Ponto de partida…

Ponto de Partida

Estreio, com esta nota introdutória, a minha colaboração no 5 Dias.

Não deixa de ser um motivo de orgulho passar de leitor a colunista mesmo em regime de voluntariado. Não sendo um bloguista nato espero estar à altura do desafio de transformar latidos introspectivos em mordidelas de massas.

Antes de bobinar algumas ideias, sinopses de pautas, telas ou livros ou simplesmente com o que o quotidiano sempre nos oferece, das esquinas da desobediência aos corredores do poder, pareceu-me bem apresentar-me. Todo o leitor deveria saber alguns vícios e gostos do escritor de turno. Sem essa informação é mais fácil cair na ratoeira de propagandas vis, algo perigoso quando nos fazemos da argamassa do que lemos e não convém andar a ler enganado.

Escrever é inevitavelmente um acto de maledicência pelo que seria imperdoável não começar por mim antes dos outros. Ainda assim espero falar bem dos outros falando mal e falar mal de mim falando bem, não vá danificar nenhuma das auto-estimas em questão. Espero igualmente não voltar a usar dois gerúndios na mesma frase.

De nome Renato e de apelido Teixeira conto 30 anos de vida (os mais vividos dos quais na República Prá-kys-tão, em Coimbra, que valem, segundo reza a história, por outros cem anos cá fora). “Falta-me um dente” mas nem por isso sou “filho de professores primários” ou “artista de variedades” e apesar de “pequeno burguês” não me vejo “aprendiz de feiticeiro”, que é como quem diz, recluso da classe originária. Por esta passagem já podem ver que considero o plágio um crime menor, a pirataria um gesto libertador e a traição um acto relativo. Vivo a vida de forma simples, naquela simplicidade debochada descrita por César Monteiro ou vá lá, para não ser tão pretensioso, a de Bocage.

No campo profissional vivo entre a vontade de fazer jornalismo e a necessidade de vender caracteres. Coisas distintas, como reconhecerão, e poucas vezes conciliáveis. No campo primogenital preencho a tempo entre o desejo de ser bom pai e a obrigação de ter que ser pelo menos um pai qualquer. No campo amoroso vivo entre o desejo de ser aquilo que nunca conseguirei ser e a realidade de ser aquilo lamentavelmente sempre fui. Na cozinha gosto mais de carne que de peixe, não tanto porque Deus encarnou, o que quase me levava a ser crente, mas porque o peixe tem espinhas. Tenho mais prazer em cozinhar do que cozinhem para mim o que tem consequências nefastas noutros campos da vida.

Nas pessoas aprecio a frontalidade, a ironia, a fraternidade e o humor, enfim… a decência de se dizer coisas desagradáveis ou com um sorriso nos lábios ou pelo menos com os dentes cerrados. De todas as que mais espécime me faz são as oportunistas, que é como quem diz, parece-me abjecta a ideia de alguém trocar princípios e valores por um bom negócio religioso, político ou profissional. Até tenho, desde o tempo da adolescência, uma ode a esses mercenários da vida, e um dia destes, a pretexto do brilharete de algum, ainda o publico por estas bandas, a propósito. Gosto tão pouco de oportunistas que não há pior visão do que um serão, por mais curto que seja, na companhia de Seabras, Zitas ou Santos, ou de Josés, Machados Pachecos ou Manueis Durões. Só nestes casos é que prefiro não ser eu o cozinheiro mas somente por razões de prevenção judiciária.

Na política sou ainda mais esquisito do que no futebol e na religião ateu me confesso. No oráculo de Maquiavel, rendo-me às respostas de Marx (que já teve dias mais fora de moda) e às premonições de alguns dos seus profetas, embora não goste da obra de nenhum dos apóstolos.

Irrita-me o consumismo mas sempre tenho meia dúzia de consumos que me animam, perturba-me o capitalismo mas ainda não encontrei forma de viver sem mercado e tenho dificuldade em lidar com as chefias mas ainda me escapa a alquimia de viver sem salário. Sou materialista mas às vezes dou por mim a ter fé na sorte ou a temer o azar.

Sou defensor das causas das minorias mas confesso-me obcecado pelos problemas da maioria. Sem pôr em causa o direito de todos, para todos, na cama, no amor e no resto, nunca perceberei a defesa do casamento gay. Não consigo deixar de olhar para o casamento como o mais balofo património da heterosexualidade e o mais tolo acto de sexismo militante. “O meu homem…” isto “A minha mulher…” aquilo. Em nenhum momento vislumbro carinho em qualquer um destes predicados. Também não ajuda o casamento ser uma espécie de crédito à habitação, onde no lugar do banco está alguém de quem se gosta e juramos algo que não sabemos se podemos cumprir e como se não bastasse ainda lhe prometemos quatro paredes eternas. Em muito dias do ano, sou insuportável até para mim próprio, como poderia impor-me a alguém que prezo mesmo “na vida e na morte”? Mesmo estando louco, chato ou “doente”? Com “saúde” e animado ainda vai que não vai… mas e o resto?

Não concebo acabar com os touros de morte por quanto persistam as touradas, que é como quem diz, não entendo a lógica de acabar com os frangos de aviário sem antes se acabar com a fome. Sinto que quem vai por ai segue o mesmíssimo caminho de quem quer privatizar um qualquer bem público em nome da sacrossanta mais-valia das coisas privadas. Por mim… fosse eu touro, preferia morrer na apoteose da arena do que ser levado, sem dignidade ou honra, para as traseiras de qualquer matadouro ou veterinário. Já frango, antes nunca o vir a ser, com ou sem fome no mundo e se, mesmo Homem, acabar prostrado ao ambulatório, ainda terei força de dar vivas e urras à eutanásia livre.

Fui sócio do Bloco de Esquerda mas já nem na Briosa milito, embora continue a sofrer, de alguma forma, com a agonia de ambos. Essa fobia… à transmutação dos ideais em mercado, leva-me a anular a quota-parte do voto que me cabe da matéria democrática e assim esperar por votos mais úteis, valendo por agora, a utilidade de mandar a minha quota-parte e a dita cuja democrática, às malvas. Não vejo utilidade em confiar a esperança à poda violenta dos jardineiros de ilusões. Não me parece lógico encher o frigorífico em nome dos outros e consta que há por ai melhores métodos para mudar o mundo…

Prefiro o xadrez romântico ao xadrez betinho, as assembleias aos comícios e as aulas às palestras, o Maradona ao Eusébio, a informalidade à solenidade, fazer bullying a ser bullyinguiado, o realismo ao surrealismo, o preto ao branco e o vermelho ao amarelo, o modernismo ao pós-modernismo, a foleirada dos 80’s à música electrónica, a madeira ao plástico, os carros às motas e as carrinhas aos carros, uma tasca simpática e gulosa mesmo cheia de moscas às Maisons assépticas cheias de gente vazia e de comida snobe que não puxa carroça. Prefiro os Açores à Madeira, o Alentejo ao Algarve, a Galiza ao Minho, os rios aos mares, embora não me faça grande diferença o vinho ou a cerveja, o chouriço, o bucho ou a morcela. Entre o Real de Madrid e o Barcelona, prefiro o Alcorcón, e entre o Benfica, o Porto e o Sporting, prefiro, apesar da arcebispada, o Braga. Entre a poesia e a prosa prefiro as que dêem às letras ideias concretas e como Baudelaire prefiro que cada um se embriague à sua maneira “para não serdes os escravos martirizados do Tempo” e da matéria. Prefiro o descanso ao emprego, o descanso ao emprego, o descanso ao emprego, a não ser quando o emprego é trabalho ou quando o descanso é desemprego.

Prefiro falar alto do que em surdina mas prefiro a surdina ao silêncio. Prefiro o risco de escrever asneiras ao pesadelo de vir a gostar de estar calado. Prefiro uma folha de gatafunhos debitados sem jeito à masmorra fúnebre de uma página sem nada.

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23 Responses to Ponto de partida…

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