Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático”
28 de Outubro de 2009 por Carlos Vidal
IAKOV CHERNIKOV. Fantasias Arquitectónicas
Bom, ignorando o espanto pertinentíssimo de Robespierre (“caros cidadãos, quereis uma revolução sem revolução?”), parece-me que cada vez se levantam mais vozes a favor do nosso “paraíso democrático” (diria Badiou, defende-se sempre isto com o argumento de que “há sítios piores”). Vejamos um caso curioso neste blogue.
Misturando num mesmo texto a Rita Rato (por acaso eu, como ela, também nada tenho a dizer sobre o gulag), Gorbatchov (“o manchinhas”), a liberdade de imprensa em Cuba, os direitos humanos na China e a sacralização da democracia (o sufrágio universal, o parlamento), o Ricardo Noronha fez, involuntariamente, com que eu aqui me concentrasse nalguns dos tópicos citados, mas principalmente no “manchinhas”, que admiro tanto como Soljenitsyne, ou seja, nada.
Passemos então para, sem demora, Gorbatchov. Como toda a agente sabe, ele foi o último dos líderes da União Soviética tendo sucedido a, invertendo a ordem, Tchernenko, Andropov, Brezhnev, Krushchov, Estaline e Lenine.
Política e filosoficamente, Lenine é indiscutivelmente o fundador, criador ou “agente” de um acontecimento (uma ruptura sem precedentes equiparáveis numa situação) e de uma sequência que denominarei “existência do estado socialista soviético”.


IAKOV CHERNIKOV. Fantasias Arquitectónicas. 1922 (-1933).
Segundo Badiou (não disparem já, esperem um pouco), um acontecimento, no velhinho L’Être et l’Événement ou no mais recente Logiques des Mondes, é uma ruptura efémera e inédita (sem precedentes) na situação existente, inicialmente indiscernível por isso apelando à adesão subjectiva (e férrea) do sujeito, sendo o seu ineditismo inalcançável pelo conhecimento e não justificável. O acontecimento instaura dois factos: uma verdade (a Revolução Francesa mostrou a verdadeira face do Antigo Regime) e uma sequência imprevisível de ocorrências, assim definida por Sylvain Lazarus (em Anthropologie du Nom, 1996, um dos únicos dois livros que este importante pensador francês bibliófobo até agora escreveu, o outro foi sobre Althusser), citado por Badiou: “uma sequência política é identificada e pensada a partir de si própria como singularidade homogénea, e não a partir da natureza heterogénea do seu futuro empírico”. Esta é, desde logo, uma crítica a todas as tentativas contra-revolucionárias que pensam o mundo e a sociedade a partir das “consequências” (é aqui, por exemplo, que se baseia o ódio contra-revolucionário ao PREC, como explicarei).
No contexto desta definição, é óbvio que Gorbatchov, o “manchinhas”, veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”. E não se sabe bem por que carga de água. É claro que uma sequência também sofre um princípio de degenerescência, mas a dificuldade é encontrar esse ponto (como é difícil encontrar o “ponto do acontecimento”): Cronstadt? Estaline? Krushchov? A alegada diminuição de poder dos sovietes? Aquilo de que a luta anarco-comunista (Makhno) foi sintoma?, etc., etc.
Comparemos entretanto Gorbatchov com Mário Soares, também ele obreiro da interrupção do que eu denomino “sequência socialista portuguesa” (ou PREC). Que fez Soares? Sublinhe-se: colocou o futuro empírico da sequência acima da vivência da sua singularidade, fantasiou e manipulou o desfecho do “acontecimento 25 de Abril”, e fê-lo antidemocraticamente. Assim, se não sabemos qual o lugar e papel histórico de Gorbatchov (traidor do acontecimento “socialismo”?, ou momento final de uma sequência degenerada – na minha opinião, foi a primeira hipótese), de Soares conhecemo-lo perfeitamente: foi não o “fundador” da democracia portuguesa, mas o seu coveiro (juntamente com o seu partido, uma coisa chamada “PS”), pois dispôs-se a interromper uma sequência (imprevisível como todas as outras), com manifestações intimidatórias (manipulando o medo da população) e pela força (o PS possuía armas, creio-o provado). Soares é assim aquele que repõe, num contexto de transformação social (o Portugal de 1975), os valores sacralizados aqui por muita gente: a democracia (parlamentar), a liberdade de imprensa e os chamados “direitos humanos”. Soares e o seu PS refazem a situação impedindo o acontecimento, fantasiando no medo, impondo o medo, repondo um poder de Estado contra o poder da política (que só pode ser a criação do ainda não conhecido).
O acontecimento, como acto político, só pode ter como critério uma resposta afirmativa a estas duas questões (Badiou, Le Siècle): o que é que criticas? O que crias e ofereces de novo? Neste ponto e a seu tempo, a ascensão da burguesia, como reconhecido por Marx, foi um acontecimento: a burguesia criticou os “direitos de sangue” e criou o sufrágio universal e a democracia (e os correlativos “direitos”, liberdade de imprensa, direitos humanos, etc.). Mas, pergunto eu (nomeadamente ao Ricardo Noronha e ao Zé Neves): e o que é que isto significa? Acabou aqui, para vocês, a história? Porque é que a defesa da “democracia” ou da “liberdade de imprensa” devem ser critérios da política futura?
E é aqui que volta a polémica em torno da entrevista de Rita Rato: ora porque é que temos de nos estar sempre a penitenciar pelo gulag? Resumindo, esteve bem Rita Rato ao arranjar uma maneira de não responder à questão. Apenas isto.

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