Karl Marx, Crítico do Nacionalismo Económico

 

Está desde ontem nas bancas este pequeno livro com dois textos de Marx, a “Crítica de List” e o “Discurso sobre o livre comércio”. O livro é editado pela Antígona, os textos são traduzidos por José Miranda Justo e o prefácio, de onde são retiradas as palavras que seguem aqui em baixo, foi escrito por mim. Trata-se de um Marx eventualmente surpreendente, na medida em que encontramos, aqui, um autor igualmente crítico do proteccionismo e do livre-cambismo. Nem a vossa liberdade, nem a vossa protecção, parece dizer o jovem Marx.  Do prefácio: “[…] Será também aqui que radica a preferência marxiana pela teoria do valor de troca em detrimento da teoria listiana das forças produtivas. Se tanto o proteccionismo como o comércio livre obstam à libertação imediata das necessidades humanas – perpetuando a condição laboral e propondo ao proletário que entregue a sua sorte a outrem, seja a mão invisível do comércio internacional, seja o interesse nacional da burguesia industrial alemã –, a preferência pela teoria das forças produtivas implicaria a renúncia completa à possibilidade imediata dessa libertação. A definição do proletariado enquanto força produtiva, com o optimismo civilizacional e o nacionalismo económico que lhe eram subjacentes, fazia com que a questão da libertação das necessidades humanas fosse prometida para um tempo futuro, em lugar de ser sublinhada a actualidade da negação dessa libertação. Esta actualidade negativa, cuja materialidade é preferida por Marx em detrimento do idealismo de uma promessa futura, estava, sim, implícita na definição do proletariado enquanto valor de troca. «Se designo o homem como “valor de troca”, a expressão implica já que as condições sociais o transformaram em “coisa”. Se o trato como “força produtiva”, coloco no lugar do sujeito real um outro sujeito, substituo o homem por um outro agente, e a partir daí o homem já só existe como causa da riqueza. A sociedade humana, toda ela, passa a ser uma máquina destinada a criar riqueza. A causa não é de modo algum superior ao efeito. O efeito passa a ser apenas a causa abertamente manifestada.» Negando a humanidade do proletariado, ao reduzi-lo a mercadoria, coisificando-o, a teoria do valor de troca radica-nos porém – sem que o deseje, é certo – no terreno dessa mesma realidade negada, única instância de onde pode imanar a luta do proletariado e a possibilidade deste ir além de si mesmo.”

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3 respostas a Karl Marx, Crítico do Nacionalismo Económico

  1. Justiniano diz:

    Caríssimo Zé Neves – Muito interessante, sem dúvida(no entanto, muito poucos os partidários marxistas que não são neomercantilistas, tal como a prática marxista na história recente, lá está!)!! E, uma vez mais, os exemplos de desenvolvimento económico com reconhecido sucesso são exactamente os Listianos neomercantilistas, especialmente os orientais que partiam com enormíssimo atraso (a fórmula é também recorrente a todos em determinados períodos históricos – Uma espécie de refúgio a que o proletariado recorre quando diminui o seu valor de troca).
    Que concluir então!?

  2. Zé Neves diz:

    entre outras coisas, concluiria que devemos começar por discutir o que se entende por sucesso…
    abç

  3. Justiniano diz:

    sem dúvida.
    Comece o caríssimo Zé Neves (Eu até posso aceitar critérios do IDHONU), indique critérios que bem lhe aprouver e conclua, então, de sua justiça.
    Um bem haja;

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