Confesso-me plagiador, ou: o elogio comumnista do plágio
29 de Outubro de 2009 por Zé NevesOs meus bons dias, particularmente àqueles que me chamaram de vendido para cima, ali em baixo, num singelo post onde eu procurava listar um conjunto de factores endógenos que em parte explicariam a queda dos regimes do “Socialismo Real”. Ora, devíamos ter em atenção que o que ali está, ipsis verbis, sem aspas e sem a respectiva denominação de origem controlada, é um dos pontos do programa do Partido Comunista Português, programa em vigor, que não se aprende nos cursos de Ciência Política e de Relações Internacionais, mas que deve ser lido por todas e todos os militantes do partido, partido esse no qual militei durante a segunda metade da década de 90 do século passado, pelo qual tenho um imenso respeito político, intelectual e humano, e a cujo passado dediquei – com a lealdade e o sentido crítico possíveis, não imagino uma coisa sem a outra – os últimos nove anos da minha vida profissional. Para o diabo que vos carregue, pois, mais aos vossos raciocínios espertalhões, do mais pífio sentido dialéctico, que se limitam a dizer que quem critica os regimes de Leste está a defender o capitalismo. Não gostar de Stalin não significa gostar de Ieltsin e se há quem não tenha percebido isto, lamento, mas não percebeu nem perceberá nada de nada. Por certo, isto não desculpará o meu plágio, também ele meio armado ao pingarelho. Plagiei, plagiei, plagiei, confesso-o, agora que fui denunciado, de fio a pavio, pelo comentador das 3h16. Peço-vos, apenas, mais uns segundos de atenção, antes que me crucifiquem, de vez, no altar dos direitos de autor: estou cansado de ser acusado de anti-comunismo apenas e só porque critiquei o estalinismo. Compreendam-me: embora não faça questão de andar na rua com a palavra comunista escrita na minha testa, e apesar de não ter cartão de sócio de nenhuma agremiação desportiva que se reivindique do comunismo, desde que me conheço politicamente que me filio numa tradição comunista. Sei, é claro, que esta tradição é plural e, como é bom de ver, imensamente contraditória. Trata-se de um problema complexo, com o qual não vivo obcecado, mas que também não julgo ser de ordem meramente filológica. A este respeito, e para já, ocorre-me apenas citar, em meu apoio, as palavras de Mario Tronti, datadas dos anos 60: «O que são para nós, Marx, Lenine e as experiências operárias do passado? Certamente, coisas diferentes do que são para outros. É justo que assim seja. Todos os outros tinham encontrado lá dentro aquilo que, segundo nós, nem sequer se deve procurar: urna nova posse intelectual do mundo, que se tornou uma direcção para os estudos; uma nova ciência da vida, ou seja, a tranquilidade na escolha de um lugar na sociedade; uma nova consciência da história, a pior e mais perigosa de todas as coisas…». Para mim, o estalinismo foi, é e será o contrário do comunismo. Qualquer estalinista está do outro lado da minha barricada. Deixo de fora, note-se bem, o marxismo-leninismo, tradição da qual discordo frontalmente, mas que, reparem, distingo do palavrão estalinismo, mesmo se a distinção desilude alguns marxistas-leninistas, que preferem o culto do hífen ao debate do marxismo e ao debate do leninismo. Aqueles que só sabem viver no mundo da “sociedade”, da “alternativa”, do “modelo”, do “regime”, aqueles que, perante isto que vivemos aqui e agora, no ocidente de hoje, só têm a contrapor aquilo que aconteceu no leste de ontem, a esses queria apenas lembrar que um tal argumento é uma chantagem, que não me apanha desprevenido, justamente porque essa é a mesma chantagem que hoje é feita por quem pergunta, aos que criticamos o espectáculo reinante, qual o modelo alternativo que temos para oferecer. O capital não é uma coisa, é uma relação social; uma relação da qual nos queremos evadir, por certo, mas uma evasão que não tem como não partir das forças cuja luta dá vida à relação. Regresso, por fim, e nem a propósito, a Mario Tronti: «Nenhum operário que luta contra o patrão pergunta: e depois? A luta contra o patrão é tudo. A organização desta luta é tudo. E tudo isto é já um mundo. Decerto. É o mundo velho que é necessário abater. Mas quem vos diz que para o abater não basta esta simples vontade de derrubamento do poder, organizada em classe dominante?». E deixo esta também, vinda do mesmo sítio: «Se é verdade que é urgente e, talvez, preliminar a tudo, repor de pé urna estratégia internacional da revolução, devemos compreender que tal não se fará enquanto continuarmos a brincar com o mapa-mundo de crianças inventado pela geografia política burguesa e que, para comodidade didáctica, se encontra dividido em primeiro, segundo e terceiro mundo».

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