O pensamento ideológico neoliberal II

A segunda parte de um ensaio de João Valente Aguiar, Doutorando em Sociologia e Investigador na Universidade do Porto. JVA mantem o blogue As Vinhas da Ira. Leia a primeira parte aqui.

O pensamento ideológico neoliberal (cont.)

3 – A comunidade ilusória dos colaboradores

Querendo ofuscar a existência das classes e dos seus conflitos, o pensamento neoliberal fundamenta a tese da comunhão de interesses entre patrões e trabalhadores. Nada de novo neste aspecto, a não ser a recauchutagem formal dos termos utilizados. Se as empresas até à década de 70 diziam que tinham x trabalhadores ou x empregados, com o avanço neoliberal, rapidamente o patrão passou a empregador e o trabalhador/empregado/funcionário a colaborador. O capital sempre pregou a comunhão de interesses entre trabalhadores e patrões como forma de amenizar as lutas operárias e, por essa via, tentar captar camadas operárias para o seu lado. O conceito do colaborador é, por um lado, uma extensão quantitativa desse fenómeno. Isto é, o colaborador surge nessa sequência histórica.

Porém, por outro lado, o conceito do colaborador é uma extensão qualitativa das teses da conciliação e da paz entre as classes. A identificação do trabalhador como um outro relativamente à empresa, a identificação do trabalhador como pertencente a uma categoria distinta da empresa permitiu que a própria cultura operária e a acção política das suas organizações de classe formassem, nuns casos mais e noutros menos, a consciência de classe do trabalhador. No caso mais recuado, o trabalhador ao ser considerado pela própria empresa como trabalhador ou empregado sabia de antemão que ele não seria propriamente um igual relativamente aos donos da empresa onde trabalha(va). Em paralelo, o conceito de empregado chamava a atenção para o facto de que quem controlava (e controla) o recrutamento da mão-de-obra é o patrão. Por isso é que existia a categoria dos “empregados”, isto é, indivíduos despossuídos de qualquer recurso de produção a não ser o seu próprio corpo e a sua mente, e mesmo estes à espera de serem inseridos no processo produtivo. O conceito de trabalhador era ainda mais “subversivo” e enunciador de uma linguagem autónoma de classe, no sentido em que afirmava quase taxativamente qual a função do indivíduo assalariado na empresa – trabalhar, produzir – ficando para o patrão a função de dirigir o processo de trabalho e, no final deste, arrecadar os lucros obtidos com a venda das mercadorias produzidas, precisamente, pelos que trabalha(va)m, os trabalhadores.

O conceito de colaborador é sui generis porque procura apresentar o pólo antagónico da relação capital/trabalho como se um par complementar se tratasse. Ou seja, o pensamento neoliberal vai ainda mais além do pensamento funcionalista clássico das teses capitalistas comuns. O trabalhador não apenas tem uma função complementar à do patrão: onde uns seriam detentores de trabalho e outros de capital (maquinaria e dinheiro – como se estes não fossem também eles fruto do… trabalho!). No pensamento neoliberal vai-se ainda mais longe: o trabalhador é um amigo colaborador do patrão. Isto é, o trabalhador mais ganha e mais recebe quanto mais veste a camisola da empresa, quanto mais horas não-pagas oferece à empresa, quanto mais labor, suor e reflexão oferecer à sua segunda (ou será a primeira?) família: a empresa. O trabalhador seria um membro da equipa da empresa onde todos são comparsas e se direccionariam para um mesmo objectivo: expandir os níveis de lucratividade da empresa. Assim, ao trabalhador fomenta-se a ideia de que há inimigos a abater: os trabalhadores das outras empresas em competição, os trabalhadores em geral que defendem ou ainda têm vínculos laborais estáveis e com salários relativamente bem pagos. Esses seriam os parasitas que impedem a competitividade da empresa. O trabalhador dentro do conceito do colaborador é, então, uma espécie de mini-empreendedor de si mesmo – sempre em prol da empresa – que teria de se mostrar capaz de vender a sua força de trabalho, a sua força física e as suas capacidades intelectuais (adquiridas ou não) pelo preço mais competitivo (mais baixo) do mercado. Em última análise, vendendo a própria dignidade a troco do vestir a camisola da empresa.

Com esta estratégia ideológica (não esqueçamos, sempre apresentada como inevitável e perfeitamente natural) pretende o capital reforçar as teses da comunhão de interesses entre trabalhadores e patrões. As contradições do sistema e os seus efeitos devastadores colocam aos trabalhadores a necessidade da luta. Que surge sempre, independentemente do tempo de duração das receitas ideológicas da classe dominante.

4 – O mito da flexibilidade=liberdade

De acordo com o que se avalizou no ponto anterior, o capital procura inculcar nos trabalhadores modelos ideológicos com o propósito de estes actuarem como mini-empreendedores, como auto-empregadores. Esse vector ideológico não contribui apenas para criar referências de actuação individual dos trabalhadores coincidentes com os desígnios do capital. Importa também ao capital utilizar tal artifício como justificação e legitimação para o acentuamento da extracção de mais-valia, para o agravar da exploração da força de trabalho. Nesse âmbito, a retirada de direitos: o aumento da carga horária e da intensidade do trabalho; a limitação das idas à casa-de-banho, refeições, etc.; o reduzir de subsídios de alimentação, doença, assiduidade, etc. anexos ao salário; a redução salarial (em relação ao volume global de riqueza criada) – tudo isso, modalidades de redução do valor da força de trabalho – são assumidos pelo capital perante os trabalhadores como inevitabilidades. A todo este processo de desbaste de direitos laborais o capital dá-lhe o nome de flexibilidade.

Na óptica dos apologistas neoliberais, tudo o que acrescentar valor ao salário, tudo o que assegurar um nível razoável à massa salarial é tomado como um atentado às liberdades individuais de cada trabalhador, pois este deveria apresentar-se no mercado livre de quaisquer “amarras” a não ser a mais completa ausência de garantias laborais. Para o pensamento neoliberal, a transformação do trabalhador em peça livre, em pau para toda a obra do capital é o consumar da “liberdade” individual. Ou seja, o indivíduo reduzido a si mesmo, o indivíduo trabalhador disponível a toda a hora e a todo o momento para executar as tarefas produtivas definidas pelo capital. A isto o capital chama de liberdade. Chamar-lhe-emos antes, a liberdade de o capital fazer do trabalhador uma mercadoria ajustável aos objectivos de elevação do lucro. Ainda mais simplesmente, a flexibilidade é a liberdade do capital fazer do trabalhador um indivíduo escravo dos ditames do lucro.

Independentemente de todos os artifícios ideológicos, a liberdade de uma classe é a ausência/constrangimento de liberdade da outra.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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15 respostas a O pensamento ideológico neoliberal II

  1. zé do boné diz:

    -Daí, a recusa da UE em incluir o Direito ao Trabalho. Como um direito dos trabalhadores.
    -Considerando só, e apenas a estes: O Direito a Trabalhar .

    -Diz o Zé trabuca: Muito obrigado, a vossas mercês pela generosidade concedida a nossos treta avós.
    – A luta continua!

  2. Ricardo G. Francisco diz:

    Direito ao trabalho = Obrigação de dar trabalho

    Como é bom viver do lado “certo” da metralhadora…ou dás…or else…

    Não sei como têm coragem em falar em superioridade moral da esquerda…tambem devem ter ganho com base na força.

  3. Ricardo G. Francisco diz:

    “Querendo ofuscar a existência das classes e dos seus conflitos, o pensamento neoliberal fundamenta a tese da comunhão de interesses entre patrões e trabalhadores.”

    Falácia. O autor começa bem….acaba a distorcer. O conflito é mesmo de raiz. Há quem ache que os indivíduos devem ter todos os mesmos direitos. Colectivistas acreditam que os indivíduos devem ter direitos diferentes em função do grupo em que são incluídos. Marxistas têm esta divisão básica capitalistas/trabalhadores, Racistas em função da raça…todos diferentes todos iguais. julgam os indivíduos em função de características à priori que dão ao “colectivo” a que foram atribuídos.

  4. Muitíssimo bem analisado!

  5. jcd diz:

    Que chorrilho impressionante de disparates…

  6. Sérgio diz:

    JCD,

    Disparates porquê? Também gosta de trolls no blasfémias?

  7. Ricardo G. Francisco diz:

    Caro Sérgio,

    Metade do texto é baseado no “os neoliberais defendem”. Nem o autor diz quem são esses “neoliberais”, nem diz onde é que o defendem.

    Um documento “científico” do melhor…

  8. Ricardo G. Francisco diz:

    Umas boas:

    “Para um socialista é claro que se o os representantes do povo entender que é para bem da maioria que um indíviduo deva ser morto, assim acontece. De facto não existe nenhum Estado socialista em que a pena de morte não seja proibida como não seja regularmente aplicada.”

    Direitos humanos e socialismo não são compatíveis. Para um socialista os “direitos colectivos” corporizados pela vontade dos governantes estão acima de qualquer direito individual.

  9. zé do boné diz:

    A quem dele necessita para viver!

    “Como é bom viver do lado “certo” da metralhadora…ou dás…or else…”

    R: Argumento de carregar pela boca.

    “Não sei como têm coragem em falar em superioridade moral da esquerda…tambem devem ter ganho com base na força.”

    R: Mas só, da Força da Razão!

  10. CL diz:

    O sujeito ainda há pouco tempo era aluno de licenciatura e já é doutorando?
    Muita força tem o PC nessa faculdade da universidade do Porto.
    E a qualidade do artista? Do melhor. Um dia destes ainda o vemos como professor na faculdade e membro do CC do partido.
    Vamos longe assim.

  11. João Valente Aguiar diz:

    CL,

    Agradeço-lhe o acompanhamento da minha “carreira” extremamente bem paga e deslumbrantemente estável de investigador. É sempre bom ter admiradores. Não se esqueça de enviar um ramo de flores.

    Ricardo G Francisco,

    «Metade do texto é baseado no “os neoliberais defendem”. Nem o autor diz quem são esses “neoliberais”, nem diz onde é que o defendem.»

    Em primeiro lugar, este não é um texto académico e por isso não tem de estar a citar quais os autores. Contudo, com um pouco de boa-fé você saberia perfeitamente identificar que desde o MiltonFriedman, ao George Soros ou ao Drucker que qualquer um deles subscreve as teses da comunhão de interesses entre, digamos, o capital e o trabalho. Por outro lado, é perfeitamente visível nos discursos da direita portuguesa (PS, PSD e CDS) sobre as teses da concertação de interesses entre os patrões e trabalhadores, etc. Pode ou não concordar com isso, mas a verdade é que a tentativa contínua de apagar a existência dos conflitos de classes é inegável no discurso político e académico do mainstream. Independentemente da posição política que qualquer um possa ter sobre a importância (ou não, no seu caso) da luta social.

  12. Ricardo G. Francisco diz:

    Caro João Valente Aguiar,

    Obrigado pela resposta cordata aos meus comentários que a bem da verdade não foram na sua maior parte eles próprios cordatos.

    Creio que cai na combinação de dois erros:

    1. Mistura todos os “inimigos” do socialismo e classifica-os de neoliberais. É o que faz ao colocar Friedman e Soros por um lado e PS e CDS por outro na mesma categoria (neo-liberais). Entendo que a “terceira via” ou a social-democracia seja mais perigosa para o socialismo real do que o liberalismo…mas não vale misturar.

    2. Nos autores liberais não encontra per si a concertação de interesses entre grupos por definição. Para liberais não pode classificar um indivíduo em função de grupos a que pode pertencer devido a uma outra variável. Bem sei que torna complicado defender o conflito (permanente) entre classes, contra quem não aceita a eliminação do indivíduo como base de análise. Mas de acordo…de aqui vem a tese da concertação de interesses entre “patrões” e “trabalhadores”, que deriva automaticamente da concertação de interesses entre quaisquer indivíduos que possam fazer trocas livres com respeito pela vida, liberdade de pensar, exprimir e trocar esse pensamento ou acção em valor ou propriedade desde que não seja em prejuízo dos mesmos direitos de outro indivíduo. Verdadeira igualdade de direitos portanto.

    PS: Agora fiquei com vontade de voltar a blogar…

  13. João Valente Aguiar diz:

    Respondo-lhe, para já, telegraficamente. «Verdadeira igualdade de direitos portanto.» Igualdade perante a lei, desigualdade efectiva nas restantes esferas e práticas da vida social. É deste desfasamento entre o universo das ideias (o mito da igualdade de oportunidades no capitalismo e da igualdade pretensa entre os cidadãos) e, por exemplo, a exploração desencadeada no local de trabalho que se deve tomar em linha de conta. Por outro lado, não se esqueça que não existe nenhum autor liberal clássico (Tocqueville, Mill, Smith, etc.) que alguma vez tivesse defendido o sufrágio universal. De facto, este é uma conquista das lutas operárias e populares e não sequer um princípio intrínseco ao liberalismo enquanto doutrina ideológica e política.

  14. Ricardo G. Francisco diz:

    Caro João Valente de Aguiar,

    Aguardo a resposta completa, até porque o seu comentário foi um bocado desconexo. Aguardo o porquê das afirmações sobre igualdade e desigualdade.

    Sobre os autores liberais clássicos e a democracia directa. Lembro que estes estavam mais preocupados com a limitação do poder do Estado, monopolista da força, sobre os indivíduos do que com a forma do governo. O sufrágio é uma consequência do respeito pela individualidade, tanto que as democracias apareceram estados liberais….nunca em estados marxistas. A democracia é incompatível com o marxismo. A não ser que chame de democracias estados em que os dirigentes se arrogam autoritariamente o direito de serem os representantes do povo…

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