Trinta anos de esforços
26 de Outubro de 2009 por António FigueiraEle estava no bolso direito das calças quando o ouvi tocar: “-Olá, sou eu. Era só para te pedir que me tirasses daqui; o teu órgão não se mexe há semanas e deita um cheiro a podre que está a tornar-se insuportável”. Foi preciso o prometido choque tecnológico para chegarmos a isto: conversas com um telemóvel sábio que dá dicas úteis e ainda analisa o dono pelo preço de um SMS. Seja: eu reconheço que a minha líbido anda por baixo, mas é por causa dos anti-depressivos: durante o dia é só rir, e depois à noite não tenho ponta para quase nada (será isto uma mensagem subliminar do Criador, para a gente não pensar que o sexo é uma brincadeira?). De resto, vou fazendo a minha vida videirinha, sem dar razões de queixa a ninguém: os meus textos andam certinhos, rasteiros porém certinhos, e é disso que o público gosta: “omnia nimia nocent” – ou seja, no latim vulgar do meu chefe, “o que é demais só atrapalha”. Enquanto não arranjo uma gaja que trate de mim a tempo inteiro, arranjei uma camponesa que me orienta a casa; ela diz que anda em arquitectura e eu finjo que acredito, porque eu também acho (por razões diferentes das suas, claro está) que a rapariga é artista. A moça vem da Beira Baixa, região que o progresso aproximou da capital com resultados funestos (quando a viagem demorava seis horas, em vez das três que demora hoje, ela lia duas vezes mais), e já se interessa por coisas difíceis, tipo arte contemporânea e agricultura biológica; eu digo-lhe que sim a tudo, enquanto como o requeijão que ela traz, e que é óptimo (embora evite a arte, que é uma maçada), mas sinto que não vou conseguir agarrá-la por muito mais tempo: é só aparecer um gajo com pachorra suficiente para trocar uma missa por Paris, ou uma vernissage por uma queca, e aí vai ela, rumo àquilo que lá na terra dela passa por ser a grande vida, e aí é deixá-la ir, e começar a aparecer de novo vocês sabem aonde para ver se aparece outra que tal. Vou ao psicanalista todas as semanas, mas ainda não descobri quem é que mais me lixou: se o meu pai castrador, se a minha mãe permissiva, se a minha ex-, que me ora me despreza, ora me implora, e em qualquer caso me explora; o shrink custa-me tão caro como ela, quase uma renda, e não me deixa mudar de carro (o que tem consequências negativas sobre a minha capacidade de engate), mas eu não desisto de conseguir um dia enfrentar a vida, escrever a grande obra para a qual nasci e encontrar a gaja que nasceu para mim: mais trinta anos de esforços e acho que estarei pronto.

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