Finjam melhor

crucifixoLemos que o representante do Vaticano está surpreendido e triste pela decisão do Tribunal Europeu de Direitos Humanos contra a presença de crucifixos nas salas de aula em Itália. Umas páginas à frente, é o Bispo do Porto que defende o referendo ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Não me apoquentarei a discutir as visões da Igreja Católica sobre a laicidade do Estado ou sobre a bondade de um casamento estritamente heterossexual. O que me parece interessante notar é a convicção com que a Igreja Católica defende posições fingindo que acredita deter, como outrora, uma influência social capaz de melindrar as prerrogativas do jogo democrático nos Estados de direito. Repare-se, é muito diferente imaginar uma Igreja capaz de esgrimir argumentos que pretendam calar fundo nas consciências democráticas do comum mortal, do que assistir a estes desabafos indignados, desabafos da ordem que só podem reunir apoios entre os mais férreos dos convertidos.

A ICAR está apenas interessada em registar para a posteridade – histórica ou metafísica – que o casamento homossexual será tornado legal contra os seu melhores esforços, apenas está interessada em registar que esteve contra a retirada dos crucifixos das salas de aula. Talvez eu perfilhe de uma leitura demasiado benigna, mas creio que muitas das hierarquias da Igreja Católica se estão borrifando para quem casa com quem, também acredito que terão plena consciência de que é absolutamente escusado virem reclamar contra óbvios atentados ao princípio da laicidade do Estado – e das suas instituições.

A sensação que fica é que estes representantes da ICAR estão a fazer um frete a Deus. Com tantas coisas que realmente poderiam beneficiar a imagem pública da Igreja e, por consequência, a do credo que apregoam, não sei se Deus agradece estes fretes. Finjam melhor, por favor.

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5 respostas a Finjam melhor

  1. carlos graça diz:

    A hipocrisia… ça donne à penser…

  2. Justiniano diz:

    Desabafos!!??
    O Sena Martins faz-me lembrar aqueles zelotes da pós modernidade, custódios da evidencia, que se espantam e nos espantam com o seu proselitismo de criança mimada, dizendo que tais e tais ideias sequer deveriam ser permitidas quanto mais publicadas e ajuramentadas.
    Mais de dois mil anos de história, duzentos de jacobinismo e lavra Vcmcê a eito.
    Pobre laicidade, a de sua casa, sem o Natal e apenas com a Páscoa.
    Por fim, registe-se a sua defesa do livro aberto “prerrogativas do jogo democrático”, que assim se mantenha fiel ao livro.
    Cumps,

  3. José Dias diz:

    Bruno. Permita-me que discorde dalguns pontos de vista expressos:
    A Igreja não tem “hierarquias”, mas apenas uma hierarquia, dogmática e ditatorial. A nenhum dos seus elementos com funções de representação hierárquica (padres, bispos, etc) é permitido expressar opiniões diferentes das instituídas. Assim, quando qualquer elemento do clero se pronuncia, nunca saberemos o que ele realmente pensa, mas apenas aquilo que é obrigado a dizer, sob pena de ficar desempregado.
    Além disso, não é verdade que a Igreja se “borrife” para as opções das pessoas, por muito pessoais e íntimas que sejam. Pelo contrário, julga-se mandatada por Deus, para impor os seus dogmas não apenas no plano religioso, o que se compreende, mas também no plano civil, o que, convenhamos, me parece um abuso inqualificável.

  4. Bruno Sena Martins diz:

    “que assim se mantenha fiel ao livro”. Certamente, caro Justiniano.

  5. Bruno Sena Martins diz:

    José Dias, no essencial estamos de acordo.

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