As minhas leituras do Daniel
9 de Novembro de 2009 por Nuno Ramos de AlmeidaO Daniel defende que o comunismo é igual a estalinismo, embora haja alguns comunistas que não são estalinistas. Importa discutir seriamente a tese e levar as suas conclusões até ao fim. Para discutir uma ideia, convém analisar o seu lado forte e não ridicularizá-la. É muito fácil dizer que, segundo a doutrina Oliveira, o comunismo é pior do que o cristianismo, já que tirando a Palmira do Jugular ninguém defende que todos os cristãos são clones do Torquemada e que a prática do cristianismo só pode levar-nos direitinho às fogueiras da inquisição. Esta defesa da incapacidade do comunismo superar os seus próprios erros, é, segundo percebo do pensamento do Daniel, devido a um pecado original de que enfermaria o seu DNA. Qual é esse pecado original? Parece ser a ideia de uma história construída por rupturas e revoluções. No meu entender, o que o Daniel Oliveira contesta é qualquer possibilidade de ruptura e de superação do capitalismo. O que no fundo o Daniel defende é que não há socialismo possível. E que toda a tentativa de superação do capitalismo levar-nos-ia, obrigatoriamente, a uma ditadura estalinista. Esta conclusão ontológica, tem obviamente consequências na prática política. Se o capitalismo é o horizonte inultrapassável da humanidade, uma espécie de fim da história, o máximo que podemos ambicionar é mais reformas e direitos. Nesse quadro não há nenhuma barreira ideológica entre os partidos à esquerda do PS e o actual PS. Qualquer medida reformista pode, e deve, levar o Bloco a colaborar com o governo de Sócrates, mostre ele um pendor reformista sério e se esqueça da Mota-Engil. Mais, segundo o daniel-oliveirismo, a grande barreira na esquerda não se faz entre o PS actual e o PC e o Bloco, mas entre o PS e o Bloco, por um lado, e o PCP, por outro.
Do ponto de vista táctico, uma boa política seria aquela que reivindicando tacticamente a unidade da esquerda, desse cabo do PCP e assessoriamente mudasse a direcção do PS. Levando a minha interpretação do pensamento do Daniel até o seu corolário lógico, a esquerda séria é aquela que abandonou o desejo totalitário de transcender o capitalismo e aposta num conjunto de reformas que melhorem significativamente a vida das pessoas sem contestar a primazia do capital em relação ao trabalho.
Sinceramente, ao contrário do Daniel, não acho que o capitalismo seja reformável. A história tem muitos séculos, nada dura para sempre: nem a vida, nem a história, muito menos o capitalismo. Isso não quer dizer que estejamos condenados à felicidade. Recuperando uma formulação da Rosa do Luxemburgo, o socialismo, como superação do capitalismo é apenas uma hipótese, mas no meu entender, melhor do que as que nos esperam em alternativa.

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