Justiça para o padre de Covas do Barroso!

Parece-me que foi Nietzsche quem acusou os advogados de não terem talento para usar a beleza do crime em benefício do criminoso, e temo que no caso do padre-guerrilheiro de Covas do Barroso não venham a fazer-lhe justiça. Que estava destinado a grandes causas revela-o logo o nome: o padre Fernando Guerra tinha em casa um arsenal suficiente para libertar o planalto barrosão do jugo lisboeta ou, como prefere o bispo de Vila Real, para acabar com as perdizes de meia dúzia de coutos. O povo acusa-o de ser belicoso (há anos que o ouviam a disparar tiros do quintal a altas horas da noite), e a biografia sumária dos jornais não o desmente: diz-se que atacou à coronhada o coveiro de Covas (o casus belli não está suficientemente explicitado, mas parece que o homem tocou o sino antes do tempo), e que arrastava pleitos com a população de uma paróquia onde lhe recusavam os serviços. Há dois anos, foi atingido por tiros de caçadeira quando ia dizer missa a uma paróquia vizinha. Sobreviveu à cilada, mas foi agora miseravelmente caçado na sacristia de Covas do Barroso, uma aldeia com 300 almas. O local é determinante para a exegese do caso (um homem é ele e a sua geografia), como intuiu o jornalista do Público, que descreve assim a detenção:

“Covas do Barroso, no concelho de Boticas, é um desses sítios onde parece que o tempo parou: há um punhado de casas de pedra habitadas por pouco mais de trezentas pessoas e, tutelar, uma velha igreja românica, dedicada a Santa Maria, com um adro relvado e bucólico, rodeado de pinheiros, e uma antiga torre sineira no exterior. Foi aí, à chuva, que alguns militares da GNR tiveram que esperar pelo final da missa dominical de ontem para deter o padre da localidade, um homem de 74 anos que alegadamente se dedicava à venda ilegal de armas há cerca de três décadas. Para as cerca de quarenta pessoas que assistiam à eucaristia no templo onde está sepultado D. Afonso Anes de Barroso, escudeiro do primeiro duque de Bragança falecido em 1459, a cerimónia religiosa teve, assim, um final inesperado”.

O escudeiro de D. Afonso de Bragança, tanto quanto pude apurar usando as armas do jornalismo moderno (não vá, google), não é determinante para a história, mas o Público andou perto da chave do mistério, falhando-lhe apenas o monumento que falta, ali mesmo ao pé da igreja: as estátuas dos guerreiros lusitanos que ao longo dos séculos têm dividido e apaixonado os seus estudiosos, google dixit. Eram quatro, todas no Castro de Lesenho, vizinho da aldeia. Depois, não se sabe bem como, duas foram transportadas para Covas do Barroso, e ali ficaram até que, no séc. XVIII, um juiz da comarca as despachou para Lisboa: “Nessa época, em que felizmente para eles e não só, os Magistrados podiam dedicar-se à pacata exploração turística das zonas mais remotas das respectivas comarcas, o Dr. Barros interessou-se pelas duas estátuas, achando que no local onde as viu, a praça fronteira à igreja paroquial [de Covas], não lhes era dado o devido valor. Achou ainda que a comunidade culta da capital as apreciaria melhor, pelo que, usando prerrogativas de que hoje não disporia, mandou que os dois ‘guerreiros’ fossem expedidos para Lisboa.” 

As armas e o atavio das esculturas, hoje parte do espólio do Museu Nacional de Arqueologia, denotam origem céltica, afirmam os especialistas, para quem as estátuas representariam “a imagem da divindade e o carácter guerreiro das civilizações castrejas”, sendo, com forte probabilidade, “uma manifestação do culto a Ogme, o deus da guerra”. Ao ler isto, percebi tudo: pode tirar-se a estátua-guerreira da terra, mas não o seu espírito, como confirmam os eventos de domingo. Que o móbil do padre fosse o baixo comércio, como acusam alguns, não pode servir para desqualificar os seus actos num século em que escasseiam as grandes causas e já não há romanos para combater: o espírito de resistência está lá, o amor à peleja também, o respeito pelas leis por que se rege o Reino Maravilhoso, idem: Torga dizia que “o homem primitivo que nunca se resignara dentro [dele] só vinha à tona em toda a sua plenitude de cartucheira à cinta”; o padre Guerra leva a cinta farta de cartuchos e o ombro carregado de armas. Estas pistas parecem-me determinantes para esclarecer, se não o móbil do crime, pelo menos a psicologia do alegado criminoso, cujo livre arbítrio poderá ter sido severamente limitado pelos deuses. Felizmente eles não dormem e os cidadãos também não: na caixa de comentários do Público já se reivindica para o pároco o epíteto de “mártir transmontano”, lançando a ideia de um movimento de libertação que o reconheça enfim como herdeiro da antiga linhagem dos guerreiros barrosões.

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3 respostas a Justiça para o padre de Covas do Barroso!

  1. Raul diz:

    O que eu ainda não percebi é o que é que o pobre do padre fez? Estava a vender armas? Foi apanhado com a boca na botija? Alguém se chibou?

    E agora quem é que o vai substituir? Se ele já vende armas à mais de uma década e nunca ninguém fez nada, porquê só agora?

    Estas histórias têm sempre mais por trás do que aquilo que alguns jornalistas escrevem. Ouvem daqui, ouvem dali e escrevem uma história mais ou menos coerente. Quem lê não tem dúvidas se tinha armas e as vendia ilegalmente deve ser detido. E os que compraram as armas ilegais, quem são? Com esses ninguém se preocupa, não davam uma boa história e portanto não vendiam jornais.

    Gostei do post Morgada, vejo que por devaneios históricos conseguiu transmitir a mensagem, melhor que o jornal que a inspirou.

  2. capitão fernandes diz:

    quase aposto que essas armas foram-lhe entregues pelos fachos do ELP, a mando do Spínola.

  3. daniel diz:

    Nao é normal que deixem un terrorista assim a liberdade.
    Essas pessoas que acodem por ele devem de ser iguais.
    Tem que aver uma justiça.
    Porque é que se fosse uma outra pessoa jà estava na cadeia e nao o padre?

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