As minhas leituras do Daniel

O Daniel defende que o comunismo é igual a estalinismo, embora haja alguns comunistas que não são estalinistas. Importa discutir seriamente a tese e levar as suas conclusões até ao fim. Para discutir uma ideia, convém analisar o seu lado forte e não ridicularizá-la. É muito fácil dizer que, segundo a doutrina Oliveira, o comunismo é pior do que o cristianismo, já que tirando a Palmira do Jugular ninguém defende que todos os cristãos são clones do Torquemada e que a prática do cristianismo só pode levar-nos direitinho às fogueiras da inquisição. Esta defesa da incapacidade do comunismo superar os seus próprios erros, é, segundo percebo do pensamento do Daniel, devido a um pecado original de que enfermaria o seu DNA. Qual é esse pecado original? Parece ser a ideia de uma história construída por rupturas e revoluções. No meu entender, o que o Daniel Oliveira contesta é qualquer possibilidade de ruptura e de superação do capitalismo. O que no fundo o Daniel defende é que não há socialismo possível. E que toda a tentativa de superação do capitalismo levar-nos-ia, obrigatoriamente, a uma ditadura estalinista. Esta conclusão ontológica, tem obviamente consequências na prática política. Se o capitalismo é o horizonte inultrapassável da humanidade, uma espécie de fim da história, o máximo que podemos ambicionar é mais reformas e direitos. Nesse quadro não há nenhuma barreira ideológica entre os partidos à esquerda do PS e o actual PS. Qualquer medida reformista pode, e deve, levar o Bloco a colaborar com o governo de Sócrates, mostre ele um pendor reformista sério e se esqueça da Mota-Engil. Mais, segundo o daniel-oliveirismo, a grande barreira na esquerda não se faz entre o PS actual e o PC e o Bloco, mas entre o PS e o Bloco, por um lado, e o PCP, por outro.
Do ponto de vista táctico, uma boa política seria aquela que reivindicando tacticamente a unidade da esquerda, desse cabo do PCP e assessoriamente mudasse a direcção do PS. Levando a minha interpretação do pensamento do Daniel até o seu corolário lógico, a esquerda séria é aquela que abandonou o desejo totalitário de transcender o capitalismo e aposta num conjunto de reformas que melhorem significativamente a vida das pessoas sem contestar a primazia do capital em relação ao trabalho.
Sinceramente, ao contrário do Daniel, não acho que o capitalismo seja reformável. A história tem muitos séculos, nada dura para sempre: nem a vida, nem a história, muito menos o capitalismo. Isso não quer dizer que estejamos condenados à felicidade. Recuperando uma formulação da Rosa do Luxemburgo, o socialismo, como superação do capitalismo é apenas uma hipótese, mas no meu entender, melhor do que as que nos esperam em alternativa.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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13 respostas a As minhas leituras do Daniel

  1. João diz:

    É por isso que apesar de simpatizar com o bloco não acredito nele. É uma espécie de amigo de quem podemos gostar mas com quem não podemos contar até às últimas consequências. é um daqueles amigos simpáticos, bem parecidos, que está sempre na berra e faz com que nós até sejamos bem vistos lá no bairro por o acompanharmos. É como uma menina bem bonita que todos querem levar para as festas mas em quem não confiamos para partilhar vida

  2. Diogo diz:

    Talvez que a tecnologia substitua os trabalhadores.

    Talvez que sem trabalhadores não haja salários.

    Talvez que sem salários não haja vendas.

    Talvez que sem vendas não haja lucros.

    Talvez que sem lucros não haja capitalismo nem propriedade privada dos meios de produção.

    Talvez que a tecnologia substitua o capitalismo.

  3. ali la pointe diz:

    Eu e a malta da Casbah estamos de acordo.

  4. Bloquista diz:

    Sou comunista, militante do BE, e não assino com o meu nome para evitar chatices. safa, como diria o outro…

  5. Ó Nuno, tens consciência que foste de salto em salto até ao abismo. Eu não disse nunca que o problema do comunismo era ser revolucionário. E o problema da tua leitura, em que assumes várias coisas, é que se uma ligação lógica fala (vais de momento em que eu digo que o que aconteceu no Leste estava no DNA do comunismo para a obrigatoriedade do Bloco entrar no governo de Sócrates o que, convenhamos, é pouco forçado) todo o teu texto deixa de fazer sentido.

    O que está no DNA do comunismo está no meu texto: a ideia de que é quase em exclusivo o papel que cada um tem na produção que explica todas as contradições sociais. E nota que eu estava a falar do movimento comunista, que é mais e menos do que o marxismo. E inclui, ou passou a incluir, a ideia de partido leninista e esse equívoco, pouco relevante para o marxismo, a que se chamou “ditadura do proletariado”. Quanto às revoluções, até as houve democráticas.

  6. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Olá Daniel,
    Obrigado pelo esclarecimento. Confesso que levei o teu raciocínio ao limite e, felizmente, parece que o caricaturei sem querer. Mas acho que aproveitando-me do teu texto para o extremar, coloquei algumas questões que me parecem merecer discussão. São, aliás, discussões mais velhas do que a Sé de Braga.
    Finalmente, não me parece claro, no teu texto, e na conversas que tenho tido o prazer de ter contigo, que estejas convicto que é possível ou mesmo desejável superar aquilo a que vulgarmente se chama capitalismo.

  7. Não li ainda o texto do Daniel Oliveira. Mas sinto que é preciso mais rigor com as palavras. De tanto se aplicar e a coisas tão distintas, a palavra/conceito “estalinismo” acaba por banalizar-se, perdendo o seu sentido para navegar ao sabor das conveniências e das relatividades. O estalinismo é um fenómeno histórico indissociável da personagem que lhe de deu o nome, mas que pouco perdura para além da morte de tal figura. Ou seja, não é rigoroso do ponto de vista histórico classificar de estalinista a União Soviética de Nikita Krutchev ou mesmo a de Leonid Brezhnev. Como também é redutor dizer que a Hungria de Janos Kadar ou a Checoslováquia de G Husak eram ditaduras de tipo de estalinista. Ditaduras sim, mas longe de se assemelharem aos duros regimes estalinistas que marcaram aqueles países até aos finais dos anos cinquenta do século passado.
    Também julgo que não faz sentido classificar o PCP como um partido estalinista. Conservador sim, mas a destalinização passou há muito pelo PC: mais precisamente no V Congresso, realizado em 1957. Tão-pouco Álvaro Cunhal, que até chegou a manifestar espanto quando a jornalista Oriana Fallaci o acusa de ser estalinista (“porquê comparar-me com aquele desgraçado período do comunismo soviético?”, contrapõe Cunhal). É certo que alguns artigos vindos hoje a lume no PC manifestam uma estranha regressão (será a doença infantil do comunismo?).
    Enfim, o emprego de epíteto “estalinista” dá para tudo, até para classificar um qualquer Aparatchik do PS ou do PSD. É eficaz para animar o debate na espuma dos dias, mas não dá para muito mais 🙂
    Coisa séria é o debate sobre o comunismo e superação do capitalismo. Aí penso que o Daniel Oliveira tende a naturalizar o presente.

  8. toulixado diz:

    Estará Daniel Oliveira a tentar refundar o capitalismo?

  9. No “Arrastão”, Daniel Oliveira brinda-nos com esta “pérola”: “Politicamente, o dia 9 de Novembro de 1989 foi um dos mais felizes da minha vida. Tinha saído há umas semanas da JCP mas era comunista tão convicto como antes. Acreditava que era possível ser comunista e defender a democracia e a liberdade”.
    Quem assim fala, ou nunca foi comunista, ou nunca foi da JCP e do PCP, ou não faz a mínima ideia do que sejam democracia e liberdade e muito menos saberá o que significa e custa defendê-las.

  10. JMG diz:

    Confesso que para voos doutrinários, metafísicos e ideológicos, me falta a preparação, o tempo e (sem sobranceria para com quem investe o seu esforço nessa aéreas do conhecimento) o interesse. Gostaria porém de esclarecer uma dúvida velha: Como é possível defender a superação do capitalismo sem ao mesmo tempo defender a violência sobre pessoas que tal superação implica? Porque capitalistas (e eu, embora insignificante e manhoso, capitalista me confesso) há muitos, e mais ainda há os que o querem ser e entendem ser natural que o queiram ser. Ora, os capitalistas que há serão inimigos naturais de quem lhes queira legalmente retirar o estatuto que lhes dá em boa parte sentido à vida. Da natureza fatal desta realidade nasceu, creio eu, a razão principal dos aparelhos policiais de que se dotaram os regimes comunistas. E, sem estes aparelhos, não é cogitável que qualquer regime comunista sobreviva face a uma opinião pública que, se não o for desde o início, acabará por ser hostil. Como se resolve, se resolve, este conundrum?

  11. Natália Santos diz:

    Mesmo que se queira superar o capitalismo, pois os seus defeitos são aterradores, a dificuldade é substituí-lo por quê?por um sistema ainda pior ? É que se virmos bem, o comunismo, pelo menos aquele que vivemos, têm os defeitos do capitalismo, mais os que ele próprio criou para se auto defender. O defeito mais grave de ambos é tornar as pessoas escravas da produção, seja ela qual fôr, criar um núcleo (s)que na prática tudo dirige e desbaratar os recursos sem rei nem roque.

    O regime comunista eliminou a liberdade individual, e para o conseguir teve que criar uma monstruosidade de um polícia política, para onde teve que desviar muitos recursos, para além da perda de moral do próprio regime.

    Agora, um pequeno aparte :
    Num episódio de ” Uma família às direitas ” O Archie Bunker” estava furioso porque ia sair uma lei que taxava brutalmente as heranças superiores a 500 000 dls.

    Dizia o “cabeça de abóbora”, o genro, qual era o problema dele, pois pobre como era, nunca deixaria nenhuma herança à filha, quanto mais aquele valor.

    Responde o Archie Bunker:” Sim , mas isso tira-me a ambição, a vontade de ser mais!

    Moral desta história :É esta hipótese remota que nos alimenta. Se alguém nos quiser tirar esta ilusão, tem que inventar outra.

  12. justiça! diz:

    “a esquerda séria é aquela que abandonou o desejo totalitário de transcender o capitalismo e aposta num conjunto de reformas que melhorem significativamente a vida das pessoas sem contestar a primazia do capital em relação ao trabalho.”
    Opção: A esquerda séria é aquela que mantém o desejo de transcender o capitalismo e colabora num conjunto de reformas que melhorem significativamente a vida das pessoas, afirmando a primazia do trabalho sobre o capital”.
    Dois níveis de intervenção, portanto!
    A vantagem é obrigar os nihilistas do “desespero revolucionário” a fazer alguma coisa, para além de desesperar…

  13. rui david diz:

    Não faço a mínima ideia como se poderia escrever um programa da “esquerda séria”. Mas parece-me que a reflexão do Daniel é a única que retira as devidas consequências da história política do século XX.

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