Karl Marx, Crítico do Nacionalismo Económico
8 de Novembro de 2009 por Zé Neves
Está desde ontem nas bancas este pequeno livro com dois textos de Marx, a “Crítica de List” e o “Discurso sobre o livre comércio”. O livro é editado pela Antígona, os textos são traduzidos por José Miranda Justo e o prefácio, de onde são retiradas as palavras que seguem aqui em baixo, foi escrito por mim. Trata-se de um Marx eventualmente surpreendente, na medida em que encontramos, aqui, um autor igualmente crítico do proteccionismo e do livre-cambismo. Nem a vossa liberdade, nem a vossa protecção, parece dizer o jovem Marx. Do prefácio: “[...] Será também aqui que radica a preferência marxiana pela teoria do valor de troca em detrimento da teoria listiana das forças produtivas. Se tanto o proteccionismo como o comércio livre obstam à libertação imediata das necessidades humanas – perpetuando a condição laboral e propondo ao proletário que entregue a sua sorte a outrem, seja a mão invisível do comércio internacional, seja o interesse nacional da burguesia industrial alemã –, a preferência pela teoria das forças produtivas implicaria a renúncia completa à possibilidade imediata dessa libertação. A definição do proletariado enquanto força produtiva, com o optimismo civilizacional e o nacionalismo económico que lhe eram subjacentes, fazia com que a questão da libertação das necessidades humanas fosse prometida para um tempo futuro, em lugar de ser sublinhada a actualidade da negação dessa libertação. Esta actualidade negativa, cuja materialidade é preferida por Marx em detrimento do idealismo de uma promessa futura, estava, sim, implícita na definição do proletariado enquanto valor de troca. «Se designo o homem como “valor de troca”, a expressão implica já que as condições sociais o transformaram em “coisa”. Se o trato como “força produtiva”, coloco no lugar do sujeito real um outro sujeito, substituo o homem por um outro agente, e a partir daí o homem já só existe como causa da riqueza. A sociedade humana, toda ela, passa a ser uma máquina destinada a criar riqueza. A causa não é de modo algum superior ao efeito. O efeito passa a ser apenas a causa abertamente manifestada.» Negando a humanidade do proletariado, ao reduzi-lo a mercadoria, coisificando-o, a teoria do valor de troca radica-nos porém – sem que o deseje, é certo – no terreno dessa mesma realidade negada, única instância de onde pode imanar a luta do proletariado e a possibilidade deste ir além de si mesmo.”

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