A Queda do “Socialismo Real”

Passam agora vinte anos sobre a queda dos regimes ditatoriais que vigoraram nos países da Europa de Leste. Os acontecimentos mostraram que nesses países, apesar das grandes transformações e realizações democráticas revolucionárias de carácter económico, social e cultural, acabou por instaurar-se e instituir-se em determinadas circunstâncias históricas um “modelo” que violou características essenciais de uma sociedade socialista e se afastou, contrariou e afrontou aspectos essenciais dos ideais comunistas. Em vez do poder político do povo, um poder excessivamente centralizado nas mãos de uma burocracia, cada vez mais afastado da intervenção e vontade das massas e cada vez menos sujeito a mecanismos fiscalizadores da sua actuação. Em vez do aprofundamento da democracia política, a acentuação do carácter autoritário do Estado. Em vez de uma economia dinamizada pela propriedade social dos principais meios de produção, uma economia excessivamente estatizada desincentivando progressivamente o empenhamento dos trabalhadores e a produtividade. Em vez de um partido de funcionamento democrático, enraizado nas massas e delas recebendo energias revolucionárias, um centralismo burocrático baseado na imposição administrativa de decisões tanto no partido como no Estado, agravado pela fusão e confusão das funções do Estado e do partido. Em vez de uma teoria viva e criativa, a sua dogmatização e instrumentalização.

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35 respostas a A Queda do “Socialismo Real”

  1. Nós somos a Fábrica de Letras.
    Estamos a iniciar um projecto de blogagens colectivas.
    Pretendemos que os bloguers portugueses possam interagir e dar-se a conhecer.
    No dia 1 de cada mês, a Fábrica de Letras lançará um tema. Para participar basta escrever um texto sobre o tema proposto e inscrever-se no link que estará à disposição no blog, no dia 15 de cada mês.
    Podem ser usados textos,poemas, contos, fotos ou vídeos. Participa, divulga!

  2. Plagiador diz:

    Não pões aspas no texto, valentão das teclas? Estás a plagiar! E além do mais estas não são as tuas posições. És tontinho, és sem graça.

  3. djugashvili diz:

    …….e?Agora estão melhor?É isso que quer dizer?Liberdade para ir para o desemprego e dedicar-se à vodka e ser um empresário dos cogumelos como vi num desses paises libertados.Miséria em barda e,riqueza descomunal.Acumulação privada da riqueza socialmente produzida,é a amedida ‘justa’ para os altermundialistas?E que grande êxito deus meu, que a minha alma está parva e,parvos ou alucinados estão os os followers de ‘esquerda’de Obama….Preferia a burocracia do leste a esta merdunça,a este lodaçal e à proliferação das guerras-é um facto,sr!É um facto que as condiçoes de vida se tÊm regredido desde a queda da URSS-quem não vê isto é um(tótó).

    A solução é a construção duma sociedade SOCIALISTA e não súcialista!Boa tarde!!!

  4. renegade diz:

    Desculpe lá Plagiador, mas esta teve graça. Afinal nem era tão difícil responder à tal pergunta da tal jornalista, não é?

  5. Zé Neves diz:

    plagiador, para alguém que não assina com o seu próprio nome, estranho a súbita preocupação com os direitos de autor… vá lá, não se irrita, era só uma brincadeira

  6. Jose Manuel Vieira diz:

    ESPANTOSO !….
    Que alternativa de sociedade propões ? É esta em que vivemos ?

  7. capitão fernandes diz:

    Qualquer crítica, qualquer ilacção histórica, retirada da análise ao chamado “socialismo real” do Pacto de Varsóvia merece logo a mais encarniçada reacção dos revisionistas que aparecem a fazer as comparações do costume entre o actual sistema capitalista e sistema capitalista derrubado há 20 anos.
    Os podres revisionistas, pobres diabos, ainda não aprenderam a olhar para as semelhanças entre o que foi e o que é hoje o chamado “bloco de Leste” ou terão, concerteza, a maior vergonha em identificá-las. Afinal, elas são mais que muitas, desde a pujança da classe burguesa à silenciação da classe operária, passando pelas parcas condições de vida dos operários de então às pobres condições de vida dos trabalhadores de hoje.
    A defesa daquilo que significou a URSS é, hoje, para mim um mistério. Como é possível defender um “socialismo” que ruiu sem o menor gesto de defesa por parte dos trabalhadores? Que raio de “democracias populares” eram aquelas em que os mecanismos de governação do Estado começavam e acabavam num um único partido, muitas vezes fundado através da aglutinação de comunistas com social-democratas, partido esse que se situava lá muito em cima, longe do proletariado?
    O argumento de defesa dos nossos PCP’s é sempre o mesmo: “Gorbatchev, desvios, deturpações e Gorbatchev outra vez”. Mas não se dão ao trabalho, por sinal bem simples, de se questionarem como e porquê subiram esses Gorbatchevs ao topo da cadeia burocrática do “socialismo real”, ao longo de mais de 50 anos. Voltam os revisionistas atrás, lá admitem que afinal os maozinhos tinham razão em 60’s sobre o Krutchev, que afinal o Bigodes não merecia aquele tratamento traiçoeiro do tal relatório, etc e tal. Parece uma reflexão profunda, valorosa até, mas o facto é que não o é. Como puderam esses Nikitas da vida ascender na dita, sempre às costas do “pai dos povos”, a “sentinela de aço do socialismo”? Foi por artes mágicas com toda a certeza, como foi por um qualquer truque de ilusionismo que de um dia para o outro os PC’s de todo o Mundo venderam os operários a tudo o que era “patriota honrado” para em troca levarem uns quantos intelectuais e uns lugares nos governos pós-guerra, que afinal o senhor Marshall acabou por não deixar ter.
    As conclusões marxistas-leninistas da história da URSS e do Movimento Comunista Internacional no século XX já foram por alguns retiradas, estão por aí publicadas, mas para os revisionistas e seus comparsas maozões o falhanço está em todo o lado…menos nas suas próprias maluqueiras.

  8. pedro bala diz:

    O cinco dias tem piorado a uma velocidade espantosa. Incrível como a participação mais regular de dois ou três oportunistas – que se dedicam mais tempo a bater nos comunistas do que a combater o capitalismo – degrada de forma significativa um blogue.

  9. zé neves diz:

    pedro bala, não tem nada de substantivo a dizer sobre o post, pois não?

  10. xatoo diz:

    capitão fernandes disse:
    “o que significou a URSS é, hoje, para mim um mistério”
    “as conclusões marxistas-leninistas da história da URSS (…) estão por aí publicadas”
    em que ficamos? é um mistério?, ou vc leu e não aprendeu nada? ou não leu porque essas fontes (que não menciona) lá no seu íntimo lhe pareceram suspeitas?

    Zé Neves
    regra geral, salvo algum estudioso tresmalhado que por aqui caia (talvez o Pacheco Pereira, um dia… lol), ninguém tem nada a dizer de substantivo sobre as teorias base da luta de classes que já foram inventadas em devido tempo… Só para que perceba o tipo de material com que é suposto trabalhar no portugal das floribelas… essa agora do “nada substancial” fez-me lembrar a tal pergunta do jornalista americano ao Lenine: “e é com perto de 90 por cento de mujiques analfabetos que o senhor quer construir tudo isso?”

  11. Luis diz:

    «As conclusões marxistas-leninistas da história da URSS e do Movimento Comunista Internacional no século XX já foram por alguns retiradas, estão por aí publicadas » Ah! Por aí… pois é, por aqui é que nada se vê.

  12. pedro bala diz:

    Teria muito de substantivo a dizer. Mas não quero. Não quero porque quem quer que seja que me leia e contraste o que digo com o que o Zé Neves diz dar-lhe-á, à partida, sempre razão. Porque o que o Zé Neves diz dizem todos os jornais, rádios e televisões. Porque o que o Zé Neves diz dizem os professores desde o ensino básico ao ensino superior. Porque o que o Zé Neves diz dizem-no os filmes de Hollywood e os livros da moda. Sou eu e um grupo minoritário, pertencentes à classe maioritária, contra a extraordinária máquina de propaganda de uma classe minoritária. Coadjuvados por gente como o Zé Neves. Divirtam-se todos. E não se esqueçam de uma coisa: entre sociais-democratas, neoliberais e fascistas há sempre um inimigo comum, o comunismo. Quem é que abriu caminho ao fascismo na Europa e à II Guerra Mundial? Quem é que assinou o Pacto de Munique? Quem é que se aliou em Portugal para derrotar o projecto revolucionário? Quem é que faz blocos centrais em Espanha e aprova leis para ilegalizar partidos? Quem é que anda sempre com a ladaínha pacifista na ponta da língua para criminalizar as forças que usam a luta armada na América Latina contra o paramilitarismo fascista e imperialista? Quem é que em Portugal quer fazer quebrar o movimento sindical? Quem é que acredita na União Europeia e até defendia Constituições Europeias? Algumas perguntas soltas…

  13. Luis diz:

    Hoje, a Assembleia Geral da ONU aprovou com 187 a favor, 3 contra (USA, Israel e Paulau) e 2 abstenções (Micronesia e Ilhas Marshall) uma resolução expressando oposição global ao bloqueio económico dos USA contra Cuba, que foi introduzido em 1961.

    Esta é a 19ª vez que a ONU adoptou uma tal resolução que os USA nunca respeitaram.

    Apesar do mais brutal e prolongado bloqueio, Cuba socialista persiste.

  14. capitão fernandes diz:

    xatoo: para a próxima faça o favor de citar por inteiro a frase que eu escrevi, para evitar essas descontextualizações.

  15. Carlos Vidal diz:

    Já que pedes, zé neves, algo de substantivo sobre o post, posso dizer que a tua síntese está bem elaborada. Mas………..

    Não costumo fazer isto, mas repito um meu comentário antes colocado no meu post em baixo sobre a rejeição do “socialismo democrático” e do “capital-parlamentarismo”:

    « Gostaria de começar por clarificar alguns pontos no que concerne aos conceitos de democracia, liberdade de imprensa, espaço público, contextualizá-los melhor do que até aqui tenho lido (tentarei), retirá-los dos clichés da linguagem ética dominante, que vigora em paralelo com o poder económico que a determina em todos os aspectos, chamando a atenção para colegas contendores como o Miguel Serras Pereira, o Ricardo Noronha e o Zé Neves (estes dois directamente interpelados no meu post contrário ao socialismo democrático e, de certo modo, à “democracia”).
    O espaço público democrático burguês ganha a sua dimensão de existência possível e real consolidação desde a Iglaterra do século XVII (ver, por exemplo, o texto-chave desta história, o de Habermas de 1962, o “Transformação Estrutural da Esfera Pública”), desde o século XVII, dizia, até à Revolução Industrial, encontrando nós a “esfera pública” “democrática” sempre em desenvolvimento na companhia de várias etapas da progressão mercantilista e respectiva circulação e modo de produção de riqueza. Por alturas da Revolução Industrial aparecerão os mass-media, consolida-se urbanisticamente a praça pública como lugar de encontro e eventos, incluindo estes tipos conhecidos de democracia a manifestação “autorizada” e a imprensa, como disse, novas concepções de urbanismo (nem sempre liberalizantes ou libertadoras, basta pensar na Paris de Hausmann, urbanismo cerceador de lutas populares, nitidamente, facto bem estudado pela Internacional Situacionista), novo urbanismo a que juntaremos lugares como o café (ponto de encontro) e hoje as redes sociais e a internet.
    Ora, nisto tudo e apesar disto tudo, nunca (…) Castoriadis deixou de chamar à democracia uma “oligarquia liberal”; repito: OLIGARQUIA LIBERAL (aliás, um termo que, meu caro, vindo de quem vem, conhecerás bem melhor do que eu nas suas nuances e argumentação central). Estes espaços de discussão, protesto ou encontro são pois realidades muito recentes, como os descrevo e Habermas também, e é aqui que eu creio que deve entrar a nossa infinita capacidade de transformar e alargar estes tópicos e partir do princípio de que no capitalismo tardio tal é de todo impossível.
    Bom, não ficaremos por aqui – democracia e liberdade de imprensa tal como as conhecemos no momento – não ficaremos por aqui estabilizados, parados e fixados, sobretudo quando o actual estádio do capitalismo evidencia as suas consequências trágicas (pobreza e fome generalizada para quase todos e prosperidade para alguns pouquíssimos) e se apoderou da democracia tornando-a, como diria Badiou, um capital-parlamentarismo. O nosso momento pede respostas radicais e não um conformismo com as realidades e conquistas da civilização burguesa, porque esta há muito que deixou de ser “civilização” para ser barbárie, tal como a “sua” democracia (que eu dispenso – ou dispensamos??).
    Essas respostas radicais são consideradas o essencial da política – a fabricação do inédito, tal como a democracia burguesa destruiu os direitos de sangue da aristocracia; como tal, algo substituirá e nos fará emancipar-nos da democracia tal como oferecida pela “civilização” burguesa.
    E o “acontecimento” brota quando não se espera por ele.

    Entretanto (…) o poder consolidado (decadente, não?) e a referida sociedade burguesa tiveram mais de 5 (cinco!!) séculos para se afirmarem como realidades aparentemente “livres” e prósperas, enquanto as sociedades que enveredaram por tentativas emancipatórias praticamente nenhuma oportunidade tiveram sem que fossem pelos seus protagonistas (repito: PELOS SEUS!) e obviamente também pelos seus inimigos guerreadas e por fim destruídas, ficando nós num coro de acusações aos gulags e companhia (e eu aqui não sou “revisionista”, o gulag existiu mesmo). Dessas oportunidades nada mais há a destacar senão a Comuna de 1871, que durou tempo nenhum sendo brutalmente reprimida e massacrados os communards (trágica recordação para a qual contribuiu a invenção da fotografia, instrumento de denúncia, como o cinema nos seus primórdios, onde a encenação era inexistente). A repressão da Comuna deve fazer-nos olhar para a história soviética sem esse vosso masoquismo recriminatório, sendo de sublinhar que a esta sociedade não foram dados mais de 80 anos (o que é muito diferente dos 5 séculos de história burguesa) para mostrar o que “vale” ou “valia”. Houve violência militar e burocrática na URSS (Badiou acusa explicitamente o partido-Estado, ao mesmo tempo que, sobre o pós-URSS, fala de um país hoje a saldo ou a soldo e em proveito de bandos de criminosos, não nos esqueçamos!).
    Ora, como a actual Russia é um monstro ineficaz (ou eficaz para pouquíssimos) de estruturas piramidais e mafias sem lei, acho bem que debatamos a aventura soviética com cuidado conceptual e atenção, sem atirar de qualquer maneira pedras a uma experiência curta.
    Enfim, como Castoriadis chama às democracias “oligarquias liberais” e Badiou lhes chama de “capital parlamentarismo”, creio que de antemão não devemos celebrar a estrutura democrática tal como a conhecemos até hoje.
    Resumindo, por agora, já o disse: vejo o voto ou o chamado sufrágio universal muito mais como um colete de forças do que uma peça na tão desejada e necessária emancipação global. »

    Repeti-me em demasia??
    (Espero que não)

  16. renegade diz:

    Ah ah, esta caixa de comentários é uma delícia!
    😉

  17. alexandre coutinho diz:

    PURA E SIMPLESMENTE MAGNÍFICO ! JOSÉ NEVES A CITAR, LINHA POR LINHA E PALAVRA POR PALAVRA, PARTE DO PONTO 3. DO CAPÍTULO III DO PROGRAMA DO PCP.

    E QUE, GOSTEM OU NÃO GOSTEM ALGUNS, ESTÁ EM VIGOR E NÃO É SUBSTITUÍVEL NEM REVOGÁVEL POR NADA DE INFERIOR VALOR ESTATUTÁRIO !

  18. Luis diz:

    Ou como diz Georges Gastaud, em “Sair do Anticomunismo “Antitotalitarismo” Totalitário”:
    Seria cómico se não fosse tão grave para a liberdade de pensamento: é com efeito em nome do «anti-totalitarismo» (!) que, apesar de praticamente nunca terem o menor direito de resposta, os defensores do comunismo histórico, e mais genericamente todos os que continuam o combate de Babeuf e de Varlin, de Marx e de Lenine, de Manouchian e de Guevara, são inexoravelmente expostos no pelourinho pelos meios de comunicação do Partido Único Maastrichtiano, muito «laicamente» ajudados pela história oficial da escola «republicana»: concelebrada pelos pontífices da direita dura e da falsa esquerda, hipocritamente acolitada pelo coro incansável dos «comunistas arrependidos», a missa de gala azul-rosa-castanho do anticomunismo de jacto contínuo já bateu todos os recordes de anátemas e de excomunhões com que foram respectivamente baptizados pelos contra-revolucionários do seu tempo, Spartacus e os Gracos, Robespierre e Marat, Varlin e Louise Michel…”

    Ler o resto aqui: http://odiario.info/articulo.php?p=1350&more=1&c=1

  19. miguel serras pereira diz:

    Carlos Vidal, em tudo o que escrevi aqui tentei deixar bem claro que, quando falo de regime democrático em ligação com o projecto de autonomia, falo de uma alternativa às oligarquias liberais. O problema é que, nas sociedades por elas governadas, digamos que o “motor da história” sob a forma de movimentos sociais anti-hierárquicos e anti-classistas conquistou certos direitos e liberdades universais, impedindo a absolutização do poder do Estado e da redução da força de trabalho a mão de obra escrava. Aliás, se falo de cidadania governante, de auto-governo, de livre associação dos produtores, de igualização dos rendimentos, de democratização do mercado, etc., é para deixar bem claro que não considero democráticos os regimes existentes nesta parte do mundo.
    Ora, devia ser claro que não é minando ou renunciando às liberdades existentes, que as oligarquias dominantes visam tornar cada vez mais remanescentes e instrumentalizar ao serviço da sua dominação, que avançaremos grande coisa. Quem quer o mais quer o menos: a conquista da autonomia implica mais liberdades, mais liberdade política, e não menos. De resto, se não fossem as liberdades e direitos limitados que conquistámos, há muito que viveríamos, deixando a lógica capitalista pura e dura em roda livre, numa sociedade de escravos industriais. Castoriadis disse-o várias vezes e de várias maneiras. Sobre as liberdades e a autonomia dizia, por exemplo, poucos meses antes de morrer: “Temos um certo número de liberdades, que foram estabelecidas como produtos ou subprodutos das lutas revolucionárias do passado. Estas liberdades não são apenas formais (…) o facto de nos podermos reunir, dizer o que queremos, não é formal. Mas é parcial, é defensivo, é, por assim dizer, passivo”. Então, “como posso ser livre se vivo numa sociedade que é governada por uma lei que se impõe a todos? (…) Posso dizer que sou livre numa sociedade com leis, se tiver a possibilidade efectiva (e não só no papel) de participar na discussão, na deliberação e na formação das leis”.
    Compreende-se assim que sobre a URSS, a começar pelo nome, Castoriadis tenha escrito: “Quatro palavras, quatro mentiras: não é uma união, não é uma república, não é socialista, não é soviética”. No quadro do conflito central dos tempos modernos entre os pólos da vontade de autonomia e o da “expansão ilimitada das forças produtivas”, ou seja da dominação hierárquica “pseudo-racional” e da burocratização, o regime da URSS – resultante da contra-revolução que começou por suprimir a participação igualitária no exercício do poder através de conselhos e mandatários revogáveis, para monopolizar todos os poderes no Partido Bolchevique e nas esferas de cúpula do aparelho de Estado – foi um momento regressivo do ponto de vista da autonomia e da luta contra a sociedade de classes.
    Evocar a barbárie ébria da repressão que o sabre e o hissope exerceram sobre a Comuna para considerar “masoquismo recriminatório” a denúncia do regime estalinista é querer fazer pensar que a repressão na URSS era exercida pelos trabalhadores sobre os seus inimigos de classe, apesar de os trabalhadores não terem quaisquer poderes, estarem proibidos de discordar do “seu” Estado ou de gozarem de quaisquer garantias perante esse “seu” poder político e económico instaurado através da sua (deles, trabalhadores, e agora sem aspas no pronome) exclusão radical da actividade de governo da política e da economia.
    E quanto ao “masoquismo”, desta feita “masoquismo intelectual”, parece-me antes contagiar as tuas posições de defesa de regimes que, liminarmente, te impediriam de escrever o que escreves, discutir o que discutes, publicar como publicas, ainda que em sua (deles, desses regimes) defesa e celebração.
    Nota final: o facto de considerarmos uma regressão monstruosa os regimes do “socialismo real” não desculpa ou justifica a corrosão, em que as oligarquias liberais têm vindo a apostar com sinistra eficácia, das liberdades e direitos que os movimentos revolucionários e radicais do passado impuseram. Ou voltando a Castoriadis e à entrevista que há pouco citei (Parcours, les cahiers du GREP Midi-Pyrénées, nos 15-16, septembre 1997) :
    “(…) o que observamos desde há cinquenta anos é o triunfo da significação imaginária capitalista (…); e a atrofia e a evanescência da outra grande sinificação imaginária dos tempos modernos, quer dizer da autonomia”. Sendo assim – “Qual é o futuro deste projecto de autonomia? Essse futuro depende da actividade da enorme maioria dos seres humanos. Já não podemos falar em termos de uma classe privilegiada, que seria por exemplo o proletariado industrial, que se tornou, de longa data, muito minoritário na população. Podemos dizer, em contrapartida, que toda a população, excepto 3 por cento de privilegiados na cúpula, teria um interesse pessoal na transformação radical da sociedade em que vive. (…) parece-me certo que o dilema [‘socialismo ou barbárie’] que, retomando termos de Leão Trotski, de Rosa Luxemburgo e de Karl Marx, formulávamos no tempo de ‘Socialisme ou Barbarie’ continua a ser válido, na condição, evidentemente, de não confundirmos o socialismo com as monstruosidades totalitárias que transformaram a Rússia num campo de ruínas”.

    msp

  20. viana diz:

    A sugestão de Carlos Vidal de que a extensão da crítica a “experiências” político-sócio-económicas deve ser proporcional ao tempo de existência dessas “experiências”, de algum modo dando maior benefício da dúvida àquelas que menos tempo tiveram para se consolidar, é surreal. Segundo este raciocínio devíamos refrear fortemente qualquer crítica ao regime genocída de Pol Pot, que apenas se aguentou pouco mais de 3 anos no Poder. Quem sabe para o que poderia ter evoluído?!… Talvez hoje tivessemos um Cambodja muito agradável, rural, comunitário, quiçá mesmo comunista (na verdadeira acepção da palavra, imaginem como queiram), “uns poucos milhões de pessoas” a viver felizes (se amnésicos) num país com “muito espaço”. Os fins não justificam os meios, mesmo que os fins sejam efectivamente alcançados (o que nunca foi o caso). O presente (os meios) é tão, ou mais, importante que o futuro (os fins). Qualquer via de emançipação deve ser avaliada por tudo aquilo que dela resulta desde o momento em que começa a ser percorrida.

  21. B Aranda diz:

    Bom post.

    Ainda ontem,depois de ter passado os olhos pela blogosfera de esquerda, pensei no seguinte: Não há dúvida que um gajo diverte-se com certas coisas, mas preocupa-me que andemos tantos a perder tempo e energias a gladiar-se com a looney left. Por outro lado (e esta questão é um clássico), creio que não se vê este tipo de indigência na blogosfera de direita…

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  23. Carlos Vidal diz:

    É aliás aqui que se percebe logo que a frase não poderia ser do Zé Neves:

    “… nesses países, apesar das grandes transformações e realizações democráticas revolucionárias de carácter económico, social e cultural …”

    Quanto ao detournement (copiar, descontextualizar e recontextualizar) de tipo situacionista, foi boa ideia, sim senhor.

  24. Zé Neves diz:

    carlos, olha que não é aí que eu percebo que a frase não é minha… aí, depende do que estamos a falar. o conceito de transformações democráticas aplicado à história da URSS não me faz confusão. onde a propriedade é questionada (e acho que não o foi radicalmente, talvez seja esse o problema), a democracia tende a estar à espreita. a parte em que menos me revejo é na preocupação com a produtividade, “ora aí está”.
    abç

  25. viana diz:

    Mais um excelente comentário do miguel serras pereira com o qual concordo plenamente.
    Aproveito para deixar uma provocação: acho necessária a análise crítica das tentativas de implementação do socialismo no séc. XX, se não queremos repetir os mesmo erros; no entanto, também é necessária a análise crítica do que (não) foi conseguido pelos diversos movimentos autonomistas e anarquistas durante o séc. XX. Tanto se erra fazendo mal, como pouco conseguindo fazer.

  26. miguel serras pereira diz:

    Caro Viana, a questão é muito complicada. Ou muito simples? Não houve suficiente força na acção e na imaginação política para quebrar a preensão do imaginário capitalista e burocrático. O problema da autonomia é que não pode ser instaurada por estados-maiores, partidos, aparelhos de Estado, governos esclarecidos. O futuro da cidadania governante, regime político da sociedade autónoma, “essse futuro depende da actividade da enorme maioria dos seres humanos” – como dizia Castoriadis numa das passagens que citei há pouco. Os nossos concidadãos podem não querer, ou não querer suficientemente (tanto no que se refere à força da vontade dos interessados como à sua força “numérica”) a democracia. Combater o imaginário hierárquico, a “racionalidade” da economia dominante, a política especializada, científica ou profissional, são no campo das ideias coisas importantes. Nos outros planos, a proposta de formas de luta que prefigurem na organização dos que as protagonizam as assembleias ou conselhos da cidadania governante, o desenvolvimento de associações e actividades que se rejam por critérios e regras de participação igualitária, são o que podemos fazer. Não podemos antecipar de mais o que terá de ser, para ser a liberdade que queremos, inventado ou criado pela acção e interacção dos interessados. Mas, como dizia mais ou menos Castoriadis, a nossa acção política pode e deve ser uma vontade de autonomia que interpela a autonomia, pelo menos potencial (antecipada, pressuposta como possibilidade) dos outros habitantes da cidade.
    Cordialmente
    msp
    m

  27. Meu caro Zé, vivi, estudei e trabalhei no Leste Europeu, desde Brejnev a Putin cerca de 18 anos. Percebo muito bem o que dizes. Filha de comunistas, gente de bem e de coragem que dedicou a sua (e a nossa por tabela) vida à luta por uma sociedade mais justa, de cada vez que vinha a Portugal era considerada reaccionária por algumas das coisas que dizia. Desfiliei-me do partido, partido esse no qual continuo a votar, porque não tolero determinado tipo de procedimentos e atitudes. Só quem, apesar de tudo o que viu e viveu, não deixou de acreditar no essencial do socialismo e de ter a frontalidade, a verticalidade e a coragem de condenar o que é condenável quer se esteja à esquerda ou à direita seja do que for, só quem fica dividido e pasmado entre o que poderia ter sido, tão longe se foi nalgumas das vitórias, e o que foi, é que percebe do que estás a falar.

    Falhou o homem novo, sabes? Ainda não chegámos lá e o poder é algo de tão pernicioso que cega os mais lúcidos.

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  29. Niet diz:

    Seguimos mais este lance frenético,desejante e irresgatável onde surge, mais uma vez, a irrecuperável força teórica de Castoriadis, com a mediação superior e activa de M.S. Pereira na proposição e intelecção revolucionária. Justamente, acabo de ler uns textos de Baudrillard- no livro de 2001: ” Le ludique et le policier “-onde ele analisa Castoriadis e Kalivoda. Pergunto ao Miguel Serras Pereira o seguinte: O ” comunismo ascético, de sublimação e de esperança “, na formulação de Baudrillard, não será um avatar do marxismo e da dominação da ideia revolucionária pela lógica do Estado? Por que será que Castoriadis nunca analisou o pensamento e as contribuições de Bakounine,a tal propósito, preferindo as de Pannkoek?
    Sobre o sintagma abracadabrantesco das oligarquias democráticas liberais hodiernas, lanço esta tese de Castoriadis:” A construção dessa máquina( partido-Estado) para tomar de assalto o poder de Estado releva da dominação do imaginário de Estado. Mas faz parte também da forma de dominação do imaginário capitalista: tudo se passa como nós não nos soubessemos organizar de outra maneira. Foi pouco ventilado o facto de Lénine ter inventado o taylorismo quatro anos antes de Taylor. O livro de Taylor é de 1906,e o” Que fazer?”, é de 1902/03. E nele Lénine fala de divisão rigorosa das tarefas, com argumentos de pura eficácia instrumental; pode-se ler aí, por subentendido, a ideia da one best way. Não consegue minutar cada operação. Mas dedica-se a fabricar esse monstro, mistura de partido-exército, de um partido-Estado e de um partido-fábrica, que ele vai conseguir pôr de pé a partir de 1917 “. Niet

    • Seguimos mais este lance frenético,desejante e irresgatável onde surge, mais uma vez, a irrecuperável força teórica de Castoriadis, com a mediação superior e activa de M.S. Pereira na proposição e intelecção revolucionária. Justamente, acabo de ler uns textos de Baudrillard- no livro de 2001: ” Le ludique et le policier “-onde ele analisa Castoriadis e Kalivoda. Pergunto ao Miguel Serras Pereira o seguinte: O ” comunismo ascético, de sublimação e de esperança “, na formulação de Baudrillard, não será um avatar do marxismo e da dominação da ideia revolucionária pela lógica do Estado? Por que será que Castoriadis nunca analisou o pensamento e as contribuições de Bakounine,a tal propósito, preferindo as de Pannkoek?
      Sobre o sintagma abracadabrantesco das oligarquias democráticas liberais hodiernas, lanço esta tese de Castoriadis:” A construção dessa máquina( partido-Estado) para tomar de assalto o poder de Estado releva da dominação do imaginário de Estado. Mas faz parte também da forma de dominação do imaginário capitalista: tudo se passa como nós não nos soubessemos organizar de outra maneira. Foi pouco ventilado o facto de Lénine ter inventado o taylorismo quatro anos antes de Taylor. O livro de Taylor é de 1906,e o” Que fazer?”, é de 1902/03. E nele Lénine fala de divisão rigorosa das tarefas, com argumentos de pura eficácia instrumental; pode-se ler aí, por subentendido, a ideia da one best way. Não consegue minutar cada operação. Mas dedica-se a fabricar esse monstro, mistura de partido-exército, de um partido-Estado e de um partido-fábrica, que ele vai conseguir pôr de pé a partir de 1917 “. Niet

  30. miguel serras pereira diz:

    Caro Niet, não me parece que Baudrillard tenha lido bem Castoriadis, cujo pensamento da autonomia está nos antípodas das (para-)teologias da esperança e do messianismo (claro que a sociedade autónoma exige sujeitos capazes de sublimação, mas isso não a distingue particularmente: a construção e o funcionamento de Auschwitz, como ele próprio lembra a outro propósito, também pressupôs gente capaz de sublimar). Castoriadis pensa e insiste ao longo de toda a sua obra a partir da Instituição Imaginária da Sociedade (e mesmo antes) naquilo a que chama a criação do que antes não era (nem estava destinado a ser pelo que já era), o que comporta uma afirmação inequívoca do “acontecimento” e do “devir”. Mas nem a criação nem o acontecimento (aquilo que há, a partir por certo de condições necessárias, mas sem condições suficientes) são garantias salvíficas. E assim…
    Quanto à citação sobre a construção da “máquina” do Partido-Estado, vem bem a propósito do que aqui se tem discutido. E oxalá redesperte o interesse pelas análies da “sociedade burocrática” que atravessam toda a obra de Castoriadis (para além dos textos fundamentais que se podem encontrar nos dois volumes do mesmo nome, dos quais o primeiro tem uma edição portuguesa na Afrontamento).
    Avante pela Autonomia!
    msp

  31. Justiniano diz:

    pedro bala!!!
    “o que o Zé Neves diz dar-lhe-á, à partida, sempre razão. Porque o que o Zé Neves diz dizem todos os jornais, rádios e televisões. Porque o que o Zé Neves diz dizem os professores desde o ensino básico ao ensino superior. Porque o que o Zé Neves diz dizem-no os filmes de Hollywood e os livros da moda”
    Está correctíssimo, tão correcto como não sou capaz de lhe explicar mas tão mais correcto como desconfio que Vcmce se aperceba.
    O erro renitente e o erro penitente.

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  33. Meu caro Zé, vivi, estudei e trabalhei no Leste Europeu, desde Brejnev a Putin cerca de 18 anos. Percebo muito bem o que dizes. Filha de comunistas, gente de bem e de coragem que dedicou a sua (e a nossa por tabela) vida à luta por uma sociedade mais justa, de cada vez que vinha a Portugal era considerada reaccionária por algumas das coisas que dizia. Desfiliei-me do partido, partido esse no qual continuo a votar, porque não tolero determinado tipo de procedimentos e atitudes. Só quem, apesar de tudo o que viu e viveu, não deixou de acreditar no essencial do socialismo e de ter a frontalidade, a verticalidade e a coragem de condenar o que é condenável quer se esteja à esquerda ou à direita seja do que for, só quem fica dividido e pasmado entre o que poderia ter sido, tão longe se foi nalgumas das vitórias, e o que foi, é que percebe do que estás a falar.

    Falhou o homem novo, sabes? Ainda não chegámos lá e o poder é algo de tão pernicioso que cega os mais lúcidos.

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