Uma questão de transportes, 0
8 de Novembro de 2009 por António FigueiraA F. anda de mota, e eu tenho medo de motas desde um dia das férias da Páscoa de 1976 em que ia na parte de trás de uma Yamaha 50 e vi a morte de perto (j’ai frolé la mort) na esquina do Carrossel, e mais ainda desde que na quinta-feira passada vi um tipo estendido na Praça de Espanha, cheio de sangue na cara, com a mota abalroada por um carro de matrícula estrangeira miraculosamente de pé ao seu lado (“para que é que me contas essas merdas?, sabes perfeitamente que eu não vou deixar de andar de mota por isso…”). A F. caiu uma vez de um cavalo e já bateu também com a mota; a mim, nos acidentes, o que mais me custa são aqueles instantes, fracções de instantes, em que eu percebo que vou bater mas não há nada a fazer e só me resta esperar pelo choque; nas batalhas navais, com os barcos que eu vejo da janela, é especialmente assim, porque os barcos grandes não travam em meia dúzia de metros, como as motas, e uma vez numa trajectória de colisão não têm maneira de evitá-la, tal qual aquelas pessoas que, guiadas uma mão oculta, correm para a sua desgraça sabendo que correm para ela mas não conseguindo ainda assim fugir (“não, nunca pensei nisso, acho que com as motas é tudo mais rápido, não há tempo para essas lamentações”).

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