Um livro para a Rita Rato ler no próximo natal
27 de Outubro de 2009 por Zé NevesQuando foi publicado o Livro Negro do Comunismo, um conjunto de intelectuais, todos eles muito respeitáveis e competentes nos seus ofícios académicos, organizou uma resposta: o Livro Negro do Capitalismo. Compreendo a reacção. Mas nunca encheu as medidas. Continua a faltar um Livro Negro do Comunismo que seja escrito por comunistas. Um livro que talvez não opte pelo espírito subjacente à ideia de “Livro Negro”, um livro que talvez não chame comunismo ao que, por regra, se chama comunismo. Mas um livro que, sem dúvida, não se limite a chutar para canto os números e as desgraças – por vezes mal contabilizadas e tantas vezes pior contadas, é certo – que é possível encontrarmos plasmados no Livro Negro do Comunismo. Esse livro, que nos faz falta, não teria que ser, note-se, produto de investigações e trabalhos inéditos. Poderia e deveria ser uma antologia, juntando textos de autores tão diferentes como Trotsky, Lefebvre, Benjamin, Debord, Lefort, Tronti, etc. Porque a questão não é simplesmente a de permanecermos ou não fiéis ao passado comunista, mas sim a de sabermos a que passado comunista queremos permanecer fiéis. Os comunistas precisam de um livro que, não tendo o propósito de criminalizar a ideia comunista, também não se limite simplesmente a dizer que o ideal foi pervertido. Não creio que a ideia comunista saísse mais frágil de um processo de auto-crítica. Pelo contrário, ao recusar-se olhar criticamente para o passado das experiências comunistas, prescinde-se da primeira condição do comunismo. Afinal, dele é condição necessária o princípio de uma emancipação que só o será se for auto-emancipação e – não há volta a dar – não há auto-emancipação sem auto-crítica. Um livro destes era um livro que eu não me importava que me fosse oferecido no próximo natal. E acho que a Rita Rato também não se importaria que lhe fosse oferecido.

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