Congresso dos Arquitectos
5 de Novembro de 2009 por Tiago Mota SaraivaA situação social da maioria dos arquitectos é cada vez pior.
O número de arquitectos inscritos nos centros de emprego aumentam exponencialmente, sem que isso signifique que tenham acesso ao subsídio de desemprego. As raras ofertas de trabalho assalariado, na sua maioria esmagadora precário, escasseiam e cresce um fenómeno que costumo denominar como a mala de cartão dos jovens licenciados.
Historicamente a profissão sempre dependeu do Estado, seja através da integração na função pública, seja pelo papel determinante no projectar da obra pública, e isso não se alterou. Com o virar do milénio surgiu, numa primeira fase, o combate ao déficit de Ferreira Leite que determinou o afunilamento dos postos de trabalho na função pública – ao qual apenas se pode aceder através dos bons conhecimentos (o que tem vindo a significar uma queda abrupta da qualidade dos técnicos da administração pública) e o socratismo constituiu-se como uma rede tentacular de orgias de ajustes directos de encomendas públicas, em que o critério não é o da qualidade técnica nem do interesse público.
Como seria natural esta situação partiu a classe dos arquitectos entre os que se movimentam nas malhas desta rede tentacular e os que ficam de foram – a esmagadora maioria. Contudo, a crescente proletarização da classe e a sua divisão, não tem tido qualquer reflexo na organização profissional que a representa – a Ordem dos Arquitectos. Aliás a actual direcção desta organização tomou partido, constituindo-se também como um braço armado da ostracização dos que ficam de fora. Pela primeira vez, em décadas de história da organização e contrariando o que se encontra deliberado em assembleias gerais e congressos, a direcção nacional da OA, apoia veladamente as adjudicações directas e elogia publicamente quem não faz concursos públicos. Se até há bem pouco os arquitectos afirmavam que a OA não lhes servia para nada, hoje constitui-se como uma entidade que serve para prejudicar e cavar diferenças entre a classe – o que até pode ser positivo.
Não espero grande coisa do Congresso de Dezembro, aliás, ninguém espera. Uns esperam que o equilíbrio de forças se mantenha, outros encontram-se avassalados pela resistência ao lúmpen e à sub-proletarização sem consciência de classe.
O valor de entrada no congresso, o valor anual das quotas, a inexistência de assembleias gerais, orçamentos (o último aprovado 2007 movimentava cerca de sete milhões de euros) ou relatórios de contas apenas reforçam as ferramentas de exclusão de classe.
Perante a mensagem que ingenuamente entendi enviar interrogando-me sobre a legitimidade de fazer um congresso dos arquitectos sem que o seu orçamento seja aprovado apenas obtive o silêncio, preocupados que estão em cerrar fileiras, tal como em 1948, em torno de uma Comissão de Honra.
Pela primeira vez, desde que sou membro da Ordem dos Arquitectos, não apelo à participação no congresso mas também não entendo que a melhor estratégia seja a deserção.

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