O pensamento ideológico neoliberal III

A terceira parte de um ensaio de João Valente Aguiar, Doutorando em Sociologia e Investigador na Universidade do Porto. JVA mantem o blogue As Vinhas da Ira. Leia aqui a 1ª parte e 2ª parte.

O pensamento ideológico neoliberal (cont.)

5 – A tese da resistência à mudança

Os neoliberais partem do pressuposto formalmente correcto de que o mundo está em constante mudança. Aliás, mudança e inovação são dois termos muito utilizados pelos boys de serviço do sistema. Contudo, o que entendem estes por mudança? Para o pensamento social neoliberal a inovação resumir-se-ia a dois parâmetros: a) inovação em termos de produtos e bens. Inovação que pode ser mais ou menos cosmética. b) “inovação” ao nível das relações laborais e sociais. Aqui a inovação e a mudança significaria o retirar de direitos (na linguagem neoliberal, privilégios) dos trabalhadores. No fundo, ser moderno e inovador é, no ideário neoliberal, tornar-se flexível, transformar um trabalhador disponível em toda a latitude para o capital utilizar como bem entender.

Por conseguinte, todos os que criticam estas asserções neoliberais são taxados muito simplesmente como retrógrados. De facto, não deixa de ser surpreendente o poder ideológico da grande burguesia no que toca à manipulação massiva de grandes camadas da população, particularmente na capacidade que tem evidenciado em conseguir apresentar um ideário da primeira metade do século XIX – quando quase não havia direitos sociais para os operários – como profundamente moderno e high-tech. Aliás, o controlo quase absoluto por parte da burguesia da esfera mediática e da produção noticiosa e cultural faz com que essa classe dominante nem perca tempo a criticar teoricamente as teses alternativas ao seu modo de pensar e de agir. Com tal controlo hegemónico dos media no contexto actual, à burguesia e seus intelectuais tem bastado classificar os seus contestatários como conservadores e imobilistas. A crítica resume-se a isto e ponto final. É verdade que a crítica realizada é superficial mas ela é extremamente eficaz quanto mais não seja pela sua simplicidade (para não dizer simplista) e linearidade: «nós, neoliberais, transportamos a mudança civilizacional; eles, esses aí, os contestatários, são fósseis com ideias do século passado».

Por outro lado, a abordagem neoliberal do conceito de mudança procura retirar a sua carga de historicidade. De facto, o pensamento neoliberal concebe a mudança em termos estritos. Para o neoliberalismo a mudança circunscreve-se aos dois vectores mencionados acima (inovação de produtos e retirada de direitos). No fundo, mudanças que em nada alteram as bases estruturais do sistema e que apenas servem para reproduzir a mecânica da acumulação capitalista. Pela via do desenvolvimento do consumo (e do consumismo) e pela via do abaixamento de custos na produção, procurando elevar a taxa de exploração. Ora, tal conceito de mudança encontra-se despido da sua carga histórica, isto é, para o neoliberalismo a história acaba no capitalismo e aí se manterá indefinidamente. Ora, a tentativa de fechar a humanidade em tal sistema social e económico só pode representar, este sim, um pensamento retrógrado e bárbaro. Sobre a real mudança – a perspectiva de construção de uma sociedade socialista assente no poder dos trabalhadores – o neoliberalismo, como não poderia deixar de ser, nada nos diz. Por aqui se percebe que a resistência à mudança com que os apologistas do capital procuram atribuir a sindicatos e partidos de classe é, pelo contrário, algo geneticamente presente no pensamento neoliberal. A luta pelo socialismo também passa pela necessidade de desmontar as teses congeladoras da história que a classe dominante procura inculcar nas massas.

6 – A estratégia da desqualificação do pensamento crítico

O pensamento social neoliberal comporta um conjunto de variantes. Desde as correntes abertamente mais liberais e que utilizam um vocabulário mais defensor e apologista do chamado “mercado livre”, até às correntes de tipo, digamos, social-liberal – onde uma linguagem com “preocupações sociais” se mistura com a adopção mais ou menos sub-reptícia das teses do desmantelamento das funções sociais do Estado – a partitura que orienta o pensamento social neoliberal no seu conjunto assenta em princípios estruturantes e considerados como intocáveis. Assim, a defesa acrítica do mercado (com um Estado minimalista e militarista/securitário mesmo ao lado) e dos princípios e teses que enunciamos anteriormente constituem o corpo teórico e ideológico dos think tanks neoliberais. Contudo, nenhuma concepção do mundo se sustenta sem procurar criticar correntes alternativas. Como se viu no ponto anterior, o neoliberalismo não critica e desqualifica apenas os partidos e organizações sindicais de classe. De facto, para o neoliberalismo qualquer tipo de pensamento não mecânico e que aponte qualquer tipo de questionamento ao sistema é imediatamente atacado como algo de ultrapassado. Em relação ao marxismo, o pensamento neoliberal tem adoptado duas principais estratégias.

Em primeiro lugar, a ofensiva ideológica neoliberal tem procurado esvaziar universidades, centros académicos, publicações, etc. de qualquer tipo de reflexão que não se balize nos seus princípios. Neste capítulo, o marxismo – salvo pequenos núcleos de pesquisa em alguns países – tem sido literalmente expulso das universidades. Para as várias cambiantes do pensamento neoliberal, o marxismo não passaria de uma velharia, uma teoria congelada no tempo incapaz de pensar a dinâmica do presente. Esta justificação ideológica surge com o intuito de expurgar a reflexão crítica de espaços que no passado foram produtores de conhecimento científico robusto tanto ao nível da interpretação da realidade como na interrogação dos pressupostos do capitalismo.

Em segundo lugar, o pensamento neoliberal tem procurado consolidar a ideia de que o marxismo não é um pensamento crítico mas um pensamento totalitário e conservador. Totalitário, dizem eles, porque quereria impedir a liberdade individual de trabalhadores e patrões negociarem livremente no mercado. Como se o trabalhador e o patrão se encontrassem em situação de igualdade estrutural no mercado… Conservador, dizem eles, porque o marxismo reflectiria uma concepção sobre o mundo típica do século XIX onde teria vigorado a luta de classes. Hoje a harmonia entre as classes seria uma realidade indesmentível, onde os princípios da sujeição das organizações políticas e sindicais de esquerda aos ditames do capital teriam predominância sobre a afirmação de uma linha que defendesse a independência política da classe trabalhadora. O mesmo se aplicaria ao pensamento marxista. Este não serviria para mais nada.

Voltando a alguns aspectos intrínsecos ao pensamento neoliberal, saliente-se ainda que não existe no seio de qualquer corrente neoliberal sequer a mais básica pergunta de qualquer investigação científica minimamente consistente: o porquê das coisas. Ou seja, o pensamento neoliberal funciona como uma malha para os seus próprios defensores, impedindo que os fundamentos do sistema sejam sequer identificados, quanto mais questionados. Não é por acaso que as próprias universidades e institutos superiores, com particular destaque para a Economia, procuram formar quadros intermédios e superiores para a gestão do sistema, nunca para a reflexão sobre o mesmo. Por conseguinte, o pensamento neoliberal é tudo menos um pensamento científico mas uma mera ideologia com laivos de cientificidade para legitimar o funcionamento de um sistema económico perverso.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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3 respostas a O pensamento ideológico neoliberal III

  1. Luis diz:

    “A luta pelo socialismo também passa pela necessidade de desmontar as teses congeladoras da história que a classe dominante procura inculcar nas massas.”

    E este é um trabalho de todos os dias, em todos os azimutes. Tendo sempre presente que «as ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes tomadas como e por ideias; estas são então as relações que fazem dessa a classe dominante e, por conseguinte, as ideias da sua dominação. Os indivíduos que compõem a classe dominante possuem, entre outras coisas, consciência e necessariamente pensam. Assim, a partir do momento em que eles dominam como classe e determinam a extensão e o ritmo de uma época histórica, entre outros domínios, eles também dominam como pensadores, como produtores de ideias, regulando, por inerência, a produção e distribuição das ideias na sua época: portanto, as suas ideias são as ideias dominantes de uma época» (Marx e Engels , “A Ideologia Alemã”, 1846)

  2. Ricardo G. Francisco diz:

    Eu diria que alguns querem eliminar a individualidade tentando produzir uma sociedade em que apenas alguns são autorizados a pensar e em que poucos têm direitos sobre a vida e morte, o intelecto e a acção, o pensamento e expressão dos restantes. A máscara ou o objectivo desta “transformação” ou “evolução” é irrelevante…

  3. zé do boné diz:

    – Um vizinho meu, quando se refere a estes e outros assuntos diz.

    -“Os pensamentos que levam a raciocínios, são extremamente perigoso… chegando mesmo a ser subversivos para aqueles que detém o Poder.”

    “-Qual o remédio para acalmar a fera? -É simples: Dar-lhes bolinhas a acender a televisão”

    Autor
    Eduardo, poeta popular

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