadãos. Ainda menos passa pela cabeça de alguém dizer que é cristão porque o nome da Igreja Católica é democrático na medida em que significa “assembleia”. Pelo contrário, um cristão ou católico que tome partido pela democracia, enquanto regime em que os cidadãos se dão a sua própria lei e se responsabilizam por esse fazer, terá de reconhecer que na assembleia ou ecclésia da cidadania governante não poderá invocar a Revelação da Palavra de Deus como argumento ou justificação, uma vez que os critérios da democracia são “ateus”, excluem a consideração da “vontade divina” nas deliberações e decisões, ainda quando estas digam respeito às condições do “exercício dos cultos”. Enfim, foi só mais uma achega…
    msp

  14. tecla,

    dizes que “o be de Viseu está mui preocupado com Stalin e nada preocupado com o Imperialismo da clique dirigente dos EUA”

    eu não sou o be de viseu, somos mais, e o que escrevemos por aqui, escrevemo-lo enquanto indivíduos e não enquanto partido – só isso é uma diferença fundamental – pluralidade, responsabilidade e liberdade de opinião (sem purgas, até ver)

    e não vejo qualquer superioridade moral ou outra de quem tudo critica aos EUA sem conseguir sequer dizer baixinho que Estaline foi um criminoso genocida só comparável a Hitler na demência e brutalidade

    o negacionismo costumam ser apanágio dos neo-nazis, mas parece que começa a fazer escola por outras bandas… um novo pacto “germano-soviético”???

  15. viana diz:

    Como habitualmente, concordo praticamente como tudo o que miguel serras pereira escreveu. O que gostaria de acrescentar, e que reforça a mensagem de msp, é que precisamos de uma Esquerda que seja lutadora mas também inteligente. Se pretendemos revolucionar o sistema social tirando partido dos mecanismos políticos existentes, só o conseguiremos fazer se as medidas preconizadas, **apesar** do seu carácter revolucionário, forem capazes de congregar apoio maioritário na sociedade, e preferencialmente escapar à forte oposição da oligarquia reinante. O confronto apenas e só, nunca será capaz de levar a “reformas revolucionárias”. Quem preconiza o confronto puro e duro, apenas poderá (e quererá…) aspirar à ruptura revolucionária (que quase sempre falhou no passado…). A via alternativa, da “reforma revolucionária”, é estreita. Necessita de clareza de objectivos e de uma estratégia a longo prazo. A Direita teve a paciência (e muito financiamento) para idealizar essa via, depois do cenário de derrota com que se viu confrontada no final dos anos 60. Descobriram que acima de tudo a via para a transformação social revolucionária (e eles queriam e querem uma “revolução contra-revolucionária”) passa pela manipulação da linguagem, dos preconceitos enraizados na sociedade, pela apresentação das suas políticas como derivadas do senso comum (o que não exclui a construção de um discurso que aspira a criar “novo senso comum”), pela criação de metáforas e narrativas que “empurram” para uma e apenas uma “conclusão óbvia”. Nos EUA George Lakoff

    http://en.wikipedia.org/wiki/George_Lakoff

    tem chamado a atenção para a necessidade imperiosa da Esquerda utilizar estas mesmas técnicas de “manipulação” da discussão pública, se quiser obter ascendente social sobre a Direita.

    O que acabei de dizer parece-me relevante para a discussão acima, sobre a “utilidade” ou “necessidade” do qualificativo comunista. Parece-me que msp argumenta que tal qualificativo estará, na sociedade em geral, por ainda muito tempo (décadas) associado às experiências (que geram repulsa) do “socialismo real”. E que portanto a Esquerda tem mais a ganhar se em vez de tentar re-habilitar tal termo, procurar criar novos termos que sejam capazes de sintetizar a mensagem central da Esquerda radical hoje. Eu iria mais longe, advocando que tais termos (e discurso associado) devem tentar tirar partido de noções consensuais na sociedade actual, pois tal mais facilmente permitirá a obtenção de apoio maioritário para as medidas revolucionárias preconizadas pela Esquerda radical. É preciso construir uma narrativa apoiada em algumas que já existam (modificando-as pelo caminho), que “demonstre logicamente” a necessidade de tais medidas. As quais, como antes afirmei, e tanto quanto possível, devem ser suficientemente subtis (pequenas e subtis mudanças podem induzir profundas transformações) para poderem passar “desapercebidas” pela oligarquia reinante. Ora, uma das noções mais enraízadas nas sociedades ocidentais hoje em dia é o conceito de Democracia, a noção de que todos devemos ter uma palavra a dizer na nossa governação comum. Como acho que tal noção deve ter papel central nos objectivos da Esquerda radical, parece-me que a narrativa da Esquerda radical deve ser construída em torno da necessidade “lógica” do aprofundamento da Democracia. Política, em primeiro lugar. Pois a Democracia é, para já, associada essencialmente à esfera política. O carácter transformador da narrativa, a mais longo prazo, será a “demonstração lógica” que a Democracia é um conceito holístico que deve e tem de permear todas as relações societais, inclusivé as económicas. O que “sou”, então? Democrata.

  16. (Peço desculpa ao Zé Neves por utilizar este meio para dar este recado, mas estou a receber devolvidos os meus mails para o Miguel Serras Pereira)
    Miguel,
    O teu texto sobre o artigo do Louçã já está no Brumas.

  17. Justiniano diz:

    Caríssimo MSP – Devemos, então, concluir que a questão terminológica-identitária-conformadora se deve reduzir a uma redução de equívocos!? Evitar o “labelling approach”!? Qual então a utilidade da discussão!?

  18. Justiniano diz:

    Viana!
    Quer, também, continuar a reduzir a questão a mera oportunidade táctica!!?? Mas não é esse o caminho que tem vindo a ser seguido por algumas forças políticas, que se apropriaram da linguagem e do discurso legitimador liberal!!?? Não poderá ocorrer que o discurso legitimador liberal, utilitariamente admitido, se entranhe e, por exercício de osmose, se não estranhe, conformando-se em familiaridade doutrinária, como me parecem o caso do MSP, Zé Neves entre muitos tantos outros, como realçam o Vidal e muitos tantos outros por aqui e por ali!!?? Que lhe parece!?

  19. viana diz:

    Justiniano, a Esquerda tem de passar à ofensiva. Não pode continuar agachada a um canto, na defensiva, progressivamente excluindo cada vez mais conceitos do seu discurso porque foram entretanto apropriados e reformatados pela Direita. Temos de ir a jogo, temos de ser nós a apropriarmo-nos, reformulando-os no processo tendo em conta os nossos objectivos, dos conceitos nucleares que formatam o senso comum. É por exemplo extremamente danoso para a Esquerda a apropriação que a Direita faz do conceito de Liberdade. Liberdade! Um dos (3) pilares na génese da Esquerda dos tempos modernos, nascida com a revolução francesa.

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  21. Renato Teixeira diz:

    O pior do comunismo do Daniel Oliveira é cada vez mais o comunismo do Bloco de Esquerda. Mas saiba-se reconhecer o mérito dos sociais-democratas do BE: Ganharam. A ver vamos quantos zés ganham com isso e quanta gente fica a perder.

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