Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático”


IAKOV CHERNIKOV. Fantasias Arquitectónicas

Bom, ignorando o espanto pertinentíssimo de Robespierre (“caros cidadãos, quereis uma revolução sem revolução?”), parece-me que cada vez se levantam mais vozes a favor do nosso “paraíso democrático” (diria Badiou, defende-se sempre isto com o argumento de que “há sítios piores”). Vejamos um caso curioso neste blogue.

Misturando num mesmo texto a Rita Rato (por acaso eu, como ela, também nada tenho a dizer sobre o gulag), Gorbatchov (“o manchinhas”), a liberdade de imprensa em Cuba, os direitos humanos na China e a sacralização da democracia (o sufrágio universal, o parlamento), o Ricardo Noronha fez, involuntariamente, com que eu aqui me concentrasse nalguns dos tópicos citados, mas principalmente no “manchinhas”, que admiro tanto como Soljenitsyne, ou seja, nada.

Passemos então para, sem demora, Gorbatchov. Como toda a agente sabe, ele foi o último dos líderes da União Soviética tendo sucedido a, invertendo a ordem, Tchernenko, Andropov, Brezhnev, Krushchov, Estaline e Lenine.

Política e filosoficamente, Lenine é indiscutivelmente o fundador, criador ou “agente” de um acontecimento (uma ruptura sem precedentes equiparáveis numa situação) e de uma sequência que denominarei “existência do estado socialista soviético”.

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IAKOV CHERNIKOV. Fantasias Arquitectónicas. 1922 (-1933).

Segundo Badiou (não disparem já, esperem um pouco), um acontecimento, no velhinho L’Être et l’Événement ou no mais recente Logiques des Mondes, é uma ruptura efémera e inédita (sem precedentes) na situação existente, inicialmente indiscernível por isso apelando à adesão subjectiva (e férrea) do sujeito, sendo o seu ineditismo inalcançável pelo conhecimento e não justificável. O acontecimento instaura dois factos: uma verdade (a Revolução Francesa mostrou a verdadeira face do Antigo Regime) e uma sequência imprevisível de ocorrências, assim definida por Sylvain Lazarus (em Anthropologie du Nom, 1996, um dos únicos dois livros que este importante pensador francês bibliófobo até agora escreveu, o outro foi sobre Althusser), citado por Badiou: “uma sequência política é identificada e pensada a partir de si própria como singularidade homogénea, e não a partir da natureza heterogénea do seu futuro empírico”. Esta é, desde logo, uma crítica a todas as tentativas contra-revolucionárias que pensam o mundo e a sociedade a partir das “consequências” (é aqui, por exemplo, que se baseia o ódio contra-revolucionário ao PREC, como explicarei).

No contexto desta definição, é óbvio que Gorbatchov, o “manchinhas”, veio interromper a sequência “existência do estado socialista soviético”. E não se sabe bem por que carga de água. É claro que uma sequência também sofre um princípio de degenerescência, mas a dificuldade é encontrar esse ponto (como é difícil encontrar o “ponto do acontecimento”): Cronstadt? Estaline? Krushchov? A alegada diminuição de poder dos sovietes? Aquilo de que a luta anarco-comunista (Makhno) foi sintoma?, etc., etc.

Comparemos entretanto Gorbatchov com Mário Soares, também ele obreiro da interrupção do que eu denomino “sequência socialista portuguesa” (ou PREC). Que fez Soares? Sublinhe-se: colocou o futuro empírico da sequência acima da vivência da sua singularidade, fantasiou e manipulou o desfecho do “acontecimento 25 de Abril”, e fê-lo antidemocraticamente. Assim, se não sabemos qual o lugar e papel histórico de Gorbatchov (traidor do acontecimento “socialismo”?, ou momento final de uma sequência degenerada – na minha opinião, foi a primeira hipótese), de Soares conhecemo-lo perfeitamente: foi não o “fundador” da democracia portuguesa, mas o seu coveiro (juntamente com o seu partido, uma coisa chamada “PS”), pois dispôs-se a interromper uma sequência (imprevisível como todas as outras), com manifestações intimidatórias (manipulando o medo da população) e pela força (o PS possuía armas, creio-o provado). Soares é assim aquele que repõe, num contexto de transformação social (o Portugal de 1975), os valores sacralizados aqui por muita gente: a democracia (parlamentar), a liberdade de imprensa e os chamados “direitos humanos”. Soares e o seu PS refazem a situação impedindo o acontecimento, fantasiando no medo, impondo o medo, repondo um poder de Estado contra o poder da política (que só pode ser a criação do ainda não conhecido).

O acontecimento, como acto político, só pode ter como critério uma resposta afirmativa a estas duas questões (Badiou, Le Siècle): o que é que criticas? O que crias e ofereces de novo? Neste ponto e a seu tempo, a ascensão da burguesia, como reconhecido por Marx, foi um acontecimento: a burguesia criticou os “direitos de sangue” e criou o sufrágio universal e a democracia (e os correlativos “direitos”, liberdade de imprensa, direitos humanos, etc.). Mas, pergunto eu (nomeadamente ao Ricardo Noronha e ao Zé Neves): e o que é que isto significa? Acabou aqui, para vocês, a história? Porque é que a defesa da “democracia” ou da “liberdade de imprensa” devem ser critérios da política futura?

E é aqui que volta a polémica em torno da entrevista de Rita Rato: ora porque é que temos de nos estar sempre a penitenciar pelo gulag? Resumindo, esteve bem Rita Rato ao arranjar uma maneira de não responder à questão. Apenas isto.

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43 respostas a Ainda a polémica sobre Rita Rato e uma rejeição completa do “socialismo democrático”

  1. Carlos Marques diz:

    “Porque é que a defesa da “democracia” ou da “liberdade de imprensa” devem ser critérios da política futura?” Carlos Vidal

    Mas não é suposto? Abdica-se das mordomias burguesas como campos de golfe e já agora a democracia e a liberdade de imprensa também.

    Uma coisa é certa este blogue é plural – valor[pluralismo] que sempre incomodou estaline e mao, e pelo que parece CV como seu seguidor político também não se importa nada de abdicar dele.

  2. Verdasco diz:

    Caro Carlos

    De todos quantos escrevem aqui, você é o meu favorito. Não esconde nada. Sabemos ao que vem. Se você levasse a sua avante, eu era fuzilado.
    Quando isto der para o torto, já sei de quem tenho de me esconder.

  3. xatoo diz:

    Verdasco
    é salutar que vc se perceba como lixo degenerado que é preciso eliminar; mas tem sempre a hipótese de auto-regeneração, se baixar a bola e cumprir as regras
    Carlos Marques
    a figura de Estaline tem vindo a ser aproveitada pela propaganda anti-comunista (enfiando todos os “comunismos” no mesmo tacho) e regra geral aparecem por aqui muitas vítimas desse acidente.
    Mas é um dado adquirido pelos historiadores que Estaline foi um bocado vitima do voluntarismo irracional dos militantes mais jovens. Como o CV avisou logo na primeira linha a violência colectiva é isso: a resposta organizada em larga escala à violência brutal do capital que os poderes reaccionários exerciam sobre as massas

  4. GOVERNO DE SALVAÇÃO NACIONAL diz:

    Realmente é sempre mau um/a dirigente de um partido não conhecer pelo menos os momentos chave (posit. ou negat.) da historia do mesmo.
    Mas também acho engraçado CV pegar no tema, embrulha-lo e chuta-lo lá para o lado dos socialistas.

  5. Para se conhecer melhor o resultado da aplicação das políticas do socialismo-democrático, da social-democracia e da democracia-cristã (separadas ao aos molhos) em Portugal, recomendo vivamente o estudo de Eugénio Rosa sobre o “Aumento das desigualdades e da exploração em Portugal (http://www.eugeniorosa.com/default.aspx?Page=1050) do qual citarei apenas: entre 1975 e 2009 a percentagem do PIB para remunerações liquidas passou de 59% para 34,1%.
    A manter-se o nível de 1975, quem vive do seu trabalho em Portugal teria recebido mais 40.860 milhões de euros, dinheiro esse que não teria ido certamente para offshores.
    Segundo a OCDE, pior que Portugal na distribuição da riqueza só mesmo a Turquia e o México.

  6. ezequiel diz:

    É caso para dizer que a Rato pariu uma montanha!!

  7. antónio diz:

    <Carlos Vidal disse:

    Ora porque é que temos de nos estar sempre a penitenciar pelo gulag?

    Pázinho, se sequer te atreves a perguntar isso, não há realmente resposta possível.

    Embora, claro, possas estar a disparatar durante 3horas ou 3 páginas para tentar justificar o inenarrável.

    Triste.

    🙁

    Mas, on another note, posso propôr-te um role model:

    Louis Antoine Léon de Saint-Just.

    Vê só se consegues escapar aos espantos pertinentíssimos dos f.d.p. de serviço.
    ou então escapa-te para a casa desse tal de “manchinhas”, não me parece que ele fosse capaz de te…

    Tonto…

    :-((

  8. Carlos Vidal diz:

    Caro antónio,

    “Pázinho” ??

    Isto aqui não é o Jugular.

  9. Ricardo Noronha diz:

    Carlos, uma vez que perguntas, procuro responder. Deixo para depois um texto mais longo acerca de Lenine. Do teu e do meu.
    Peço-te que voltes a ler o meu texto. Parece-me seriamente que te faz falta. Eu não faço qualquer comentário valorativo ou depreciativo acerca do manchinhas. Não me interessa o manchinhas. A revolução que me enche as medidas não acaba porque um dirigente a traiu, porque a revolução que me enche as medidas dispensa dirigentes.
    A partir daí é tudo bem simples. Eu quero que todos possam escrever e divulgar as suas ideias, os seus pontos de vista e as suas posições. Até as mais aberrantes e abjectas. Todas. [Espero que não me convoques aqui para o conflito do jornal «República» que foi, a todos os títulos, uma situação que extravasava o âmbito da simples liberdade de imprensa]
    Sobre as liberdades sindicais o mesmo. Todas, enquanto houver trabalho assalariado e exploração e 8 horas da vida de um homem valerem tanto como aquilo que ele produz durante essas 8 horas.
    Procuro ser mais claro. Há neste debate acerca do gulag e do capitalismo de estado soviético e da burocracia e da china e do pol pot e da revolução cultural chinesa e do estalinismo e do bolchevismo várias posições possíveis. Eu prefiro as comunistas. Há as outras. As que consideram que a sorte da revolução proletária depende de uma boa gestão do plano quinquenal ou que o imperialismo se combate apoiando uma potência contra outra ou que quando o povo desilude os seus dirigentes se torna conveniente mudar de povo.
    O problema do «Estado socialista soviético» é que era seguramente um estado, mas não era nem socialista nem soviético. Queres fidelidade a um evento? Que tal «todo o poder aos soviets»? Ou então «a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores»? Esses são um bom começo para debater a questão comunista. Debater é, nota bem, a palavra-chave e é dificil imaginar esse debate a ocorrer num contexto em que não existe liberdade de imprensa. Incluindo a imprensa reaccionária. A liberdade é sempre a liberdade para pensar de maneira diferente.
    O socialismo real deve ser submetido a esse tipo de crítica – quão longe esteve de concretizar aquilo que prometia e aquilo que nós desejamos? É ilusório pensar que a crítica enfraquece. Voltaríamos a Lenine e eu ver-me-ia forçado a folhear as obras escolhidas para reforçar esta ideia. Só a verdade é revolucionária, lembras-te?

  10. joão viegas diz:

    Porra, palavreado oco por palavreado oco, antes prefiro o dos teologos e dos jesuitas…

    O Carlos Vidal do proletariado, ja alguma vez pegou numa enxada, ou numa chave de parafusos, ou mesmo num simples saca-rolhas ?!?

    E’ que ja estava na altura de ele perceber, até por coerência com os principios materialistas que ele afirma perfilhar, que as palavras de nada valem se não for para dizer alguma coisa, ou seja para obter um resultado concreto, palpavel, real.

    Da mesma forma que as enxadas e as chaves de parafuso não trabalham no ar.

    Nem sequer, alias, os saca-rolhas.

    Não ha pachorra…

    PS : Bom tudo tem um mérito. Depois de um post como este, parece-me sobejamente demonstrado que ha por ai muitos livros cuja leitura é mais urgente que os do guru Badiou…

  11. miguel serras pereira diz:

    Caro Carlos Vidal,
    vejo que escreves aqui em cima: “Mas, pergunto eu (nomeadamente ao Ricardo Noronha e ao Zé Neves): e o que é que isto significa? Acabou aqui, para vocês, a história? Porque é que a defesa da “democracia” ou da “liberdade de imprensa” devem ser critérios da política futura?”.
    Olha que a resposta é simples, a democracia e a liberdade de expressão e pensamento devem ser critérios de política futura porque nos importa (aos que nelas estamos apostados) defender e expandir um modo de vida em que tu, como todos, possam interrogar-se sobre isso mesmo e sobre tudo o mais que entenderem. Porque nos parece humilhante uma forma de vida que reprima a faculdade de julgar e criminalize a liberdade e o debate. Porque, não só não cremos que a história tenha acabado aqui, como queremos ter o direito de o pensar e dizer e de lhe imaginar e propor outros fins. Porque, se sabemos que nada garante que o projecto de autonomia, que é a tradição que interrogamos e nos interroga, sobreviva, se sabemos que é concebível uma ordem mundial que exclua o livre-exame nas esferas da acção e do pensamento, é na autonomia, na democracia e na liberdade, que apostamos como condição de uma vida digna de ser vivida. De onde se segue que não cultivamos a novidade pela novidade, e que a liberdade de criação que nos interessa tem por critério último a criação de liberdade. É por isso que quem rejeita o socialismo democrático rejeita o socialismo. Do mesmo modo que quem rejeita a dimensão socialista – a livre associação dos produtores – rejeita a democracia.
    Cordialmente
    msp

  12. l.rodrigues diz:

    O que leio aqui não é fundamentalmente diferente do argumento neo-liberal. O futuro acaba por chegar com prosperidade para todos, desde que os que sofrem agora não façam nada para parar com o sofrimento.

  13. ezequiel diz:

    “colocou o futuro empírico da sequência acima da vivência da sua singularidade, fantasiou e manipulou o desfecho do “acontecimento 25 de Abril”, e fê-lo antidemocraticamente.”

    Sr Prof, como é que o Mário Soares conseguiu fazer tal coisa??

  14. ezequiel diz:

    “o que é que criticas? ”

    se o acontecimento é inédito, indescernível bla bla…só posso responder o seguinte:

    criticar o quê?? não faço a mínima.

  15. Marxista diz:

    “Debater é, nota bem, a palavra-chave e é dificil imaginar esse debate a ocorrer num contexto em que não existe liberdade de imprensa. Incluindo a imprensa reaccionária. A liberdade é sempre a liberdade para pensar de maneira diferente.”

    Ricardo Noronha mas que conversa da tetra, se bem percebi o Carlos Vidal não defende o fim da libredade imprensa numa sociedade socialista. A questão é que na altura em que se coloca a tomada de poder por parte dos trabalhadores, vai existir uma contra revolução por parte da burguesia com os seus aliados, e nessa altura existindo uma guerra civil é obvio que a liberdade de imprensa vai ser diminuida.
    Nessa altura a imprensa burguesa deve ser censurada, o que pensas que os burguese fazem a imprensa dos trabalhadore numa situação de guerra civil?? Já agora, na situação que vivemos, de calmaria absoluta quantos jornais conheces que tem uma perspectiva dos trabalhadores?? (a censura não se faz só com a força de poribir, faz-se também com a força do diheiro)
    Essa tua conversa romantica é muita bonita, mas na história sempre que foi seguida, acabou em derrotas e mortos do lado dos trabalhadores por exemplo: Allende no Chile

  16. Henrique Morais diz:

    É incrivel as barbaridadas que se podem encontrar na internet…

  17. zé neves diz:

    Carlos, conheço mal Badiou, mas aqui vai: o acontecimento só é interrompido com Gorbatchov, dizes tu. Mas, se assim é, a fidelidade ao mesmo obriga-te a conceber o gulag como parte da singularidade homogénea do acontecimento. E não como um efeito que faz parta das consequências heterogénea do acontecimento. Sendo assim, não há como arranjar uma maneira de não responder à questão colocada à Rita Rato.

    Quanto à democracia, creio que deve ser critério da política futura. Mas, repara, a democracia não tem que ser, necessariamente, a democracia representativa. Até porque é absolutamente decisivo que ela não se limite ao político. A democracia económica no sentido mais radical (os produtores decidem o que se produz, decidem se querem ou não produzir, decidem como se produz, decidem para que se produz, etc.) é essencial ao projecto político futuro.

    abç

  18. RM diz:

    A frase que condensa da maneira mais viva e exuberante a perspectiva das coisas por parte de Noronha é esta: «A partir daí é tudo bem simples». É gente desta que se dedica a falar de “revolução”?

  19. xatoo diz:

    “o Estado socialista soviético era seguramente um estado, mas não era nem socialista nem soviético” (Ricardo Noronha)

    Deixemo-nos de bulimias teórico-livrescas e vamos à ontologia das condições concretas de desenvolvimento dos factos, ou seja também e essencialmente à economia que suporta as condições sociais e as aspirações participativas.

    1. quando Lenine chegou já a Rússia estava envolvida pela monarquia do Czar Nicolau numa guerra desastrosa desde 1914; por fim, as pessoas, vitimas dessas condições e da repressão, morriam de fome nas valas dos campos e negavam-se a marchar para a frente.
    2. em 1917/8 o Estado czarista-democrático colapsa
    3 segue-se uma guerra civil entre os “brancos” (financiados por capitais aliados) e os “vermelhos”. Neste periodo Trotski (visto como um claro adepto da “revolução permanente” tem uma importancia fundamental
    4. a revolução na Alemanha (a chave para o internacionalismo proletário) é derrotada (1919)
    5. depois da morte de Lenine, é formada uma troika (Estaline, Kamenev, Zinoviev) com a clara intenção de conter os radicais que entretanto comandados pelo exército vermelho liderado por Trotski tinham derrotado a contra-revolução
    6. todo o Poder conquistado se torna conservador na manhã do dia seguinte. No caso tentou tanto evitar o retorno à ordem Czarista, como pelo lado oposto extirpar os “esquerdistas”
    7. a Troika governante assume claramente a missão de conter a “revolução permanente” isto é, a democratização do regime.
    8. seguem-se as purgas, a fuga e exilio de Trotski, uma luta que viria a culminar com os “processos de Moscovo”, 1934 – quer dizer, o povo russo por essa altura já vinha suportando uma situação de guerra continuada nesses últimos 20 anos
    9. Estaline percebeu isso, e é em nome dessa estabilidade que se assume como lider
    10. Neste ponto a Internacional Socialista adopta a tese de Dimitrov de construção “do socialismo num só país”. Em 1936 a República Espanhola é abandonada ao seu destino, para ser devorada pela coligação nazi-fascista. A não intervenção em força dos comunistas soviéticos em Espanha marca na prática o fim do internacionalismo proletário (há quem suponha uma espécie de “tratado de tordesilhas” leste-oeste entre Estaline e as potências aliadas… tendo em vista a borrasca que se via já no horizonte)
    11. em 1939 a Rússia unificada pelo “pai dos povos” na URSS confronta-se de novo com um feroz ataque vindo do exterior com a finalidade única de destruir o regime comunista
    12. em 1945 o que poderemos designar por “exército do povo” faz a sua entrada em Berlim, após um notável esforço em meios humanos e industriais entretanto desenvolvidos. Neste feito épico todo o povo tinha consciência de participar numa construção até aí inédita na Historia
    13. na transição do fim da guerra os Aliados declaram unilateralmente a separação da Alemanha em duas; a URSS tem pela frente novo confronto prolongado, a Guerra Fria
    14. quando Estaline morre em 1953 tinha legado às gerações vindouras um país unificado, capaz de ombrear com a superpotência imperialista
    15. depois do XX Congresso do PCUS na década de 60 a URSS, muda de paradigma, podendo ser finalmente considerado um Estado operário, mas falhado.

    Conclusões: “Factos são factos, e os factos são indesmentíveis” (Lenine) Deixemo-nos de fazer batidos-mix metendo na batedeira personagens e acontecimentos avulso. Podia ter sido melhor? Até ao final da IIGG não, sob pena de regressão, mas depois dessa data podia. Quem são os culpados? A involução do sistema centralizado não aberto à participação das bases, os inenarráveis Krushchov, Brezhnev e toda a sequência de submarinos ocidentais pacientemente infiltrados até ao Gorby-Vuiton que efectivaram todo um trabalho de sapa até ao declino e colapso completo

  20. mc diz:

    já não há saco para esta conversa por causa de uma entrevista a um jornal cuja maior utilidade é a de concorrer com a renova no domínio das casas de banho nacionais e quem sabe até, internacionais (uma expectativa que só encontra paralelo na dos russos perante a iminente revolução na Alemanha do pós grande guerra).

  21. Luis diz:

    “Quem são os culpados?”

    Escreveu Álvaro Cunhal: “É uma verdade elementar que a derrocada da União Soviética e de outros países socialistas resultou de uma serie de circunstâncias externas e internas. Não de igual influência. Pesaram com relevo factores de ordem interna. O facto é que, na construção da nova sociedade, se verificou um afastamento dos ideais e princípios do comunismo, a progressiva degradação da política do Estado e do partido, em resumo, a criação de um “modelo” que, com a traição de Gorbachov, conduziu à derrota e à derrocada .

    O “modelo”, que se foi criando, traduziu-se num poder fortemente centralizado e burocratizado, numa concepção administrativa de decisões políticas, na intolerância ante a diversidade de opiniões e ante críticas ao poder, no uso e abuso de métodos repressivos, na cristalização e dogmatização da teoria.

    Comprometido o poder político da classe operária e das massas trabalhadoras. Comprometida a nova democracia. Comprometido o desenvolvimento económico que, assente na militância e vontade do povo, alcançou um ritmo vertiginoso nas primeiras décadas do poder soviético. Comprometido o carácter dialéctico, criativo, criador, da teoria revolucionária, que tem necessariamente de responder às mudanças das realidades e às experiências da prática.

    O exame, tanto das históricas realizações como destes funestos acontecimentos, assim como das experiências do movimento comunista internacional, coloca aos partidos comunistas a necessidade de uma redefinição da sociedade socialista seu objectivo e um dos elementos básicos da sua identidade.

    Embora contido pelo campo socialista e pelo avanço do processo revolucionário mundial até às últimas décadas do século XX, o capitalismo registou um desenvolvimento que o levou a atingir, no fim do século, a supremacia em termos mundiais.” (Intervenção enviada ao Encontro Internacional sobre a “Vigencia y actualización del marxismo”, organizado pela Fundación Rodney Arismendi , em Montevideo, de 13 a 15 de Setembro de 2001)

  22. Ricardo Noronha diz:

    Caros marxista e xatoo
    não desconheço nenhum dos factos que mencionam. Mas também não é disso que se trata.
    Não há actualmente nenhuma guerra civil em curso em Cuba ou na China. Trata-se de sociedades que passaram por revoluções há 50 anos, pelo que os argumentos que vocês avançam têm aqui pouca margem de manobra. Notem que, para uma burocracia no poder, haverá sempre uma ameaça contra-revolucionária à mão para justificar toda e qualquer medida repressiva. Se não houver, terá de ser inventada.
    Gosto das referências às bulimias teórico-livrescas. Calculo que tenham retirado as vossas ideias de tábuas de cêra ou de mármore.
    A batedeira com personagens e acontecimentos avulsos é o que vemos nos 15 pontos que vão desde a chegada de Lenine até ao XX congresso do PCUS. Ainda bem que não caiu na tentação de simplificar as coisas, verdade?
    Sem liberdade de imprensa e de associação e de expressão, qualquer revolução acaba por cair nas mãos de um punhado de burocratas. Parece-me uma lição relativamente simples a extrair dos acontecimentos russos e posteriores.

  23. Henrique Morais diz:

    xatoo….esqueceu-se de fazer referencias ao pacto Molotov-Ribentrop entre Estaline e Hitler e de estes serem aliados ate o Hitler lhe dar um pontape no cú. Tambem me parece que omitiu a que custo é que Estaline legou “às gerações vindouras um país unificado, capaz de ombrear com a superpotência imperialista”, nomeadamente atraves da grande fome na Ucrania, o uso de mao-de-obra escrava na construçao das grandes obras publicas e a deportaçao e assassinato de milhoes de pessoas.
    Sabe que mais? Por uma questão de higiene mental não vou discutir mais este assunto nem a sua argumentação sobre o “pai dos povos”….

  24. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal.
    Porquê a insistencia na remissão à nóvel deputada, ademais quando é ininteligível o propósito e contrário à vontade da alma em causa.
    Mas quem é que renuncia ao gulag!? O Vidal renuncia aos gulags!?
    A deputada Rato renuncia aos gulags!? Que enormidade é esta, caro Vidal (abjurar a cruz)!? A confissão sempre libertou! Que vos encantam os gulags como fantasias arquitetónicas (da mais excelsa e tenebrosa arquitetura) e que sem estes teriam de cuidar de culpados e inocentes de forma diferente!!

  25. Justiniano diz:

    Caro Verdasco!
    A questão não é “Quando isto der para o torto, já sei de quem tenho de me esconder”. A questão é, sei bem quem devo encontrar, em momento tumoltuoso, exercendo a misericórdia que outros teus irmãos não ressalvariam, para impedir que isto dê para o torto. Assim é que é, consabido e claro, o Vidal bem o sabe!!
    Quanto ao resto está correctíssimo!

  26. xatoo diz:

    caro Noronha
    bom, para ninguém se queixar que as acções dos reaccionários “são reprimidas”, temos de adoptar as medidas propostas por eles, certo?
    Calculo que “para não simplificar as coisas” teria, para além do avantajado comentario, de escrever um livro. Mas não escrevo, pela razão evidente que o meu caro nunca o iria comprar (lol)
    Concordo em absoluto com a liberdade de associação e de expressão; já com a de imprensa nem tanto (porque podem ser financiadas de fora como se vê por aí à exaustão): imagina ter visto, (caso já existisse) o grupo Prisa ou a TVI a incentivar a revolução russa?

    Henrique Morais
    O pacto Molotov-Ribentrop é uma concertação entre os dois paises derrotados na guerra de 1914-18. É um pacto que procura estabelecer território vital de expansão (a frase é de Hitler) para os dois paises (concretamente a divisão da Polónia) e não um pacto de ideologias, que, com se verificou depois são sem qualquer dúvida antagónicas. Pode meter o assunto entre o parágrafo 10 e 11. Quanto ao restante remeto-o para o estudo da lei de godwin que trata da interacção entre pulgas

    caro Noronha (II)
    está a ver onde eu queria chegar com o relambório? os extremos atraem-se e o discurso pós-moderno conjuga-se perfeitamente com o aliciamento à comparência do que há de mais ultra-conservador na sociedade. Aí o tribuno “justiniano” até já quer ir aos fagotes do Carlos Vidal caso os papões comunistas tomassem conta da gerência da base das Lajes.

  27. Voltámos à história do “agarra que é ladrão”?
    Quanto a Mário Soares, parece que Reagan, no seu diário não precisou de tantas palavras para caracterizar o seu amigo. Convém recordar que este Mário Soares de que fala Reagan é o do tempo “o-que-nos-divide-não-é-Marx-mas Lenine”, bem à esquerda e não do centro-esquerda como agora.

  28. Henrique Morais diz:

    xatoo…. O capitalismo venceu. Viva o capitalismo!!!

  29. antónimo diz:

    Tenho para mim que Carlos Vidal é masoquista. Está sempre a desvalorizar os direitos humanos, como se gostasse que lhe partissem ossos e dentes, o espancassem até desmaiar, que o chantageassem com a segurança da família .

  30. antónimo diz:

    O pacto Ribbentrop-Molotov também vem sempre à baila, mas esquecem sempre o pacto Hitler, Clemenceau, Chamberlain.

  31. Carlos Vidal diz:

    Gostaria de começar por clarificar alguns pontos no que concerne aos conceitos de democracia, liberdade de imprensa, espaço público, contextualizá-los melhor do que até aqui tenho lido (tentarei), retirá-los dos clichés da linguagem ética dominante, que vigora em paralelo com o poder económico que a determina em todos os aspectos, chamando a atenção para colegas contendores como o Miguel Serras Pereira, o Ricardo Noronha e o Zé Neves (estes dois directamente interpelados no meu post).
    O espaço público democrático burguês ganha a sua dimensão de existência possível e real consolidação desde a Iglaterra do século XVII (ver, por exemplo, o texto-chave desta história, o de Habermas de 1962, o “Transformação Estrutural da Esfera Pública”), desde o século XVII, dizia, até à Revolução Industrial, encontrando nós a “esfera pública” “democrática” sempre em desenvolvimento na companhia de várias etapas da progressão mercantilista e respectiva circulação e modo de produção de riqueza. Por alturas da Revolução Industrial aparecerão os mass-media, consolida-se urbanisticamente a praça pública como lugar de encontro e eventos, incluindo estes tipos conhecidos de democracia a manifestação “autorizada” e a imprensa, como disse, novas concepções de urbanismo (nem sempre liberalizantes ou libertadoras, basta pensar na Paris de Hausmann, urbanismo cerceador de lutas populares, nitidamente, facto bem estudado pela Internacional Situacionista), novo urbanismo a que juntaremos lugares como o café (ponto de encontro) e hoje as redes sociais e a internet.
    Ora, nisto tudo e apesar disto tudo, nunca, meu caro Miguel Serras Pereira, Castoriadis deixou de chamar à democracia uma “oligarquia liberal”; repito: OLIGARQUIA LIBERAL (aliás, um termo que, meu caro, vindo de quem vem, conhecerás bem melhor do que eu nas suas nuances e argumentação central). Estes espaços de discussão, protesto ou encontro são pois realidades muito recentes, como os descrevo e Habermas também, e é aqui que eu creio que deve entrar a nossa infinita capacidade de transformar e alargar estes tópicos e partir do princípio de que no capitalismo tardio tal é de todo impossível.
    Bom, não ficaremos por aqui – democracia e liberdade de imprensa tal como as conhecemos no momento – não ficaremos por aqui estabilizados, parados e fixados, sobretudo quando o actual estádio do capitalismo evidencia as suas consequências trágicas (pobreza e fome generalizada para quase todos e prosperidade para alguns pouquíssimos) e se apoderou da democracia tornando-a, como diria Badiou, um capital-parlamentarismo. O nosso momento pede respostas radicais e não um conformismo com as realidades e conquistas da civilização burguesa, porque esta há muito que deixou de ser “civilização” para ser barbárie, tal como a “sua” democracia (que eu dispenso – ou dispensamos??).
    Essas respostas radicais são consideradas o essencial da política – a fabricação do inédito, tal como a democracia burguesa destruiu os direitos de sangue da aristocracia; como tal, algo substituirá e nos fará emancipar-nos da democracia tal como oferecida pela “civilização” burguesa.
    E o “acontecimento” brota quando não se espera por ele.

    Entretanto, caro Ricardo Noronha, o poder consolidado (decadente, não?) e a referida sociedade burguesa tiveram mais de 5 (cinco!!) séculos para se afirmarem como realidades aparentemente “livres” e prósperas, enquanto as sociedades que enveredaram por tentativas emancipatórias praticamente nenhuma oportunidade tiveram sem que fossem pelos seus protagonistas (repito: PELOS SEUS!) e obviamente também pelos seus inimigos guerreadas e por fim destruídas, ficando nós num coro de acusações aos gulags e companhia (e eu aqui não sou “revisionista”, o gulag existiu mesmo). Dessas oportunidades nada mais há a destacar senão a Comuna de 1871, que durou tempo nenhum sendo brutalmente reprimida e massacrados os communards (trágica recordação para a qual contribuiu a invenção da fotografia, instrumento de denúncia, como o cinema nos seus primórdios, onde a encenação era inexistente). A repressão da Comuna deve fazer-nos olhar para a história soviética sem esse vosso masoquismo recriminatório, sendo de sublinhar que a esta sociedade não foram dados mais de 80 anos (o que é muito diferente dos 5 séculos de história burguesa) para mostrar o que “vale” ou “valia”. Houve violência militar e burocrática na URSS (Badiou acusa explicitamente o partido-Estado, ao mesmo tempo que, sobre o pós-URSS, fala de um país hoje a saldo ou a soldo e em proveito de bandos de criminosos, não nos esqueçamos!).
    Ora, como a actual Russia é um monstro ineficaz (ou eficaz para pouquíssimos) de estruturas piramidais e mafias sem lei, acho bem que debatamos a aventura soviética com cuidado conceptual e atenção, sem atirar de qualquer maneira pedras a uma experiência curta.
    Enfim, como Castoriadis chama às democracias “oligarquias liberais” e Badiou lhes chama de “capital parlamentarismo”, creio que de antemão não devemos celebrar a estrutura democrática tal como a conhecemos até hoje.
    Resumindo, por agora, já o disse: vejo o voto ou o chamado sufrágio universal muito mais como um colete de forças do que uma peça na tão desejada e necessária emancipação global.

    Um post-scriptum: faço ainda notar ao ezequiel que Mário Soares intimidou a sociedade e a impregnou de medo do comunismo primeiro, e só depois (um ano depois!) é que venceu umas eleições.

  32. antónio diz:

    Caro C.V.
    Pázinho é uma forma, entre o carinhoso e essa-foi-tão-burra de dizer apenas Eh, pá !. Nada de nenhuns subentendidos ou outras porcarias.

    P.S.
    Claro que isto aqui não é ajugular, na medida em que essa veia é suposta receber sangue do cérebro
    (com esta te lixei, e por favor, não me digas que isso também é um site, o meu dia só tem 24 horas…)

    🙂

    Em relação à prosa que deixaste acima, e descontando o name dropping, qual era exactamente o teu ponto ?

    Sabes, a partir do momento em que fazes de cada post uma espécie de mini-paper, também é suposto fazeres um abregé/resumo.

    Temos todos mais o que fazer, não convirias ??

    E como diria Schopenhauer, ou Assurbanípal, ou o Capitão Andante (já não me lembro ao certo…):

    Quem pensa claramente, exprime-se claramente.

    E já agora, com capacidade de síntese (mais uma palavra grega ao que parece em desuso, but google is your friend…)

    Pormenor, só p’ra te chatear:

    🙂

    É claro que a intenção do barão Haussmann (e por acaso escreve-se com a minha grafia…) era o que Napoleão III lhe encomendou, ‘caganda’ mistério…. ruas mais largas para a bófia e a tropa poderem actuar ?

    Estou óbviamente a simplificar, a coisa ia bem para além disto, aqui o “marxista” és tu…)

    Que eu saiba, isso até facilitou umas outras coisinhas uns anitos depois…
    (podes sempre consultar o Manuel Castells ou o V.M.F. cá…)

    Tão jovem e tão… pois.

    Abraxas,

    António Sobral Cid

  33. Justiniano diz:

    Vidal, quem lhe garante que a superação da civilização liberal, burguesa (já não judaico-cristã, note bem que a estrutura moral judaico cristã que serviu de base às sociedade liberais modernas foi superada pela anomia amoral relativista da contemporaneidade) (e já muito pouco burguesa, apesar de alguns resistentes – Será possível a existencia do Estado de direito liberal sem burgueses!??) irá gerar outra coisa que não seja o mais abjecto e absurdo totalitarismo ou a mais pura e desmesurada barbaridade.
    ….”o actual estádio do capitalismo evidencia as suas consequências trágicas (pobreza e fome generalizada para quase todos e prosperidade para alguns pouquíssimos)….” Isto é um erro, caro Vidal! Alguns limites se vão testando, outros são conhecidos, mas…devemos ser honestos com a história.(Note que me é custoso defender o “capitalismo” não sabendo lá muito bem o que isso é!)
    Os acontecimentos, ao longo da história, que aqui nos trouxeram, foram todos previsíveis, discerníveis e espectáveis, talvez alguns tenham sido inéditos mas sempre, espectáveis.
    Que lhe parece mais espectável!!?? (Bom exemplo o da Rússia! O que gerou o czarismo sovietico!? Porque não compreendem outra linguagem!?)

    E quanto aos gulags, Vidal, haverá emancipação global sem eles!?

  34. joão viegas diz:

    Completamente de acordo com o ultimo comentario de Antonio Sobral Cid.

    A unica coisa aqui que me parece manifestamente tipica da era burguesa, senão mesmo da era anterior à revolução industrial, é a forma pedante e perfeitamente oca com que Vidal utiliza uma retorica exclusivamente tributaria do principio de autoridade (cada vez que atira uma bojarda, esconde-se logo atras dos autores supostamente sabios, não va o leitor procurar discutir), reproduzindo os piores tiques da caricatura do mandarim, prevalecendo-de livros que, geralmente, leu pela rama, para se furtar a qualquer tentativa de raciocinar pela sua propria cabeça.

    Eu não tenho o privilégio de conhecer os designios dos deuses vidalescos em relação ao fim da Historia e ignoro o que o futuro nos reserva. Mas sei, e posso justificar simplesmente, com palavras compreesiveis por todos, que estaremos melhor em Portugal no dia em que os pequenos aprendizes de doutor como o autor deste post forem imediatamente desqualificados pelo sentido do ridiculo, cada vez que começam a desconversar socorrendo-se da “doutrina” e das “autoridades doutrinais”, sejam eles quais forem.

    Isto sim seria, não sei se uma revolução, mas incontestavelmente um progresso.

    Um progresso sobretudo para as classes trabalhadoras, alias, que têm o condão de se reger por uma logica realista, concreta e que merecem poder libertar-se das patranhas com que os padres de todos os tempos, de que Vidal é o digno sucessor, sempre procuraram precaver-se para os silenciar.

    Não sabem, não querem saber, têm raiva a quem sabe.

    Por amor da esquerda, livrem-nos desses esquerdistas de café.

    Quem leu Lenine (e não so as citações de Badiou) sabe bem que ele concordaria com isto.

    Mas isto até nem interessa.

  35. Carlos Vidal diz:

    “Quem pensa claramente, exprime-se claramente.”

    O quê??
    Gosto muito mais do autor do livro, “Definição da Arte Política: O Radicalismo, a Desconstrução, o Artifício e Todos os seus Paradoxos”.
    Muito melhor, caro Sobral Cid Casteis.

  36. Ricardo Noronha diz:

    Mas Carlos eu estou a par de tudo isso – Comuna incluída. E não glorifico o que quer que seja, incluindo a democracia parlamentar (aparece no Maria Matos na próxima 3ª, se te apetecer debater o tema). Mas não coloco a questão nos teus termos, relativamente a 80 anos serem um tempo curto para a experiência soviética. O que me parece é que a experiência soviética, enquanto tal, não durou sequer até ao final da guerra civil. É evidentemente um processo complexo, mas já estamos em condições de dizer a seu respeito mais do que lugares comuns como «houve erros mas também houve coisas boas». Até porque isso pode ser dito acerca de quase todos os regimes ou modos de vida.

  37. Justiniano diz:

    Caríssimo Vidal, apenas um pormenor, (formalmente relevante)(A forma, por vezes, revela uma certa verdade, outras vezes, é certo, constitui apenas um obstaculo à substancia – A verdade e as formas jurídicas) as liberdades, liberdade de imprensa, direitos humanos nada têm que ver com o princípio democrático. (Pode querer dizer pluralidade na imprensa ou …, mas serão coisas de distinta natureza – Pode ocorrer ter democracia com imprensa plural mas sem liberdade de imprensa…pode ocorrer ter democracia com liberdades políticas mas sem liberdades…)
    Permita-se, contudo e sempre, a sua pertinencia que é substancialmente mais interessante…de concordar e discordar.

  38. Luís Antunes diz:

    Cassete Vidal : em 1975 , Mário Soares e Melo Antunes tornaram o País governável , de acordo com a vontade da MAIORIA dos portugueses , e impediram a ilegalização do PCP ( até era um bom castigo , tendo em conta as parvoíces que o PCP e outros cometeram naqueles tempos ) . E viva o Soljenytsine ! E viva as cuecas de senhora , pelas quais tenho um fetichismo especial .

  39. antónio diz:

    xatoo disse…

    Deixemo-nos de bulimias teórico-livrescas e vamos à ontologia das condições concretas de desenvolvimento dos factos, ou seja também e essencialmente à economia que suporta as condições sociais e as aspirações participativas.

    Peço-te desculpa, o que é que exactamente querias tu dizer com isto ?
    Explica assim como se eu fosse muito burro, ou a célebre cozinheira do Lenine, faxavôr.

    Agora, ponto por ponto:

    1. Lenine não “chegou” à Rússia por sua própria iniciativa.
    Foi enviado para lá num comboio alemão por razões lá muito deles, e que eles sabiam melhor que tu.

    2. Em 1917, os bolcheviques pegam numa soldadesca que tinham, e fazem numa coisa não muito diferente de um golpe de Estado, significa apenas tomar as coisas mais importantes em Moscovo… fácil.

    3. A “importância” de Trotsky (ou Lev Bronstein, se preferires…) é ter organizado o “Exército Vermelho”, mas olha que, à uma o gajo nessa altura tanto bateu nos brancos como nos “vermelhos”, (os marinheiros de Cronstadt, já te esqueceste, ou nunca soubeste ?), e às duas a ‘Revolução Permanente’ é de 1929…

    Eu podia continuar por aqui a fora, mas realmente não há pachôrra.

    O que seria normal é “get your damn facts right”, ou não ??

    Ah, ia-me esquecendo: eu nem sequer sou ‘comunista’.

    Se calhar é por isso mesmo que…

    Ooops, deixa cá ver:

    14. quando Estaline morre em 1953 tinha legado às gerações vindouras um país unificado, capaz de ombrear com a superpotência imperialista

    Só podes estar é tonto.

    🙁

    Aquilo era siderurgias de merda, minas de merda, fachada e etc.

    (ninguém, nem a pôrra do jardineiro, ou sequer o Beria se atrevia a dar “más notícias” ao teu Estaline)

    Podes sempre perguntar, se ainda houver sobreviventes do XX congresso do PCUS.

    Caramba, que monte de inexistências te dá para postares. Faz impressão.

    🙁

  40. malhar em ferro frio, portanto no sujeito, que outrora só se media com a divindade incomensurável, tende a coincidir com o objecto do conhecimento e da manipulação. Ó maravilha das maravilhas! Como foi isto possível? Será que finalmente a subjectividade foi abolida pelo conhecimento?

  41. Diogo diz:

    1º”o poder consolidado (decadente, não?) e a referida sociedade burguesa tiveram mais de 5 (cinco!!) séculos para se afirmarem como realidades aparentemente “livres” e prósperas”

    O Senhor acha mesmo que as experiências históricas, políticas, económicas, sociais, culturais de todos os países da europa – para não me alargar muito – durante 500 anos são passíveis de ser reduzidas em toda a sua diversidade ao rótulo de “sociedade burguesa”?
    Eu percebo a sua armadilha: espera que nós lhe digamos que a “sociedade burguesa” nos trouxe um mundo mais próspero para nos dizer depois que, mesmo dando isso de barato, essa prosperidade também custou muito séculos de miséria e morte. Para o Carlos, todas as mortes por doença ou fome durante 5 séculos são imputáveis à “sociedade burguesa” mas à parte esse exercício de “dissonância cognitiva”, não saberá fundamentar essa associação estapafúrdia.

    Essa evolução de 5 séculos de que fala compreendeu certamente miséria e morte mas nunca se constituiu nesse tempo nenhuma máquina de extermínio deliberado equiparável à montada pelo estado soviético nos gulags ou à grande fome de 1932, que serviam propósitos exclusivamente políticos.
    Essa “sociedade burguesa” de há 5 séculos para cá, melhorou a vida de milhões e milhões de pessoas e vem aprofundando o esforço na defesa dos direitos e liberdades individuais.

    Eu também posso reclamar para o capitalismo, tal como o Carlos faz com o comunismo, que se trata de “uma sequência política identificada e pensada a partir de si própria como singularidade homogénea, e não a partir da natureza heterogénea do seu futuro empírico”. Ou seja, posso argumentar que se deixarem o capitalismo purificar-se e evoluir sem atender aos seus resultados práticos, vendo-o como uma necessidade histórica, terão a felicidade ao virar da esquina.
    Eu posso dizer que o capitalismo não produz melhores resultados porque o proteccionismo “reaccionário” protege os interesses económicos dos países mais fortes e impede a prosperidade dos pobres produtores dos países mais pobres. Eu posso dizer que a crise actual se deve à ignorância dos princípios do liberalismo económico; que o capitalismo é a melhor coisa que há só que os homens é que são maus e por isso a coisa não funciona tão bem como devia. O passo seguinte é perseguir, prender e eliminar toda a gente que perturbe a leitura esclarecida da teoria fundadora do capitalismo, como “inimigo do povo”, não é Carlos?

    Acontece que as ideias e as revoluções, tal como as árvores, se qualificam pelos seus frutos e que, portanto, o capitalismo se identifica não apenas pelos seus fundamentos teóricos ou pelos seus horizontes ideais mas pela forma como esses fundamentos se articulam com realidade e pela eficácia com que se adapta. Com o comunismo é a mesma coisa. O comunismo real não foi a traição do marxismo-leninismo; aliás, por exemplo, quando lenine compreendeu o que significava a concretização da visão marxista da economia logo que chegou ao poder parou e veio a NEP, o que não deixa de ser sintomático sobre as “soluções” marxistas. A nomenklatura retomou o comunismo com a abolição da NEP e os resultados foram os que se viram.

    Mas o que eu acho inconcebível é que o Carlos nos diga que
    “as sociedades que enveredaram por tentativas emancipatórias praticamente nenhuma oportunidade tiveram sem que fossem pelos seus protagonistas (repito: PELOS SEUS!) e obviamente também pelos seus inimigos guerreadas e por fim destruídas, ficando nós num coro de acusações aos gulags e companhia (e eu aqui não sou “revisionista”, o gulag existiu mesmo).”, sem aparentemente se questionar sobre as consequências deste raciocínio.

    1ªpergunta: se todas as “tentativas emancipatórias” foram guerreadas inclusivamente pelos próprios protagonistas, porque é que havemos de acreditar que no futuro poderia ser diferente? O erro não estará mais na imprudência ou no holismo da teoria do que na acção dos protagonistas? Se só há um Carlos Vidal no mundo, como é que podemos evitar que todas as outras “tentativas emancipatórias” que a história nos reserva (foda-se!!) sejam alvo desse exercício que insinua ser lateral e secundário que é o tradicional “coro de acusações aos gulags e companhia”?

    2ªPergunta: Fossem quais fossem os resultados mas, com maioria de razão, face aos decorrentes da experiência comunista, não acha natural aquilo que com desprezo altivo classifica como “coro de acusações aos gulags e companhia”? Seremos todos imbecis ou o é o Carlos que é de tal modo paranóico que rejeita o valor epistemológico da experiência concreta como critério de validação moral de uma teoria? Somos nós que, por ignorância ou interesse, não compreendemos o devir ou é o Carlos que aceita o preço que for preciso em vidas humanas para o sucesso do seu projecto político (ou histórico, como o sr. acredita)?

    O Carlos acha que tem o direito de pedir aos milhões de pessoas que viviam a miséria e a decadência dos países comunistas para serem “instrumentos da história” com as suas vidas sacrificando-as ou alienando-as aos amanhãs que cantam?

    Porque é que o mundo haveria de dar o benefício da dúvida a uma ideologia cuja tradução histórica se saldou no agravar progressivo do descalabro económico e da tragédia humana sem outro resultado que não fosse a decadência humilhante da existência material e espiritual de milhões de pessoas?
    O Carlos consegue ver bem o que está a pedir?

    Pegue lá nos 80 anos que quiser desses 5 séculos de “sociedade burguesa” e diga-nos onde é que encontra qualquer coisa que se equipare, sequer, à tragédia comunista.

    Os comunistas são peritos em justificar os males próprios atribuindo-os aos outros e a primeira arma a que recorrem é esta: “e quantas pessoas já matou a sociedade burguesa?”. Em primeiro lugar, o recurso a esta contabilidade mórbida é muito sugestiva porque significa que têm consciência da dimensão da desgraça que defendem. O ponto importante na discussão, para eles, é fazer-nos sentir tão cúmplices quanto às desgraças do capitalismo quanto eles se sentem face às do comunismo. É um paliativo a que recorrem mais para justificarem as suas crenças à própria consciência do que a nós.

    E depois, quando fazem a contabilidade dos mortos da “sociedade burguesa” em comparação com os do comunismo, até as mortes por engasgamento são capazes de entrar para as contas, não vá às vezes o capitalismo ganhar por pouco.

    O capitalismo trouxe-nos até aqui, um tempo em que o Carlos pode até lutar pelo fim disto tudo. Este patamar da civilização poderá ter custado muitas vidas, admito, mas a história mostra que melhorou a vida de muitos e muitos milhões e não foi em 5 séculos; nalguns casos foi em bem menos décadas do que aquelas de que o comunismo precisou para matar milhões de pessoas, para destruir a Rússia e a roubar à civilização europeia – a troca de São Petersburgo por Leninegrado é a metonímia perfeita desse lamentável episódio. E falo da Rússia para dar só um exemplo.
    Nas sociedades burguesas não existe nenhuma autoridade que obrigue cada um de nós ao alinhamento político com a facção que controla o poder e o “monopólio da violência física” do estado; o único designio da sociedade onde vivemos é a liberdade e o pluralismo e não existem crimes de opinião nem punições previstas para “inimigos do povo” porque pura e simplesmente não se identifica o conjunto da comunidade política e da sociedade com a facção que a lidera; só a concepção do povo como uma massa homogénea e indiferenciada, isto é, só uma visão redutora do povo que não o entende como o conjunto de todos nós e das nossas diferenças, permite aquela qualificação idiota susceptível de todas as perversões e manipulações pelos ditadores de serviço.

  42. Justiniano diz:

    almajetcta!! É bem verdade!
    Com engenho, como diz o Vidal, para tudo. E se não ficar bem, emenda-se! Corta aqui, solda ali e depois logo se vê…a coisa é simples. E como a subjectividade também se emenda a perna não há-de ser obstáculo à cabeça, não se pode é atraiçoar a perfeição das maravilhas como já estava escrito. Parece evidente, não é!?

    Diogo, sem os mitos reduzimo-nos ao mais profundo vazio antropológico. Deixai-o, ao Vidal, com os seus mitos e suas tormentas.

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