Uma pequena e bem merecida tareia no império de Toni Negri e Michael Hardt (certeiro! David Harvey no seu melhor)

«As abstracções de Commonwealth [o ultimo livro da trilogia anticapitalista (?) de Negri e Michael Hardt, agora publicado] soam bem, mas as propostas concretas estão algures noutro lugar. De facto, inúmeras propostas se vislumbram em Commonwealth, algumas contradizendo as outras. É, de certo modo, surpreendente aqui encontrar revolucionários e incendiários imperativos (“derrotar os poderes dominantes, destruir o ancien régime, destruir a máquina do estado – derrubar o capital, o mundo patriarcal e a supremacia branca – não é suficiente”) entrelaçados com apelos específicos aos governos mundiais para que providenciem um “rendimento garantido para todos os cidadãos”, educação básica também para todos, e acesso geral aos “conhecimentos e aptidões sociais e tecnológicas”, tanto quanto acesso à “participação na constituição da sociedade”. Certamente que eu compreendo por que é que eles pretendem colocar-se em ambos os percursos. De facto, também eu os assumo sempre – mas isso é o que todos esperam de revolucionários como eu, que reconheço a importância táctica e estratégica de, por vezes, defender posições reformistas; não é isso, contudo, que se espera de Negri e [Michael] Hardt. É o estado que eles pretendem derrubar aquele que, na Escandinávia, França, Alemanha ou Grã-Bretanha, providencia acesso universal a cuidados de saúde?»

Bom, continua David Harvey a propósito de Commonwealth e da trilogia que conclui (Empire, 2000; Multitude: War and Democracy in the Age of Empire, 2004), «bem-vindos ao clube daqueles que vêem o reformismo como um prelúdio para a revolução» (!!!). Frase brilhante, que resume todo o programa de Negri e Hardt. Continuemos, concluamos.

«Há muitos sentimentos incompletos como este em Commonwealth – o que quer dizer que há ainda muito por fazer. Esperamos com ansiedade o próximo livro de Negri e Hardt. Espero nele encontrar menos Spinoza e mais Marx, menos relacionalidades e imaterialidades [há muito descobertas por Marx, no fundo], algumas das quais muito poeticamente aqui evocadas, e mais elementos sobre os problemas que emergem em torno das questões materiais da representação, objectualização e reificação. Chega de relacionalidades e imaterialidades! Que tal falarmos de políticas concretas, da organização política actual, de acções concretas?» (Análise de David Harvey, Artforum, Novembro).

A resposta, ainda a dois, de Negri e Hardt começa deste modo: «Os marxistas são célebres por reservarem as suas mais severas críticas para outros marxistas….». Resposta que, por acaso, ou não, não apetece muito ler, e continua neste mesmo tom, estamos reconhecidos a David Harvey, nosso companheiro marxista, pela sua leitura, etc., etc.

Pois bem, pois bem, Negri e Hardt, companheiros marxistas, continuarei este post depois de acabar a leitura do livro (que ainda não me chegou, e nem sei se voltarei ao assunto – é provável que Ticiano [exposição no Louvre],

ou Augusto Alves da Silva [este expondo em Serralves] se interponham, mais proveitosamente).

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27 respostas a Uma pequena e bem merecida tareia no império de Toni Negri e Michael Hardt (certeiro! David Harvey no seu melhor)

  1. M. diz:

    A obra de Ticiano não estava em Veneza?

  2. Carlos Vidal diz:

    Cara M. (de Maria e de Madalena)
    Esta Pietà está, de facto, em Veneza, e espero que por lá se conserve até ao fim dos tempos (ou mais).
    Expliquei-me, acima, muito sinteticamente: referia-me à exposição temporária que agora está no Louvre, Paris, acho que até Janeiro próximo, em torno de Ticiano, Tintoretto, Veronese e a arte veneziana. Como ainda não fui visitá-la (e tenho de visitar esta expo.), espero reencontrar a Pietá em Paris. Mas não estou certo que ela tenha viajado de Veneza para Paris. Espero que sim. E que volte com saúde.

  3. M. diz:

    Caro CV, (Carlos Victor?! Sei lá!… Sei lá!…)

    Vai visitar a exposição? Ai, que Inveja!
    Depois conte…

    Cumprimentos,
    A Invejosa

  4. zn diz:

    Não tendo lido o livro, parece-me que a proposta do rendimento garantido em Negri (pelo menos, de acordo com o conteúdo de Adeus Sr. Socialismo) é bem mais complexa, não fazendo a sua descrição grande justiça

    “Menos radical se o rendimento de cidadania for ele próprio um rendimento funcional para o desenvolvimento do capitalismo (…). Funcional significa que face à distribuição do rendimento é pedida aos sujeitos uma contrapartida, que pode ser uma forma de sujeição de vários tipos, mas sempre dentro de critérios de medida tais que mantêm em pé e reproduzem a relação de exploração salarial. Ou seja, a quantia de rendimento deverá ser ajustada às possibilidades capitalistas de reproduzir o poder capitalista e as hierarquias correlacionadas. Por outro lado, considero que a reivindicação de um rendimento de cidadania se apresenta cada vez mais como rejeição do trabalho e da relação salarial. Por isso, o «rendimento de cidadania», entendido em sentido radical, já não se apresenta como algo que é oferecido em troca de algo que é devido, mas como definitiva declaração de independência e autonomia efectiva dos indivíduos trabalhadores relativamente ao capital” (Negri, 2007: 205, 206).

  5. “Theory is bad, political thought in art is wrong, activism is jejune, the free market is good, individualism is great, the amoral artist is genius”.
    o conceito de common substitui o privado e o político mas não renova o materialismo histórico, enfim paisagens.

  6. Carlos Vidal diz:

    Pois é caríssima invejosa. Trata-se do cumprimento duma obrigação quiçá escolar. Um pouco mais do que isso, mas ainda assim nada para invejar. Trabalho é trabalho.

  7. Carlos Vidal diz:

    Já agora, o que inveja concretamente?
    A minha visita à exposição de Ticiano ou à do Augusto Alves da Silva?

  8. Diogo diz:

    Não se percebe nada do post. Pode ser mais claro?

  9. xatoo diz:

    Ticiano, um fotógrafo com um talento excepcional assalariado pela ICAR,,, pffff

  10. Carlos Vidal diz:

    Não se percebe o post?
    Meu Deus.

    Cito uma crítica negativa ao último livro de Toni Negri e Michael Hardt.

    Depois, digo que eu ainda não li o livro, e que, lendo-o, poderei voltar a este assunto, que é importante.
    Mas, no fundo, duvido. Porque talvez prefira falar de Ticiano e de A. Alves da Silva, artistas (presentemente com exposições).

    Alguem não percebeu?

  11. olha! afinal não há contradição o aldo moro era parecido com Cristo. Apenas a Senhora o S. José e o anjo estão representados vivos, o resto são todos de pedra mármore. O pássaro representado no nicho parecido com a fénix deve ser um pelicano, não?
    Embaixo na metáfora paisagística alem tejo as fitas ao vento são mui do MRPP, uma chinesa no Porto Santo, não esquecendo também os artifexes do artificial.

  12. concluindo, os mortos devem ter assento nos nossos conselhos. Na Grécia Antiga, votava-se por meio de pedrinhas; os nossos mortos votam por meio de pedras tumulares. É um processo perfeitamente razoável e oficial, dado que a maioria das pedras tumulares, tal como a maioria dos boletins de voto, é assinada com uma cruz e nas escolas.

  13. Zé Neves diz:

    carlos, quando leres a obra, então poderemos discutir. até lá, não seria má ideia alguma precaução. de qualquer das formas, julgue-se o que julgar sobre Hardt e Negri, convém ter em atenção que dá algum trabalho ler ambos. Negri tem um percurso político longuíssimo, muito atribulado, uma vida militante que não deve nada a ninguém do ponto de vista do que se chama “meter as mãos na massa”. O chega de relacionalidades e imaterialidades de Harvey é meio patético e não é discussão séria de coisa nenhuma. A referência à necessidade de mais marx e menos spinoza é conversa de cromos que ignora o percurso “materialista” que Negri procura fazer na história da filosofia, passando por Maquiavel, Spinoza, Marx, e em diálogo crítico com Descartes e, a um outro nível, Keynes. Aliás, a crítica de Harvey, de que Negri e Hardt teriam finalmente chegado ao reformismo, é equívoca: a relação entre reforma e revoluçaõ sempre foi, em Negri, bastante diferente da tradição m-l ou social-democrata, que situa a questão em termo dicotómicos. Sobre isto, valeria a pena ler o artigo de Negri, em 68, creio, sobre Keynes. Sobre o tema do rendimento garantido, seria necessário compreender todo o debate em torno do trabalho que envolve diferentes tradições marxistas (open marxism, meszaros, postone, etc.).
    abç

  14. Carlos Vidal diz:

    Zé Neves,
    Conheço o percurso de Negri, todos o conhecemos com maior ou menor concordância. Não li o “Commonwealth”; espero que me chegue nos próximos dias. Acho, no entanto, os dois tomos iniciais da trilogia um impasse no jogo e pensamento da emancipação. Como diria o Prado Coelho a propósito de outros autores, uma página de Badiou ou de Agamben, por vezes, resolve problemas que Negri demora dois livros para tratar e resolver (?).
    Não li este “Commonwealth”, e depreendo que tu não tenhas lido o longo texto de Harvey. E Harvey não é nenhum idiota.
    Temo ainda que seja o percurso de Negri que valoriza e suscita automaticamente polémica e discussão entusiasta em torno do trabalho assinado com Hardt. Se Negri não fosse “Negri” (um significante por vezes excessivo), se fosse apenas por estes livros, não sei se estaríamos a discutir isto tão apaixonadamente.
    Não sei, pensarei nisso.

    Estamos em contacto.
    Cumps.

  15. M. diz:

    Caríssimo,

    A visita à exposição que invejo é – claramente – a que está agora no Louvre.
    Ora, ora, dessem-me obrigações académicas dessas… a ver se eu me que queixava que é trabalho! Aproveitava para voltar a L’Orangerie… ao amigo Picasso, ao Cemitério “do Pai da Cadeira”, ao Pompidou etc…
    (Dá Deus nozes a quem não tem dentes…)
    Augusto Alves da Silva, será muito interessante, mas faz mais o seu género… A amostra que aqui deixou da de Serralves, não me desperta grande interesse. Aposto que essa “obrigação” escolar o CV a cumprirá com mais gosto, né?
    Dê um abraço ao Sarkosy da parte do, nosso amigo comum, Sócrates e depois aproveite para cumprimentar a Carla Bruni como muito bem entender…:-))

    A minha esmagadora Inveja está presa aos dois primeiros parágrafos.

    Maria, Maria, a Invejosa.

  16. Zé Neves diz:

    Carlos, harvey não é um idiota, claro que não. mas há um tipo de crítica marxista a tudo a que soe a “pós-estruturalice” que é puramente… caceteira. “Que tal falarmos da política actual, da organização política actual, de questões concretas?” é um argumento que não esperava ver na boca de Harvey.
    Quanto ao efeito negri, estou de acordo que o seu percurso político favorece a atenção que sobre ele recai. Mas a tua ideia de que uma página de Agamben ou Badiou resolve dois livros de Negri é… digamos, precipitada. O que não encontras em Badiou, e mesmo em Agamben, é um pensamento sobre a política fundado na economia (que não tome a economia como parte do problema e sim como parte da solução, para abreviar). E isso, nota, tem justamente que ver com o percurso político de Negri – um percurso forjado no quadro de lutas operárias.
    enfim, vamos conversando.
    zé neves

  17. nf diz:

    Como já foi comentado aqui, ‘mais revolução e menos reformismo’ ou ‘mais Marx e menos Espinoza’ são não-questões para Negri, já que este não está interessado em fundar o seu pensamento em oposições que são, para ele, ultrapassadas ou contraproducentes. Mas já agora: imagine-se o que Harvey terá a dizer sobre Badiou…

  18. pensamento crítico contemporâneo em bricolage de conceitos, muito bem. mais tralha, sucata, aranhas rosa e madalena enquanto consultora também não estão mal, e qual é o contributo para a arte do imperialismo do referente?

  19. xatoo diz:

    arte do imperialismo? Emanuel com 2 go-go girls na feira da Golegã;
    mas prefiro revisitar o original na fonte, o Oyster Bar, onde não cheira a cavalo (nem a pós estruturalismo) que tresbunda

  20. Aranha Rosa diz:

    Cara Alma,
    Devote-se ao estudo, invista no seu intelecto.
    Vai uma mordidela de Aranha Rosa, dói, mas fica no local da mordedura uma flagrância suave de rosas… para que não se esqueça de as plantar na horta.
    Ora, Vá à horta ver se já há Favas… ou se ainda só tem ervilhas…

  21. neste tríptico para as massas começa a vislumbrar-se a impostura e a queda de dois ídolos de arrebatado materialismo aconchegado.

  22. Ricardo Noronha diz:

    “A resposta, ainda a dois, de Negri e Hardt começa deste modo: «Os marxistas são célebres por reservarem as suas mais severas críticas para outros marxistas….». Resposta que, por acaso, ou não, não apetece muito ler, e continua neste mesmo tom, estamos reconhecidos a David Harvey, nosso companheiro marxista, pela sua leitura, etc., etc”

    Então, Carlos? Assim não vale. Qualquer polemista parece competente a solo. Partilha lá a resposta. Uma página ou duas bastarão.

  23. Carlos Vidal diz:

    Ó Ricardo, sou um modesto professor na FBAUL, a arte (e o segredo, claro, o segredo) é o meu negócio, não me metas nestas polémicas negrianas.

  24. peregrinianas do activismo fraudulento.

  25. Aranha Rosa diz:

    Cadê o meu outro comentário???

    “Abaixo a censura!
    Não queremos a ditadura!”

    As aranhas Rosas também têm drto à palavra, que é que julga?

  26. calúnias lançadas pelos inimigos acerca da sua classe, habilidade saloia de quem pretende ocultar ao que vem. depois da violência mandar para o grande espaço sideral o imperialismo do referente.

  27. Pingback: cinco dias » Negri esteve em Lisboa, foi? E alguém ainda o foi ouvir? E já pensaram passar os olhos pelos escritos de Anselm Jappe (infinitamente mais “realista” e atento)?

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