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Congresso dos Arquitectos

5 de Novembro de 2009 por Tiago Mota Saraiva

A situação social da maioria dos arquitectos é cada vez pior.
O número de arquitectos inscritos nos centros de emprego aumentam exponencialmente, sem que isso signifique que tenham acesso ao subsídio de desemprego. As raras ofertas de trabalho assalariado, na sua maioria esmagadora precário, escasseiam e cresce um fenómeno que costumo denominar como a mala de cartão dos jovens licenciados.
Historicamente a profissão sempre dependeu do Estado, seja através da integração na função pública, seja pelo papel determinante no projectar da obra pública, e isso não se alterou. Com o virar do milénio surgiu, numa primeira fase, o combate ao déficit de Ferreira Leite que determinou o afunilamento dos postos de trabalho na função pública – ao qual apenas se pode aceder através dos bons conhecimentos (o que tem vindo a significar uma queda abrupta da qualidade dos técnicos da administração pública) e o socratismo constituiu-se como uma rede tentacular de orgias de ajustes directos de encomendas públicas, em que o critério não é o da qualidade técnica nem do interesse público.
Como seria natural esta situação partiu a classe dos arquitectos entre os que se movimentam nas malhas desta rede tentacular e os que ficam de foram – a esmagadora maioria. Contudo, a crescente proletarização da classe e a sua divisão, não tem tido qualquer reflexo na organização profissional que a representa – a Ordem dos Arquitectos. Aliás a actual direcção desta organização tomou partido, constituindo-se também como um braço armado da ostracização dos que ficam de fora. Pela primeira vez, em décadas de história da organização e contrariando o que se encontra deliberado em assembleias gerais e congressos, a direcção nacional da OA, apoia veladamente as adjudicações directas e elogia publicamente quem não faz concursos públicos. Se até há bem pouco os arquitectos afirmavam que a OA não lhes servia para nada, hoje constitui-se como uma entidade que serve para prejudicar e cavar diferenças entre a classe – o que até pode ser positivo.
Não espero grande coisa do Congresso de Dezembro, aliás, ninguém espera. Uns esperam que o equilíbrio de forças se mantenha, outros encontram-se avassalados pela resistência ao lúmpen e à sub-proletarização sem consciência de classe.
O valor de entrada no congresso, o valor anual das quotas, a inexistência de assembleias gerais, orçamentos (o último aprovado 2007 movimentava cerca de sete milhões de euros) ou relatórios de contas apenas reforçam as ferramentas de exclusão de classe.
Perante a mensagem que ingenuamente entendi enviar interrogando-me sobre a legitimidade de fazer um congresso dos arquitectos sem que o seu orçamento seja aprovado apenas obtive o silêncio, preocupados que estão em cerrar fileiras, tal como em 1948, em torno de uma Comissão de Honra.
Pela primeira vez, desde que sou membro da Ordem dos Arquitectos, não apelo à participação no congresso mas também não entendo que a melhor estratégia seja a deserção.

Comentários

Comentário de xatoo
Data: 5 de Novembro de 2009, 17:05

arquitecto, pedreiro, engenheiro ou serralheiro, a luta é a mesma. Passando ao lado dos elitismos profissionais e da ingenuidade de aceitar o negócio dos cursos privados, estão todos sobre o fogo da globalização. Não adianta disparar para o Estado quando se sabe muito bem que o Estado (precisamente com Durão Barroso e Ferreira Leite) se demitiu do investimento público (para privilegiar o investimento na economia keynesiana militar). Desde então que o motor da economia local se transferiu para centros ocultos da economia global.
Posta esta questão prévia, a qualquer profissão que não esteja envolvida em negócios com o exterior dentro deste paradigma, resta-lhe emigrar, como aliás em todas as outras profissões… Neste aspecto penso que os engenheiros sempre se safaram melhor que os arquitectos
E quando começarem a chegar os candidatos ao primeiro emprego no âmbito do alargamento do conceito de Bolonha, a crise vai-se agravar…
a Ordem, segundo me quer parecer, é apenas mais uma possibilidade de manter uns empregozitos (pagos com a quotazinha rigorosamente exigivel a qualquer precário), emprego que há que preservar a todo o custo; até que apareça algo melhor, como fez a Roseta que se marimbou no assunto mal conseguiu dar a volta por cima

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 5 de Novembro de 2009, 17:29

“arquitecto, pedreiro, engenheiro ou serralheiro, a luta é a mesma. Passando ao lado dos elitismos profissionais e da ingenuidade de aceitar o negócio dos cursos privados, estão todos sobre o fogo da globalização.”

xatoo, não acho que seja o “novo” fogo da globalização, mas a “velhinha” luta de classes. Concordo com o facto da luta ser a mesma, embora possa/deva ter diferentes lugares para ser travada. Aqui trato de um problema específico e conjunturalmente agravado pela acção da OA e socratismo o que, como refiro no texto, até pode ser bom para que se constituam as famosas “condições objectivas”.

Sobre a HR, fazendo a ressalva que, embora tenhamos discordado muitas vezes (ex: Câmara de Lisboa), trabalhei com ela durante seis anos e sou seu amigo, acho que deu sempre mais do que recebeu.

Comentário de Manuel C.M. Vicente
Data: 5 de Novembro de 2009, 21:30

Tiago,querido Tiago,estou contigo.como tem sido habito.

Comentário de rafael
Data: 6 de Novembro de 2009, 0:11

Muito interessante que tenha colocado a questao da proletarizaçao da profissao de arquitecto no centro do debate. De facto, creio que o grande mito enganador de todos os jovens arquitectos ou estudantes de arquitectura é que, mais cedo ou mais tarde, irao desenvolver os seus projectos, ter o seu atelier, os seus clientes. A realidade mostra-nos que assim nao é e que, infelizmente, o mito perpetua-se e a classe nao tem consciencia de classe – passe a redundancia.

Para tal, encontro duas explicaçoes que podem ser simplistas, mas sao focadas na minha experiencia de estudante, dirigente associativo e finalmente arquitecto.

1) A grande maioria dos arquitectos provém da média-alta burguesia e tem a ilusao de que um dia chegará o seu lugar ao sol. Os que nao vêm pensam mais na sobrevivência do que propriamente na organizaçao de uma luta concertada.

2) O espirito de sacrificio e de competitividade que é fomentado nos cursos de arquitectura, a mentalidade de concurso, as directas, o nao existir horarios de trabalho é algo que tem efeitos na nossa vida profissional, na forma como encaramos o direito às ferias, o direito às 40 horas semanais, etc…

Por ultimo, existe o desprestigio da classe que (ao contrario de espanha) é vista como uns bichos raros, que ninguem percebe para que servem. O facto de termos algumas figuras de renome internacional apenas serve, normalmente, para a criaçao das piadas do génio arquitecto, figura abominável e da qual, de forma directa ou indirecta, somos todos bastante responsáveis -por mim falo- muitas das vezes nao conseguindo explicar aos clientes, em 1ª instancia, e à sociedade, em geral, opçoes que sao confundidas com caprichos.

Comentário de João L
Data: 6 de Novembro de 2009, 10:40

E que tal um Sindicato? Em vez de uma Ordem, que se parece mais com uma associação patronal, um sindicato talvez pudesse “ganhar” mais voz, ter mais barba por fazer e suor à vista. Talvez acompanhasse este tempo proletário de pedreiros que conhecem o latim.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2009, 14:40

Viva Manuel, cá estamos na luta!
Um abraço e a ver se nos vemos sem ser na Assembleia.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2009, 14:59

Caro Rafael, é muito engraçado reencontrar-te por aqui, passados mais de uma década!
Algumas notas sobre o que escreveste:

1. Não acho que seja verdade que a maioria dos novos arquitectos provenham das classes médias-altas. A massificação do ensino de arquitectura teve muitos efeitos nocivos mas, justiça seja feita, democratizou socialmente o acesso à profissão. Contudo, isto não quer dizer que a maioria dos arquitectos não afirme pertencer à classe média, ainda que, residam em casa dos pais, nunca tenham tido qualquer contrato de trabalho e aufiram o salário mínimo nacional.

2. Estou inteiramente de acordo com a rejeição das ideias do arquitecto-génio, artista iluminado ou grande-criativo e demais afirmações de excepcionalidade.

3. Estou inteiramente de acordo com a rejeição da ideia do “amanhã delirante” em que terei o “meu” atelier, os “meus” projectos e os “meus” explorados, embora reconheça que muitas vezes é a única alternativa para se conseguir sobreviver (no meu caso foi).

Contudo estas questões, como também refere o xatoo, não são só corporativas mas consequência natural da sociedade em que vivemos.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2009, 15:20

João L, é absolutamente necessário um sindicato dos arquitectos. Quando a AAP passou para Ordem, os arquitectos deixaram de ter uma entidade que tratasse das questões laborais. Rapidamente, sucessivos governos PS e PSD, chamaram a atenção para o facto da OA não poder ter qualquer posição de carácter sindical.
E que tal uma Associação em vez de uma Ordem?

Comentário de rafael
Data: 6 de Novembro de 2009, 16:50

Tiago, desculpa lá o atrevimento mas nao estou a associar a cara com a careta…conhecer-nos-emos dos tempos do “dirigismo” associativo? é que mais de uma década é muito tempo…

Quanto à origem burguesa sem consciencia de classe de muitos dos nossos colegas, pode ser que tenhas razao. A realidade que eu conheço é da FAUP e é, de facto, uma realidade inquinada pelos numerus clausus, que constituem, pela média exorbitante, um travao claro a muito boa gente tao ou mais capaz do que os q lá estao.

Comentário de rafael
Data: 6 de Novembro de 2009, 16:53

ah…e sim, um sindicato dos arquitectos é necessário. Lembro-me de há uns 12 anos quando se discutia a constituiçao da associaçao em Ordem, o Manuel Correia Fernandes falar dos arquitectos encostados ao poder. apesar de ser quem é, tinha razao…

Comentário de André Filipe
Data: 6 de Novembro de 2009, 17:03

Realmente concordo com a criação de um sindicato de arquitectos, penso que deva existir uma entidade que realmente possa defender a profissão. Tendo em conta o cenário actual da profissão e o desprestigio da mesma dentro da própria classe.

Comentário de c
Data: 6 de Novembro de 2009, 17:20

reconvertam-se ao verdadeiro proletariado. trabalho para operários especializados , tipo torneiro mecânico , fresador , electricistas e tal , ainda vai havendo e haverá , e o salário é bastante elevado pois a procura é maior que a oferta.
é que casas já há bem mais que famílias e obras de manutenção dispensam arquitectos , por enquanto…que nestas coisas o estado inventa sempre umas cenas , tipo certificados energéticos , para “criar” empregos e cobrar taxas.

Comentário de João L
Data: 6 de Novembro de 2009, 17:45

Tiago, talvez a Associação fosse designação mais simpática, mas a verdade é que há imensos arquitectos assalariados que não têm quem os represente. E por outro lado talvez um Sindicato pudesse impôr algum respeito quando se efectuam “Prestações de Serviços a Recibo Verde” que não passam de contratos simulados. Quero com isto dizer que a Ordem faz sentido, mas um Sindicato tambem faría. Uma Associação sería hipotese para acabar de vez com a ideia de que a Ordem tem de ser uma Associação Cultural. Cumps.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2009, 17:47

rafael, também só te reconheci pela foto no blogue.
Há mais de uma década era da AEFA.
Um abraço

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 6 de Novembro de 2009, 18:01

João L, eu acho que, no actual quadro jurídico, são precisas duas coisas:

- uma associação forte, que represente todos os arquitectos e, sobretudo, zele junto do estado por um conjunto de questões que dizem respeito à arquitectura (que defenda, por exemplo, a universalidade do acesso aos serviços de arquitectura) – chame-se associação, ordem ou o raio que a parta.

- um sindicato, por motivos óbvios.

Comentário de josé Raul caires
Data: 7 de Novembro de 2009, 8:15

Os arquitectos são em grande parte responsáveis por este estado de coisas. Quando aceitam estagiar sem remuneração. Quando fazem “dumping” nos honorários. Quando aceitam esquemas de trabalho mais ou menos indignos como as colaborações com engenheiros que oferecem os projectos de “Arquitectura” com as especialidades.

A qualidade da Arquitectura espanhola, mesmo da arquitectura corrente, atesta a qualidade da formação dos seus profissionais. Espanha é um país pujante, industrializado, onde se constroi (polémico ou não) o Guggeneim de Bilbau dentro do prazo e dos custos.

Os colégios dos arquitctos em Espanha são instituições com peso representativo instituicional, fornecem um efectivo apoio à prática – estou-me a lembrar por exemplo de um conjunto de “canhanhos” do Colégio dos arquitectos da Galiza que havia num atelier onde trabalhei que era quase um tratado de edificação – varria tudo de modo sistemático – estruturas, instalações, paredes, etc, etc… e isso é apenas a ponta do iceberg… porque em espanha, para além do vertousismo técnico, ou melhor a adequação desses meios e processos aos fins, nota-se uma certa preparação do ponto de vista cultural. Bom, históricamente, ao contrário de Espanha, quase não temos Arquitectura erudita, ou temo-la quase sempre “estrangeirada” ou contaminada.

A nossa Ordem é uma agremiação pindérica, proto elitista, mais preocupada em promover “chás das tias” do que com as pessoas que todos osm dias vão trabalhar e metem a mão na massa.

Já sem falar nos que fazem coisas que deviam dar origem a p+rocessos que os impedissem de trabalhar para o resto da vida, mas ninguém liga – lá têm os Mercedes e alguns até são patronbos, etc, tudo com a complacência e beneplácio da nossa ordem.

Não acredito muito em sindicalismos, porque, o que se constata, nos nosso dias, em o liberalismo económico puro e duro é uma realidade cada vez mais adquirida, é que os movimentos sindicais têm cada vez vindo a perder influência. Apenas conseguem defender os direitos de poucos que têm direitos adquiridos.

Não me peçam soluções, porque não tenho.

Acho estúpido que para um mercado como o nosso tenham criado 30 escolas de arquitectura, mesmo achando legítimo que haja muita gente que aspire a ser arquitecto.

Penso que parte disto será um fenómeno de moda, e que, confrontados com a perspectiva de um futuro que não será para todos ou para a grande maioria muito risonho, tendencialmente, existirão muitos candidatos.

Só o tempo, o desenvolvimento, poderão mudar este estado de coisas.

muito do que há para fazer, por exemplo, será olhar para o estado a que chegou o ordenamento do nosso território e ver o que se pode fazer.

Comentário de josé Raul caires
Data: 7 de Novembro de 2009, 8:21

Os arquitectos são em grande parte responsáveis por este estado de coisas. Quando aceitam estagiar sem remuneração. Quando fazem “dumping” nos honorários. Quando aceitam esquemas de trabalho mais ou menos indignos como as colaborações com engenheiros que oferecem os projectos de “Arquitectura” com as especialidades.

A qualidade da Arquitectura espanhola, mesmo da Arquitectura corrente, atesta a qualidade da formação dos seus profissionais. Espanha é um país pujante, industrializado, onde se constroi (polémico ou não) o Guggeneim de Bilbau dentro do prazo e dos custos.

Os colégios dos arquitctos em Espanha são instituições com peso representativo instituicional, fornecem um efectivo apoio à prática – estou-me a lembrar por exemplo de um conjunto de “canhanhos” do Colégio dos arquitectos da Galiza que havia num atelier onde trabalhei que era quase um tratado de edificação – varria tudo de modo sistemático – estruturas, instalações, paredes, etc, etc… e isso é apenas a ponta do iceberg… porque em espanha, para além do vertousismo técnico, ou melhor a adequação desses meios e processos aos fins, nota-se uma certa preparação do ponto de vista cultural.

Bom, históricamente, ao contrário de Espanha, quase não temos Arquitectura erudita, ou temo-la quase sempre “estrangeirada” ou contaminada. E a Espanha tem um património riquissimo no plano das artes visuais.

A nossa Ordem é uma agremiação pindérica, proto elitista, mais preocupada em promover “chás das tias” do que com as pessoas que todos osm dias vão trabalhar e metem a mão na massa.

Já sem falar nos que fazem coisas que deviam dar origem a processos que os impedissem de trabalhar para o resto da vida, mas ninguém liga – lá têm os Mercedes e alguns até são patronos, etc, tudo com a complacência e beneplácio da nossa ordem.

Não acredito muito em sindicalismos, porque, o que se constata, nos nosso dias, em o liberalismo económico puro e duro é uma realidade cada vez mais adquirida, é que os movimentos sindicais têm cada vez vindo a perder influência. Apenas conseguem defender os direitos de poucos que têm direitos adquiridos.

Não me peçam soluções, porque não tenho.

Acho estúpido que para um mercado como o nosso tenham criado 30 escolas de arquitectura, mesmo achando legítimo que haja muita gente que aspire a ser arquitecto.

Penso que parte disto será um fenómeno de moda, e que, confrontados com a perspectiva de um futuro que não será para todos ou para a grande maioria muito risonho, tendencialmente, existirão menos candidatos.

Só o tempo, o desenvolvimento, poderão mudar este estado de coisas.

muito do que há para fazer, por exemplo, será olhar para o estado a que chegou o ordenamento do nosso território e ver o que se pode fazer.

Comentário de Jaquim
Data: 7 de Novembro de 2009, 23:45

Ainda estou para perceber porque é que o médico faz uma cirurgia sem precisar de ter um colega-funcionário a avaliar o seu projecto para a cirurgia. Se for incompetente, alguém morre. O advogado prepara a defesa do seu constituinte sem precisar que um colega-funcionário avalie previamente o seu trabalho. Se for incompetente, alguém perde anos de vida numa cadeia. Um engenheiro não precisa que um colega-funcionário avalie o projecto de estabilidade. Se for incompetente, há alguém que se aleija, ou morre.
O arquitecto tem sempre de ter o seu trabalho avaliado previamente por um colega-funcionário, que conseguiu o lugar sabe-se lá como, que é, frequentemente, seu concorrente. A não ser que só faça obra pública que, como se sabe, não precisa de passar pelo crivo do colega da câmara e é onde estão as obras que aparecem nas revistas e nas exposições. Nunca vi a Ordem contestar isto. Talvez porque estejam todos no segundo grupo.
E já agora, por falar em questões laborais, será que no atelier desse grande apoiante da CDU que é o Siza, se garantem a todos os trabalhadores as regalias laborais que a CDU defende? Pois…

Comentário de josé Raul caires
Data: 8 de Novembro de 2009, 4:27

Ao colega que escreveu o comentáriol anterior – tem razão. Salvo num detalhe – conheço um colaborador do Siza. Nunca o ouvi queixar-se e constato que não é rico, mas não vive mal.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 8 de Novembro de 2009, 11:50

Jaquim e josé, não me chateia nada ter um colega a apreciar (bem diferente de avaliar) um trabalho pois penso que, na maior parte das vezes, traz elementos importantes para o projecto.
Não contribuo em nada para a tensão entre arquitectos dos ateliers e da administração pública, embora ache, isso sim, que devam ser denunciados todo o tipo de máfias que existam entre eles. Não acho que seja esse o principal problema da profissão.

Comentário de José Raul caires
Data: 8 de Novembro de 2009, 12:34

Caro Tiago. Pois não. Até tenho amigos nas autarquias e são pessoas sérias para além de excelentes profissionais. Para além de gozarem de condições de trabalho que não são comparáveis com as que se encontram nos ateliers.

Existe um problema, é que, para começar, somos muitos. Depois, não disfrutamos do mesmo estatuto que têm as outras profissões liberais (e em todas há bons e maus profissionais – creio que os engenheiros que fazem “Arquitectura” devem ser dos piores).

Depois é assim: eu prefiro fazer qualquer outra coisa para me sustentar a fazer Arquitectura sem condições. Esse é outro dado adquirido. Há tempos a própria agenda da ordem tinha um sítio para pôr o endereço do atelier, outro para pôr o emprego…. – eles sabem muito bem qual é que é o terreno em que as pessoas se movem, mas fingem que não sabem.

Logo à partida o pantanal que são os estágios, com aquelas formações pagas que são redundantes em relação à formação académica, o facto de qualquer membro com cinco anos de inscrição poder ser patrono (alguns bem precisavam de uma reciclagem) é um mau começo.

Depois há a questão da encomenda pública e dos concursos. Já sem falar que fazer um concurso podse custar uma fortuna. A Ordem nem sequer divulga adequadamente os concursos internacionais.

Bem aja que lá conseguiram revogar o 73/73. Mas será que isso basta?

A questão dos falsos recibos verdes é assim: é um cancro, que eu saiba, exclusivo deste país e que não afecta só os arquitectos. É algo que muito pura e simplesmente devia ser ilegal. De notar ,que, em contrapartida, nos outros países, um contrato rescinde-se deum dia para o outro. Mas não passa pela cabeça de ninguém trabalhar sem contribuir para sistemas de segurança social, etc. Agora até temos cartão de cidadão.

Quando é que esta marmelada acaba? Note-se que também passei e passo recibos, mas pago a segurança social.

Em relação ao modo como muitos arquitectos da minha geração vivem, não sei se a culpa não será dos pais.

Porque conheço casos de pessoas extremamente capazes que tiverzam mque largar a arquitectura porque têm filhos para sustentar, por exemplo.

Agora, lá que quando vou à câmara tenho que ir de bola baixa…

Nós somos é um país ainda, apesar de tudo, atrasado, com um nível cultural muito baixo, com cidades desertas e subúrbios / conurbações colossais e inenarráveis, em que as pessoas em geral mal têm tempo para se predocupar com a sobrevivência quanto mais com o resto, nem vale a pena escrever, porque ia gastar páginas e páginas para dizer todas as coisas que todas as pessoas minimamente informadas estão fartas de saber.

Os problemas dos jovens arquitectos são iguais, por exemplo aos dos jovens jornalistas ou dos jovens juristas, dos designers, de muitas categorias profissionais.

Acho que a Ordem devia ter aí um papel a desempenhar, mas o ,que faz, na realidade é asfixiar ainda mais as pessoas. parece uma Boutique de moda.

E outra coisa, parafraseando o Cordech, talvez não seja de génios que precisemos…

Lá que tudo isto é lamentável, é.

Comentário de José Raul caires
Data: 8 de Novembro de 2009, 13:48

Uma coisa de que peço desculpa é de não rever os textos antes de publicar. Estão pejados de gralhas e erros. Sou um bocadinho impaciente.

Comentário de Mónica Cruz
Data: 8 de Novembro de 2009, 23:44

Caros colegas, apesar de também estar a sofrer a dita crise, tenho atelier próprio e não é nada fácil de manter, mas partilho o que tem sido a minha estratégia ao longo destes anos que me tenho dedicado à arquitectura: sejam pro-activos! Analisem o ponto forte do vosso trabalho, quem são os vossos potenciais clientes, criem os vossos portfólios, páginas na net, e apresentem-se pessoalmente aos potenciais clientes. Com 19 anos formei uma empresa de levantamentos arquitectónicos pois tinha feitos uns trabalhinhos de férias de verão e achei que poderia haver mais potenciais clientes nos ateliers de arquitectura. Falei com o meu professor de projecto na altura, arquitecto Carlos Macedo, quem me marcou o percurso de faculdade, que me deu todo o apoio e trabalho. Apresentei-me a outros ateliers e vários me deram trabalho. O meu percurso universitário foi sempre feito em paralelo com a empresa. Neste percurso fui parar ao atelier do mestre Távora. Infelizmente não tive o prazer de falar com ele pessoalmente mas falei com o filho Beernardo Távora que me disse algo que nunca mais esqueci e faço questão de partilhar: “Nunca enviem um currículo por correio, porque recebemos às centenas e a maior parte é arquivado pois não temos lugar para tanta gente. Mas uma pessoa, quando recebemos pessoalmente uma pessoa, é mais difícil de dizer que não a uma pessoa que tem a coragem de vir até aqui.”
Apesar dos tempos serem difíceis não podemos cruzar os braços. Arrisquem e apresentem-se pessoalmente a quem vocês acham que poderão precisar dos vossos projectos.
Boa sorte a todos!

Comentário de José Raul caires
Data: 9 de Novembro de 2009, 10:16

Mónica: – é assim mesmo.

Comentário de Tiago Mota Saraiva
Data: 10 de Novembro de 2009, 12:08

Olá Mónica, a vida constrói-se a partir da resistência às adversidades. Obrigado pelo teu testemunho.

Comentário de O Arquitecto da CML
Data: 11 de Novembro de 2009, 13:30

Só agora tive conhecimento deste espaço. Parabéns a todos pelos textos e opiniões.
Dentro em breve passarei a participar com a opinião de um Arquitecto que está há muitos anos “do outro lado do balcão”, mais concretamente, na Câmara Municipal de Lisboa.
É cada vez mais urgente alterar muita coisa!
Quem puder e quiser visite-me em http://oarquitectodacml.blogspot.com lá encontrarão expressos muitos dos problemas que nos afectam também a nós, “camarários”, e que por vezes são ainda maiores e piores do que aqueles que exercem a profissão de forma liberal.
Até breve.

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