Um livro para a Rita Rato ler no próximo natal

Quando foi publicado o Livro Negro do Comunismo, um conjunto de intelectuais, todos eles muito respeitáveis e competentes nos seus ofícios académicos, organizou uma resposta: o Livro Negro do Capitalismo. Compreendo a reacção. Mas nunca encheu as medidas. Continua a faltar um Livro Negro do Comunismo que seja escrito por comunistas. Um livro que talvez não opte pelo espírito subjacente à ideia de “Livro Negro”, um livro que talvez não chame comunismo ao que, por regra, se chama comunismo. Mas um livro que, sem dúvida, não se limite a chutar para canto os números e as desgraças – por vezes mal contabilizadas e tantas vezes pior contadas, é certo – que é possível encontrarmos plasmados no Livro Negro do Comunismo. Esse livro, que nos faz falta, não teria que ser, note-se, produto de investigações e trabalhos inéditos. Poderia e deveria ser uma antologia, juntando textos de autores tão diferentes como Trotsky, Lefebvre, Benjamin, Debord, Lefort, Tronti, etc. Porque a questão não é simplesmente a de permanecermos ou não fiéis ao passado comunista, mas sim a de sabermos a que passado comunista queremos permanecer fiéis. Os comunistas precisam de um livro que, não tendo o propósito de criminalizar a ideia comunista, também não se limite simplesmente a dizer que o ideal foi pervertido. Não creio que a ideia comunista saísse mais frágil de um processo de auto-crítica. Pelo contrário, ao recusar-se olhar criticamente para o passado das experiências comunistas, prescinde-se da primeira condição do comunismo. Afinal, dele é condição necessária o princípio de uma emancipação que só o será se for auto-emancipação e – não há volta a dar – não há auto-emancipação sem auto-crítica. Um livro destes era um livro que eu não me importava que me fosse oferecido no próximo natal. E acho que a Rita Rato também não se importaria que lhe fosse oferecido.

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14 respostas a Um livro para a Rita Rato ler no próximo natal

  1. zé do boné diz:

    -Pois claro… O Zé Neves , tem toda a razão – Os comunistas têm que fazer tal & qual a burguesia fez; para se emancipar, nada de Forcas, Guilhotinas, Revoluções Violentas nada de extermínios em massa de Povos, crimes , traições e desvios …Nada de Sangue …mesmo quando ele jorrou e jorra a rodos, foi sem querer…. Era, e é, “vinho tinto da Bairrada… “para saciar a sede ao senhor burguês, diga lá outra vez — Tudo Pó de Arroz, pensos quentes. Tal & qual. SARL
    -Ora vá lamber sabão, mais a sua demagogia barata.
    -Dizem-me que Rosa de Luxemburgo e seu companheiro foram assassinados, pelos chacais da burguesia: Por defender algo parecido: emancipação, tal e coiso…- Só que ela acreditava naquilo que defendia, até ou dia em que viu “a morte sair a rua.” Num dia assim… -Você Zezinho, não acredita peva do que apregoa!
    – Fá-lo por puro e simples ódio de classe. -Nada mais!
    “Dinheiro & Propriedade “ É Sangue! …É A GUERRA, É A GUERRA…

  2. Carlos Vidal diz:

    Boa ideia o livro.

    E, seguidamente, um mandado de captura para gente como Alain Badiou, Zizek, Bernard Stiegler, etc, que tal??

    (E, a título póstumo, que tal Althusser?; e porque não voltar a acusar Debord de ter assassinado Lebovici, etc, etc?? Relembrar o ódio inexplicável de Debord para com Lefebvre, as mão sujas de sangue de Trotsky em Cronstadt – ficarmos eternamente a repisar em tudo isto?, porque não?)

  3. MS diz:

    Zé Neves:
    “(…) não tendo o propósito de criminalizar *a ideia comunista* (…)”
    ” Não creio que *a ideia comunista* (…)”

    Existem diferentes *ideias comunistas* (algumas classificam o período soviético como ‘social-fascismo’ e dão este assunto por encerrado).

    Terá havido algum ‘concílio’ onde se cristalizou a Verdadeira *ideia comunista*?

  4. zé do boné diz:

    É pá o verdadeiro comunismo só existe no mundo dos ricos, eles partem e repartem e quando vão à falência.
    – O zé povo paga aos credores …se não tiver por onde pagar; paga na mesma, trabalhando de borla até à morte física, se não chegar para liquidar a conta, pagam os filhos do falecido se ainda não chegar pagarão os netos é a dança.
    Para quê? O comunismo, se o deles é que é bom.
    + meia centena para o olho da rua…. e, siga a dança !

  5. jesus diz:

    Já não tenho saco para estas ‘discussões’.Porque não rebate,p.ex. este estudo de Eugénio Rosa http://resistir.info/e_rosa/desigualdades_24out09.html ?

    Aqui é que se vê a tarimba do intelectual….
    Nenhum,mas nenhum escrevinhadores fala sobre o problema crescente da desigualdade em Poertugal.aliás,logo no inicio vem este país no pelotão da frente em 5º lugar juntinho com os americanos,israelitas,chineses(de Hong Kong) e de Singapura…..

    Basta de conversa barata!!!!E,de merda!
    Apoiam o fascista e narcotraficante de Uribe com galões inscritos em Langley e,desprezam as FARC que lutam contra a violência da oligarquia, como se a violência dos oprimidos fosse igual à dos opressores.Enfim……burgueses!Deixei de votar no BE,pour cause.

  6. rafael diz:

    aproveita e oferece um exemplar aos teus camaradas da RUPTURA/ FER e depois vê se existe algum capitulo sobre os crimes da ETA no país basco…

  7. zé neves diz:

    boné, tem razão, sou contra o extermínio de povos em massa. deve ser um desvio, de direita ou de esquerda ou do raio que o parta. mas olhe, não tenho nenhuma posição de princípio contra a violência. mas, para mim, violência não é apenas a violência do Estado – a que pode exterminar em massa e colocar pessoas na guilhotina.

    caro jesus, tem razão, eu não escrevo sobre as desigualdades em portugal. sou comunista mas sou internacionalista. a desigualdade é um fenómeno social qeu não deve ser recortado nacionalmente.

    caro carlos vidal, não falei nunca em mandados de captura. agora, também não acho que se deva parar em ponto algum a nossa reflexão crítica. estudar a crítica de trotsky a estaline, sim; estudar a crítica a trotsky pelas suas acções em Kronstad, igualmente sim. Não estou preocupado em proclamar a santidade de quem quer que seja.

    caro ms, tem razão.

    caro rafael, não enquadraria a eta na história do comunismo. quanto aos camaradas do ruptura-fer, ofereça-lhes você o livro, que me parece estar mais preocupado com eles.

  8. Verdasco diz:

    Zé Neves, que tal então contabilizar as desgraças e contá-las bem? Se tiverem sido menos alguns milhões, já valeu a pena, não?

    Já agora: um crime cometido pelo Partido Comunista da URSS é aceite pelo PCP, com quem tem laços e que professa a mesma ideia. Um crime cometido pelo “capitalismo” não é necessariamente aceite pelos partidos dos outros países capitalistas.

  9. pedro bala diz:

    Zé Neves, tu não és comunista. Tu és social-democrata. Assim como o Mário Soares nunca foi socialista mas um neo-liberal.

  10. Muengas diz:

    Oh Companheiro José Neves ( assim é mais suave, porque isso de camarada pode até ser considerado uma ofensa nos dias de hoje) não tinha qualquer necessidade de criar um labirinto para manifestar receio em assumir-se como comunista.
    Isto para dizer-lhe que todo aquele que se considera dotado de uma consciência moral digna de um ser racional, não deveria ter grande necessidade em recorrer a qualquer tipo de livro negro para se indignar e revoltar contra as desigualdades e injustiças criadas por este pântano social em que o mundo está mergulhado. Bastaria estar atento ao que se passa em seu redor e ter capacidade suficiente para reflectir uns breves segundos, imaginando-se no lugar da vítima.
    Porque ser-se comunista não é usurpar os bens de qualquer capitalista, embora este o tivesse feito de forma indigna à custa do trabalho alheio. Ser-se comunista é exigir uma repartição justa da riqueza produzida. É lutar para que à partida sejam dispensadas iguais condições de acesso ao ensino é à cultura para todos sem quaisquer excepções, porque só através do conhecimento o ser humano pode ser livre. Proporcionar o justo direito à saúde, à habitação, ao trabalho e aos demais bens sociais para que todos vivam com dignidade. Que haja respeito entre cada um de nós e pela natureza que juntos partilhamos. São estas as linhas mestras que inspiraram todos os grandes ideólogos humanistas, tanto os pré como pós Marx.
    Caro José Neves quem pode ficar insensível às esquadras da fome no Mediterrâneo e no Atlântico, onde morrem milhares de pobres anualmente, que o único desejo que aspiram é encontrar trabalho para matar a fome à família? Outras centenas de famintos Latino Americanos também perdem a vida todos os anos ao tentar entrar nos EUA. Organizam-se milícias particulares no deserto do Arizona para dar caça ao imigrante, com consentimento do governo. Constroem-se muros com milhares de kms, onde se gastam milhões em sistemas sofisticados de detecção.
    Mas neste mundo hipócrita ninguém tem coragem de levantar a voz contra estas crueldades, se alguém ousa faze-lo é de imediato abafado.
    No entanto continuamos a ser bombardeados impiedosamente com os “horrores” do Muro de Berlim que nos 27 anos de existência morreram 46 cidadãos. A maioria das vitimas foram alienadas com propaganda inspirada e orquestrada com interesses políticos.
    Caro José Neves diga-me para que serve toda a liberdade que é posta ao dispor de mais de mil milhões de semelhantes nossos, se eles nem têm a liberdade para dispor de uma refeição diária que lhes mate a fome? Em sentido oposto temos um pequeno grupo de privilegiados ( cerca de 400 mil) que controlam a seu belo prazer o sistema financeiro mundial?
    Qual o uso que podem fazer da sua liberdade os 600 milhões de Indianos que têm de rendimento diário menos de 1 €. Em contrapartida o 4º homem mais rico do mundo é precisamente Indiano!
    Qual o destino das colossais riquezas da Republica Democrática do Congo senão engordar ainda mais os grandes consórcios capitalistas.? Que com uma população igual à França, o OE de 2008 foi 200 vezes inferior, com fortes cortes na educação e na segurança social imposto pelo FMI.
    Para que servem os enormes recursos naturais de Angola? Para o povo Angolano não é! Se cerca de 80% vivem na miséria.
    Isto para todos os Josés Neves de qualquer área politica. Se se têm mantido atentos verificaram que depois da queda do comunismo, tem-se notado um aspecto muito curioso da parte daqueles que professam ser os maiores entusiastas defensores da liberdade democrática contra o totalitarismo, são precisamente esses que a coberto da defesa da liberdade mais têm feito diminuir essa mesma liberdade em todos os aspectos, em todos os domínios e por todo o lado.
    Sobre as acusações aos métodos de autoritarismo feitas à esquerda sempre que assume o controle do poder em qualquer parte, tem toda a razão de ser.
    Afinal qual é o papel que a esquerda deve assumir na sociedade? Não é acabar com as desigualdades, as injustiças sociais, a exclusão, a exploração e tudo quanto afecte um modo de vida harmonioso e equilibrado? . Então esses desequilíbrios não são fruto dessa mesma sociedade instituída (capitalismo) ela mesma geradora desses mesmos males?
    Portanto essa casta de privilegiados quando se vê desapossada dos seus interesses, reage, e por vezes de forma violenta, especialmente quando conta com apoios.
    Foi assim durante a revolução Bolchevique, foi assim na Guatemala, em Cuba, na Indonésia, no Congo, no Chile etc, etc.
    Hoje estão a reagir muito mal contra as mudanças na Venezuela, no Equador, na Bolívia, nas Honduras.
    Nas outras partes do mundo os pobres esses morrem com fome e em silêncio. Na medida em que é-lhes cortada a capacidade de se organizarem para exigirem os seus direitos, desvia-se-lhes a atenção para assuntos que nada têm a ver com os seus interesses.
    É assim nos bairros pobres de Lima, nas favelas do Brasil, nos guetos sociais da Europa, aos que vivem nos cemitérios do Cairo, por toda a África, por parte da Ásia e Oceânia .
    À juventude coloca-se-lhe droga ao dispor para mais facilmente destrui-lhes as capacidades de reivindicar.
    Estas vitimas podem morrer aos milhões porque são apenas números, não têm nome muito menos estatuto.
    No entanto qualquer membro das elites endinheiradas serve de notícia ao mais pequeno acontecimento.
    A esses que ainda elegem o comunismo (aquilo que existiu no Leste foi em parte uma perversão) mesmo assim coloco-lhe a questão. A grande maioria das populações da antiga URSS têm nos dias de hoje melhores condições de vida que tinham nessa altura? A resposta sem qualquer subterfúgio, é decididamente não! E agora já não têm condescendência por aqueles povos? Não deixa de ser estranho! Já não merecem qualquer tipo de solidariedade.
    O capitalismo sempre foi imoral em todos os tempos.
    Cumprimentos.

  11. Muengas diz:

    Quando digo apenas; “A esses que ainda elegem o comunismo (aquilo que existiu no Leste foi em parte uma perversão) mesmo assim colocolhe a questão”.

    Queria dizer; “A esses que ainda elegem o comunismo como inimigo principal (aquilo que existiu no Leste foi em parte uma perversão) mesmo assim coloco-lhes a questão”.
    obrigado

  12. Isabel Silva diz:

    Caro Zé Neves:
    Aguardo (como muitos outros, estou certa) a publicação desse livro.
    Vejo em ti, e em várias ideias que aqui expões a pessoa ideal para o fazeres! (para este natal já é apertado, mas porque não para o próximo?)
    Também eu sou comunista e há muito que procuro esse tal livro, que me bato com amigos organizados, a promover essa NECESSIDADE de auto-crítica porque “só a verdade é revolucionária” e por consequência, só com ela avançamos.
    Para mim não adianta relactivizar, parecemos uns garotos ao dizer que apesar de termos dado um pontapé, levámos dois murros. Só seremos efectivamente melhores quando assumirmos os nossos próprios erros, e não nos medirmos pelos dos outros!
    Aguardo em breve esse livro!

  13. zé do boné diz:

    -Pelos vistos o Zé Neves, não percebeu patavina.
    -Tinha de responder, mesmo correndo o risco de meter as mãos pelos pés e estes pelos membros superiores.

    Fantástico.

    -Sr. Zé Neves, ninguém o acusou de nada!
    Só queria chamar a sua atenção, outras revoluções … como chegaram ao poder.etc & tal – Se conhecer alguma na História da Humanidade, onde tudo foi paz e amor.
    Eu, agradecia a informação.

    PS.
    Mesmo que no Paraíso.

  14. rafael diz:

    Caro Zé,
    nao vejo porque nao enquadraria a ETA nesta sua análise visto que esta se denomina como organizaçao de libertaçao marxista-leninista. Ou apenas vê que a critica possa ser circunscrita aos crimes de estado? Para mim, crimes sao crimes, independentemente da forma de organizaçao dos seus executores.

    E as minhas preocupaçoes nao sao com a tendencia A ou B do Bloco. O que me preocupa na realidade é a rapidez com que tantos bloguistas bloquistas assumem o papel de ferreos defensores da liberdade e do “verdadeiro” socialismo.

    O que me preocupa é quao céleres têm sido os “aderentes” na blogosfera a criticar os seus camaradas de esquerda, a construir um largo processo de intençoes com vista ao assassinato politico de caracter de uma pessoa.

    O que me preocupa é o tom usado e a ambiguidade do Bloco numa série de situaçoes e aqui, utilizo o exemplo da ETA e da FER, porque sendo a RUPTURA/ FER uma tendencia do Bloco e, pelo que leio no seu site, apoiantes – implicitos ou explicitos – desta organizaçao terrorista, utilizando a tese de que a culpa dos atentados é das “provocaçoes do Governo espanhol”, parece-me que existe, no minimo, uma certa dose de hipocrisia moral nas criticas realizadas.

    Exactamente no sentido contrário, nao percebo porque é que o Bloco nao assume de forma explicita o seu apoio ao regime cubano. Lembro-me de num “corredor do poder”, a ana drago ter ficado caladinha, enquanto a margarida botelho (pcp) era atacada por defender o socialismo em Cuba. Pelo que sei, o “pai fundador” do Bloco ainda mantém relaçoes com a 4ª internacional ou, já nem isso? E a 4ª internacional expressa o seu apoio claro ao processo socialista em Cuba.

    O meu unico problema com o Bloco é a sua falta de definiçao programática e ideológica e a tentativa de apagar a sua existencia anterior, o seu passado e de se assumir como uma força anti-capitalista, mas sem ter a coragem de dizer ao que vem claramente…

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