Kremlinologia 1.0

“Aqueles que na II Internacional defendiam uma orientação internacionalista acolheram entusiasticamente as insurreições militares e depois as greves operárias e os levantamentos camponeses que entre 1916 e 1918, desde as trincheiras da França até às estepes russas, passando pela Alemanha, pela Itália, pela Bulgária e pelo Império Austro-Húngaro, se opuseram à carnificina da primeira guerra mundial. As revoluções ocorridas na Rússia em 1917 constituíram a expressão vitoriosa de um movimento muitíssimo mais amplo, que atravessara a maior parte da Europa. Poderia esperar-se, então, que o recém-implantado regime soviético prosseguisse a estratégia de desagregação interna das nações e dos nacionalismos mediante a internacionalização da luta da classe trabalhadora e dos camponeses miseráveis dos espaços coloniais, mas não foi o que sucedeu. Pelo contrário, a luta de classe supranacional, com que os soldados e os trabalhadores se opunham à guerra, foi desviada para a edificação de um Estado revolucionário nacional. […]

A data decisiva deste processo foi o tratado de paz que o governo soviético assinou em Março de 1918, em Brest-Litovsk, com as Potências Centrais, ou seja, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro e o Império Otomano. Reforçando a posição das Potências Centrais e entregando-lhes a Ucrânia, o Tratado de Brest-Litovsk implicava que o jovem poder soviético desse a prioridade à edificação do Estado relativamente à internacionalização da insurreição. No início das conversações de Brest-Litovsk, Trotsky distribuíra panfletos aos soldados das Potências Centrais que formavam a guarda de honra, incitando-os à revolução, mas no 5º Congresso dos Sovietes, reunido em Julho de 1918, ele apresentou e fez aprovar um decreto que não só condenava à prisão quem quer que conduzisse acções de agitação contra as autoridades alemãs e austro-húngaras ocupantes da Ucrânia, mas ainda ameaçava de fuzilamento os que insistissem em participar em guerrilhas contra os exércitos das Potências Centrais. E na medida em que aliviava a pressão militar sobre as Potências Centrais, o Tratado de Brest-Litovsk dificultava os movimentos insurreccionais dos soldados alemães e austro-húngaros e os movimentos de greve em ambos os países. As consequências deste Tratado para o interior do Estado soviético não foram menos graves do que os seus efeitos externos. […]


De então em diante o Partido Comunista soviético colocou sistematicamente os interesses do seu Estado à frente dos interesses revolucionários dos trabalhadores dos outros países. Um panfleto publicado em 1918 pelos bolchevistas em defesa do Tratado de Brest-Litovsk, depois de afirmar que «ao sustentarmos o poder soviético estamos a apoiar da melhor e mais eficaz das maneiras o proletariado de todos os países» e que «não podia ocorrer agora um pior insucesso para a causa do socialismo do que o colapso do poder soviético na Rússia», extraía a conclusão lógica. «Somos “defensistas”. Desde o dia 25 de Outubro de 1917 que conquistámos o direito de defender a pátria […] estamos a defender a pátria contra os imperialistas […] proclamamos que os interesses do socialismo, os interesses do socialismo mundial, são superiores aos interesses nacionais, superiores aos interesses do Estado. Somos “defensistas” da pátria socialista». Graças a este perverso jogo verbal, em que os termos passaram a significar o seu exacto contrário, o internacionalismo ficou identificado com o patriotismo soviético.

Os actos corresponderam às palavras. «A supressão da diplomacia secreta é a condição prévia de uma política estrangeira honesta, popular e autenticamente democrática», escreveu Trotsky quando o governo soviético decidiu publicar os tratados secretos do czar. Mas passados poucos meses, perante a intervenção militar do Reino Unido e da França na guerra civil russa, foi precisamente à diplomacia secreta que os dirigentes bolchevistas recorreram. Em 1 de Agosto de 1918 o comissário do povo para os Negócios Estrangeiros, Tchitcherin, propôs ao embaixador alemão que as tropas germânicas, apoiadas pelo exército finlandês que dois meses e meio antes acabara de esmagar os comunistas do seu país numa sangrenta guerra civil, penetrassem no território russo para ajudar os soviéticos a combater os britânicos. A proposta teve efeito. A versão pública de um dos acordos assinados com o governo alemão em 27 de Agosto de 1918 anunciou que o governo soviético renunciava aos direitos de soberania sobre a Estónia e a Letónia e reconhecia a independência da Geórgia, transformada então num protectorado germânico. Mas uma troca secreta de notas diplomáticas estabelecia que a Rússia soviética se comprometia a «empregar todos os meios à sua disposição para expulsar as forças da Entente», na prática, a aliança franco-britânica, «dos territórios do norte da Rússia, em cumprimento do seu estatuto de neutralidade»; se não conseguisse fazê-lo, a Alemanha «ver-se-ia obrigada a empreender essa acção, se necessário com a ajuda de tropas finlandesas», e a Rússia «não encararia esta intervenção como um acto hostil». Chegara a tal grau de degenerescência nacionalista uma revolução iniciada no âmbito internacional.”

João Bernardo, Marxismo e nacionalismo, Passa Palavra

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2 respostas a Kremlinologia 1.0

  1. Luis diz:

    Lénine 1918/01 – Para a História da Questão da Paz Infeliz
    Lénine leu as Teses sobre a Questão da Conclusão Imediata de Uma Paz Separada e Anexionista numa reunião dos membros do CC com os funcionários do Partido realizada em 8 (21) de Janeiro de 1918. As Teses foram publicadas em 24 de Fevereiro de 1918 quando a maioria dos membros do CC do partido já apoiava as posições leninistas em relação à conclusão da paz. Para a publicação das Teses, Lénine redigiu um prefácio a que deu o título de Para a História da Questão da Paz Infeliz.
    O Governo Soviético, considerando indispensável tirar com urgência a Rússia da guerra, viu-se obrigado a realizar negociações para a conclusão com a Alemanha de uma paz separada. Em 2 (15) de Dezembro de 1917, na cidade de Brest-Litovsk, foi assinado um acordo sobre o armistício que estabelecia a convocação de uma conferência de paz.
    A Conferência de Paz começou em Brest-Litovsk no dia 9 (22) de Dezembro de 1917. Nela participaram as delegações da Rússia Soviética e dos países da chamada Quádrupla Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria, Bulgária, Turquia), que apresentaram à delegação soviética reivindicações territoriais dos seus governos. Segundo essas exigências, a Rússia tinha que ceder à Alemanha e à Austria-Hungria um território superior a 150 mil quilómetros quadrados.
    Apesar do carácter abertamente de rapina das condições exigidas pelos imperialistas alemães, Lénine insistia na necessidade da conclusão da paz, pois considerava indispensável uma trégua para a consolidação do poder soviético. A posição de Lénine foi objecto de crítica por parte de Trótski e do grupo de “comunistas de esquerda”. Estes exigiam o rompimento das negociações, lançaram a palavra de ordem aventureira de “guerra revolucionária” e desenvolveram uma luta feroz contra Lénine e os seus partidários. Trótski, que, na segunda fase das negociações da paz, chefiava a delegação soviética, manifestou uma atitude capitulacionista e declarou que a Rússia Soviética não assinaria a paz mas cessaria as hostilidades e desmobilizaria o exército. Essa declaração provocou o rompimento das negociações, e no dia 18 de Fevereiro os alemães iniciaram uma ofensiva em toda a linha da frente.
    Lénine, na reunião extraordinária do CC realizada na noite de 18 de Fevereiro, quando a ofensiva alemã já era um facto, após uma luta dura e prolongada contra Trótski e contra os “comunistas de esquerda” conseguiu obter pela primeira vez uma maioria de votos a favor da conclusão da paz. Na manhã do dia 19 de Fevereiro foi enviada ao governo alemão um radiograma comunicando-lhe a disposição do governo soviético de concluir a paz nas condições que os alemães apresentaram em Brest-Litovsk.
    Em 23 de Fevereiro, de manhã, chegou a resposta do comando alemão, exigindo condições ainda mais duras para a conclusão da paz. Na reunião do CC realizada no dia 23 de Fevereiro, durante a discussão do novo ultimato alemão, a dura luta em torno dessa questão continuou. Finalmente o CC manifestou-se por maioria de votos a favor da proposta de Lénine sobre a imediata conclusão da paz nas condições alemãs. O IV Congresso Extraordinário dos Sovietes, que se realizou de 14 a 16 de Março de 1918, ratificou o Tratado de Paz de Brest-Litovsk.
    Depois da Revolução de Novembro de 1918 na Alemanha o governo soviético anulou o Tratado de Paz de rapina de Brest.

    Ler Texto de Lénine em PDF aqui: http://www.dorl.pcp.pt/images/classicos/t26t087.pdf

  2. Excravo diz:

    Mas que pastel Ricardo!
    Os acontecimentos foram quase, quase assim como os narra. Sim; porque seria descaramento a mais fazer uma deturpação dos factos de fio a pavio era ser-se excessivamente corajoso. As petas adocicadas sempre se engolem melhor, mais que não seja por parolos com falta de paladar.
    Não disse foi que a guerra civil estava generalizada com o apoio e as intervenções estrangeiras. Os contendores provocavam a carnificina entre si nos campos de batalha da Europa Ocidental. Mas entendiam-se perfeitamente para agredir a jovem revolução Russa.
    Que por essas alturas foi dada uma folga aos Alemães para lançarem uma fortíssima contra ofensiva, sobre a Rússia que os levou até às portas de San Petersburgo.
    Pois se não tivessem cedido nesse preciso momento as consequências teriam sido muito piores, de certeza que a revolução teria acabado aí.
    Não terá a fazer confusão com esse tratado de cedência de território, da guerra com os Polacos? Tratado de Riga!
    Faça um pequeno esforço para revisar essa estória.
    Cumprimentos

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