O pensamento ideológico neoliberal IV

A parte final de um ensaio de João Valente Aguiar, Doutorando em Sociologia e Investigador na Universidade do Porto. JVA mantem o blogue As Vinhas da Ira. Leia aqui a 1ª parte e 2ª parte e 3ª parte.

O pensamento ideológico neoliberal (cont.)

7 – A transformação das Ciências Sociais numa ferramenta técnica de regulação sistémica

A desqualificação do pensamento crítico, particularmente do marxismo, concorre paralelamente com a transformação da História, Sociologia, Economia, Psicologia em acessórios instrumentais de regulação do sistema. De facto, o abafar do pensamento crítico, dentro e fora das universidades, tem sido peça-chave na própria reconfiguração das Ciências Sociais. Estas são vistas pelos académicos e intelectuais como apetrechos não mais orientados para percepcionar e compreender o mundo em que vivemos. Inversamente, o catecismo neoliberal que se tem assenhorado das faculdades de ciências sociais e humanas um pouco por todo o mundo – salvo honrosas e relevantes excepções – aposta na expulsão dos princípios da interrogação, da inquirição e da problematização dos fundamentos da sociedade contemporânea. Na Economia, por exemplo, os estudantes são treinados para assimilar acrítica e acefalamente os princípios da nova ordem, sendo formados para, no máximo, aprender a gerir e relacionar taxas de juro, inflação, défice das contas públicas, etc. Questões essenciais na estruturação das sociedades e da economia contemporâneas como a natureza da mercadoria e a produção de valor a partir da exploração da força de trabalho ou a hipertrofia da financeirização em ordem a criar um balão de oxigénio (temporário) face à crise na extracção de mais-valia não são nunca sequer leccionadas. Na Sociologia, os estudos crescentemente valorizados por sectores (cada vez mais) vastos da academia abrangem dois ramos: a) estudos que investiguem processos de exclusão social e que proponham medidas de tipo caritativo-filantrópicas e com uma redução máxima de custos, onde o recurso massivo a trabalho temporário e precário, quando não sob o regime do voluntariado, surge como uma dimensão de primeira importância para as chamadas políticas públicas definidas pela União Europeia e pelos governos neoliberais; b) estudos que incidam em meras enunciações de percentagens de desempregados jovens, de infoexcluídos, de jovens que abandonam a escola precocemente, de número de horas dedicadas a ver televisão ou a navegar na internet, etc. Temos aqui a valorização de estudos (quase) estritamente quantitativos, onde a reflexão teórica sobre os fundamentos e os factores estruturantes que estão na base dos referidos fenómenos é clara e assumidamente desprezada.

Por este caminho, as Ciências Sociais têm sofrido um processo de colonização interna, destruindo qualquer tipo de reflexão crítica, retirando-lhe qualquer tipo de fôlego transformador. Este é o objectivo do pensamento neoliberal. A reflexão nas Ciências Sociais fica, assim, destinada aos scholars, aos conselheiros académicos de governos como Castells ou Giddens. Este tipo de autores surge no panorama mediático e académico como vozes (supostamente) incontestáveis e sapientes. E, não esqueçamos, de “esquerda”. Contudo, a sua reflexão assenta sempre na reprodução dos princípios e das lógicas estruturais onde assenta o sistema, por muito que varie a terminologia de autor para autor. Castells pode falar da “sociedade em rede”, Ulrich Beck na “sociedade do risco” ou Giddens na “modernidade tardia” como se de novas configurações de sociedade e de organização da vida humana se tratasse. Todavia, a persistência ao nível económico, do trabalho assalariado e da exploração dos trabalhadores; ao nível político, do Estado-Nação como organizador político nuclear da classe dominante; ao nível cultural, do domínio e concentração dos meios de produção simbólicos e ideológicos por parte da burguesia; mostra que os pilares do sistema capitalista mantêm-se intactos, apesar de reformulados, algo que nem sequer se pode dizer que seja absolutamente inédito na história desse sistema social.

Para concluir, registe-se que o pensamento neoliberal não desaparece por pura e simplesmente desmontarmos as suas contradições e seus limites. Esse trabalho teórico é importantíssimo, quanto mais não seja pelo fornecimento de armas ideológicas e teóricas robustas aos que se recusam a aceitar o catecismo neoliberal. Contudo, em última instância, só a luta prática dos povos e dos trabalhadores, com suas organizações próprias, permitirá superar de vez o arcaísmo do pensamento social neoliberal e, ainda mais importante, do próprio neoliberalismo, a fase actual de ofensiva do capitalismo a nível internacional. Assim, luta teórica (e ideológica) e luta de massas articulam-se como meios para o relançamento de uma perspectiva alternativa à forma actual de organização global do capitalismo. Perspectiva alternativa que passará necessariamente pelo socialismo.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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6 respostas a O pensamento ideológico neoliberal IV

  1. zé do boné diz:

    -Dá-lhes jeito – carradas de contabilistas com estatuto e carteira de economistas.

  2. Excravo diz:

    Mas que grande surpresa? A conotação do capital ao fascismo já está nos arquivos mortos! Só não sabe quem não tem interesse ou pretende esconder as ligações do patronato com a direita. Se tropeçamos diariamente com essas situações.
    Acabei de ler há pouco uma obra muito esclarecedora sobre este assunto, de Kurt Gossweiler “ Hitler! Ascensão Irresistível”.
    É bom que alguém vá publicando isso, para que não sirva de pretexto a muita gente alegando que desconhecia.
    Cumprimentos

  3. ezequiel diz:

    ” aposta na expulsão dos princípios da interrogação, da inquirição e da problematização dos fundamentos da sociedade contemporânea.”


    Caro André,

    Uma pergunta simples e + 1 observação:

    1) Consideras o pós-modernismo uma (forma de) interrogação crítica? Será Foucault, por exemplo, um verdadeiro crítico (suponho que não, para ti)?

    2) Presentemente, são muitas as obras esquerdistas (incluindo Escola de Frankfurt, Badiou, Negri, etc etc) que são publicadas e estudadas nas universidades…nos EUA (estás a falar de Portugal, bem sei), por exemplo, é muito “kool” estudar-se os radicais esquerdistas Europeus. Há dezenas de universidades que incluem estes trogloditas nos seus currículos. Ou seja, nunca se estudou tanto o esquerdismo na história da humanidade. São estes meninos e meninas do ocidente se juntaram ao movimento Zappatista, por exemplo. Nos EUA o movimento anti-glob está extremamente bem organizado e activo. Assim como por toda a Europa, Brasil etc. Não me parece que os “movimentos críticos” tenham desaparecido. Muito pelo contrário.

    Todavia, talvez seja verdade que o marxismo clássico e neo tenham sido suplantados por outras formas de “problematização” que os destronaram da eminência filosófica. Aliás, estás aqui a citar um doutorando de Sociologia da Universidade do Porto. Certo?

    Quando comecei a ler o post fiquei com a sensação de que todas as disciplinas “acessórias” terão conspirado para desqualificar o Marxismo. Sinceramente, isto parece-me um absurdo. O que aconteceu, a meu ver, foi algo radicalmente diferente. Estas disciplinas pluralizaram-se em termos filosóficos (diferentes pólos de interrogação crítica surgiram dentro delas tornando-as muito mais críticas em relação a si próprias. nunca o revisionismo foi tão popular!) Ou seja, no teu caso a pergunta relevante (parece-me) seria, por exemplo: qual das psicologias serve melhor os propósitos filosóficos do Marxismo??? Além disso, podemos assistir a um outro fenómeno interessante: grandes trabalhos de conservadores da tradição comunitária a serem incorporados nos conceitos de “organicidade” neo-Marxistas (por exemplo, porque é que um esquerdista radical como Sandel concorda com muitos dos argumentos de um conservador como Gadamer)

    O que está a acontecer é que estamos a testemunhar a reformulação radical das ideologias críticas. O Marxismo já não detém o monopólio cognitivo da “crítica.” Novas formas de “problematizar” a coisa estão a surgir, algumas mais radicais do que o Marxismo. E é bom não esquecer que nada contribuiu mais para a desqualificação do Marxismo do que os falhanços colossais da experiência comunista. Ninguém teve que conspirar o que quer que seja para que o Marxismo se desqualificasse.

    tou com pressa.
    desculpas pelo português cacofónico.
    cumps

  4. ezequiel diz:

    estava a brincar quando usei o termo “trogloditas”
    esqueci-me do LOL 🙂

    Mas quem não percebe que o “horizonte” da crítica contemporânea pluralizou-se…
    talvez seja mesmo um(a) troglodita!! poderás dizer, à la Jameson, que o pluralismo radical que emergiu nas disciplinas críticas (pós-modernismo, por ex.) é apenas o resultado de mais uma nefasta conspiração…o pluralismo radical reduz a ideia da essência à da relação…mais umas décadas e o Marxismo deixa de ter uma essência. LOL 🙂

    está tudo a fluir mais rápido do que nunca (ver Paul Virilo), meu caro. o estático (um dos aspectos da noção da essência) está em vias de extinção. já ninguém defende essência alguma. (tipo conceito de Species Being em Marx) Hoje, o conceito vigente e praticado é o da potencialidade infinita (o futuro a ser devorado pelo real time, pelo presente… amordaçado ao presente, ao status quo???). qual é a essência que pode resistir ao reformular ad nauseum de críticas?? welcome to nihilism, André! (tou a brincar)

    fica bem
    cumps
    z

    os chineses dizem, ironicamente: “may you live in interesting times!!”
    É isso mesmo.

  5. ezequiel diz:

    Todavia, talvez seja verdade que o marxismo clássico e neo tenham sido suplantados por outras formas de “problematização” que os destronaram da eminência filosófica. Aliás, estás aqui a citar um doutorando de Sociologia da Universidade do Porto. Certo?

    errata: o que eu queria dizer é a Univ do Porto tem entre os seus, muitos pensadores críticos. Assim como em Coimbra, Lisboa etc. Ou seja, a tua tese n me parece plausível. (saltei quando estava a escrever e esqueci-me daquela parte. sorry, gottago)

  6. ezequiel diz:

    clikar nos icons ao lado de NSB Radio(ghetto blaster)…muita crítica por aqui!! 8)

    http://www.nuskoolbreaks.co.uk/

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