O Público
28 de Outubro de 2009 por Tiago Mota SaraivaActualmente, a minha relação com o Público é mais afectiva que efectiva. Passo a explicar.
Desde a criação do jornal que me lembro do comprar com regularidade. Em tempos de cavaquismo os jornalistas do Público distinguiam-se pela sua análise da situação do país e do mundo, do movimento estudantil, das cargas policiais e da investigação sobre temas que me interessavam. Ao longo da vida, fui-me relacionando de diferentes modos com pessoas que presava e que tinham o papel importante no jornal dos quais destaco a Margarida Portugal que vim conhecer melhor na Ordem dos Arquitectos, o grande Jorge Silva (do “Y”, “Mil Folhas” e “Pública”), a Diana Ralha, o Cerejo, entre outros…
Como já referi, vários foram os momentos e os pretextos para estes cruzamentos, mas todos me referenciavam o Público como uma excelente escola de jornalismo e isso sentia-se para quem o lia.
Contudo nos últimos anos, o Público transformou-se num projecto político. Uns dirão que é um projecto político pessoal do seu director, outros dirão que é um projecto político da Sonae. Este projecto político significou que se travaram grandes batalhas internas pela independência de cada um dos seus jornalistas e pela qualidade do jornalismo praticado, o que motivou muitas saídas, sobretudo, dos que mais gostava de ler.
A linha editorial, de direita, não tinha qualquer pejo em assumir o seu fascínio pelos neo-conservadores, neoliberalismo e demais “ismos” que nos levaram à guerra e à crise global. Vi jornalistas que considerava irem saindo e a metódica ocupação de todos os espaços de opinião por comentadores de direita (com raras excepções), na sua maioria, com crónicas banais e panfletárias.
Há muito que deixei de comprar o Público (por enquanto, vou comprando o I), embora ainda consulte diariamente o seu site, de longe o melhor nos conteúdos online e organização.
A mudança de director fará, pelo menos, com que celebre esse dia com a compra do jornal.
Não sei se o desvio de credibilidade que o Público sofreu nos últimos anos se deverá imputar exclusivamente a José Manuel Fernandes nem se será rectificado. Não conheço a Bárbara Reis (nova directora), embora já tenhamos conversado uma ou outra ocasião, mas deve ser dos poucos casos neste país em que alguém que vem das áreas da cultura ganha importância política e de direcção, o que é de valorizar.
Espero que tenha todas as condições para fazer melhor.

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