Crónica de um linchamento

Estou um pouco farto da polémica do Gulag. Sempre que aparece uma cara nova do PCP, a amável comunicação social pergunta-lhe pelo Gulag a Coreia do Norte e a China. Não consta que a Rita Rato tenha mais de 100 anos, seja norte-coreana ou que tenha estado no Congresso do PS; a que assistiu, salvo erro, uma delegação de alto nível do, auto-denominado, Partido Comunista da China. É interessante que não me lembro que perguntem aos novos dirigentes dos partidos “burgueses” algum facto sobre os inúmeros crimes do capitalismo. Limitam-se a colocar as perguntas do dia. Provavelmente, porque os jornalistas de turno não acreditam que as guerras do Vietname, da Argélia, do Iraque, o golpe de Estado de Pinochet, entre muitos acontecimentos históricos, tenham sido crimes. Bem espremidinho, até vão dizer que o Pinochet melhorou a economia e derrubou o perigosamente totalitário e marxista Allende.
Dito isto, tenho para mim claro que a China é um regime ditatorial e capitalista, que a Coreia do Norte é uma farsa e que as primeiras vítimas do estalinismo foram os próprios comunistas, acho até que temos o dever de ser críticos das várias experiências que se reivindicaram socialistas, mas isso não me faz ser cumplice do”fuzilamento” mediático da Rita Rato. A nova deputada do PCP podia ter respondido melhor? podia, mas isso não a torna adepta do Gulag.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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48 respostas a Crónica de um linchamento

  1. Miguel Botelho diz:

    “Sempre que aparece uma cara nova do PCP, a amável comunicação social pergunta-lhe pelo Gulag a Coreia do Norte e a China.”

    – É lógico, porque a actual comunicação social está nas mãos dos grandes grupos económicos.

    “É interessante que não me lembro que perguntem aos novos dirigentes dos partidos “burgueses” algum facto sobre os inúmeros crimes do capitalismo.”

    – É também lógico, porque os actuais partidos burgueses são representantes do capitalismo.

    “(…)e que as primeiras vítimas do estalinismo foram os próprios comunistas”

    – Vítimas do estalinismo? Onde é que eu já ouvi isto?

  2. Luis diz:

    “tenho para mim claro que a China é um regime ditatorial e capitalista, que a Coreia do Norte é uma farsa” ??

    Para mim são dois países asiáticos. E consultando a Wikipédia fica-se a saber que a República Popular da China é o terceiro maior país do mundo em área e o mais populoso do planeta (tem mais de 1,32 bilião de habitantes), ocupando uma parte considerável da Ásia Oriental. E onde o Partido Comunista da China (PCC) detém desde 1949 o monopólio sobre o poder, existindo porém outros partidos políticos no país, não sendo portanto um estado de partido único.

    Já quando à Coreia do Norte, oficialmente República Democrática Popular da Coreia, é um país do Leste Asiático que ocupa a metade norte da Península da Coreia. É um Estado unipartidário sob uma frente liderada pelo Partido dos Trabalhadores da Coreia . É oficialmente uma república socialista e tem cerca de 24 milhões de habitantes.

  3. carla diz:

    Subscrevo a 100%.
    É isso mesmo, fica tudo dito.

  4. Santiago Macias diz:

    BRAAAVOOOOOOOO! (ler sff com a entoação de quem acaba de assistir a uma grande ária de ópera)

  5. ezequiel diz:

    Linchamento?? cos diabos. toda a gente tem direito a um momento de ofuscação cerebral. a Rita que seja esperta. aproveite a atenção mediatica e demonstre que sabe o que foi o gulag e até pode nos encantar com a sua sagacidade…pronto!!

    concordo, Nuno. a honestidade fica-te muito bem. e o que dizes é verdade: as primeiras vitimas dos pogroms de Estaline foram os comunistas “desviantes” e os judeus. o carroceiro da Georgia n gostava de intelectuais.

  6. miguel serras pereira diz:

    Caro Nuno,
    duplamente certeiro, o seu comentário, ao lembrar 1. que não podemos esquecer que foram os revolucionários e ex-revolucionários – juntamente, deve acrescentar-se, com uma enorme massa de elementos das classes populares sobre-exploradas – os principais alvos do terror estalinista, e 2. que não podemos combater a opressão estalinista (passe a simplificação) ou o “terrorismo islâmico” sem combatermos igualmente a dominação imperialista, as ditaduras latino-americanas, os que, nos USA e um pouco por toda a Europa e em Israel, estão apostados em restringir o legado de direitos e liberdades secularmente conquistados por diferentes movimentos sociais que temperam a dominação política e económica das respectivas oligarquias.
    No entanto, não basta – e creio que concordará comigo – não sermos adeptos do Gulag; o combate contra a dominação política dos aparelhos de Estado e de gestão da economia exige que sejamos, no mínimo, seus adversários incondicionais. Saudações republicanas
    msp

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caríssimo Miguel Serras Pereira,
    É sempre um prazer lê-lo. Estou de acordo consigo.

    Abraço

  8. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Luís,
    Você é muito divertido.

  9. LAM diz:

    Completa e absolutamente de acordo, Nuno. Já não há saco que aguente.
    Posto isto uma, “uminha” observação: foram os supostos camaradas da Rita que deram pano para tanta vela. A começar pelo experiente Vitor Dias que na ânsia de defender-uma-Rita-que-ninguém-até-então-sabia-quem-era meteu os pés pelas mãos tornando pior a emenda do que o cianeto. Estar calado nas alturas certas é uma virtude.

  10. RMD diz:

    O serras pereira é o guru aqui do sítio, é?

  11. vítor dias diz:

    Já agora se isso não ofender o vezo doutoral de LAM,e para aprender, gostava de saber duas coisas : uma é em que é que meti os pés pelas mãos e outra qual é a passagem do meu «post» em «o tempo das cerejas» que pode ser considerada uma defesa da Rita Rato.

  12. antónio diz:

    Jezzuzzz Khristo, se por acaso existires e essas merdas, anda cá abaixo ver uma data de gajos entretidos com uma espécie de anedotário àcerca do próprio umbigo…

    Até tu Brutus, perdão, Nuno ??

    🙂

  13. Luis diz:

    Nuno: Mas que a China, Coreia do Norte e outros (Cuba, Irão, Rússia, Síria, Sudão e mais uns outros) estão na 1ª linha da agenda diabolizadora dos States estão, certo? Ajudar ao peditório, para quê? Não acho nada inocente alinhar no coro. Eu não alinho.

  14. A nova deputada do PCP podia ter respondido melhor? podia, mas não era a mesma coisa

  15. antónimo diz:

    LAM, Não é emenda e cianeto.Com emenda usa-se soneto mas com cianeto usa-se amêndoa.

  16. Luis diz:

    Todos nós podemos fazer qualquer coisa melhor.

  17. rui david diz:

    Ninguém melhor do que tu, luís.

    Ainda bem que já toda a gente está farta da polémica do gulag.
    A manifestação deste enfartamento sempre dá para mais umas linhas, posts, comentários…

  18. JC diz:

    Eu não tenho mais de cem anos, não sou Norte-Coreano, nem Chinês nem sequer Russo ou Alemão, e sei o que era o Gulag, Auschwitz, Treblinka, o Tarrafal, sei quem foram Stalin e Mao Zedong, Hoess e Salazar, Cunhal e Franco. E sei que a Coreia do Norte NÃO é uma Democracia, coisa que o camarada Bernardino desconhecia há poucos anos e razão pela qual as novas caras do PC sejam submetidas a tão injusto escrutínio. Este é o tipo de erro que não tenho memória de um porta-voz de um dos ditos partidos de direita ter cometido em directo e a cores. E o camarada Bernardino é um sujeito novo, ainda não chegou aos quarenta… É a vida. Mas agora a sério… Os regimes Fascistas acabaram na Europa em meados da década de setenta (em Portugal com o 25 de Abril, data que seguramente a camarada Rita celebrará desde pequenina, esperamos que saiba o seu significado), a queda dos regimes Comunistas ocorreu na década de noventa, quase vinte anos depois… A Camarada Rita não é de todo obrigada a saber o que é o Gulag (mas à Deputada Rita Rato fica muito mal tamanha ignorância), como se costuma dizer, quem não reconhece um erro está condenado a repeti-lo. Sendo uma Deputada da Nação, seremos nós contribuintes a pagá-los.

  19. antónio diz:

    Gostava de clarificar:

    O post do Nuno R.A. é muito bom, o assunto é que já tresanda.

    A senhora dona gajinha tem um nome horroroso, isso já devia ser punição suficiente para as suas/dela… insuficiências.

    🙂

  20. pedro pousada diz:

    Vocês tem uma imagem opaca e maniqueísta do que foram os anos trinta na União Soviética; lamento que partidários do socialismo continuem a usar a linguagem construída pelos inimigos do socialismo real (que não se afundou mas foi afogado); o estalinismo é uma expressão arruaceira que só serve para ocultar os factos históricos e criminalizar os que continuam a questionar-se sobre esse período complexo e trágico da história soviética e a reconhecer que a linha seguida por Estaline era a única que podia salvar (como salvou em 1943) a União Soviética.Sim houve terror (desde quando não existiu terror em todos os processos revolucionários a sério?) mas ele não foi irracional mas direccionado, foi uma violência defensiva mas nem foi infundada nem criminosa. Nos finais da década de trinta corrigiram-se e reabilitaram-se milhares de membros do partido e do exército que tinham sido enviados para o Gulag. Sim cometeram-se erros, muitos comunistas foram injustamente encarcerados e fuzilados mas é necessário ver a que ponto a União Soviética estava ameaçada e a que nível a luta de classes se tinha exacerbado-espreitem o mapa da europa desse período, vejam a quem pertencia a ucrânia ocidental e a bielorussia, vejam quem cobiçava as terras negras da ucrânia, quem eram os finciadores dos nacionalistas ucranianos). Dei-me ao trabalho de ler as declarações de Bukharin nos processos de Moscovo, onde se fala da traição de Iagoda, chefe da Tcheka,do assassinato de Maxim Gorki e de Kirov, do golpismo dos partidários da linha defendida por Trotsky (se alguém julga que por ter sido exilado ele desistiu de recuperar a sua influência no PCR (B), desenganem-se) e da convergência conspirativa entre a ala direita dos bolcheviques e o candidato a Bonaparte, Toukhatchevsky e os seus aliados do grupo ocidental do Exército Vermelho. Os nazis esfregavam as mãos de contentes (assim como o nazi britânico e colaborador de Churchill, Lord halifax) ante a perspectiva de uma traição mortal em Moscovo-vejam o que Goebbels escreveu nos seus diários, Hitler aguardava boas novas quando foi surpreendido pela eliminação da quinta coluna anti soviética no exército vermelho. Porque será que em 1941 na União Soviética não houve oposição à linha do Partido nem derrotismo quando comparamos com a França de 1940, ou a Dianamarca, a Hungria, a Jugoslavia, etc? (continua…)

  21. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Fantástico. As “confissões” dos condenados dos processos de Moscovo passaram a ser verdadeiras. Os membros das Brigadas Internacionais fuzilados quando iam para Moscovo. Os velhos bolcheviques assassinados. Tudo isto é uma invenção. Eles eram certamente espiões a soldo das várias potências burguesas. Mesmo as conclusões do PCUS sobre o estalinismo e os seus crimes, eram uma invenção ou pior o Krutchov eram um agente infiltrado no partido . O próprio PCP que criticou o estalinismo devia estar a soldo da CIA. Engraçado, estive 23 anos no PCP, desde os meus 15 anos , nunca reparei na existência de uma corrente estalinista, foi preciso o Álvaro Cunhal morrer, para alguns passarem a debitar opiniões dignas do MRPP.

  22. pedro pousada diz:

    Quando tentamos tornar timidamente pública a análise de materiais quase totalmente ignorados e repor à devida luz, numa perspectiva nova a história soviética dos anos 30 e o papel que Stáline desempenhou nela, descobrimos que a opinião dominante só aceita que se ponha em causa as ideias adquiridas dentro de limites muito mais estreitos do que teríamos pensado (…). A imagem tradicional do fenómeno stalinista é na realidade tão poderosa, e os juízos de valor políticos e ideológicos subjacentes são de um carácter «de tal modo emocional, que qualquer tentativa para a corrigir tem quase inevitavelmente de aparecer como uma tomada de posição em relação às normas geralmente aceites que ela implica (…).
    Insistir em mostrar que a representação tradicional da época stalinista é, em muitos aspectos, fortemente inexacta, equivale assim a desafiar de forma desesperada não só os esquemas consagrados segundo os quais é conveniente pensar as realidades soviéticas mas também as práticas linguísticas mais comuns. (…) O que pode justificar uma investigação deste género é, antes de mais, a extrema inconsistência da literatura consagrada a um dos fenómenos considerados como maiores pela vulgata histórica, a “grande purga” dos anos 1936-38. Apesar das aparências, haverá poucos períodos da história soviética que tenham sido estudados de forma tão superficial.
    In Gabor Tamas Rittersporn, simplifications staliniennes et complications soviétiques, Paris: Èditions des archives Contemporaines, 1988, p.39. (este historiador húngaro assume-se como anti-comunista)

    Caro Nuno estou desde os meus 18 anos no PCP por minha própria iniciativa, não fui recrutado, e passados 21 anos ainda não encontrei razões (nem as vou) para abandonar esta organização por muitos amargos de boca ou desilusões que tivesse pelo caminho. Não sei se sabes mas um dos fundadores do PCP tornou-se na década de 30 secretário-geral da União Nacional e há uma história abundante de traições no P.C.P por isso a questão dos velhos bolcheviques é muito relativa. Nas revoluções a idade não é um posto assim como as deslealdades e o oportunismo são situações a que todos os seres humanos são permeáveis, mesmo os mais dedicados revolucionários (e lembro-me de alguns de punho erguido, os tais que votaram contra a retirada da expressão Ditadura do Proletariado do programa do PCP, que agora satelizam o bloco central). Quanto à comparação das minhas palavras com as teses do MRPP só revela que tens dificuldade em discutir. Falta-te dialéctica. E não sou estalinista mas “sou partidário e defensor do socialismo real”.
    Assim gostaria que soubessem que até há bem pouco tempo (há uns seis meses..mas já ando a amadurecer estas ideias há quatro anos) era um adversário empedernido de Estaline, considerava que ele tinha feito o seu Thermidor, destruído a velha guarda leninista, criado um novo partido sobre os escombros do partido dos veteranos da Guerra Civil, enfim pertencia ao clube dos que achavam que ele tinha demolido as esperanças de um verdadeiro Estado Operário-Camponês, que eles, os comunistas soviéticos (e notem bem que eu colocava no mesmo saco os verdadeiros comunistas soviéticos e os sociais-democratas soviéticos, estes últimos adeptos da coexistência pacífica, da despolitização do exército vermelho, do Konsomol, do enfraquecimento das células do partido nas empresas, enfim, os verdadeiros criadores, desde a tomada do poder no interior do PCUS pela linha revisionista de Krutchov, do Marxismo-Leninismo como Ideologia de Estado), que eles, tinham feito as coisas mal, que a economia planificada era obsoleta e incorrigível, etc. Achava, também, que no futuro outros saberiam superar a experiência do socialismo real.
    Quando saiu a tradução portuguesa do Século Soviético de Moshe Lewin devorei-o de fio a pavio, li e reli as páginas mais importantes; e foi ai que se produziu o clique (para desgraça de M.Lewin que, pelo que entendi das suas análises, não esconde as suas simpatias por Trotsky). Primeiro desagradou-me, pareceu-me grosseira e demasiado fácil a caracterização de Estaline como intelectualmente inferior aos apóstolos da velha guarda leninista; menos culto, menos informado sobre a realidade do mundo exterior, um bolchevique que nunca saiu das fronteiras do Império russo, um homem de acção paroquial sem grandes desempenhos teóricos; enfim, um nulo cheio de paranóias, de sentimentos de inferioridade, de frustrações, de instintos mafiosos, etc. Essa caracterização diminutiva não explicava os êxitos, reconhecidos, reais, concretos da sua liderança no período de 1930-1940 (êxitos que salvaram a União Soviética do colapso diante do aparelho económico-militar alemão), os avanços qualitativos na vida dos soviéticos pelos dois planos quinquenais que precederam a invasão da União Soviética; essa imagem do dirigente inculto não explicava que este mesmo líder se debruçasse (com opções erradas na minha opinião) sobre a questão artística, sobre a questão cultural, sobre o tema do urbanismo, etc), que na sua biblioteca pessoal se encontrasse material bibliográfico dos mais variados temas; que o mesmo Belzebu georgiano combatesse o anti-semitismo e chauvinismo grã-russo, que refreasse o entusiasmo kholkosiano e advertisse para os perigos e para o anti-leninismo da colectivização forçada, dirigida verticalmente; que acabasse por admitir e corrigir os erros cometidos com a repressão de 1937 (Não foi Rokossowsky, o estratega da operação Bagration que despedaçou em definitivo as ambições militares nazis a leste, a maior derrota militar alemã no teatro europeu, ainda mais fatal que Estalinegrado e Kursk, não foi ele um desses reabilitados do Gulag e não foi ele quem recusou, no famoso XX Congresso, participar na mascarada que Krutchov estava a cozinhar?); o boneco desenhado por Lewin não me explicava como a organização militar daquele Estado tinha conseguido sobreviver após a terrível purga de 1937; se Estaline tinha dado cabo do Exército Vermelho como é que se explicava que desde a primeira hora, (e apesar do efeito de choque de 5 milhões de homens armados e de uma imensa força motorizada, balística e aérea funcionarem como um gigantesco soco nas cidades fronteiriças soviéticas e nas capitais da Bielorrússia e da Ucrânia), as tropas soviéticas, que os guardas fronteiriços, que praças-fortes como Brest, ripostassem, reagissem, dessem luta de morte, tentassem contra-atacar e quebrar o cerco quando a disparidade na relação entre as suas tropas e as dos ocupantes eram altamente desfavoráveis para os soviéticos; quando foram derrotados em Moscovo os Nazis já tinham sofrido mais de cem mil baixas, as coisas já estavam a correr mal desde o Verão, as industriais fundamentais (leiam o testemunho de um condutor de Panzers, Henry Metelmann, veterano de Estalinegrado e mais tarde militante comunista no P.C. da Grã Bretanha, procurem no Google) tinham sido evacuadas; os recuos soviéticos eram coordenados e a capacidade de repor o material perdido pelas forças em retirada estava intacta; os planos do Estado-Maior Alemão previam que as forças terrestres tivessem conquistado Moscovo e chegado aos Urais muito antes do Inverno chegar, no verão de 1942 deveriam estar nas fronteiras da Índia; ou seja ao contrário de 1940 este não foi um passeio no parque. Isto são sintomas de umas forças armadas decrépitas, mal armadas (E as espingardas anti-tanque? Ou as Tommy guns soviéticas? Os T34, os aviões, os Mikoyan, os Kornilov, e os milhões de toneladas de aço donde vinham eles!? Do planeta Marte?) e de um comando militar acéfalo e desconexo? Ou de um dirigente imobilizado pelo pânico? E se, como argumentam os mitógrafos do Holodomor, os nacionais-fascistas ucranianos, o campesinato ucraniano, aliás toda a população, odiava o poder soviético como se explicam os cento e cinquenta mil partisans ucranianos, muitos deles ainda hoje sobreviventes e orgulhosos do seu inestimável contributo para salvar a União Soviética?
    O contributo de Moshe Lewin não me satisfez e foi logo ao princípio que detectei a minha inconformidade com a sua proposta de análise; é quando ele compara a defunta (e para mim saudosa) U.R.S.S. com a estação orbital Mir, e refere-se aos inúmeros problemas técnicos que a estação sofreu desde os seus primeiros meses de vida; as correcções, os acidentes, etc; a coqueluche da economia planificada era uma metáfora para os insucessos do primeiro Estado Operário (que de facto só teve o carácter sistemático e estruturado de um Estado moderno com Estaline). Hoje sabemos com os desaires mortíferos dos hollywoodescos space shuttles que o Programa espacial soviético seguiu a linha correcta, que a economia planificada demonstrou a sua superioridade na definição das orientações para o desenvolvimento da presença do homem no espaço. A queda da Mir no Oceano não foi patética mas o fim lógico de uma materialização complexa de conhecimentos, de um ensaio pioneiro que ajudou a espécie humana a superar uma etapa, a aprender a preservar-se e a prolongar-se no espaço sideral. Como metáfora para as dores e tragédias do socialismo real tem um efeito de ricochete pois demonstra, isso sim, que há ali muito de positivo para a aprender, e que o socialismo real é uma lição mal estudada (e nesse aspecto a tua linha de pensamento é a de um mau estudante…e se julgas que as potências burguesas não tinha os seus agentes anti-soviéticos então, para além disso és um ingénuo).
    Depois de Lewin lá fui espreitar o que escreveram Volkogonov, Montefiore (que cumprem bem o papel de agentes fúnebres do socialismo, seja ele qual for). Foi por casualidade, enquanto indagava sobre a resistência comunista na França ocupada (que está, agora, a ser revista em baixa, o brevet de resistente aos comunistas franceses de 1940 já é posto em causa e o seu papel caluniado), foi aí que descobri o material de investigação produzido por Annie Lacroix-Riz sobre o mito anti-soviético do Holodomor, as purgas de 1936-38, as traições reais (e não fictícias) de militares soviéticos na Guerra Civil Espanhola, os processos de Moscovo (quem é que decidiu que as actas são fabricações?) depois li Jean Salem, Serguei Kara-Murza, Richard Kossolapov, Vladimir Suchodoiev e Boris Soloiev, Ludo Martens, Kurt Gossweiller, Roger Keeran e Thomas Keeny. Foi, portanto, depois de muita reflexão que me vi obrigado a corrigir a análise que produzira sobre Estaline e sobretudo sobre a linha política que ele representou. A economia soviética foi estudada em profundidade por historiadores norte-americanos, Albert Szymanski, Anthony Jones, William Moskoff, vejam a que conclusões eles chegaram e reflictam se seria possível atingir o nível de desenvolvimento humano que a União Soviética alcançou, (mesmo considerando todos os factores externos (guerra, sabotagem, bloqueio, etc.), que enfraqueceram esse processo), se o investimento em força na industria pesada (o famoso sector I da economia) não fosse materializado nas décadas de vinte e trinta. Não foi levianamente que cheguei a estas conclusões. Assim como não aprecio com leviandade mas com tristeza a sorte daqueles que sofreram injustamente.

  23. Pedro Pousada,
    Primeiro não tem grande drama ser recrutado. É para isso que os militantes servem, para recrutar outros. Eu pessoalmente não tive essa sorte. Já “nasci” no PCP. Os meus pais eram funcionários do PCP, primeiro em Praga, depois em Argel, e , depois, na clandestinidade. Não aderi ao PCP aos 18, mas bastante mais cedo. Apesar de ter saido do PCP não sou da União Nacional. A minha fidelidade é ao comunismo, os partidos são instrumentos e não foram feitos por deus nosso senhor. Vivem de homens e mulheres que podem enganar-se. Para mim é claro que é trair o comunismo ser estalinista. Tenho a mesma opinião dos crimes de Estaline que o PCP oficialmente tem e que está expressa nos escritos de Álvaro Cunhal.
    Sei, por ouvir falar, que o estalinismo tornou-se uma moda tardia, uma espécie de doença infantil, em certos sectores do partido. Basta ler certos artigos do Avante ou um livro escrito por um Belga de um partido maoista, similar ao MRPP (Ludo Martens) , prefaciado por Carlos Costa.
    Confesso que li alguns desses livros que citou, sem acreditar muito, tipos como o Montefiore fazem, quanto muito, bons romances de capa e espada. E nunca consegui acreditar em livros escritos por generais ressabiados. Sobre este assuntos, prefiro os vetustos E.H. Carr e os muitos livros que escreveu sobre a União Soviética e o Estaline de Deutscher. Deste último, retiro de cabeça uma citação, desse homem que tanto preza: ‘eles (Kamenev e Zinoviev) queriam executar Trotsky eu recusei. Se começamos a cortar cabeças nunca mais paramos’. Como vê, neste caso Estaline tinha razão contra si e contra o que fez depois. O facto de ter participado na vitória da Segunda Guerra Mundial não absolve Estaline dos seus muitos crimes. Os processos de Moscovo foram uma farsa. As sucessivas liquidações de comunistas uma tragédia. Sobre as características de Estaline, basta ler Lenine e estamos falados. Entre Lenine e Estaline você fez a sua escolha e eu faço a minha. Em relação ao Socialismo Real, você tem duas hipóteses ou é marxista e leninista e usa categorias de análise materialistas ou é um mero idealista, corrente muito em voga na burguesia radicaloide que preza os ditadores providenciais. Aqueles que acham que era possível derrubar 70 e muitos anos depois um socialismo a sério, com base numa traição, escolheram ser idealistas. Um regime socialista seria um regime de todo o povo, com um amplo suporte popular, e sobretudo, seria um regime em que as classes sociais, tal como as conhecemos no capitalismo, não existiriam. Logo, não poderia haver regresso ao capitalismo, porque simplesmente não haveria sujeito histórico para promover essa contra-revolução. Do falhanço dos regimes de leste se retira que o “Socialismo Real” era de facto real, tinha é muito pouco de socialismo.

  24. pedro pousada diz:

    Caro Nuno
    Antes mais nada tenho que esclarecer uma coisa: não pretendo praticar o proselitismo apenas indicar outras hipóteses de análise. Discordo contigo quando associas este súbito interesse pela época de Estaline como uma espécie de doença infantil; desfazer mitos, afastar cortinas de propaganda anticomunista, desmontar ideias feitas, reconhecer que certas imagens estão correctas e que outras não passam de ficção, corrigir e contradizer as versões oficiais e doutrinais com que a burguesia internacional desde a época de Lénine, calunia a primeira realização de facto de um Estado de operários e de camponeses; se esse trabalho (muito diferente de uma apologia, que é o que tu fazes ao contrário, ao eliminares da fórmula as contribuições históricas (positivas e negativas) do socialismo real e ao acreditares idealisticamente que o socialismo vai nascer perfeito e saudável do ventre do capitalismo, ao acreditares que os comunistas do futuro não enfrentarão os mesmos obstáculos, que a sereia da burguesia e os seus cavalos de Tróia não sabotarão os partidários da revolução, que estes não cometerão erros, não atravessarão etapas liberticidas, que não serão capazes de matar para defender o seu projecto e que ao mergulharem na cloaca da guerra, nas trincheiras da violência defensiva não se enganarão, não serão ajudados por traidores e oportunistas que através do seu trabalho de desinformação levarão à morte, comunistas inocentes) não é uma busca séria de respostas, um trabalho de análise materialista então não sei o que é. Devemos sobretudo interrogarmo-nos quais foram as causas materiais que permitiram que o Partido se desligasse das massas, os factores internos e externos que tornaram tão diferida a relação entre as opções tomadas pelas lideranças e a percepção que as populações tinham, a partir da experiência do seu quotidiano, do que estava a ser feito, do estava a ser alcançado; se acreditamos no tempo histórico e na ideia de mudança então temos que admitir que as duas principais lideranças soviéticas cometeram erros diferentes e não os mesmos erros, ou seja que a estratégia política de Estaline de combate ao oportunismo, ao burocratismo, aos inimigos de classe e o estado de alerta e de guerra ideológica em que a sociedade vivia produziu erros e desvios mas que eles não foram os mesmos nem tiveram o mesmo impacto negativo que as lideranças seguintes que usaram o regresso a Lenine como um cavalo de Tróia para atacar o leninismo e as bases fundacionais da sociedade soviética e que no fundo deixaram esses oportunistas e burocratas tranquilos nas suas posições administrativas.
    Quanto ao livro do Ludo Martens devo dizer-te que me pareceu bem estruturado e fundamentado, encara os problemas, levanta dúvidas mas sobretudo mantém a sua lealdade com o projecto socialista (algo de que carece a abordagem capitulacionista de Moshe Lewin) e analisa as falhas da liderança de Estaline, a sua incapacidade em preparar uma nova geração capaz de o substituir, a facilidade com que os oportunistas alcançaram as cúpulas do partido, etc; não meço as pessoas pelos seus rótulos mas pelas suas capacidades concretas e o facto é que este maoista como tu lhe chamas, constrói uma análise bem conseguida; fiquei a entender muitas das dificuldades que enfrenta um processo radical como é o de uma revolução socialista e fracturante sobretudo num país que vive uma guerra civil seguido de uma série de catástrofes naturais, de crises demográficas e que em que o partido revolucionário é infiltrado ao nível do aparelho por todo o tipo de pessoas com motivações que pouco tem a ver com a causa do socialismo, ou seja apercebo-me que mais cedo ou mais tarde, o PSUV de Chavez que tem milhões de militantes vai também ter que fazer as suas depurações antes que sejam as correntes direitistas, os falsos socialistas, os oportunistas a depurarem o Hugo Chavez e o socialismo da Venezuela. E que não está assim tão longe o projecto imperialista de uma guerra feita por intermediários (a Colômbia) contra o projecto socialista da Venezuela; os media do sistema já antecipam e preparam psicologicamente as populações para que o culpado seja o gorila índio Chavez e os seus amigos cubanitos; podes ter a certeza que a quinta coluna agirá sem contemplações quando chegar a oportunidade e que o terrorismo individual começará a fazer as suas vítimas junto das cúpulas partidárias dos partidos da esquerda revolucionária.
    Li há dias um artigo de um dirigente negro do P.C. norte-americano, Harry Haywood, sobre a viragem à direita da sua direcção nos anos 50, o abandono a que foram votados pelos próprios soviéticos os sectores que defendiam a luta de classes, a questão da auto-determinação do negro norte-americano, a solidariedade com o projecto soviético; ele descreve como esse partido e o seu jornal, o daily worker, que possuía uma grande influência entre as massas trabalhadoras negras e latino-americanas perdeu influência, desmobilizou-se, tornou-se residual, na pior altura das campanhas anticomunistas, às custas de um discurso que defendia a entrada dos comunistas no jogo da bipolarização partidária norte-americana como adjuvantes e meros criados de servir dos políticos liberais, uma associação de lobbistas e nada mais. Ele afirmava que ao contrário do que se podia pensar as pressões da ideologia burguesa no interior dos partidos comunistas é constante e que essa é mais uma das lutas que todos os comunistas tem que travar. A estratégia da corrente revisionista norte-americana começou por isolar os sectores mais firmes por os baptizar como radicais e esquerdistas, como uma ameaça à unidade do Partido e quando esse grupo de militantes foi alienado, seguiu-se a fase seguinte que foi argumentar sobre a excepcionalidade do caso russo e do leninismo como expressão dessa excepcionalidade, assim eliminando a revolução como via para se alcançar o poder político, defendendo a coexistência inter-classista, sem dar por ela livraram-se da própria identidade do Partido.
    Não parti para esta indagação com a ideia preconcebida de que iria encontrar um chefe político perfeito, sem falhas, sem esqueletos no armário, sem fraquezas; já tenho idade para não ter ilusões sobre a natureza humana e sobre os ventos que a fazem mudar de rumo. Não considero Estaline um líder providencial mas também não faço dele o Prof. Moriarty do socialismo. Também não o coloco num pedestal nem pretendo emulá-lo mas ao estudá-lo apercebi-me do seguinte: naquelas circunstâncias político-económicas e considerando as três hipóteses ou linhas de orientação que dividiam o PCR (b), Bukharine, Trotsky e Estaline, não me restam dúvidas que, para mal dos meus pecados, optaria por apoiar este último (isso não faz de mim um criminoso ou um estúpido, talvez penses o contrário mas isso já é um problema teu); de uma maneira ou de outra ambos, Bukharine, com a sua defesa do prolongamento da NEP, no conceito ambíguo de mercado socialista, na argumentação que era necessário apoiar-se o desenvolvimento de uma indústria ligeira capaz de, por sua vez, alimentar uma sociedade de consumo (tudo isto só possível de facto às custas da importação de bens de consumo e de tecnologia pois o país, no estado em que se encontrava na década de vinte, sem industria pesada, décadas atrás do desenvolvimento económico alemão, nunca poderia reproduzir o estilo de vida americano que era sonhado pelos adeptos da fórmula americanismo mais poder dos sovietes, (que é uma fórmula bonita mas idealista e que nos seus desaires iria rapidamente desembarcar na rendição ideológica em que só ficaria o americanismo e o poder dos sovietes era deitado fora), e de uma coligação dos bolcheviques com a pequena burguesia, os nepman, e com os kulaks, grupos sociais que sempre foram anti-soviéticos (e que em muitas zonas do território soviético não só dominavam e controlavam os sovietes como se tinham infiltrado no aparelho partidário e estavam a miná-lo), e Trotsky, com a sua descrença na possibilidade de se realizar o socialismo num território com aquelas dimensões e com aquela população, ambos preparavam a capitulação um pela social-democratização do partido e outro pelo radicalismo.
    Não creio que me encontre numa encruzilhada ideológica ou que me esteja a separar de Lenine ao assumir a importância (mas não a invulnerabilidade nem a infalibilidade) da linha seguida por Estaline. Não concebo a União Soviética dos anos 30 sem Outubro de 1917 nem esta sem os desafios superados na década de trinta. São épocas mutuamente inclusivas. Uma não faz sentido sem a outra. Foi o talento político e económico de Estaline quem projectou uma estrutura sólida para que as ideias de Lénine vingassem, se elas foram desvirtuadas ou enfraquecidas vejo isso mais como uma contribuição dos que sucederam a Estaline e daqueles que o traíram do que do próprio Estaline.
    Nunca vivi num país socialista mas conheci bem os frutos podres do capitalismo monopolista de estado quando visitava entre meados de 1970 e meados de 1990 a aldeia da minha avó nos arredores de Braga, quando via a proletarização das mulheres do campo que iam trabalhar à peça nas empresas têxteis e ao fim da tarde ainda iam amanhar a leira para ter alguns legumes para a sopa, quando via jovens envelhecidos prematuramente, iletrados, sem quaisquer hipóteses de mobilidade social a não ser por via da emigração, quando famílias miseráveis e numerosas se encavalitavam em mansardas no meio de ilhas insalubres, lugarejos em que a única coisa moderna era a telefonia ou o televisor; lembro-me dos meus colegas de liceu condenados a contentarem-se com o nono ano e a ingressarem o mais depressa possível no mercado de trabalho; isso era e é a democracia real que de real tem muito e de democracia tem muito pouco. Dos vinte anos que passei por essa aldeia não vi por lá um único espectáculo de teatro, uma orquestra, uma biblioteca ou qualquer actividade que levasse a cultura às populações e que elevasse o seu sentido crítico, as suas ambições culturais, que os ensinasse a importância da cidadania, da participação, da discussão política; o único fenómeno cultural que assisti foi ao altifalante da torre da igreja que impingia a toda a população o Marco Paulo e outros cantautores melicodoces. Quando o inefável Carlos Fino (outro oportunista que deve a sua mobilidade social à União Soviética que ele tanto odiou e caluniou) apresentava as suas reportagens anticomunistas, ou um qualquer trailer do telejornal passava a icónica babushka de galochas sentada numa carroça puxada por cavalo ou outra imagem cinzentona (a paleta cromática do anticomunismo é monótona, nada de cores que não sejam depressivas, melancólicas, lamentativas até em Cuba eles conseguem esse efeito visual) eu interrogava-me para quem é que eles faziam aquela propaganda. Era para a família do Zé Alberto, um miúdo de Tadim, Braga, que eu conheci, que tinha doze irmãos, que comia esparguete com salsicha todos os dias e que às cinco da matina levantava-se para ir trabalhar para que às nove pudesse ir ao liceu e depois à noite ainda continuasse a trabalhar? Era para esse miserável que sabia de cor o livro de filosofia do 10ºano (falava do Sócrates e do Platão como eu nunca ouvi nenhum filho da burguesia, onde me incluo, falar), era para esse deserdado da terra que eles impingiam as imagens da miséria na cortina de ferro? Ou era para a malta fixe do Bairro Alto, da avenida de Roma, de Benfica, para os betinhos do liceu agradecerem ao Espírito Santo e ao Rambo por sermos livres e democráticos. Para essa pandilha que sempre que me falavam da União Soviética era para desancar e dizer que por lá era impossível arranjar uns jeans ou um isqueiro a gás, ou sei lá o que mais; ok, dizia eu, mas aposto que para os tipos que vivem na curraleira ou no casal ventoso ou na cova da moura fazia-lhes um jeitaço terem água canalizada, habitação decente, escolaridade para os filhos, apoio social, emprego e outras insignificâncias que não vos servem para nada pois nem dão por elas, já vos estão garantidas. Para mim a única boa notícia disto tudo é que depois de vinte anos em que nessa aldeia minhota se contavam pelos dedos os votos dos comunistas nas ùltimas autárquicas faltaram poucos votos para que a CDU ganhasse a freguesia.
    Achas que havia pouco ou nenhum socialismo no “socialismo real”. Para ti essa é uma análise legítima. Não adiro a ela e pergunto-te para desmoralizar o teu sistema de crenças (que desculpa lá, de análise materialista tem muito pouco), então, se aquilo era muito pouco democrático, subdesenvolvido, atrasado, culturalmente pobre, etc, porque é que os relatórios da ONU, da Unesco, do Pnud, observam uma desmodernização e um empobrecimento de vastas camadas populacionais desses países, como é que se acentuou de 1 para 40 a diferença entre os mais pobres e os mais ricos? Como é que males sociais, os problemas de saúde pública adquiriram carácter pandémico? Como é que a solidariedade internacionalista entre os povos e minorias soviéticas foi substituído por um nacionalismo bacoco e chauvinista (ainda há tempos um ucraniano com um curso universitário contava-me que o seu pai se amargurava por ver um filho seu, com estudos, a lavar copos e pratos em Portugal, ao que eu lhe perguntei: mas diz-me lá o que é afinal vocês ganharam com o fim da SSSR se não podes viver daquilo para que estudaste? Ao que ele me respondeu laconicamente: a independência. Mas, perguntei eu, vocês estão a vender tudo aos americanos, aos alemães e aos holandeses, que independência é essa? Não me soube responder). Se a vida cultural era uma miséria (masmesmo os artistas dissidentes tinham trabalho, tinham ateliers, tinham acesso aos meios de produção, olha o Ilya Kabakov, o Bulatov, observa todos esses superstars da arte russa contemporânea que declaram agora o seu anticomunismo) como é que no próprio Lewin ele admite que, desde o assassinato da URSS houve uma perca acentuada da qualidade de vida, uma perca nos tempos para o lazer, que houve uma diminuição dos hábitos de leitura, que escasseiam as oportunidades para as pessoas se poderem dedicar à vida cultural de tal forma se tornou premente a sobrevivência económica, a acumulação de empregos.
    Cada vez que me cruzo com um cidadão da ex-URSS coloco-lhes a questão fatal: vocês viviam mal? Eram infelizes? Há os realistas que me dizem que a URSS já não existe e que agora é tudo uma porcaria e só quem tem dinheiro e é rico é que safa e por isso nem querem falar muito pois só ficam mais deprimidos e depois encontro engenheiras químicas, técnicas do petróleo, professores, parteiras, imigrantes moldavos, cazaques, bielorussos, a servir às mesas, a serem maltratados por patrões portugueses, e quando lhes ganho alguma confiança eles dizem-me que a vida até era boa, não, era muito boa, tínhamos tudo, boa comida, bons hospitais, eu era feliz mas agora acabou, agora tenho que pagar a escola dos filhos, pagar médicos, pagar tudo, por isso estou aqui.

  25. António Figueira diz:

    Gostava de meter-me na conversa. Se esperarem (eu sei que esperam) pelo fim de semana ou pelo feriado, terei algumas coisas para dizer. Até breve, abraços a todos, AF

  26. Vítor Faustino diz:

    “Sei, por ouvir falar, que o estalinismo tornou-se uma moda tardia, uma espécie de doença infantil, em certos sectores do partido. Basta ler certos artigos do Avante ou um livro escrito por um Belga de um partido maoista, similar ao MRPP (Ludo Martens) , prefaciado por Carlos Costa.”

    Por acaso, leu “Stalin’s Wars” de Geoffrey Roberts?
    E “Stalin, a man of history” de Ian Grey?
    Muitos estão de acordo que Estáline foi o homem certo para vencer Hitler.
    Nessa altura, o tempo era diferente e tenho quase a certeza que se fosse soviético apoiaria Estáline contra as tropas alemãs.
    Em todas as leituras que já fiz sobre este caso e alguns filmes visionados, não tenho dúvida em dizer que Estáline foi um grande homem do século XX.
    Já leu “Special Envoy to Chruchill and Stalin, 1941-1946” de W. Averell Harriman e Elie Abel?
    E porque não, “The Underground Committee Carries On” de A. Fyodorov?
    Nestes livros, a versão contada de Estáline é muito diferente da de Robert Conquest e outros ditos historiadores contemporâneos.
    Já agora, o belga também escreveu outros livros interessantes sobre o Congo Belga. É pena que não tenha lido e é triste que deixe transparecer alguma ignorância sobre certos assuntos.

  27. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Faustino,
    Li uma data de livos que não cita sobre Estaline e depois? Quer-me convencer que não houve crimes no estalinismo? Quer-me dizer que estaline não liquidou sistematicamente bolchevistas, por uma questão de poder pessoal? Basta fazer o inventário dos participantes do chamado Congresso dos Vencedores , que elegeu Estaline, para perceber que a maioria dos quadros bolchevistas foram liquidados por ele. Esta multiplicação da bibliografia sob o princípio da realidade é que se engana, é fascinante, mas tem como consequência a manutenção de erros que todo o movimento comunista, tirando os maoistas na sua versão Pol Pot, condenou. Daqui a alguns dias estão-me a defender que o Pol Pot era um excelente camarada.
    Sobre a Segunda Guerra Mundial, a participação de Estaline é importante, mas não está isenta de erros. Por exemplo, no início da guerra, Estaline não acredita nas informações das redes de espionagem comunistas da Orquestra Vermelha e de Sorge a avisar que a Alemanha ia invadir a URSS, provocando uma hecatombe táctica e estratégica do exército vermelho no início da guerra. Não tenho paciência para a recuperação de um tipo que teve como actividade dominante mandar comunistas para o campo de concentração. Não me parece que o socialismo policial seja uma variante interessante para o futuro. Como se viu, produz polícias e mafiosos, muito Bérias, mas poucos comunistas.

  28. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Caro Pedro Pousada,
    Publiquei um comentário que foi apagado, ainda estou para perceber como, que lhe dizia basicamente o seguinte: o seu comentário é interessante e exige uma resposta cuidada. Estou de acordo com parte dos seus argumentos. Apenas acho que o Estalinismo é parte do problema e não da solução. O culto da personalidade e o populismo são formas poderosas, mas que são contraditórias com o adágio Leninista de defender um Estado que possa ser dirigido pela empregada doméstica. A criação de uma clique afastada do povo e de uma prática política afastada da acção popular é a principal causa da queda do projecto socialista. A recuperação capitalista triunfou a leste, pq a partir do estalinismo criou-se uma camada social que tinha interesses próprios e a quem era lucrativo, a partir de certa altura, a reintrodução do capitalismo selvagem.

    Abraço,
    Nuno

  29. Carlos Vidal diz:

    Eu percebo o teu ponto de vista, Nuno, a tua argumentação.
    Também percebo muito bem a do Pedro.
    Por várias razões, que não poderia aqui enumerar, penso mais e estou mais interessado na inventividade de Mao do que na de Estaline (comparado com Mao, um conservador).
    Mas há um tópico no teu argumento que me faz alguma confusão: falas em crimes do estalinismo.
    Por um pouco estarias a repetir a lenga-lenga dos “crimes do comunismo”. Por isso eu gostaria de saber, se possível (bem sei que é difícil), o que é um “crime do comunismo” ou um “crime do estalinismo”??
    (Espero, sim, que não me venhas falar em “Estado de Direito”, uma expressão que serve apenas para nos humilhar mais e mais cada dia e hora que passa – mas não vais por aí, acho eu.)

  30. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Carlos,
    Se percebes o meu ponto de vista, sabes que não passa pelo Estado de direito, mas pela liquidação sistemática de comunistas que Estaline via como opositores ao seu poder absoluto. Interessante, que nos bolchevistas até durante a guerra cívil houve discussões maiorias e minorias, e a guerra foi ganha. Mesmo quando Lenine disse que nas trincheiras não se discute, a discussão foi livre no partido. Foi preciso esperar por Estaline, para que a diferença de opiniões fosse criminalizada e os bolchevistas sistematicamente assassinados por esbirros às ordens de Estaline. O comunismo é um projecto difícil e necessariamente, naquele contexto, exigia defender a revolução muitas vezes pelo terror, mas a violência só tem sentido se for uma violência de massas para manter o poder das mesmas, e não uma violência de uma clique burocrática e polícial.

  31. Vítor Faustino diz:

    Deixo-lhe aqui um dito curioso do Padre António Vieira que se aplica bem a si:

    “Quem não quer ler, não quer saber; quem não quer saber quer errar.”

    Os seus ditos sobre Estáline são meros erros históricos e uma verdadeira cobardia, pois se o senhor vivesse aqueles tempos, não escreveria tamanhas burrices.

  32. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Faustino,
    Tem toda a razão. Pelo menos, não escreveria por muito tempo. Estaline encarregar-se-ia disso. É pena que você não conteste um único facto. Mas, já que cita o Padre António Vieira, sempre lhe digo, não é por os católicos citarem, profusamente, literatura religiosa que eu passo a acreditar nos milagres de Fátima. Não é por você citar livros de alguns autores que eu passo a achar que Estaline não cometeu crimes contra os comunistas, para consolidar o seu poder pessoal. Para além da literatura biblica, ganhava em ler literatura séria como o E.H. Carr. Mas o pior cego é aquele que não quer ver.

  33. Vítor Faustino diz:

    É inacreditável que um filho de um pai comunista escreva quase de mesma maneira como escreviam os názis nos anos 30 acerca de Estáline.
    Tudo aquilo que escreve sobre o homem que teve a coragem de ficar em Moscovo, quando os alemães estavam a cerca de 8 kilómetros desta cidade, é uma infâmia quase igual ao que a BBC produziu nos seus documentários “Behind Closed Doors” e “The War in the East”. Este último vai ao ponto de chamar os guerrilheiros comunistas de terroristas.
    O que escreve sobre Estáline está ao nível de um folheto de propaganda názi. É uma vergonha.
    As mentiras escritas contra Estáline são parte da campanha anti-comunista. O anti-estalinismo é em si um anti-comunismo.

  34. Miguel Botelho diz:

    Sr. Nuno Ramos de Almeida,

    Tenho estado a assistir a este debate com alguma estupefacção. A pergunta que lhe desejaria fazer é simplesmente esta (e aproveitando a deixa do Sr. Vítor Faustino):

    Não se arrepende de usar de argumentos iguais ou ligeiramente parecidos aos que o partido de Adolfo Hitler usou contra Stalin, nomeadamente o seu ministro de propaganda, Goebbels, acusando-o de ser um criminoso e genocida?

    Obrigado.

  35. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sr. Miguel Botelho e o Sr. Vitor Faustino têm muita lata. Eu uso a condenação que os Partidos Comunistas fizeram aos crimes do Estalinismo e ao culto da personalidade para condenar o estalinismo. Basta ler historiadores marxistas como EH Carr e Deutscher para saber o papel negativo do estalinismo e os seus inúmeros crimes. A comparação dos meus argumentos aos nazis é insultuosa. A afirmação que ser anti-estalinista é ser anti-comunista é apenas imbecil. Ao contrário do Sr. Faustino eu sou comunista e não gosto de gente que mata comunistas. A vossa argumentação (não confundir com os comentários inteligentes de Pedro Pousada) está ao nível dos textos do camarada Durão Barroso.
    Junto deixo, um texto do próprio que atinge a profundidade teórica e a argumentação fascinante com que os Vitor Faustinos desta vida me têm brindado.
    A singela peça tem como título: “A Vida e Obra de Estaline”, foi publicado no Luta Popular de 2 de Maio de 1975, por Durão Barroso que assinava camarada Abel.
    Feitas estas advertências aos leitores, cá ficam alguns excertos deste documento histórico que espelha algumas das características intelectuais do actual presidente da Comissão Europeia:
    “Onde quer que estejamos mal se pronuncie a palavra ESTALINE logo um poderoso campo magnético isola à direita toda a espécie de oportunistas, unindo ferreamente à esquerda os verdadeiros comunistas e os autênticos revolucionários.
    Esta é uma das teses fundamentais da directiva do nosso movimento “QUE VIVA ESTALINE!”. Essa directiva é uma contribuição enorme ao património científico do Marxismo-Leninismo-Maoismo.
    O camarada Saldanha Sanches é que não se demarca dos oportunistas, nem pouco mais ou menos, não resistiu à contraprova do campo magnético; mal se falou em ESTALINE começou a hesitar, titubeou, hesitou, indo cair no campo da contra-revolução, arrastado pelo poderoso campo magnético de que fala o Comité Lenine na sua Directiva. (…)
    E isso acontece porque a camarada Gina não ama Estaline e está contra a linha política do MRPP.
    E isso porque na sua crítica não toma as posições face a ESTALINE; fala dos “erros” de forma aparentemente correcta mas não diz que o camarada ESTALINE não cometeu erros estando implícito que admite que os cometeu. A camarada Gina não resistiu também à prova do campo magnético. Tentou cair no meio e foi cair ao lado dos oportunistas. E é talvez por isso que na sua crítica não se refere a esta questão, não diz que a questão de ESTALINE é a pedra de toque que demarca os Comunistas dos oportunistas.
    A CAMARADA Gina faz a crítica por descargo de consciência. Não se “lembrou” que quando criticamos os outros não podemos cair nos mesmos erros que eles e por isso não estudou pacientemente a directiva “QUE VIVA ESTALINE!”.
    A posição da camarada Gina é a posição daqueles que erguem a bandeira de ESTALINE para partir a cabeça dos que defendem Estaline, daqueles que sob a capa de defenderem ESTALINE, atacam-no. E Gina ataca-o porque não defende . (…)
    Devemos varrê-las do nosso seio implacavelmente, “agarrar o touro pelos cornos” e não fazer tentativas hesitantes pelo flanco, tal é a posição dos Comunistas.
    Dizer que ESTALINE foi um eminente dirigente proletário e não cometeu erros e não dizer que há erros de 1ª espécie e erros de 2ª tal é a nossa posição.” (…)
    “Eu próprio não ousei criticar o camarada Saldanha Sanches, não dei à directiva “Que Viva Estaline” a enorme importância que ela tem, o que é uma manifestação oportunista e cobarde de quem não ama Estaline, de quem não defende intransigentemente os princípios do Marxismo-Leninismo-Maoismo. Por tudo isto, desde já me autocritico manifestando o desejo de ir contra a corrente e defender a vida, a obra e a actividade do grande Estaline não pactuando com todos os ataques – directos ou camuflados – que foram feitos ao grande Estaline.”

  36. Miguel Botelho diz:

    Sr. Nuno Ramos de Almeida,

    Não lhe pedi para que me citasse Durão Barroso, pois já conheço essa figura muito bem.
    Apenas, lhe fiz uma pergunta, a qual não respondeu.
    Ao que parece, a minha questão deu origem a algum nervosismo e a um remorso de consciência que se vê pela quantidade de texto que escreveu.
    É pena que não tenha tempo para comparar o que o senhor escreve com aquilo que Goebbels e até William Randolph Hearst disseram sobre Stalin, porque, de facto (e isto é o que me espanta e ao mesmo tempo me choca), as semelhanças estão todas lá.

  37. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel Botelho,
    Não tenho nenhum nervosismo. O meu comentário é 80% constituído com o texto de Durão Barroso que parece-me resumir a posição de Faustino e provavelmente a sua. Fico a saber que considera a totalidade dos partidos comunistas, nomeadamente o português, que criticaram os crimes do estalinismo, como nazis. Uma posição sem nenhum sentido. Mas o disparate é livre, mesmo, como no seu caso, o disparate anti-comunista.

  38. Miguel Botelho diz:

    Sr. Nuno Ramos de Almeida,

    Não considero ser nenhum disparate. É mais provável que o descuido seja seu, porque ainda não teve tempo para comparar algumas afirmações que faz, com aquelas que foram proferidas pelo ministro de propaganda názi.
    Agora, tenho mais uma pergunta para si, pois gosto de saber aquilo que pensa (e já agora peço para se acalmar quando responder):
    Se Stalin foi comunista (o próprio Fidel Castro o disse numa entrevista) e se todas as acusações e mentiras contra Stalin fazem parte de uma campanha anti-comunista, porque é que chama de imbecil à ideia do Sr. Vítor Faustino que “todo o anti-estalinismo é em si um anti-comunismo”?

  39. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Miguel Botelho,
    O seu raciocínio é mt elegante. É do tipo: a extrema direita é contra a política de Israel. Ora, se você é contra Israel é de extrema-direita. A sua outra passagem é igualmente fantástica: Fidel de Castro disse que Estaline era um comunista (já agora onde?), logo Estaline era um comunista e ser-se contra Estaline é ser anti-comunista. Quer dizer, se alguém diz que Trotsky era comunista, eu não posso ser contra a política de Trotsky pq seria anti-comunista.
    A parte mais divertida do seus escrito é que compara a minha opinião contra os crimes de Estaline – que repito foram criticados por todos os Partidos Comunistas – com as opiniões dos nazis. A pergunta que lhe deixo é esta: minha parecença com os nazis é anterior ou posterior às entregas de dezenas de comunistas alemães à gestapo, feitas pela polícia estalinista, durante o pacto germano-soviético? Só por curiosidade.

  40. Miguel Botelho diz:

    Sr. Nuno Ramos de Almeida,

    Não vou perder mais tempo consigo.
    Pelo seu último comentário, já percebi que o senhor tem um problema.
    Ao contrário do seu pai – um bom escritor e pensador, o Sr. Nuno avalia mal as pessoas, faz juízos precipitados, atribui pensamentos errados a quem desconhece pessoalmente, não usa de ponderação e de reflexão antes de intervir e cita exemplos errados.
    A afirmação que faz sobre a entrega de comunistas alemães à gestapo é mais um exemplo das suas inusitadas irreflexões. Este exemplo também foi utilizado pelos capitalistas anti-comunistas ingleses e americanos, casos de William Randolph Hearst e Robert Conquest.
    O senhor não pode usar das mesmas armas que o capitalismo usa constantemente contra o comunismo.
    Em relação ao escritor Ludo Martens, é estranho como a edição em português esgotou na última festa do “Avante!”
    É que ao contrário do Sr. Nuno Ramos de Almeida, a grande parte dos bons comunistas portugueses (que lêem) não vão em cantigas e estão sempre à procura da verdade.

    Passe bem.

  41. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Sr. Miguel Botelho,
    Você sim é um exímio conhecedor de pessoas. Na esteira do Sr. Faustino compara-me com os nazis e depois ofende-se por eu lhe relembrar, pela vigéssima vez, que o estalinismo foi condenado pelos partidos comunistas, nomeadamente pelo português. Aliás, sobre factos temos poucas palavras da sua parte. Limita-se a dizer que a realidade é que se engana. Sobre a entrega de comunistas alemães e austriacos aos nazis cá vão alguns factos para você fechar os olhos:
    Em 1940, ao abrigo do Pacto assinado com o Reich, as autoridades soviéticas retiraram dos seus campos de concentração várias dezenas de prisioneiros alemães e austríacos e entregaram-nos às autoridades nazis, que os meteram a todos em campos de concentração. Margarete Buber-Neumann contava-se entre eles. As suas responsabilidades no movimento comunista nunca haviam sido grandes e ela notabilizou-se sobretudo pelo testemunho que nos deixou, mas outras figuras que tiveram um importante papel político seguiram o mesmo percurso atribulado. August Creutzburg, por exemplo, um dos muitos que em 1920 transitaram do Partido Social-Democrata Independente para o Partido Comunista alemão, onde assumiu funções dirigentes, sobretudo a partir de 1929, emigrou em 1933, depois de Hitler ter alcançado o poder, e refugiou-se na União Soviética em 1935. Preso em 1937, foi entregue aos nazis em 1940. Destino semelhante teve Franz Koritschoner, um dos fundadores do pequeno Partido Comunista da Áustria. Refugiado e depois preso na União Soviética, foi entregue aos nazis em 1940.
    O PCP fez bem em ter condenado o estalinismo.

  42. pedro pousada diz:

    Caro Nuno
    Não podes perder a paciência porque Estaline estará sempre presente em qualquer discussão sobre a URSS e esta ressurgirá por sua vez em qualquer discussão sobre o socialismo; não há como fugir ao debate; acho que tens que fazer um exercício de soma (ele também foi um comunista apesar de…; um anti-imperialista e internacionalista apesar de…) e não de subtracção (pois não há comunistas puros, perfeitos cavalheiros na luta contra os adversários do socialismo pois a luta de classes não o permite); se pões ao mais famoso georgiano da história da Rússia uma mancha negra (é um déspota e ponto final) não ficamos a saber nada, apagas demasiadas coisas do seu retrato, atribuis-lhe demasiados erros e demasiado poder (os indivíduos mesmo os carismáticos são insuficientes como sujeitos históricos, precisam de auxílio, de colaboradores, de outros que pensem da mesma forma, (ou que vejam nessa aparência de lealdade uma oportunidade para concretizar a sua própria agenda). E as pessoas mudam com as experiências que vivem, lê o que Jukov diz sobre as transformações que se operaram no pensamento estratégico de Estaline: as hesitações do verão de 1941 desaparecem no verão de 1942); dele praticamente apenas conservas uma espécie de curriculum criminal e talvez seja por isso que te alvejam tão duramente; se pensares bem, a seguir a Lénine, e talvez mais do que ele (pois enfrentou situações imprevisíveis (a divisão de facto do Partido, o sobrepovoamento do Partido, a cultura do capitulacionismo, a introdução da indústria na questão agrícola, a crescente clivagem, que tinha que ser superada, corrigida, entre cidade e campo, as inércias e amadorismos da planificação económica, a sabotagem e os seus efeitos colaterais – a prisão e eliminação de falsos culpados- a guerra moderna em grande escala sobre o território soviético), Estaline foi o grande homem político do socialismo real, do socialismo realmente concretizado; os outros grandes nomes dessa experiência, que ainda agora começou, aprenderam com os seus erros e com as suas proezas. Mas com quem é que ele podia ter aprendido se a viagem histórica começada por Lénine não estava cartografada nem tinha precedentes?
    Houve o realismo socialista em vez do modernismo, sim houve, assim como um Trofim Lyssenko em vez de Vavilov (mas o seu tesouro, o banco de sementes que criou em Leninegrado sobreviveu- e porque sobreviveu então?- e hoje, para desgraça da humanidade, é um património cobiçado pelas industrias agro-alimentares); houve a psicologia behavorista de Pavlov em vez da psicologia sócio-histórica de Vygotsky e da neuropsicologia de Alexander Luria (mas até que ponto o pensamento de Vygotsky não se fundiu nas metodologias pedagógicas, nas terapias educacionais desenvolvidas pelo aparelho educativo soviético?). Os homens sofreram, a investigação fundamental parou nessa áreas que se tornaram estupidamente proibidas, mas até que ponto as suas ideias não foram conservadas, trabalhadas, incorporadas, como um plano B, na cultura científica soviética, por aqueles que, dentro da tal burocracia, (os spets administrativos eram todos incompetentes? Pensavam todos no “Eu” em vez do “Nós”?) sabiam diferenciar a ciência do catecismo? mas o tal país moveu-se e moveu-se apesar de Estaline ou também com Estaline?
    Creio, também, que te enganas quando falas de uma camada social criada pelo estalinismo; essa camada ou classe não existia na sociedade soviética enquanto grupo organizado, consciente e activo na defesa dos seus interesses pessoais no tempo da liderança de Estaline. Se alguma coisa de positivo se pode apontar à direcção política de Estaline é que combateu ferozmente a corrupção e o oportunismo mas se a primeira prática tem características visuais e materiais que são discerníveis (os famosos dentes de ouro), a verdade é que a segunda é imprevisível e dinâmica; Hoje fiz uma viagem no tempo e li um texto do Joaquim Pina Moura na revista Politika, editado no longínquo ano de 1988 (espero não me enganar); pelo seu conteúdo e pela convicção das palavras podias alguma vez imaginar que este homem se tornaria num social-democrata (e já estou a elogiá-lo…)?
    Quando Krutchov atacou Estaline abriu, isso sim, as portas ao regresso ou ingresso de elementos anti-soviéticos no Partido e no aparelho de Estado.E o que ganhou o Partido com a diabolização de Estaline? E o contraditório, onde é que ele está na denúncia de Estaline?
    Uma pergunta prática: quando é que começa a perca de popularidade da União Soviética, quando é que as populações do mundo ocidental se tornaram mais permeáveis à propaganda anti-soviética? Em 1945 ou depois da morte de Estaline?
    Acho que também tens que ligar os dois termos que separas na tua réplica ao Carlos Vidal, a violência de massas e a violência policial eram as duas faces do combate defensivo praticado pelo Partido na década de trinta. E como sabemos nem todos os que juram amor à revolução estão realmente apaixonados. Como dizia há tempos Abel Prieto no Congresso dos intelectuais e artistas cubanos, é uma luta constante e quotidiana, essa entre o Dr. Jeckyl anti-imperialista e o Mr. Hyde oportunista que temos dentro de nós.
    Assim como não podias, em meados da década de trinta, esperar que todos os agentes da violência organizada pelo Estado soviético, os escalões intermédios, as bases, fossem treinados na melhor tradição do humanismo e do marxismo. É aí que reside a verdadeira tragédia: para sobreviver o primeiro Estado socialista da história humana teve que dedicar uma parte significativa dos seus recursos à auto-defesa, teve que se tornar violento para reagir à crueldade contra-revolucionária (crueldade mundial) e essa mobilização geral das massas trabalhadoras soviéticas implicou, também, que aos sãos e aos doentes, aos que tem convicções e acreditam na disciplina mas também aos que são apenas sádicos ou ainda aqueles que não sabem o que querem foi colocada uma arma ao ombro. E como o quotidiano é pesado quando temos que ser sentinelas, que estar alerta…

  43. Miguel Botelho diz:

    Caro Pedro Pousada,
    Não vale a pena perder o seu tempo com o Sr. Nuno Ramos de Almeida.
    Se quiser, esecreva-me para miguelbotelho77@nullgmail.com que eu tenho muito gosto em discutir Estáline consigo.
    Aliás, duas pessoas quando fazem sentido vão muito mais longe do que duas que não fazem.
    Para mim, o facto de o Sr. Nuno Ramos de Almeida ter dito que a União Soviética entregou comunistas alemães aos názis, diz tudo sobre a propaganda britânica e americana (como também alemã) despejada numa geração que não se revê na luta dos seus pais.
    Pelo contrário, eu tive um pai comunista e não o traí.
    Continuo a acreditar que esta campanha contra Estáline serve ao capitalismo para desacreditar o comunismo.
    Espero ouvir de si.
    Um abraço

  44. pedro pousada diz:

    Acho que não devemos confundir as coisas e devemos sobretudo evitar as fulanizações como dizia o saudoso Àlvaro Cunhal; as pessoas pensam como pensam com o contributo activo dos seus progenitores mas , também, apesar desse contributo; para além de que não devemos estar nos lugares apenas para honrar a memória de um familiar (na primeira desilusão, (e o percurso do socialismo real deu-nos bastantes), já nos vamos pôr a invectivar o familiar!), devemos aderir a uma causa porque temos convicções fortes sobre essa matéria e porque sabemos que mesmo sendo espinhoso o percurso cresceremos intelectualmente e humanamente; as convicções não se herdam constroem-se e por isso acho que é sempre frutuoso e educativo debatermos; sobretudo com aqueles que ainda se mantem leais à causa dos socialismo. Temos que fazer o luto desta extraordinária experiência que todos nós, estou em crer, de uma forma ou de outra, lamentamos ter sido assassinada. Eu não tenho vergonha em dizer que choro o fim da URSS e quando vejo as dificuldades que se apresentam ao projecto bolivariano (leiam o ùltimo artigo de Heinz Dieterich sobre a Venezuela e vejam se não vos recorda a URSS de 1930…) ainda me convenço mais das tarefas hercúleas que enfrenta a humanidade progressista agora que não tem uma rectaguarda, um espaço político-económico de recuo, agora que regressamos ao clima de desorientação ideológica que se viveu entre 1871 e 1917; agora que estamos a definhar como espécie.
    Quanto a matéria de traições fica feio dizer que um filho traiu um pai, é um exagero dramático que magoa quem ama os seus pais ou quem deseja o amor deles. E dentro dessa lógica podemos dizer que eu também trai o meu pai que nos idos de oitenta se desiludiu com o PCP e agora vota PS debitando todo o corolário anti-comunista cada vez que discutimos política; ou ainda mais, trai o meu padrasto, fiel leitor do Expresso, que desde a minha adolescência me tem bombardeado com todo o tipo de propaganda antiestalinista e anticomunista (não, não procurem justificações de carácter edipiano…não resisti às tempestades do fim da URSS, a todas as horas de campanha antisoviética na televisão apenas por razões subjectivas; sempre procurei aprender, até com os nossos inimigos). acho que não ajudamos a causa de Lénine e Estaline quando optamos por um tiroteio ensurdecedor; faz-me lembrar aquelas discussões familiares que começam com um comentário ou um gesto menos feliz e se transformam num pesadelo para quem apenas quer esclarecer a sua própria identidade no meio de uma comunidade complexa, neste caso no meio da comunidade que se reclama da identidade comunista. Agora isso não implica baixar os braços ou apelar à coexistência pacífica; significa enriquecer a discussão das ideias e mantermos firmeza mas flexibilidade nas nossas convicções até porque do santo ao assassino, do déspota sanguinário ao paizinho dos povos há muito espaço a percorrer e é aí e não nesses extremos que eu coloco o contributo de Estaline para a construção do socialismo. ah! imaginem o que teria sido o mundo se a revolução espartaquista de 1919 tivesse vingado e o exército vermelho tivesse alcançado varsóvia? A história humana não tem sido boa para os que lutam pela emancipação política e e conómica do ser humano: está repleta de encruzilhadas e de ratoeiras. Mas a mensagem que nos deixam os deserdados da terra, os vencidos das barricadas, os que tombaram pela dignidade humana, a nós posteridade, é a da preserverança; aguentem!aguentem a luta! os vossos direitos vivem no nosso sangue! Lutem por eles como se estivessemos ao vosso lado.

  45. pedro pousada diz:

    não é um erro é mesmo preserverança o que eu quero dizer: preservar e perseverar!

  46. Miguel Botelho diz:

    Caro Pedro,
    Já lhe dei o meu e.mail. Por favor use-o para debatermos estas questões, dado que, neste espaço, o autor do artigo abandonou o debate.
    O meu endereço é miguelbotelho77@nullgmail.com
    Não é nenhum exagero dramático dizer que um filho traíu um pai.
    É a verdade.
    Isto acontece com a geração que veío a seguir aos meus pais.
    Muitos filhos não se querendo identificar com a ideologia dos seus pais (querendo contrariá-los) escolheram o Bloco de Esquerda e aderiram em massa à campanha das mentiras contra Estáline e a União Soviética, elaboradas pelos agentes do capitalismo (uma espécie de unanimismo).
    Há quem escolha alguns caminhos possíveis nesta luta que, tenho a certeza, iremos vencer.
    Não se pode escolher o caminho da mentira e da falsificação para combater algo que é bom e genuíno.
    Também, não se pode dizer que é comunista e depois dizer mal de Estáline, usando as mentiras infâmes que foram usadas pelos produtores da BBC em filmes que tratam os guerrilheiros russos como terroristas, iguais aos alemães da “SS”.
    Quando disse que tive um pai comunista e não o traí, foi porque respeito os meus antepassados e ouvi aquilo que tinham a dizer com bastante atenção. O meu pai sempre duvidou da campanha contra Estáline e pediu sempre que usasse a dúvida, antes de declarar qualquer facto exagerado como verdadeiro. Foi o meu pai que me passou um pequeno bilhete para as mãos, da autoria de Aristóteles, com o seguinte conteúdo: “A base de todo o conhecimento é a incredulidade.” Entre parênteses, o meu pai escreveu, “não podemos acreditar em tudo o que dizem”.
    É isto que eu tenho feito, desde que o meu pai partiu deste Mundo. Tenho lido as mentiras e depois tenho lido os argumentos contra as falsificações.
    Alguns já estão na internet. É pena que o Sr. Nuno não os consulte.
    Deixo-lhe aqui estes dois links para o Pedro ver o que é a decência, a determinação e a coragem de um homem que enfrentou as mentiras e as falsificações até à morte:

    http://www.youtube.com/watch?
    v=v_bU_y3fjsQ&feature=PlayList&p=3D94C2FA61AFAA38&index=0&playnext=1

    http://www.youtube.com/watch?v=7FusfOqCtqc&feature=related

    Veja isto com atenção e, se quiser, mande-me a sua mensagem com os comentários.

    Um abraço

  47. Nicolau da Romênia diz:

    Vocês bolchevistas portugas são os mais primitivos comunistas da Europá junto com os parasitas vermelhos da Grecia atrasada. Dois países europeus que deram cultura para Europa, hoje não pássam de Analfabetos Comunistas! Morte ao comunismo-socialismo!

  48. António Carvalho diz:

    Respondendo ao comentário de Nicolau da Romênia devo dizer-lhe que os portugas não são bolchevistas e muito menos analfabetos comunistas. Os comunistas Portugueses são a raiz da grande maioria do explorados em Portugal e têm inteligência para, em consciência, tomar a opção de que lado devem estar. Vou escrever um poema do Poeta da Revolução, o José Carlos Ary dos Santos. TOMAR PARTIDO: Tomar partido é irmos à raíz; do campo aceso da fraternidade; pois a razão dos pobres não se diz; mas conquista-se a golpes de vontade. – Cantaremos a força de um país; que pode ser a Pátria da verdade; e a palavra mais alta que se diz; é a linda palavra liberdade._Tomar partido é sermos como somos; é tirarmos de tudo quanto fomos; um exemplo um pássaro uma flor._Tomar partido é ter inteligência; é sabermos em alma e consciência; que o partido que temos é melhor.

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