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Confesso-me plagiador, ou: o elogio comumnista do plágio

29 de Outubro de 2009 por Zé Neves

Os meus bons dias, particularmente àqueles que me chamaram de vendido para cima, ali em baixo, num singelo post onde eu procurava listar um conjunto de factores endógenos que em parte explicariam a queda dos regimes do “Socialismo Real”. Ora, devíamos ter em atenção que o que ali está, ipsis verbis, sem aspas e sem a respectiva denominação de origem controlada, é um dos pontos do programa do Partido Comunista Português, programa em vigor, que não se aprende nos cursos de Ciência Política e de Relações Internacionais, mas que deve ser lido por todas e todos os militantes do partido, partido esse no qual militei durante a segunda metade da década de 90 do século passado, pelo qual tenho um imenso respeito político, intelectual e humano, e a cujo passado dediquei – com a lealdade e o sentido crítico possíveis, não imagino uma coisa sem a outra – os últimos nove anos da minha vida profissional. Para o diabo que vos carregue, pois, mais aos vossos raciocínios espertalhões, do mais pífio sentido dialéctico, que se limitam a dizer que quem critica os regimes de Leste está a defender o capitalismo. Não gostar de Stalin não significa gostar de Ieltsin e se há quem não tenha percebido isto, lamento, mas não percebeu nem perceberá nada de nada. Por certo, isto não desculpará o meu plágio, também ele meio armado ao pingarelho. Plagiei, plagiei, plagiei, confesso-o, agora que fui denunciado, de fio a pavio, pelo comentador das 3h16. Peço-vos, apenas, mais uns segundos de atenção, antes que me crucifiquem, de vez, no altar dos direitos de autor: estou cansado de ser acusado de anti-comunismo apenas e só porque critiquei o estalinismo. Compreendam-me: embora não faça questão de andar na rua com a palavra comunista escrita na minha testa, e apesar de não ter cartão de sócio de nenhuma agremiação desportiva que se reivindique do comunismo, desde que me conheço politicamente que me filio numa tradição comunista. Sei, é claro, que esta tradição é plural e, como é bom de ver, imensamente contraditória. Trata-se de um problema complexo, com o qual não vivo obcecado, mas que também não julgo ser de ordem meramente filológica. A este respeito, e para já, ocorre-me apenas citar, em meu apoio, as palavras de Mario Tronti, datadas dos anos 60: «O que são para nós, Marx, Lenine e as experiências operárias do passado? Certamente, coisas diferentes do que são para outros. É justo que assim seja. Todos os outros tinham encontrado lá dentro aquilo que, segundo nós, nem sequer se deve procurar: urna nova posse intelectual do mundo, que se tornou uma direcção para os estudos; uma nova ciência da vida, ou seja, a tranquilidade na escolha de um lugar na sociedade; uma nova consciência da história, a pior e mais perigosa de todas as coisas…». Para mim, o estalinismo foi, é e será o contrário do comunismo. Qualquer estalinista está do outro lado da minha barricada. Deixo de fora, note-se bem, o marxismo-leninismo, tradição da qual discordo frontalmente, mas que, reparem, distingo do palavrão estalinismo, mesmo se a distinção desilude alguns marxistas-leninistas, que preferem o culto do hífen ao debate do marxismo e ao debate do leninismo. Aqueles que só sabem viver no mundo da “sociedade”, da “alternativa”, do “modelo”, do “regime”, aqueles que, perante isto que vivemos aqui e agora, no ocidente de hoje, só têm a contrapor aquilo que aconteceu no leste de ontem, a esses queria apenas lembrar que um tal argumento é uma chantagem, que não me apanha desprevenido, justamente porque essa é a mesma chantagem que hoje é feita por quem pergunta, aos que criticamos o espectáculo reinante, qual o modelo alternativo que temos para oferecer. O capital não é uma coisa, é uma relação social; uma relação da qual nos queremos evadir, por certo, mas uma evasão que não tem como não partir das forças cuja luta dá vida à relação. Regresso, por fim, e nem a propósito, a Mario Tronti: «Nenhum operário que luta contra o patrão pergunta: e depois? A luta contra o patrão é tudo. A organização desta luta é tudo. E tudo isto é já um mundo. Decerto. É o mundo velho que é necessário abater. Mas quem vos diz que para o abater não basta esta simples vontade de derrubamento do poder, organizada em classe dominante?». E deixo esta também, vinda do mesmo sítio: «Se é verdade que é urgente e, talvez, preliminar a tudo, repor de pé urna estratégia internacional da revolução, devemos compreender que tal não se fará enquanto continuarmos a brincar com o mapa-mundo de crianças inventado pela geografia política burguesa e que, para comodidade didáctica, se encontra dividido em primeiro, segundo e terceiro mundo».

Comentários

Comentário de djugashvili
Data: 29 de Outubro de 2009, 12:45

Foi por causa de tontos como0 o sr.que deixei de votar no BE!Agora,tenha a coragem de deixar o meu coment para os seus camaradas(?-não sei se é legitimo esta expressão depois de dizer que não é estalinista,nem eu meu caro,pq mandou matar muitos camaradas e,outros que foram bem mortos!!!,nem sequer marxista leninista-reparo na pesporrência própria do ignorante seguidor de palpites-será um devoto dessa ‘ciência’ chamada de Astrologia?) do BE verem!!!

Já agora permita-me a provocação:qdo é que se muda para o Partido Súcialista(súcia=bando)?

Comentário de Zé Neves
Data: 29 de Outubro de 2009, 13:02

djugashvilli, vai ter que arranjar outra razão para ter deixado de votar no be. não sou, não fui e não tenciono vir a ser militante do be. peço desculpa se o melindrei com a brincadeira. mas se não é estalinista não enfie a carapuça. Ah, e é verdade, coragem é outra coisa. vemo-nos no ps. vá guardando um lugar para mim.

Comentário de Vasco
Data: 29 de Outubro de 2009, 13:30

Bem, as reacções a isto prometem.
Aparentemente o faccionismo claqueiro é ainda mais forte na política do que na bola.
Eu não tenho o conhecimento ou a vivência do comunismo que o Zé Neves tem. Mas identifico-me com as coisas que escreve porque também sempre me identifiquei como comunista e não sou do PC (embora já tenha colado cartazes e essas coisas). E nunca serei do Bloco.

Isto quer dizer que se criticar o Estalinismo, criticar o Socialismo Real que se desfez como fumo faz agora 20, pensar que é possível construir uma sociedade em que os trabalhadores podem controlar os seus destinos e não uma oligarquia, faz de mim um provocador e um anti-Comunista?
Realmente, raios parta quem pense isto.

Comentário de xatoo
Data: 29 de Outubro de 2009, 14:19

“Não gostar de Stalin”?
p/f há diversos Estalines, no modo de escrita em português (José) e não recorrendo a grafias anglo-sax simplex que tendem a apagar historicamente “o monstrinho” da fotografia.
Quanto à militância no PCP, é um facto que dá curriculo. Não há candidato a ministro, director geral ou secretário de estado que não invoque essa qualidade para obter um lugarinho à mesa. Mas quando os chicos-militantes na prestimosa associação politica reformista se apercebem que não há lugar para todos no elevador há rapidamente que “dar uma de dissidente”
O pensamento progressista está entalado entre a impossibilidade de fazer rever o materialismo histórico marxista por dentro do PCP… ou cá fora, no vácuo…

Comentário de Zé Neves
Data: 29 de Outubro de 2009, 14:53

xatoo, quando for ministro, convido-o para secretário de estado. espere sentado.

Comentário de Marxista
Data: 29 de Outubro de 2009, 15:42

O estalinismo é o contrário do Comunismo, estou de acordo zé. Só não concordo quando falas de marxismo e contrarias o leninismo. Pois o leninismo é a pratica do marxismo, porque se não qual a maneira para tomar o poder?

Comentário de zé neves
Data: 29 de Outubro de 2009, 18:28

caro marxista, uma ideia de comunismo não tem que implicar o marxismo. o marxismo não tem por que implicar o leninismo. o leninismo não tem que implicar o marxismo-leninismo. não sei qual é a maneira de tomar o poder. eu acho que devemos mudar o mundo sem tomar o poder, para citar o outro. o poder não é uma coisa que se toma. peço desculpa, mas é mais complicado do que isso.

Comentário de antónio
Data: 29 de Outubro de 2009, 19:26

Gostei do texto, todavia Zé Neves, tens mesmo que aprender a sintetizar mais, isto aqui é o diacho da internet, lembrado ?

E é 5dias.net, não 5dias.edu

Queria dizer que gostei realmente do texto, a substância, aí, são…outros quinhentos.
Contudo isso não é relevante, não aqui, não agora.

Parabéns, <Z.N..

:-)

Comentário de miguel serras pereira
Data: 29 de Outubro de 2009, 19:28

Zé Neves, vamos lá ver se compreendo bem a tua resposta a Marxista. “Mudar o mundo sem tomar o poder” ? Sim, mas num sentido quase desinteressante: o mundo muda mediante tudo aquilo que fazemos ou tentamos fazer, e mesmo que não façamos nada, muda também. Mas, politicamente, mudar o mundo significa mais do que isso: mudar esta ou aquela, ou o conjunto das instituições que exercem e organizam o poder, estabelecem as leis e os objectivos que uma sociedade se propõe. E aqui é, de facto, complicado compreender como se instaura um espaço público de autonomia que não seja (também) o do exercício democrático do poder (nem todo o poder é dominação) pelos governados tornados seus próprios governantes. Uma coisa é dizer não à concepção leninista do Partido de vanguarda, que tomará o poder de Estado, em vista da instauração do socialismo. Outra é recusarmo-nos a conceber o problema da conquista do poder político e do seu exercício em termos de outras instituições e de uma relação diferente com as instituições que nos fazem. A abertura a todos os cidadãos da participação igualitária na deliberação e decisão das medidas e regras que os vinculam, a participação política como actividade não-profissional e direito/dever que garante todas as liberdades (do indivíduo, considerado na sua esfera íntima, à da associação colectiva), parecem-me ser condições necessárias da sociedade autónoma, do mesmo modo que a conquista dessas condições não é, para mim, concebível a não ser como conquista do poder. Podemos não querer chamar-lhe assim para evitar confusões e nos distinguirmos dos que adoptam concepções que sacralizam “estados-maiores”, “intérpetes superiores ou científicos” dos governados, formas organizativas dirigidas por “funcionários da revolução” ou “políticos profissionais” que vivem da exploração, da proletarização e da expropriação política do conjunto da população. Mas, digamo-lo de uma maneira ou de outra, contanto que o façamos inteligivelmente, resta que o poder hierárquico terá de ser destruído, ou de ir sendo destruído (pois que não podemos tomá-lo para o fazer abolir-se a si próprio), e substituído por outras formas de exercício do poder.
Mas dizias tu…?
Abraço
msp

Comentário de Filipe Diniz
Data: 29 de Outubro de 2009, 19:37

Caro Zé Neves
É exactamente tudo ao contrário: comunismo implica marxismo; marxismo implica leninismo; leninismo implica marxismo-leninismo. Mudar o mundo é necessariamente uma questão de poder mas, obviamente, é muito mais do que uma questão de “tomada do poder”. A tradição anarquista (que tu te esforças por inserir no “comunismo”) produziu algumas personalidades interessantes, nunca produziu um movimento social capaz de mudar a mais pequena parcela do mundo, pelo contrário. E, está claro, também produziu toneladas de papel impresso, algumas das quais com muito interesse literário. Mas o palavreado, impresso ou não, o melhor que pode fazer é exorcizar o mundo, não pode mudá-lo.
Já agora, que te contacto por este meio, tenho a dizer que achei bem interessante a tua tese, embora, como adivinharás, discorde do que entendes da abordagem marxista do estado e da questão nacional.

Comentário de asinus
Data: 29 de Outubro de 2009, 19:37

“Aprender, aprender, aprender sempre”: que me dizem tão ilustres polemistas a estas razões para a “queda do socialismo real”?

http://hist-socialismo.blogs.sapo.pt/

Comentário de antónio
Data: 29 de Outubro de 2009, 19:43

Entretanto li os comments, eis o que se me oferece:

1. Não importa quantos Stalin’s, Estalines, ou o raio haja, são todos uns f.d.p., nem filho nem mulher respeitavam, quanto mais ‘o povo’

2. O gajú que o Z.N. convidaria para ministro, eu hei-de um dia (para aí em 3010..) convidar para sub-sub-secretário de estado.
Entretanto se houver cavalinho e chuva… já sabe.

3. O poder realmente não se toma, a não ser à força bruta. O meu conselho é que esse comentador tome uma chávena de chá (há chá vermelho, das montanhas do Yunnan e tudo, atire-se…)

:-(

4. Estou inocente dos vossos pecadilhos. Nunca pertenci a (____________name here), tenho um piqueno problema em receber ordens de imbecis, mas não foi por isso que deixei de fazer a minha modesta parte. Agora é convosco….

:-) )

Comentário de antónio
Data: 29 de Outubro de 2009, 20:06

M.S.P., se fôrmos fazer como tu dizes (e olha que te li duas vezes…) depois a coisa pára aonde, se me fizeres a gentileza ?
E como se (e quem ?) decide onde pára ?

just a thought…

Comentário de xatoo
Data: 29 de Outubro de 2009, 20:11

“Nunca pertenci a (____________name here)” à sociedade. saco o meu e vivo no éter. não há saco…
Zé Neves
não interferindo na meritória actividade subjectiva na produção de lençóis, o que a malta da rua desejaria mesmo saber é porque é que é impossivel aqui uma coligação do tipo do Die Linke na Alemanha; porquê?

Comentário de zé neves
Data: 29 de Outubro de 2009, 20:38

Caro Felipe Diniz,
Compreendo a tua leitura e bem sei que opera ao contrário da minha. Mas olha que não é tanto a tradição anarquista que me esforço por inserir na tradição comunista. É mesmo a tradição comunista que escapa ao marxismo-leninismo. Trotsky (não que eu seja trotsquista, não sou), por exemplo, não tem lugar num partido comunista? Mas, enfim, sabemos que esta é uma longa conversa. De qualquer das formas, a minha atitude seria: independentemente da diferença radical sobre o que entendemos dever ser o comunismo, ponto sobre o qual não nos entenderemos tão proximamente…, o debate ideológico e político pode ir sendo realizado ponto a ponto. E aí, estou certo, aproximamo-nos e afastamo-nos várias vezes. Talvez um dia o PCP se afirme como um partido comunista, inspirado nas várias tradições marxistas e não numa em particular e afim a tradições político-teóricas tão próximas do anarquismo como do marxismo. Afinal, no início, até era mais assim…

Caro Miguel Serras Pereira, retomamos, então, a discussão tida no CNC. Acho que estamos fundamentalmente de acordo. Não tenho nenhuma ilusão – ou desejo – que vá no sentido de qualquer ideia de se acabar com o poder. Isso não existe. Onde há vida, há poder. Mas é justamente por isto que peguei na frase-título de um autonomista como o John Holloway, “Mudar o Mundo sem Tomar o Poder – O significado da revolução hoje”. A ideia de tomar o poder é a ideia de que não temos poder sem ser tomando o lugar onde ele supostamente se encontra centralizado. Ora, nós temos sempre poder. A ideia de tomar o poder, central às tradições de esquerda do século XX, m-l ou social-democratas, cria dois problemas: torna invisíveis as relações de poder no seio das organizações e movimentos alternativos, pois o poder é aquilo que está no seu exterior (é para isso que, em última instância, remete, parece-me, todo este debate em torno do estalinismo, pois julga-se que o Poder – com maiúscula – é algo que foi sempre detido ou pelos EUA ou pelas potências capitalistas); e, no mesmo passo, cria uma sensação de impotência generalizada, com o poder de Estado a secar tudo o que há à sua volta. Enfim, não me posso alongar, mas não queria deixar de apontar para uma intersecção que me parece promissora: a ideia marxiana do capital enquanto relação social e não enquanto coisa; a concepção foucauldiana do poder enquanto relação (simplificando muitíssimo).

abç

Comentário de jesus
Data: 29 de Outubro de 2009, 21:51

Já vi que a teoria do dono do artg é, qq ‘coisa’ ,assim uma espécie de tarot,observar as entranhas dum animal(um cordeiro, de preferência).Francamente!!!!

Comentário de miguel serras pereira
Data: 29 de Outubro de 2009, 22:42

1. Sim, Zé Neves, creio que estamos de acordo, com uma ressalva: parece-me que não falo de poder – e tu também não, se bem te leio – propriamente no sentido de Foucault. Tal como o leio, o poder nele é sempre “poder sobre” (opressão, dominação), e todas as “resistências” que suscita acabam por o refinar ou por se transformar em “astúcias” suas: simplificando, a “resistência”, em Foucault, quando bem sucedida, é mal sucedida – torna o poder mais poderoso, e, se não nos resta então senão sermos cada vez mais “resistentes”, é de perguntar para quê. Mas se concordas que o exercício do poder não é necessariamente uma maldição, eu também concordo que podemos sempre alguma coisa e que destruir os centros da dominação, ou esvaziá-los desta, não se faz ocupando-os e mantendo o seu privilégio. Depois falamos mais. Abç

2. António, desculpa, mas sou eu que não percebo a tua pergunta. Onde é que (se) pára o quê? A que decisão de parar te referes? Se quiseres explicar-te melhor, talvez eu lá vá. Está bem assim?

msp

Comentário de antónio
Data: 29 de Outubro de 2009, 23:49

Miguel Serras Pereira disse…

(…)Mas, politicamente, mudar o mundo significa mais do que isso: mudar esta ou aquela, ou o conjunto das instituições que exercem e organizam o poder, estabelecem as leis e os objectivos que uma sociedade se propõe.(…)

(..)a conquista dessas condições não é, para mim, concebível a não ser como conquista do poder(..)

Bateu-me mal, mas pode perfeitamente ser que eu te tenha treslido, aquele post não estava própriamente em linguagem de todos os dias

_________________________________________________________________________________

@ xatoo:

Estou ligeiramente a branco com os ‘Die Linke’ (A Esquerda), mas nunca me pareceu que aquele pequeno “Napoleão do Sarre” dissesse coisa com coisa… tenho que ir aprimorar o meu alemão.

aquilo não é uma ‘birrinha’ por ele não ter ganho umas eleições quaisquer no SPD ?

:-)

Comentário de miguel serras pereira
Data: 30 de Outubro de 2009, 0:54

Caro António, eu não tive a menor intenção de te bater. Não era irritação, era pressa. Só não compreendi a tua questão. O que eu quero dizer é que, embora tudo mude sempre, a transformação política que me interessa é uma transformação explícita e deliberada, visando transformar as instituições – no sentido do exercício democrático do poder político pelo conjunto dos cidadãos -, e a nossa relação com as instituições: reconhecer nelas obra e cristalização da acção humana e assumirmos a responsabilidade e a liberdade de as aceitarmos ou refazermos. O mesmo vale para as leis e para os fins colectivos que uma sociedade se propõe e que a identificam. A divisa de uma sociedade democrática (sociedade autónoma de indivíduos autónomos) é, como dizia Castoriadis: nós somos aqueles que se dão as suas próprias leis. O regime da cidadania governante é isto mesmo: não ser cada um de nós governado a não ser na medida em que participe igualitariamente no poder de governar. E quanto ao resto, penso que já está indicado no que por aqui fui dizendo antes, e um pouco mais desenvolvido nos comentários que fiz esta manhã ao post do Zé Neves sobre A Queda do “Socialismo Real”. Cordiais saudações republicanas
msp
Espero que isto ajude

Comentário de viana
Data: 30 de Outubro de 2009, 1:33

Algo que, frequentemente, não é costume ser tido em conta por quem conversa sobre a exequibilidade duma sociedade igualitária é o facto de tal situação não ser “natural”. Basta olhar para a história: quantas sociedades existiram, em particular com grande densidade populacional como as actuais, que possamos considerar (quasi-)igualitárias? A razão não é difícil de encontrar: entre todos os sistemas político-económico-sociais possíveis apenas um é (completamente) igualitário. A igualdade (total) é única enquanto que a desigualdade é plural. Na prática, esta situação sugere que uma sociedade igualitária muito dificilmente surgirá de modo mais ou menos “espontâneo”, e que uma vez implementada só se manterá se houver mecanismos robustos que evitem a “natural” deriva desigualitária. Note-se que o termo “natural” não tem para mim qualquer tipo de significado moral. O que é mais “natural”, ou seja mais provável, não é necessariamente aquilo que é mais desejável.

Do que acabei de escrever retiro as seguintes conclusões:

(1) a via para uma sociedade igualitária tem de ser planeada, ou seja tem de haver uma estratégia, e suficientemente flexível para se ir adaptando aos obstáculos que encontre pelo caminho; acções inconsequentes não permitirão ir longe na direcção duma sociedade (mais) igualitária, e o falhanço histórico das várias tradições que se reclamam anarquistas ou autonomistas é a prova do que afirmo;

(2) uma sociedade que se queira manter (o mais possivel) igualitária terá de possuir a capacidade, ou Poder, para evitar derivas desigualitárias; isto quer efectivamente dizer que não acho possível a existência de sociedades igualitárias estáveis sem qualquer mecanismo de coação colectiva que impeça (grupos de) indivíduos de coagirem outros, quebrando a igualdade de relações pretendida; note-se que se tal Poder de coação colectiva fôr permanentemente controlado através da decisão colectiva tomada democraticamente com a participação de todos, então não será efectivamente uma fonte de desigualdade.

Estratégia na acção, guiada por uma visão clara do que se pretende alcançar é portanto condição essencial para atingirmos tal objectivo. Tal estratégia tem obviamente de contemplar a supressão dos focos de desigualdade nas sociedades actuais. Isso poderia ser conseguido por coação sobre eles exercida (via leninista, pela tomada revolucionária, e frequentemente violenta, do Poder do Estado) ou pela indução da sua implosão (via anarquista). O problema de qualquer uma destas estratégias é que provocam uma fase de turbulência (frequentemente violenta) no final da qual não é de todo claro, diria mesmo que não é de todo provável (vide história), que surja uma situação de participação igualitária no controlo do Poder. E a razão é o facto do exercício do Poder ser mais eficiente quando executado de modo hierárquico (devido à maior rapidez do processo decisório, consegue responder mais rapidamente à mudança de circunstâncias), do que resulta que numa situação de turbulência é quem não hesita em concentrar o Poder que consegue prevalecer (a não ser que se veja em posição fortemente minoritária).

Uma terceira estratégia, que na falta de melhor termo vou designar de institucional, tal como a leninista, procura controlar o Poder do Estado para suprimir pela coação os focos de desigualdade na sociedade, mas tenta fazê-lo de modo incremental, reformista. O que tem o problema de permitir aos agentes que promovem a desigualdade a adaptação das suas próprias estratégias, conseguindo anular os efeitos das reformas. E é por isso que esta estratégia é hoje extremamente ineficiente, em particular na tentativa de fazer diminuir a desigualdade sócio-económica.

Se atentarem bem, separei as estratégias segundo dois binómios: tomar vs. implodir o Poder; revolução vs. reforma. E mencionei até agora 3 das 4 possibilidades que tal classificação permite. A última estratégia tem poucos antecedentes históricos: implodir o Poder de modo reformista, ou seja, lentamente, de modo controlado. Segundo esta estratégia, o que é preciso não é tomar o Poder (para acabar com a desigualdade pela coação), mas sim reconfigurar, igualizando, as relações de Poder a todos os níveis, inclusivé e em particular no âmbito do processo decisório associado ao exercício do Poder de Estado. Será aliás (talvez apenas) este que poderá permitir que a erosão dos centros de poder sócio-económico não sofra retrocessos e impedir que novos centros de poder apareçam tentando substituir os em declínio. Mas como alterar o exercício do Poder (em particular do Estado) sem o tomar? Pela influência social e politica, a todos os níveis.

Comentário de antónio
Data: 30 de Outubro de 2009, 2:30

Miguel S. P. eu topei que era pressa…
:-)
Não me senti mínimamente atingido.

:-) )

E acho fantástico que ainda haja utopistas como tu (peço perdão se não te reconheceres no termo), fazem imensa falta !

Já não leio Castoriadis há imensos anos… saudades.

Fica-te com esta, eu era básicamente agit/prop:

Nunca por nunca vamos, por mais que tentemos, conseguir que as pessoas — e no fundo são elas que contam, e nós somos também supostos estar a pensar no bem delas, ou não ? — dizia eu que nunca vamos conseguir que (…)não ser cada um de nós governado a não ser na medida em que participe igualitáriamente no poder de governar(…)

E olha que não foi por falta de tentar…

:-)

:-)

Comentário de antónio
Data: 30 de Outubro de 2009, 3:49

@ Viana, o comment faz todo o sentido, mas realmente, esprimidinho são 3 ideias ou 4, que era possível sintetizar…
Ou vc. anda aqui a treinar para um paper no ISCTE, ou na Nova ?
Ou sou eu que ainda não percebi onde estou (isso também é possível…)

:-)

_____________________________________________________

@M.S.P., estou com uma coisa tua nas mãos, com o Cayatte e o Pomar, só tenho inveja de o teu espanhol ser muito melhor que o meu…

:-) )

Comentário de zé neves
Data: 30 de Outubro de 2009, 19:11

caro miguel serras pereira,

existem leituras de Foucault que apontam além dessa permanente dinâmica de recuperação. estou a pensar, é claro, em negri. de qualquer das formas, não sei se a concepção de poder em foucault remete para a ideia de dominação (até por esta ser demasiado rígida para dar conta da tal dinâmica de recuperação).

abç
zn

Comentário de Niet
Data: 31 de Outubro de 2009, 10:28

O imaginário capitalista gera/implementa e torna fatal o imaginário de Estado, a máquina infernal e despótica que está sempre a produzir desigualdades. Remeto, olé, para o meu comentário no texto do Z Neves, a ” Queda do `Socialismo Real”, portanto. A Revolução não pode parar, portanto! Niet

Comentário de miguel serras pereira
Data: 31 de Outubro de 2009, 10:34

Caro Zé Neves, seria uma discussão interessante. Mas creio que devemos guardá-la para outra altura. Antecipando-a, a minha impressão é que Foucault o Guerreiro (como lhe chamava elogiosamente Paul Veyne) tem sido muito sobrevalorizado. E muitas vezes com maus resultados (filosóficos e políticos). Mas falaremos disso noutra altura, se valer a pena.
Abç
msp

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